terça-feira, junho 13, 2006

PERSEGUIDOS PELO PASSADO

Em 2003, os Placebo interromperam, com “Sleeping With Ghosts”, um percurso marcado por um nível de qualidade crescente de disco para disco, expondo alguma estagnação e não acrescentando muito a uma personalidade que, apesar de singular, começou a tornar-se cansativa.

Três anos depois, o trio regressa com “Meds” e constata-se que esses sintomas de repetição voltam a manifestar-se, desta vez de forma ainda mais evidente e com resultados menos profícuos. Exemplo disso é “Because I Want You”, o primeiro single, uma canção esquemática com uns Placebo em piloto-automático, bem longe da frescura e efervescência dos tempos de “Nancy Boy”, “You Don’t Care About Us” ou “Taste in Men”.

Felizmente, nem todos os temas do disco são tão insípidos como este primeiro avanço, mas também nenhum está à altura dos melhores momentos de registos anteriores. A canção que dá título ao disco, com a participação de Alison Mosshart, dos The Kills, inicia-o de forma cativante, mantendo o sentido de urgência e a carga dramática pelos quais os Placebo se notabilizaram, num momento curto mas incisivo.
“Drag” é igualmente escorreito e directo, mas poderia constar do álbum de estreia, e “Post Blue”, apesar das semelhanças com “English Summer Rain”, também é um atestado de eficácia e dinamismo.

O viciante “One of a Kind” apresenta uma feliz interligação com a electrónica, em que o grupo tem apostado ultimamente mas de forma desigual, e “Blind” e “In the Cold Light of Morning”, atmosféricos e melancólicos, são belos episódios ritmicamente mais apaziguados mas não desprovidos de vibração emocional. Semelhante intensidade encontra-se em “Song to Say Goodbye”, que fecha "Meds" em alta, combinando apelo pop e uma genuína vulnerabilidade.
É certo que nestes temas os Placebo não inovam, mantendo a sonoridade que os caracteriza e abordando questões já sobre-exploradas nos quatro álbuns anteriores – maioritariamente ligadas às drogas, solidão, sexo e desilusões amorosas –, mas tal não impede que as canções não sejam sólidas e convincentes.
O mesmo já não se pode dizer de passos em falso como “Follow the Cops Back Home” e “Pierrot the Clown”, baladas indistintas e preguiçosas; “Broken Promise”, desapontante colaboração com Michael Stipe, dos R.E.M.; ou “Space Monkey” e “Infra Red”, que não destoariam num disco dos one-hit wonders Babylon Zoo (o que não é propriamente auspicioso).

Dadas as aventuras paralelas de Brian Molko com projectos como os Alpinestars, Timo Maas ou Trash Palace (cujo mentor, Dimitri Tikovoi, colabora aqui com o trio como produtor), esperar-se-ia que pelo menos as texturas electrónicas proporcionassem algum valor acrescentado ao álbum, mas tal só ocorre pontualmente.

Mais acessível, genérico e linear do que os seus antecessores, “Meds” ainda consegue impor-se como um registo interessante, pois os momentos banais não chegam a superar os recomendáveis, mas é o menos coeso e desafiante da discografia da banda. Espera-se que os Placebo não venham a tornar-se tão inócuos como o fármaco ao qual adoptaram o nome, mas com discos hesitantes como este é difícil afastar essa suspeita.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM




Placebo - "Song to Say Goodbye"

27 comentários:

O Puto disse...

Ó Gonçalo, percurso crescente? A partir de "Without You I'm Nothing" foi sempre a descer. Por vezes vertiginosamente. Em "Black Market Music" chegaram a plagiar-se a si mesmos.

gonn1000 disse...

Discordo, para mim "Black Market Music" é melhor (embora não muito) do que "Without You I'm Nothing". O auto plágio ocorreu mais em "Sleeping With Ghosts" e, sobretudo, neste "Meds".

Spaceboy disse...

Concordo plenamente com o puto. E este é mesmo uma desilusão, já que a fórmula resultou, agora os Placebo vão utilizá-la até ela apodrecer...devia deixar de perder tempo com estas coisas, quando há por aí muita boa música à minha espera...

O Puto disse...

Olha o exemplo mais flagrante: descobre as diferenças entre "Special K" (de "Black Market Music") e "36 Degrees" (so álbum de estreia). Plágio puro, mas com a vantagem de não serem processados (apesar de censurados).

gonn1000 disse...

Spaceboy: Espero que não a usem até apoderecer, mas é verdade que não têm feito muito para o evitar :(

O Puto: Ah... Ok, têm algumas semelhanças, mas nem acho que sejam assim tão idênticas. Já os Love is All e as/os Le Tigre... :P

FDV disse...

concordo com o puto.

depois de without you eles caminharam um bocado para o nothing.

vou ouvir isto com atenção. quando o "arranjar" ;)

cumprimentos.

gonn1000 disse...

Bem, se achas que o "Black Market Music" já era fraco, então suponho que não vás gostar muito de "Meds".

miguel disse...

é justo, eles também não gostam de ti.:-P
agora a sério, até te compreendo. cá para mim não noto uma diferença tão abismal, e julgo que continuam o percurso iguais a si mesmos, explorando com algum sucesso moderado novos territórios. lá se invocava a piada dos genéricos, mas pessoalmente julgo que por vezes prefiro o medicamento genérico dos placebo que propriamente a receita gótica de 36 degrees no seu nada inventivo videoclip, por exemplo.

abraçola, gonçalo.;-)

gonn1000 disse...

Sucesso moderado, sim, demasiado moderado neste álbum.
Gosto muito da "36 Degrees", o videoclip pode não ser extraordinário mas a banda tem alguns muito bons ("Pure Morning", "Slave to the Wage", ...).

miguel disse...

não digo que não goste de 36 degrees, digo antes que também gosto dos placebo mais genéricos. isto adoptando a tua perspectiva, pois uma vez que praticamente não noto essa tal diferença abismal entre os placebo dos 90s e os actuais, estaria então a contradizer-me.;-)
abraçola.

gonn1000 disse...

Não é que haja uma diferença abismal, mas o que há dez anos até era refrescante hoje já não surpreende de tão batido.
E o problema nem é tanto a repetição, mas o facto da maioria das composições deste disco serem mais fracas. Opinions, opinions... :)

kimikkal disse...

"without you i'm nothing" foi o ponto de rebuçado da banda, a partir daí repetiram a fórmula de sucesso. O problema é que o mundo avança e eles continuam na mesma.

gonn1000 disse...

Pois, espero que não continuem na mesma durante muito mais tempo :S

H. disse...

Eu prefiro o «Without You I'm Nothing» ou o «Black Market Music», mas mesmo que ñ estejam os albuns todos a esse nível, todos valem a pena... E este começa da melhor maneira :)
Apesar de tudo, ñ deixa de ser, à sua maneira, viciante. De uma maneira como só eles sabem ser.

gonn1000 disse...

Algumas canções ainda são viciantes, outras deveriam ter sido aproveitadas, no máximo, para lados-b, mas o balanço ainda é positivo.

Pedro Ferreira, Visconde de Cunhaú disse...

Estou a ver que também tens bom gosto musical! :) Do melhorzinho que se faz hoje em dia...

gonn1000 disse...

Obrigado :)
Mas convenhamos que os Placebo já foram melhores, não?

My_Little_Bedroom disse...

- 3/5 para os Placebo dá a ideia de que os Placebo são figuras que nunca vais deixar de ouvir, não?!
- Deste cabo da paciência de muitos que estavam desertos para ver o Gonçalo a dar outra vez um 2 ou 2,5, mas desta vez deu um 3. Ups.
- Será tão difícil aceitar que os Placebo têm em todos os discos mais canções interessantes que os Keane ou a Nelly Furtado terão?
- É díficil aceitar que não vai haver mais nenhum "OK Computer" e que há bandas que são boas a fazer o mesmo? Já não me lembro quem é que queria que os Royksöpp mudassem... Se imaginássemos que o 2º disco fosse igual a "Melody AM" quantos gulosos queriam ver o "The Understanding" a seguir? Todos!
- Gonn, quanto ao comment no meu blog: não acho que vás achar grande piada aos rapazes, mas és daqueles que acha que os She Wants Revenge são puros DJ's? Também não acho que os SWR sejam cópias dos Interpol. Talvez por ninguém ver que eles afinal não passam de óptimos DJ's que têm jeito para compor canções...
- Ninguém repara que os Placebo nunca deram muitos concertos verdadeiramente decepcionante em Portugal (que eu me lembre)...
- Só para finalizar: concerteza que "Meds" vai figurar nas minhas preferências no final do ano.

Cheers...

gonn1000 disse...

- Desde que os conheço nunca deixei de os ouvir, espero que não cheguem a desiludir-me totalmente
- Outra vez, como? Dei 3/5 aos últimos discos de que tenho falado aqui ;)
- Olha que o novo disco da Nelly Furtado tem algumas canções acima de umas quantas de "Meds"
- Eu não, o "Melody AM" não me convenceu muito :P E o "OK Computer" também é daqueles consensos no qual não me incluo
- Gosto de algumas canções dos She Wants Revenge, mas comparando com os Interpol prefiro os segundos e a esse disco sim, sou capaz de dar 2,5 (mas preciso de ouvir mais algumas vezes)
- Só os vi uma vez, no Coliseu de Lisboa por alturas da edição de "Black Market Music" e não me decepcionaram nada
- Ainda bem que há gostos para tudo... Eu também gostava que fizesse parte das minhas, mas infelizmente terá de ficar na gaveta dos "bons discos dos quais se esperava mais" :)

Abraço e obrigado pela partilha de opiniões ()

Andreia disse...

Oi Gonnie..vais-me desculpar, bem como todos os que não concordam, mas acho que este álbum é dos melhores - sobretudo desde «Black Market Music» que, confesso, não apreciei. Acho que, aparte alguma eventual estagnação, os Placebo têm enveredado pelo caminho que, creio, explora o melhor deles : a melancolia, as canções "tristes", em detrimento da pura agressividade que é excessiva no álbum que referi. Este «Meds» chega até a ser melhor do que «Sleeping with Ghosts», mas
é só uma opinião..
"Follow the Cops Back Home" e "Meds" são muito boas, mas as pérolas verdadeiras são, quanto a mim, "Blind" e "In the Cold Light of Morning". Os duetos com Alison Mosshart e Michael Stipe resultam bem, e acho que podem representar algum esforço de inovação perante a estagnação de que falas...sorry, I'm a fan of sad songs..;) Hug

gonn1000 disse...

Hey, também gosto de canções "tristes", e costumo gostar das canções "tristes" dos Placebo, mas neste disco não há nenhuma à altura de "Commercial for Levi", "Blue American" ou "The Crawl", por exemplo. Mas também é, claro, só uma opinião ;) Cya

LilyStrange disse...

Acho que os placebo seriam iguais a si mesmo se continuassem a fazer música igual à do Black Market Music e que foi o album que lhes trouxe maior visibilidade, e sinceramente, para mim foi o pior. Não podemos falar muito em autorepetição porque eles têm inovado, não brutalmente, mas têm inovado. Não se restringiram a rock do 1º álbum, à depressão do 2º, ao pop do 3º, à electrónica/pop/rock. No inicio não achei grande coisa ao album, mas acho-o agora muito bom.

Quanto a concertos... o do SBSR foi o meu 8º... e o pior que vi deles, mesmo assim, sem desiludir.

gonn1000 disse...

O "Black Market Music", pop? Acho que "Meds" é mais, mas parece que esses dois discos são os que geram reacções mais extremas.
Acredito que ao vivo continuem a não desiludir, teria ido vê-los ao SBSR se gostasse das restantes bandas desse dia.

eia disse...

aqui discordo totalmente de ti...Placebo sempre a crescer e cada vez mais recomendável, com especial enfase para o withouy you i´m nothing e sleeping with ghosts, o melhor a meu ver....enfim..opinioes...

****

gonn1000 disse...

"Without You I'm Nothing" é belíssimo, "Sleeping With Ghosts" trouxe algumas tentativas de mudança não plenamente conseguidas e este "Meds" não oferece nada de novo, e é o único dos Placebo em que salto faixas quando o ouço.

Anónimo disse...

Ok... alta dor de cabeça a ler isto tudo... enfim, eu não me senti desiludido pelo Meds, mas sou suspeito, uma vez que desde os 11 anos que ando a sofrer de uma obcessão pelos Placebo que nenhum psiquiatra, parece-me, conseguirá curar... mas, tento ser crítico, e acho que sim, há passos em falso, "Because I Want You To" (Apesar de resultar muito bem ao vivo.) e "In The Cold Light Of Morning". Acho também que aquilo a que se tem chamado "repetições" soam mais como "correcções". Falou-se aí de "36 Degrees" e "Special K", parece-me que, se, de facto, há um plágio, ele acaba por resultar numa versão melhorada (A vários níveis, por sinal.). Concordo que Meds não explora territórios novos, mas reinventa territórios explorados no passado, e, por vezes mal explorados. Além disso, em vinte e tal comentários, ninguém falou de uma coisa que a mim me chamou a atenção logo na primeira audição do disco: as canções têm agora (E isto começou em "Sleeping With Ghosts") uma muito maior pessoalidade, tornam-se mais humanas, mais íntimas, talvez por serem constúídas de uma forma evidentemente mais simples, coisa que não acontecia tanto nos primeiros registos, em que a busca de uma maior complexidade fazia as canções tornarem-se vagas, um pouco "dissolvidas" e por vezes muito pouco eviedentes. Vejo Meds um pouco como o expoente máximo dos conceitos básicos da música dos Placebo. Não sei o que vai acontecer a seguir, isso quem sabe são eles, mas, talvez eles precisem de consolidar (É assim que se escreve?) aquilo que está atrás para poderem partir para algo completamente diferente. Ou, se calhar, eu sou um pouco crente, ou muito crente, ou um completo obcecado. Uma coisa, "Post Blue" não me parece nada como "English Summer Rain". A propósito, alguma vez ouviste Nicolette (Suwodon)? Pareceu-me ver aí uam referências a música de dança, e a Nicolette tem discos muito bons nessa área, além de duas participações assinaláveis no "Protection" dos Massive Attack... vê lá isso...
Cheers

gonn1000 disse...

Acho que esse intimismo das canções que referes foi muito mais conseguido em "Without You I'm Nothing". Em "Meds" apenas temos uma reposição das temáticas que os Placebo já exploram há anos mas sem a espontaneidade que exibiam nos primeiros discos. Ainda há por aqui bons momentos, mas a surpresa mora longe.
Ouvi o primeiro disco da Nicolette e lembro-me que tinha algumas coisas interessantes, e também gostei das colaborações dela com os Massive Attack (aliás, são duas das poucas boas canções do desapontante "Protection", que considero o mais fraco do grupo).