quarta-feira, julho 19, 2006

A TERCEIRA MUTAÇÃO

De entre as várias personagens dos comics norte-americanos adaptadas para cinema ultimamente, os X-Men são dos que têm tido um percurso mais estimulante, muito por culpa do realizador dos dois primeiros filmes, Bryan Singer.

Respeitando a essência dos mutantes da Marvel e doseando eficazmente acção, ficção científica, drama e algum humor, condimentando-os com um interessante subtexto sobre a tolerância e a reacção à diferença (elemento nuclear no Universo X), Singer fez de "X-Men" e, sobretudo, do soberbo "X-Men 2" (AKA X2), dois dos melhores filmes de super-heróis dos últimos anos, sendo apenas superados, embora por pouco, pela saga do "Homem-Aranha", de Sam Raimi.

O hábil realizador já não se ocupou, contudo, de "X-Men - O Confronto Final" (X-Men: The Last Stand), o aguardado final da trilogia, devido ao seu envolvimento no mais recente filme do Super-Homem, facto que levou a que o desfecho da série fosse trabalhado por Brett Ratner, cujos créditos na direcção de películas inconsequentes como "Hora de Ponta" não sugeriam nada muito auspicioso.

Ora, apesar dessa suspeita, que em parte se confirma, "X-Men - O Confronto Final" é afinal um muito digno último capítulo da série, uma vez que, mesmo com algumas cedências e facilitismos, Ratner mantém-se conceptualmente quase sempre próximo da visão de Singer, ainda que sem a mesma subtileza e sofisticação.

Angel

Ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com as adaptações de Batman na década de 90, onde as perspectivas de Tim Burton e Joel Schumacher nao poderiam colidir mais, aqui a mudança de realizador não prejudica tanto a saga, ainda que Ratner não evite tropeços que evidenciam o seu estatuto de tarefeiro.

O filme peca pelo excesso de efeitos especiais, tentando impressionar através de megalómanas sequências de acção (cuja mais gritante é a da ponte), factor que por vezes se impõe ao desenvolvimento dos dilemas das personagens, alvo de abordagens mais superficiais do que nos episódios anteriores.
O excesso de personagens já era um dos elementos que mais prejudicava a saga, mas aqui torna-se ainda mais problemático pois há muitas novas caras que não chegam a ter uma participação digna de nota, caso do Anjo, uma das mais esperadas que se limita a fazer breves aparições, e principalmente de Colossus, que apesar de admirado por muitos fãs é apenas um mero figurante.

Pior ainda é o facto de personagens com alguma relevância nos dois filmes anteriores, como Cyclops ou Rogue, serem aqui subaproveitadas de forma a conceder mais tempo de antena a Wolverine e Storm. A vantagem é que estes dois últimos acabam por ter um desenvolvimento interessante, em especial Storm, que tem finalmente um papel com impacto, supostamente devido a exigências contratuais de Halle Berry (que ainda não parece ser a melhor escolha para a heroína, ainda que esteja mais convincente do que antes).

X-Men: The Last Stand

O argumento apresenta também desequilíbrios, uma vez que aglomera vários enredos que na banda-desenhada eram independentes, desde a marcante saga da Fénix (interligada com a ambição e a sede de poder), até à "cura" para o gene mutante (que obriga algumas personagens a questionar a sua natureza), passando pelo contacto com a comunidade Morlock, um grupo de mutantes que vivem isolados, ou pela reformulação da equipa.

Estas histórias dariam, por si só, material para uma nova trilogia, por isso condensá-las num filme que não chega a atingir as duas horas de duração era uma missão ingrata. Ratner não é mal sucedido, pois consegue interligá-las sem que o resultado pareça forçado, porém nenhuma é abordada com a complexidade que merecia, tornando "X-Men - O Confronto Final" numa obra repleta de ideias muito interessantes que, infelizmente, não têm - e dificilmente poderiam ter apenas num filme - concretização à altura.

Se na carga dramática a película poderia ter ido mais longe, caso explorasse mais a fundo as personagens e o argumento, enquanto entretenimento ultrapassa, contudo, qualquer outro blockbuster de 2006, já que nunca perde o ritmo e apresenta sequências de acção e ideias visuais mais criativas do que as da concorrência, a que não são alheias as apelativas habilidades mutantes.
E também não são muitos os filmes-pipoca que podem orgulhar-se de contar com um elenco tão talentoso, onde brilham Hugh Jackman (mais uma vez desenvolto e carismático como Wolverine), Ian McKellen (exímio na composição de um austero e obstinado Magneto), Patrick Stewart (dificilmente haveria alguém mais apropriado para Xavier) ou Kelsey Grammer (perfeito como o ponderado Beast, a mais conseguida das novas personagens), assim como actores mais jovens mas promissores como Anna Paquin (uma das melhores actrizes da nova geração, mas aqui com pouco para fazer), Ellen Page (a co-protagista de "Hard Candy", segura no papel da perspicaz Kitty Pride), Aaron Stanford (um Pyro intenso e sombrio) ou Shawn Ashmore (cujo ar de boy-next-door é apropriado para Iceman).

Wolverine

Ficando aquém da coesão narrativa, fluidez da realização e imbatível energia de "X-Men 2", "X-Men - O Confronto Final" é ainda um sólido capítulo final para uma saga que, sem revolucionar, não deixa de ter uma consistência apreciável.
Embora o filme tenha sido promovido como o último da série, o final em aberto e algumas pontas soltas do argumento deixam espaço para novos desenvolvimentos (e spin-offs centrados em Wolverine e Magneto estão já em preparação). Se forem tão satisfatórios como até aqui, valerá a pena ir ver mais aventuras mutantes no grande ecrã.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

11 comentários:

Dark Electronic disse...

Achei demasiado curto para um filme que necessitava de mais duração para contar a história bem contada..

Era suposto ser um épico, mas agradou-me o facto de outras sequelas e twists individuais virem a caminho. Os X-men não podem morrer apenas com 3 filmes...not now, not ever!


X-Men rules!!!

yes I'm a big dork geek X-Men fan :p

gonn1000 disse...

Também achei que poderia ter sido mais longo, mas mesmo assim ainda resulta.

Don't worry, I'm a big dork geek X-Men fan too ;)

iLoveMyShoes disse...

Ora aí está... o filme de pipocas ideal para ver este fim-de-semana... e o que eu gosto do Wolverine...

gonn1000 disse...

Dentro do género, é mesmo do melhor que aí anda. Nunca fui grande fã do Wolverine, mas admito que é das que foram melhor transpostas para o grande ecrã.

brain-mixer disse...

"muito digno último capítulo da série", na verdade é até bastante bom, para um realizador que ali caiu a meio da produção. Sim, Brett Ratner não fez uma obra-prima, mas fez muito bom trabalho com o que tinha em mãos!

E sim, também acredito que haja um quarto filme. Para falar sobre a evolução das Sentinelas ;)

(dark electronic, quando falaste em sequelas e TWISTS individuais, querias dizer SPIN-OFF's, certo? :P)

Flávio disse...

O conceito de uma guerra entre dois exércitos de mutantes é magnífico. Mas poderia ter sido melhor aproveitado.

gonn1000 disse...

Brain-Mixer: Sim, não é brilhante mas não esperava tanto do Ratner, mesmo assim. O quarto filme pode vir à vontade, desde que a qualidade se mantenha.
(Acho que era isso que o Drak Electronic queria dizer, sim)

Flávio: Podia, mas também podia ter sido bem pior, não é tão bom como eu queria mas também não me queixo.

Turat Bartoli disse...

É o pior dos 3, devido em parte a uns sentidos convencionalismos de argumento que revelaram alguma preguiça nesse campo. Mas não deixa de ser bonzinho/razoável. Impressionou-me a cena da auto-descoberta do "Bird-Kid" ou "Wings-Boy", whatever:)

gonn1000 disse...

Acho que é mais do que "bonzinho" e o rapaz chama-se Angel :P
A cena da auto-descoberta é promissora, só é pena que ele não faça mais nada de relevante durante o resto do filme.

bruno disse...

eiii voces tao a falar sem saber...o x-men ainda nao acabou vai ter o 4 e ja ta quase a sair

gonn1000 disse...

Segundo sei, há planos para filmes do Wolverine, do Magneto e talvez para o de uma equipa de X-Men mais jovem. Mas não acho que estejam quase a sair...