sábado, julho 23, 2005

COLISÃO EMOCIONAL

Impondo-se como uma das mais criativas bandas indie dos anos 90 através de “Worst Case Scenario” (1994) e “In a Bar, Under the Sea” (1997), os dEUS possuem uma curta, mas marcante discografia que tem gerado bons resultados (pelo menos se se ignorar o escorregão do EP “My Sister is my Clock”, de 1995).

“The Ideal Crash”, o terceiro álbum de originais do grupo belga, suscitou alguma discórdia entre os fãs quando foi editado, em 1999, mas depois da habituação às alterações face aos registos anteriores torna-se perceptível que este é mais um inspirado disco da banda.

Reduzindo o intenso experimentalismo e a carga noise que dominava os seus antecessores, “The Ideal Crash” é surpreendentemente melódico e apaziguado, substituindo a rudeza e abrasividade habituais por atmosferas mais elegantes e contemplativas. Pontualmente, o disco contém ainda consideráveis descargas de visceralidade, como no tema de abertura “Put the Freaks Up Front” ou no soberbo “Instant Street”, mas o tom predominante é o de calmaria e serenidade.

Embora aparentemente mais leves, as canções possuem ainda uma estrutura intrincada e inventiva, mesmo que isso não se perceba de forma imediata. Apostando num trabalho de produção simultaneamente lo-fi e refinado, “The Ideal Crash” percorre ambientes entre o rock alternativo, a folk e a pop jazzy, oferecendo um conjunto de dez canções que focam episódios de relações amorosas tensas e conturbadas (que as letras, suficientemente tridimensionais mas nunca óbvias, conseguem traduzir com engenho).

Intimista e acolhedor, é um álbum que confirma o talento dos dEUS na composição e interpretação (é difícil ficar indiferente ao registo sóbrio e sensível de Tom Barman), e, apesar da riqueza instrumental, o som nunca se torna balofo.
Coeso e absorvente, “The Ideal Crash” perde em imediatismo o que ganha em capacidade de surpreender durante várias audições, contendo momentos de recorte superior como “The Magic Hour” (encantatória e introspectiva, com um desenlace de forte impacto emocional), a aconchegante aproximação à dream pop de “Dream Sequence No. 1”, a vibrante inquietação de “Eveybody’s Weird”, a lacónica balada “Magdalena” ou a enigmática “One Advice, Space” (todas as canções são bastante sólidas, excepto a pouco estimulante “Let’s See Who Goes Down First”, algo desajustada e desnecessária).

Melancólico e envolvente, “The Ideal Crash” apresenta um complexo e memorável olhar sobre as dificuldades e fragilidades das relações humanas e não merece, de forma alguma, o estatuto de disco insípido ou inócuo com que alguns o rotularam. Não chega a ser genial, mas também não precisa, pois isso não o impede se ser relembrado como um belo álbum.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

11 comentários:

Kraak/Peixinho disse...

Muito bom, sem dúvida, embora ande mais na onda Zita Swoon :). Já gostei mesmo muito dos dEUS. O mais caricato é que alguns amigos meus belgas nunca ouviram falar, LOLLL.

Hugzzz from dEUS (LOL)

Daniel Pereira disse...

Bom álbum, sim senhor. Nunca fui grande apreciador, mas há que reconhecer a qualidade.

gonn1000 disse...

Kraak/Peixinho: Zita Swoon não conheço tão bem, tenho de ouvir melhor os (muitos) side-projects dos dEUS...Hasta ()

Daniel: Quanto a este concordamos, então :)

O Puto disse...

Gosto de todos os discos destes belgas, e é difícil eleger o melhor. "In a Bar, Under The Sea" talvez seja o meu preferido, mas "The Ideal Crash" é o álbum mais equilibrado e contém temas com uma beleza e carga emocional enormes.
Projectos paralelos dos membros da banda é o que não falta. Conheço os Zita Swoon (antes Moondog Jr.), Kiss My Jazz, Vive La Fête, Magnus, etc.

gonn1000 disse...

Sim, e para além desses há ainda os Millionaire, Cinerex, Dead Man Ray e mais alguns que agora me escapam...

membio disse...

Também gosto bastante de dEUS, comprei esse albúm "The Ideal Crash" a um preço muito baixo (5€), quando um video clube estava a "despachar" os cd's todos usados que tinha! Que sorte :)

gonn1000 disse...

Eu comprei-o ao preço normal na altura em que saiu, mas mesmo assim não me arrependi...

Spaceboy disse...

Concordo contigo, é um grande disco. Já tenho o novo disco, «Pocket Revolution», sobre o qual tenho expectativas muito altas,espero que não me desiludem.

Turat Bartoli disse...

Já há muito tempo que estou para ouvir este album. Mas primeiro tenho de despachar a onda Depeche Mode que ainda vai durar 1 bocado.

Cumps

gonn1000 disse...

Spaceboy: Ainda não ouvi o novo, mas se estiver ao nível deste valerá a pena...

Turat Bartoli: Tudo bem, se é por estares a ouvir Depeche Mode então é por uma boa causa :)

Anónimo disse...

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