terça-feira, outubro 02, 2007

A CASA DE CAMPO

"Pintar ou Fazer Amor" (Peindre ou Faire L'Amour) é o primeiro filme dos irmãos Arnaud e Jean-Marie Larrieu a estrear em Portugal, e mesmo que chegue com algum atraso - data de 2005 e concorreu à Palma de Ouro em Cannes no mesmo ano - ainda vem a tempo de evidenciar os méritos da dupla francesa.

É uma obra que merece relevo, desde logo por focar um tema não muitas vezes retratado: a relação de um casal de meia-idade, onde a sua vida sexual é alvo de considerável atenção. "O Odor do Sangue", de Mario Martone, que estreou por cá no início do ano, era outro dos raros títulos recentes a incidir na mesma temática, ainda que as situações e o tom dos filmes sejam bem distintos.

Outro motivo que joga a favor desta obra é o par protagonista, composto por dois nomes fortes do cinema francês: Daniel Auteuil, um dos seus rostos mais reconhecíveis, e Sabine Azéma, popularizada sobretudo pelos seus papéis em filmes de Alain Resnais.
O duo interpreta um casal de meia-idade que, depois de dar por terminada a vida profissional, muda-se da cidade para o campo, encetando uma amizade crescente com o presidente da junta de uma localidade vizinha e com a sua esposa.

"Pintar ou Fazer Amor" olha com complexidade e inteligência para a relação de um casal unido há décadas, focando a rotina em que o seu dia-a-dia acaba por cair mas também as tentativas de alteração do status quo, quando uma rebeldia quase adolescente convida a uma procura de novas experiências. Novas e com tanto de excitante como de inquietante, uma vez que impõem um teste ao equilíbrio e consistência da relação.

A acção decorre num cenário campestre, plácido e aprazível, embora os realizadores façam, pouco a pouco, a desconstrução de lugares-comuns associados à tranquilidade da vida rural, contaminando as situações com uma tensão emocional que se vai insinuando sem que nem o espectador nem as personagens se apercebam muito disso, pelo menos até ao ponto em que o contexto já mudou drasticamente.

A atmosfera vai passando de serena a lânguida, os protagonistas deixam de reconhecer ou decifrar parte dos seus comportamentos e do ritmo lento da narrativa emana, subtilmente, uma aura enigmática (o que não impede, ainda assim, que a monotonia tome conta de algumas sequências) .

Apesar de "Pintar ou Fazer Amor" relatar episódios da vida conjugal - e, como o título indica, sexual -, rege-se sempre por uma sobriedade assinalável, mantendo-se longe de cenas "sórdidas" e "escaldantes", provando que muitas vezes a sugestão funciona melhor do que a revelação, sendo graficamente discreto.

Recusando de dramatismos telenovelescos e demonstrando maturidade na caracterização das personagens - o elenco é também exemplar na transmissão de realismo -, este é um bom filme sobre adultos e para adultos, algo que não vai chegando muito ao grande ecrã, e que por isso merece não passar despercebido.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

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