segunda-feira, abril 18, 2005

IDENTIDADE DESCONHECIDA

Anna (Nicole Kidman) é uma jovem viúva da classe média alta nova-iorquina que está prestes a casar, uma década depois do seu marido ter falecido. Contudo, subitamente surge um elemento que colocará em causa a realização do seu novo matrimónio, uma vez que um rapaz de 10 anos (Cameron Bright) lhe revela que o seu ex-marido, Sean, reencarnou no seu corpo. Esta revelação origina uma conturbada teia de acontecimentos, onde Anna e a sua família hesitarão entre a crença e o cepticismo face a tão insólita situação.

Com esta premissa, Jonathan Glazer gera "Birth - O Mistério", o seu segundo filme (o primeiro, "Sexy Beast", não passou por salas nacionais), misto de drama, romance, suspense e fantástico. A película gerou polémica devido a algumas cenas entre Kidman e Bright, alimentando a tensão em torno dos escândalos de pedofilia, embora Glazer não aprofunde muito essa questão e recuse situações típicas de um "filme-choque" (com eventual excepção para a cena do banho).

Proposta de reflexão acerca dos limites do amor, da credulidade humana e da tolerância, "Birth - O Mistério" possui em curioso (e delicado) ponto de partida, mas infelizmente a execução raramente entusiasma.

Glazer acerta na direcção de actores - além da irrepreensível dupla protagonista, há sólidos secundários como Danny Huston, Lauren Bacall ou Anne Heche -, na criação de atmosferas inebriantes - uma absorvente Nova Iorque de tons melancólicos e outonais -, na fotografia e na banda-sonora, mas falha num dos pontos essenciais: o argumento.

Se o início do filme é promissor, o seu desenvolvimento é pouco mais do que redundante e enfadonho, e não se percebe onde está o mistério que o título anuncia, tendo em conta que uma das primeiras cenas lança óbvias pistas para a resolução do suposto enigma.

A construção das personagens é débil, embora Cameron Bright tenha uma presença intrigante (o jovem actor foi também um dos poucos pontos positivos do fraco "Godsend - O Enviado") e Nicole Kidman seja sempre competente, com ocasionais momentos de fulgor como na bem conseguida cena da Ópera (num soberbo close-up pleno de intensidade). No entanto, o duo protagonista não consegue compensar os desequilíbrios do argumento nem uma narrativa com um ritmo letárgico e arrastado, e assim "Birth - O Mistério" não vai além de uma frágil mediania.

Jonathan Glazer saiu-se bem nos videoclips, colaborando com nomes fortes como os Massive Attack, Blur ou Radiohead, mas a julgar pela sua experiência nas longas-metragens o seu contributo para a sétima arte não é assim tão surpreendente. Pelo menos enquanto o seu trabalho de realização (rigoroso e profissional, sublinhe-se) não for acompanhado por um argumento à altura...

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

4 comentários:

ed disse...

o inicio do filme prende a gente com o misterio, mas o roteiro nao ajuda. pra mim esse filme tem uma belissima direção e um roteiro fraquissimo. ;P

gonn1000 disse...

Pois, infelizmente é muito desequilibrado, embora promissor...

Cataclismo Cerebral disse...

Sinceramente, o que menos me interessa neste Birth é o suposto mistério. Fascina-me sim o percurso da personagem da Nicole Kidman, uma mulher sofisticada e elegante que, aos poucos, começa a acreditar que poderá estar na presença do seu falecido marido e, assim sendo, começa a ceder nas suas convicções e crenças. O filme é sobre a credulidade (por mais ridícula que possa ser) e a impossibilidade de esquecer totalmente um grande amor que nos fugiu e é essa "metafísica" que faz com que goste muito do Birth. Dar-lhe-ia 4/5, para ser sincero.

Abraço

gonn1000 disse...

Acho que o Glazer é um realizador interessante, sabe construir ambientes e dirigir actores, mas neste caso perde ao seguir um argumento frouxo. Veremos como se sai no próximo projecto.
Fica bem :)