quinta-feira, março 23, 2006

A SANGUE FRIO

Impondo-se, ao longo da década de 90, como um dos melhores actores norte-americanos dos últimos anos, Philip Seymour Hoffman nunca havia conhecido um mediatismo à altura do seu talento, sendo quase sempre relegado para papéis secundários.
Embora tenha trabalhado em muitos projectos interessantes que lhe proporcionaram algum prestígio – colaborou em obras de Todd Solondz, Paul Thomas Anderson ou Spike Lee -, faltava-lhe umaque lhe possibilitasse uma aclamação mais generalizada.

“Capote”, a segunda experiência de Bennett Miller na realização (a primeira foi o elogiado, mas discreto documentário “The Cruise”, de 1998), afirma-se como o filme capaz de o elevar a um novo patamar de reconhecimento, garantindo-lhe o Óscar de Melhor Actor e compensando-o por mais de uma década onde recebeu menos atenção do que merecia.

Hoffman encarna aqui o controverso e influente escritor Truman Capote, numa película que foge ao formato de biopic mais tradicional ao optar por se debruçar apenas sobre uma fase específica da sua vida, centrando-se em 1959, período em que o autor se inspirou no homicídio de uma família de uma pequena povoação do Kansas para criar uma das suas obras incontornáveis, “A Sangue Frio”, considerado o primeiro romance de não-ficção.

O filme apresenta a relação singular que nasce entre o escritor e Perry Smith, um dos dois assassinos responsáveis pelo massacre, focando a empatia natural e desconcertante gerada entre dois underdogs que, embora muito diferentes à superfície, parecem partilhar uma esfera de angústia, isolamento e marginalização.
Em paralelo, “Capote” narra também a forma como o protagonista utilizou essa proximidade para a criação do seu livro (ainda que inicialmente o plano fosse criar apenas um artigo de revista), vertente que obriga o espectador a questionar-se acerca da moral da personagem, originando cenas de uma considerável ambivalência emocional, pouco habituais num biopic oriundo de Hollywood (que raramente colocam em causa a figura em questão).

Philip Seymour Hoffman consegue compor com solidez um retrato do escritor, mesclando vulnerabilidade, arrogância, humor ácido, egocentrismo e subtileza, expondo ainda os trejeitos da fala e dos movimentos corporais associados a Truman Capote sem cair na caricatura.

Infelizmente, o filme não é tão bem sucedido como o desempenho do actor principal, apoiando-se neste em demasia e não sendo tão convincente na maioria das suas restantes componentes. É certo que há aqui material de base para fazer desta uma obra superior, em particular a relação do criador com a arte e a dilaceração emocional que daí poderá advir, contudo “Capote” é prejudicado por uma narrativa irregular que nem sempre distingue o essencial do acessório, oferecendo múltiplas sequências repetitivas e dispensáveis.


O argumento é interessante, mas peca por não explorar a fundo a carga dramática que pontuais momentos são capazes de evidenciar, desaproveitando, de resto, algumas das personagens secundárias, como os dois criminosos ou a escritora Harper Lee, amiga de infância do protagonista.

“Capote” vê-se, assim, reduzido ao estigma de “filme de actor”, alicerçando-se na prestação de Hoffman que, mesmo não retirando o mérito ao eficaz trabalho de realização de Bennett Miller ou aos desempenhos de todo o elenco - Clifton Collins Jr. interpreta um credível Perry Smith, já Catherine Keener está apenas competente, longe do seu melhor – sobrepõe-se a estes e será aquilo pelo qual esta película curiosa, embora não raras vezes gélida e monótona, será lembrada.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

12 comentários:

Flávio disse...

O Hoffman foi simplesmente extraordinário, não há prémios e elogios que cheguem para que lhe fazer justiça. O problema foi que ele não teve um deuteragonista à altura. O gajo que fazia de índio recluso era medíocre, na melhor das hipóteses, e esbanjou um papel que poderia ter sido fascinante.

Lembremo-nos do Silêncio dos Inocentes, uma história com uma estrutura algo semelhante a esta. Porque é que o filme funcionou tão bem? Porque os dois protagonistas eram igualmente talentosos e a química entre ambos foi extraordinária.

S0LO disse...

Hum...esta é a crítica mais negativa que já li em relação a este filme. Vou ver em breve e depois conversamos melhor :).

Abraço

gonn1000 disse...

Flávio: Acho que Clifton Collins Jr. (o "índio recluso") esteve bem, o problema é que a sua personagem não foi suficientemente explorada. Mas sim, químicas como a d'"O Silêncio dos Inocentes" não surgem todos os dias...

SOLO: Acho que vais gostar moderadamente.

par disse...

Eu gostei imenso do filme e depois de o ver fiquei a pensar imenso na estupidez que é a pena de morte. Foi esta a mensagem que o filme me passou. E depois o Philip Seymour Hoffman "faz" o filme. Teria dado 4/5.

gonn1000 disse...

Eu acho que o filme interessa-se mais por aquilo que Capote fez (ou não) para que os condenados não sofressem a pena de morte, mas mesmo aí poderia ter ido mais longe.

Flávio disse...

hmmm... não sei, não. Se calhar fui um bocado injusto, mas como disse no meu blogue sobre o filme Alice, em cinema não há pequenos papéis. Veja-se o caso da nossa Beatriz Batarda nesse mesmo filme Alice: coube-lhe um papel relativamente secundário (a perspectiva dominante é a do pai)que ela transformou completamente.

Não conheço o percurso desse gajo do Capote, mas acho que ele só se pode queixar dele mesmo. Teve a oportunidade de interpretar uma personagem fascinante e jogou-a pela janela. Acho eu.

gonn1000 disse...

Se a personagem não é assim tão fascinante julgo que é mais por culpa do argumento (que dá todo o ênfase ao protagonista) do que do actor.
No caso de "Alice", acho que a Batarda esteve apenas competente. Em "Noite Escura" sim, tem uma interpretação extraordinária.

Ricardo disse...

Gonn,

Hoffman está simplesmente perfeito. Não via uma representação neste nível há muito tempo mas concordo que não é o argumento (ou até o filme globalmente) que potencia isso.

Quanto a Beatriz Batarda ... achei-a bastante bem em Alice e, nisso concordamos, extraordinária em Noite Escura.

Abraço,

gonn1000 disse...

Apesar de achar que está convincente, não acho que o desempenho seja assim tão ímpar, julgo que tanto Joaquin Phoenix ou Heath Ledger (ou Jake Gyllenhaal, inexplicavelmente considerado secundário) mereciam mais o Óscar.

Spaceboy disse...

Eu adorei o filme e acho que o óscar foi justo para o Phillip Seymour Hoffman. Já o revi algumas vezes e não me canso, foi surpreendente para mim, fez-me querer conhecer a obra de Truman Capote.

gonn1000 disse...

Acho que o Óscar foi justo mais enquanto compensãção pela carreira do Hoffman do que por esta interpretação (apesar de ser boa).

Scott Arthur Edwards disse...

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