quinta-feira, outubro 12, 2006

INFERNO NA TERRA

Autora de um dos mais interessantes filmes portugueses da década passada, "Os Mutantes", e de outros títulos menos consensuais como "Três Irmãos" ou "Água e Sal", Teresa Villaverde apresenta em "Transe" mais uma película que contribui para a consolidação de uma obra singular e desafiante, para o melhor e para o pior.

Ancorado no percurso de Sonia, uma jovem russa que emigra na esperança de encontrar oportunidades para uma vida de maior prosperidade, o filme começa por seguir a protagonista até à Alemanha, onde esta encontra trabalho numa oficina, mas cuja rotina é subitamente interrompida quando o seu destino se cruza com uma rede de tráfico de mulheres para prostituição.
Assim, Sonia inicia uma dolorosa espiral descendente que passa pelo rapto, encarceramento e violação, tanto física como psicológica, durante uma interminável viagem pela Europa (da Alemanha levam-na para Itália e, depois, para Portugal), aqui palco de um Inferno na Terra.

Revestido de maiores camadas de crueza e crueldade do que as que já assombravam "Os Mutantes", "Transe" é um olhar muito pouco condescendente sobre a faceta mais obscura da humanidade, onde Sonia surge como o cordeiro sacrificial que não tem alternativa senão sujeitar-se ao rumo determinado por terceiros. Daí o título do filme, que não poderia ser mais apropriado para caracterizar o estado de anestesia, alienação e apatia em que a protagonista é forçada a recolher-se.

A actriz principal, Ana Moreira, é determinante para que esse efeito tenha impacto, e se outras películas atestavam já a sua entrega e expressividade em "Transe" o seu desempenho vai ainda mais além, evidenciando na perfeição o concentrado de dor e humilhação de que a sua personagem é alvo, confirmamndo-a como uma das mais brilhantes actrizes da sua geração.

Se a interpretação de Ana Moreira é magnífica, "Transe" não é, contudo, tão bem-sucedido noutros aspectos, sendo prejudicado por alguma pretensão no trabalho de realização de Villaverde, que não resiste a sequências dominadas por planos longos e redundantes, desnecessárias num filme capaz de gerar, noutros momentos, uma intensa e cortante carga realista.
A presença ocasional da voz off tem também um interesse discutível, tornando-se por vezes quase embaraçosa, e o desenlace revela-se pouco satisfatório ao apostar num simbolismo tão forçado como hermético. "Transe" peca ainda por mergulhar num acérrimo pessimismo e miserabilismo, demasiado frequente em algum cinema português, o que se por um lado gera um muito eficaz e desarmante efeito claustrofóbico não deixa de ser excessivo.

Em todo o caso, Villaverde proporciona aqui um meritório, ainda que desigual, retrato de uma experiência in extremis, resultando num filme de difícil digestão mas suficientemente relevante para justificar o seu visionamento.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

5 comentários:

Harry_Madox disse...

Desta vez estamos de acordo :)

PS: já vi este template em algum lado...

gonn1000 disse...

Parece que sim, também o achei gélido. Quanto ao template... bem, nada é completamente original hoje em dia... :P

Hugo Alves disse...

Exercícios cinematográficos como este são de louvar. Não só porque mostram cultura cinéfila, mas também porque mostram uma realizadora em grande forma. O espaço cada vez mais exíguo tem um excelente paralelo na depuração de Sonia, tal como a capacidade de abstracção que esse planos "longos" revelam...é um excelente exercício sobre a lógica espácio-temporal. Isso sim.
Esta obra de pretensioso não tem nada. Há-as por aí bem piores. Um exemplo: 98 octanas, essa cópia mal feita de Pierrot le fou ou de clássicos como they live by night. Aí sim não há mera inspiração.

wellington disse...

Ei Gonçalo, tudo bem?
Ia responder teu comentário por e-mail, mas resolvi postar lá logo abaixo do teu mesmo para que não haja outros mal-entendidos,Assim toda gente vê, ok? aguardo visita! Abraço!

gonn1000 disse...

Hugo Alves: Bem, dispenso demonstrações de cultura cinéfila quando não acrescentam nada de positivo ao filme, e se neste caso passam pelas redundantes e longas sequências que revelam "capacidade de abstração", acho que "Transe" só ganhava em perder umas quantas.
Quanto a "98 Octanas" concordamos, um road movie centrado no Portugal actual poderia dar bons resultados mas infelizmente não foi o caso, por melhores que sejam as obras citadas.

Wellington: Olá, já te respondi, mal-entendido resolvido. Abraço :)