segunda-feira, novembro 12, 2007

VIAGEM AO SUBMUNDO LONDRINO

Depois de "Uma História de Violência" ter assinalado um considerável ponto de viragem na sua filmografia, David Cronenberg mantém essa tendência em "Eastern Promises", outra obra longe dos universos alucinantes e bizarros pelos quais se notabilizou tanto numa fase inicial, em títulos como "Scanners" ou "A Mosca", como em anos mais recentes, em "eXistenZ" ou "Spider".

Isto não implica, contudo, que o seu novo filme esteja desprovido de fortes marcas identitárias, uma vez que desde o início que a narrativa mergulha numa atmosfera sinuosa e inquietante, e à medida que se vai desenvolvendo a acção abre espaço para a exploração de temas recorrentes do cineasta canadiano, sejam questões relacionadas com o corpo e as suas alterações, sejam os interstícios mais negros da esfera humana e a forma como a violência regula relações.

Embora invista ainda em temáticas familiares, "Eastern Promises" surpreende pelo realismo dos cenários, personagens e situações, e arrisca-se a ser mais perturbante do que outros filmes do realizador, assentes nas fronteiras entre domínios do terror e da ficção científica.
Ambientado nos recantos mais obscuros de Londres, este cruzamento de thriller e drama centra-se numa enfermeira que, após ter ajudado a dar à luz uma bebé cuja mãe adolescente morreu no parto, tenta encontrar a sua família tendo como única pista um diário.
A sua busca leva-a a contactar com alguns elementos da máfia russa, já que a jovem que ajudou era vítima de uma rede de prostituição de leste, e a situação complica-se quando o dono de um restaurante que lhe propõe ajuda parece, afinal, ter mais interesse no diário do que o aparente altruísmo inicial sugeria. O circunspecto motorista deste acaba por ser uma peça essencial no jogo de forças que então se impõe, proporcionando algumas das principais surpresas da narrativa.

Cronenberg recorre a um argumento de Steve Knight, o mesmo autor do de "Estranhos de Passagem", filme de Stephen Frears que oferecia outro pungente olhar sobre o submundo londrino, e a precisão milimétrica com que desenha retratos de conflitos ambíguos é um dos trunfos de "Eastern Promises". Outro é a fotografia de Peter Suschitzky, que muito contribui para a criação de uma intrigante energia visual, reforçando a aspereza e verosimilhança dos por vezes claustrofóbicos cenários urbanos que aqui são percorridos.

Aliados à segura realização, capaz de servir algumas cenas de antologia - como as dos (literalmente) cortantes momentos iniciais ou de uma sequência de combate num balneário -, estes elementos concedem ao filme um assinalável equilíbrio, felizmente complementado pela apurada direcção de actores.

Viggo Mortensen apresenta aqui um dos seus melhores desempenhos, mais conseguido do que o de "Uma História de Violência", conferindo densidade a uma personagem enigmática e envolvente. Naomi Watts também não desaponta como enfermeira obstinada, ainda que nao se desvie muito do seu registo habitual, Vincent Cassel oscila entre o frágil e o histriónico numa das personagens mais surpreendentes, e o veterano Armin Mueller-Stahl é apropriadamente austero e nebuloso.

Coeso e absorvente, "Eastern Promises" não chega a ser arrebatador devido a um desenlace algo abrupto, fechando demasiado cedo uma história que talvez ganhasse com mais alguns minutos - a personagem de Watts, por exemplo, poderia ter sido mais desenvolvida. Ainda assim, é um filme acima da média e o melhor do cineasta em muitos anos, demonstrando que, não obstante alguns altos e baixos na sua obra, Cronenberg continua a ser um realizador singular e um atento observador do mundo de hoje.


E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

"Eastern Promises" é exibido nesta terça-feira pelas 16h30 no Cinema Villa, em Cascais, no âmbito do European Film Festival

6 comentários:

miguel disse...

luck lukcy, you're so lucky. tambem queria esses visionamentos de imprensa.

gonn1000 disse...

Ora, mas ainda não trabalhas :P

_Loot_ disse...

Esta semana é complicada, sabes quando estreia no circuito oficial?

gonn1000 disse...

Pois, sobretudo às horas a que passa. Não sei quando estreia, acho que ainda não há data prevista.

wasted blues disse...

Vi hoje e só me resta dar os parabéns a Croenemberg!

gonn1000 disse...

Ainda nem fui ao festival, e provavelmente já nem vou :(
Mas sim, concordo que o Cronenberg merece os parabéns por este filme.