segunda-feira, setembro 17, 2007

UMA CASA, SEIS VIDAS

Quando “A Casa de Alice” se aproxima do final, há uma cena em que uma colega da protagonista lhe diz que o seu caso extra-conjugal parece “coisa de novela”. E infelizmente, o espectador será tentado a concordar, já que no último terço o argumento do filme, até aí subtil, coerente e interessante, começa a perder o fôlego e tropeça em obstáculos que traem o equilíbrio da narrativa.

É pena, tendo em conta que este retrato do quotidiano de uma família da classe média-baixa de São Paulo arranca com uma vibração emocional assinalável, conseguindo definir ambientes e personagens em sequências de onde emana um impressionante realismo, a evidenciar a experiência no cinema documental do realizador Chico Teixeira, que aqui se estreia nas longas-metragens.

Alice, uma manicure de quarenta anos, é a figura que vai impedindo a desagregação familiar, sendo paciente com os três filhos, todos rapazes; cuidadosa com a mãe, ameaçada por ocasionais ataques de cegueira; e tolerante q.b. com a recorrente infidelidade do marido, um taxista que raramente está em casa. Ou pelo menos assim é até ao dia em que a pressão a afoga num desespero que pede uma alternativa minimamente aceitável, no caso o reencontro com um ex-namorado agora casado com a sua melhor cliente.

“A Casa de Alice” cativa pela atmosfera de tensão camuflada que vai implementando desde as primeiras cenas, intrigando à medida que os segredos dos elementos da família vão sendo descobertos mas deixando um travo de esperança na atitude obstinada e altruísta da protagonista. No entanto, quando Alice falha, o mesmo acontece ao filme, que no último terço se vai desfazendo e anulando qualquer tentativa de identificação com as personagens – exceptuando a da avó, vítima das circunstâncias -, sobretudo com a principal, que fica irreconhecível numa mudança de direcção pouco verosímil.

Prejudicado por um desenlace excessivamente pessimista e mal explorado, “A Casa de Alice” vale contudo pelas fortes qualidades presentes na direcção de actores (Carla Ribas no papel principal é especialmente brilhante), cuja espontaneidade reforça a carga verista de uma realização com tempo para mostrar a tensão que ressalta dos frequentes close-ups. O mesmo pode dizer-se dos diálogos, quase todos improvisados, que oferecem uma segura mistura de humor e crueza, e que só deixam a impressão de que Chico Teixeira é capaz de muito melhor, desde que no próximo filme se apoie num argumento consistente até ao final.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

Filme apresentado na 11ª edição do festival Queer Lisboa, a decorrer até 22 de Setembro no cinema São Jorge

4 comentários:

Wellington Almeida disse...

Não podia discordar mais da sua resenha. Foi das melhores coisas que vi no festival e o tom realista impactante do filme me fez lembrar o Mike Leigh dos bons tempos.A subtileza na construção das personagens, a narrativa contida e etérea só demonstram maturidade e acho que Chico Teixeira está no caminho certo. No final, ouvi pelos cantos que haviam actores do filme pelo cinema, fiquei curioso para saber quem eram. Abraços.

gonn1000 disse...

Também estava a gostar, mas quando a protagonista reage como reagiu à morte da cliente e toma outras atitudes nada consonantes com as que demonstrou no início do filme, deixei de me importar com ela e com as outras personagens - tirando a da avó, que não foi suficiente para salvar o final.

Wellington Almeida disse...

Todos somos assim, caro. Peças inconstantes e contraditórias nesse caos organizado.

gonn1000 disse...

Talvez, mas ali achei que o final pecou por excesso, já que quase todos eram assim. Achei forçado um desenlace com tantas doses de pessimismo.