domingo, fevereiro 13, 2005

CONTA-ME HISTÓRIAS

One hit wonders é uma expressão que se adequa a uma banda como os Dandy Warhols, dado que o grupo de Portland, EUA, só adquiriu maior visibilidade aquando da edição do seu terceiro disco, "Thirteen Tales From Urban Bohemia", naquele que foi o pico da sua carreira até agora. A canção responsável pelo relativo sucesso foi, claro, "Bohemian Like You", o ultra-mediático tema de uma conhecida marca de telemóveis.

No entanto, reduzir a obra de um grupo a uma só canção pode ser injusto, e no caso dos Dandy Warhols é-o decididamente.
"Dandy's Rule OK?", o álbum de estreia de 1995, provou que a banda tinha potencial para se tornar um dos nomes fortes do rock alternativo recente, e "The Dandy Warhols Come Down", dois anos depois, reforçou a boa impressão através de um conjunto de canções entre o power-pop e discretos momentos herdados de escolas indie. Os irresistíveis singles "Not If You Were the Last Junkie On Earth" e "Every Day Should Be an Holiday" despoletaram alguma atenção e foram relativamente bem acolhidos pela MTV, mas ainda assim o grupo não foi alvo de grande destaque.

"Thirteen Tales From Urban Bohemia", de 2000, foi o disco que, finalmente, conseguiu catapultar os Dandy Warhols para o sucesso e proporcionar-lhes os 15 minutos de fama a que todos têm direito (isto segundo Andy Warhol, uma das figuras que a banda decidiu "homenagear").
Mais coeso e heterogéneo do que o álbum seguinte, "Welcome to the Monkey House", de 2003, o terceiro disco do grupo é um dos grandes momentos rock dos últimos anos e congrega tudo o que os Dandy Warhols têm de melhor: um forte sentido de humor, influências descaradas mas bem utilizadas, uma atitude cool e descomplexada e um saudável eclectismo sonoro.

As primeiras três canções do disco estão entre as melhores que a banda já fez, criando um fabuloso tríptico que inicia o álbum brilhantemente.
A melódica e harmoniosa "Godless", com uma boa utilização do trompete e uma excelente forma vocal do vocalista Courtney Taylor, é um pequeno grande épico. "Mohammed", o tema seguinte, oferece mais cinco minutos de beleza etérea e viciante que só melhora com múltiplas audições, e "Nietsche", o mais abrasivo dos três, aposta num inspirado loop de distorção e voz (e entra em territórios próximos dos shoegazers Ride).

"Thirteen Tales From Urban Bohemia" exibe diversas influências mas não proporciona mais do mesmo, antes as utiliza para originar uma criativa fusão de estilos e sonoridades. Há de tudo um pouco, desde a mistura folk/country de "Big Indian" (a lembrar o Beck de "Mutations"), a britpop de "Solid" (com a voz de Courtney Taylor próxima da de Lou Reed, o que não é estranho já que a banda afirma que os Velvet Underground são uma das suas maiores referências) ou a saborosa indie pop de "Cool Scene" (não muito longe dos domínios de Elliot Smith).

O disco contém também uma curiosa combinação electroacústica (como no vibrante "Horse Pills") e alguns momentos marcados por uma dream-pop aconchegante, como na uplifting e belíssima balada "Sleep", uma das pérolas do álbum.
Para contrastar com estes episódios mais delicados, a banda gera outros com consideráveis doses de irreverência e ironia, como o contagiante "Shakin'" (Elvis Presley com scratching?), o inevitável "Bohemian Like You" ou o soberbo "Get Off", onde os efusivos tons power-pop proporcionam um single perfeito.

"Thirteen Tales From Urban Bohemia" poderá causar alguma estranheza inicial, mas depois acaba por se entranhar e viciar, tornando-se num disco cada vez mais convidativo e surpreendente. Em suma, é bom e recomenda-se...

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

5 comentários:

O Puto disse...

Realmente é um bom álbum, talvez o melhor destes norte-americanos. E as aproximações ao shoegazing (ou aos Jesus & Mary Chain), ao Beck ou ao folk mutante só lhes fica bem. Em suma, concordo em absoluto com a tua apreciação.

gonn1000 disse...

Sim, não me tinha lembrado dos Jesus & Mary Chain, mas realmente há algumas semelhanças...e com os Love & Rockets também.

Spaceboy disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Spaceboy disse...

Concordo, é um grande disco. Já tenho o novo deles mas ainda não o ouvi.

gonn1000 disse...

O novo? Já?? Ainda só ouvi o single...