sábado, julho 28, 2007

3... EXTREMOS

"Taxidermia", terceira longa-metragem do húngaro György Pálfi, é contudo a primeira a estrear em salas nacionais. Distinguido com a nomeação para o Grande Prémio do Público na mais recente edição do Fantasporto, o filme permite desde logo atestar a singularidade do seu autor, sendo uma das experiências cinematográficas mais atípicas e desconcertantes do ano, mas infelizmente isso não o torna num título especialmente recomendável, ou pelo menos não pelos melhores motivos.

Em foco estão três gerações de uma família húngara, numa história que se inicia com o dia-a-dia do avô, continua com o do pai e termina com o do neto. O primeiro destes é um soldado da Segunda Guerra Mundial, que perde mais tempo com as suas práticas sexuais (bastante sui generis, diga-se) do que com a missão bélica a que aderiu. O segundo torna-se cada vez mais obeso ao participar em concursos de ingestão de doses massivas de comida, e o seu peso adquire valores tão elevados que, ao atingir a velhice, o seu corpo ocupa quase todo o espaço da sua sala de estar (de onde não consegue sair). Ironicamente, o seu filho tem uma figura esguia mas vive também um quotidiano alienado, movido pela obsessão por técnicas de embalsamamento (prática que estará na origem do título do filme).

Objecto estranho e inclassificável, "Taxidermia" incorpora uma bizarria comparável à de alguns títulos de David Lynch, overdoses de grotesco que fazem a série televisiva "Liga de Cavalheiros" parecer um programa de escuteiros e uma incisão temática nas mutações do corpo que não andam longe da filmografia de Cronenberg.
Elementos sugestivos, mas que que aqui não funcionam de forma especialmente convincente, uma vez que Pálfi insiste em presentear o espectador com sequências de um exibicionismo mórbido de questionável pertinência. Não são poucas as cenas capazes de revirar os estômagos mais fortes, e se ao início essa atitude arrojada e provocadora até proporciona alguns suculentos, ainda que inconsequentes, momentos de humor negro, cedo cai na piada de mau gosto pelo cansativo (e enjoativo) efeito de repetição em que o filme mergulha (e no qual se afoga).

Reconheça-se que o realizador é hábil na construção de uma atmosfera perversa e barroca, e não faltam aqui momentos com uma força visual que por vezes impressiona, fruto de uma realização imaginativa (como a sequência da banheira) e contrastes cromáticos de assinalável eficácia. É pena que sejam utilizadas numa obra de irrespirável ambiente niilista, com um desfile de situações insólitas onde o choque gratuito parece ser o único fim em vista, anulando qualquer investimento emocional nas personagens.

Para o melhor e (sobretudo) para o pior, "Taxidermia" é um daqueles filmes de que dificilmente se sai indiferente, e o que repugna e afasta uns poderá ser o que leva outros a fazerem deste um candidato a título de culto. Espera-se, no entanto, que o próximo trabalho de Pálfi seja menos desregrado e aproveite de modo mais entusiasmante o rigor estético que aqui se evidencia.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

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