sexta-feira, outubro 28, 2005

MORTE LENTA

Impondo-se como um dos cineastas norte-americanos mais peculiares das últimas décadas, Gus Van Sant tem vindo a consolidar uma obra tão ecléctica quanto desigual.
Reunindo muitas vezes a aclamação da crítica mas raramente gerando fenómenos junto do grande público, o realizador contém na sua filmografia alguns títulos próximos do mainstream (os interessantes “O Bom Rebelde” ou “Disposta a Tudo”, por exemplo) e, sobretudo, outros que se destacam por possuírem uma considerável de ousadia e experimentalismo (casos do marcante “O Cowboy da Droga”, do insípido “Gerry” ou do inventivo “Elephant”), tornando-se difícil antecipar como será o seu próximo projecto.


“Last Days – Últimos Dias”, a sua película mais recente, era uma das mais aguardadas de 2005, tendo sido um dos destaques da última edição do Festival de Cannes, onde obteve uma recepção crítica pouco consensual, oscilando entre a indiferença e a devoção.

O filme debruça-se sobre os últimos dias de Blake, um jovem músico norte-americano que vive numa casa isolada e cujo quotidiano é marcado por passeios inconsequentes e monólogos repetitivos que evidenciam o seu frágil estado psicológico.
“Last Days – Últimos Dias” gerou alguma expectativa por estabelecer paralelismos com as experiências de Kurt Cobain, uma das incontornáveis referências musicais dos anos 90 que, com os Nirvana, ajudou a fazer do grunge um género mediático e determinante.

Embora Van Sant defenda que a película não pretende ser um retrato fiel dos últimos dias do músico de Seattle – considerá-la um biopic está, portanto, fora de questão -, as semelhanças entre o seu protagonista e Cobain são óbvias, factor que a torna numa obra singular.

Finalizando aqui uma trilogia iniciada com “Gerry” e “Elephant”, centrada na morte e na adolescência, “Last Days – Últimos Dias” exibe, para o bem e (principalmente) para o mal, muitos dos traços que o cineasta desenvolveu nesses dois filmes, como uma arriscada vertente minimalista vincada por múltiplos silêncios a par de uma aura enigmática e algo onírica complementada por uma estrutura narrativa que recusa formatos lineares.

Se esta abordagem resultou em “Elephant”, em “Gerry” foi apenas um exercício demasiado vago e insonso, falhanço que se repete agora. A espaços, “Last Days – Últimos Dias” promete ser um vibrante e melancólico olhar sobre a solidão, a dilaceração emocional, a falta de comunicação, a amargura e a alienação, mas a forma como tenta gerar essa perspectiva dificilmente poderia ter sido menos entusiasmante.

Frio, distante e vagaroso, condensando tiques e clichés de um hermetismo arty, o filme é um bocejante ensaio sem objecto, assentando numa personagem principal que recicla cansativos lugares comuns do músico incompreendido, drogado, apático, soturno e algo autista, não despoletando qualquer empatia nem interesse (e se o faz é mais pela analogia que se pode fazer com Cobain do que pela densidade de Blake).

Se o protagonista apenas origina cansaço e fastio (desempenhado por um esforçado Michael Pitt, que nada pode fazer contra a inconsistência da sua personagem), os secundários não são muito melhores, sendo ainda mais descartáveis, exceptuando o pequeno papel de Kim Gordon (dos Sonic Youth), que tenta retirar – sem sucesso - Blake do marasmo e letargia que o envolvem.
Tirando esta, não há nenhuma presença que se destaque, uma vez que todas as outras figuras não passam de esboços decorativos aos quais Van Sant tenta injectar, por vezes, uma ambiguidade forçada, como no caso das cenas homossexuais entre dois amigos.

Tentando chegar à introspecção através de uma penosa e pretensiosa abstracção, “Last Days – Últimos Dias” é um devaneio auto-indulgente e circular que desaproveita as suas potencialidades, fornecendo um retrato sem qualquer contexto e deixando o espectador sem referências (o que até é desafiante mas leva a um resultado infrutífero).

Apesar do argumento esquelético (ou mesmo inexistente), Van Sant proporciona, no entanto, um sóbrio trabalho de realização, voltando aos tons contemplativos e etéreos que já tinham impressionado em “Elephant”, originando uma interessante atmosfera ultra-realista próxima de tons documentais (reforçada pela igualmente conseguida fotografia), que infelizmente não tem substrato dramático e narrativo à altura.

Outro dos escassos elementos interessantes da película é a banda-sonora, da qual sobressai uma (boa) canção composta e interpretada por Michael Pitt que denuncia uma clara descendência dos Nirvana. É pena que, para além dessa conseguida cena, onde a música resgata Blake do entorpecimento que o domina, “Last Days – Últimos Dias” pouco mais consiga proporcionar, desperdiçando uma hora e meia que ficará como uma das maiores desilusões cinematográficas de 2005.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

22 comentários:

missixty2000 disse...

Venho de um blog onde acabam de dar 8/10 a este filme e tu dás só 1,5???
Isto confirma a minha teoria,que seria impossível selecionar só filmes bons!Porque as opiniões dividem-se!!
Mas como ainda não o vi, não vou tomar partidos!!Só posso dizer que o actor parece-me girooooooo e que gosto de Nirvana!!

gonn1000 disse...

Eu esperava que fosse bom, mas infelizmente desiludiu-me. Naturalmente haverá quem não concorde comigo, já que este é um filme que ou se adora ou se detesta. Arrisca e tira as tuas próprias conclusões.

Flávio disse...

Dispensável, exactamente.

Só de pensar que o crítico João Lopes deu cinco estrelas a esta merda, até fico fisicamente doente. Mas já se sabe, tudo o que seja americano, para o senhor é lei. O problema do Lopes é o seu provincianismo (no pior sentido). O sonho dele é viver na Quinta Avenida e escrever críticas para o New York Herald Tribune, mas por enquanto terá de se contentar com o Diário de Notícias e a Calçada da Carriche.

www.a-bomba.blogspot.com

Flávio disse...

8/10 a essa caralhada!!

gonn1000 disse...

LOL acho que ele deu 4/5, e não creio que tenha sido pelo facto do filme ser americano. Confesso que já o esperava, uma vez que o JL é um grande apreciador de Van Sant.

missixty2000 disse...

Ei, flávio atenção á linguagem!!Eu por menos já fui limpa aqui...eheheheh!!!quem deu 8/10..foi o blog rollcamera e em outro mulholland-drive deu 5/5.Gonn..estarás a perder qualidades ou sensibildade?

Ne-To disse...

Admito que sou um pouco suspeito no que diz respeito à obra de Gus Van Sant. E sim eu dei 8/10 a este filme ou mais o que quiserem chamar :P

Admito que ja esperava um filme do género, ainda mais quando li o que se disse por Cannes, ou seja, que Van Sant mais uma vez nos iria dar a sua visão da morte, suportado em mais um dos recursos estruturais de uma narrativa... desta vez o som... seja o da musica, do comboio que passa como a vida passa pela personagem (alta velocidade) , seja a imensa queda de água ou o simples estalar da madeira em pleno consumo das chamas. E uma das razões que me leva a não dar os 10/10 é mesmo as palavras... grande parte delas nem deviam ser ditas, e reduzir apenas o filme à sua imagem e ao som.

Não quero me alongar mais... resta-me apenas dizer que ainda bem que a arte é assim e não como uma simples ciência onde o resultado é sempre o mesmo ;)

Cumprimentos

gonn1000 disse...

missixty2000: Então agora perco qualidades ou sensibilidade porque não gostei especialmente do filme (e penso que fui claro ao evidenciar os motivos)? Só porque certos bloggers - ou parte da crítica especializada, ou seja quem for - dão classificações elevadas ao filme sou automaticamente obrigado a gostar dele? Isso é que seria perder a sensibilidade, parece-me.

Ne-To: Claro, tens todo o direito a dar 8/10 ao filme, embora eu discorde dessa classificação, sobretudo porque soubeste fundamentar - como já é habitual - as razões que te levaram a isso.
"Não quero me alongar mais... resta-me apenas dizer que ainda bem que a arte é assim e não como uma simples ciência onde o resultado é sempre o mesmo ;)"
Nem mais, tanto o meu 1,5/5 como o teu 8/10 são opiniões (e, como tal, subjectivas) e não verdades absolutas :)

Ne-To disse...

Gonn1000: prontos a minha é mais verdade que a tua ;)

e ai de mim se algum dia a arte for vista meramente como algo ciêntifico, embora seja verdade que o cinema tende para isso nem que seja meramente formal, já que no interior do ser humano ninguém pode tocar ;)


Cumps

Daniel Pereira disse...

Directamente para o Flávio e claramente em defesa de João Lopes.

A tua afirmação só revela enorme desconhecimento pelo trabalho e "gostos" do senhor. Aconselho-te www.cinema2000.pt onde podes ver isso (relativamente aos últimos 5 anos). Poderás confirmar o seu gosto pelo cinema americano em "Moulin Rouge", "Senhor dos Anéis", "Hulk", etc.

Forte abraço, Flávio.

Spaceboy disse...

E cada vez mais a minha curiosidade aumenta para ver este filme! Adorei os últimos filmes de Gus Vant Sant e tenho esperança que este não me desiluda.

S0LO disse...

Hum, realmente as críticas têm sido as mais diversas. Sinceramente, acho que vou esperar pela versão DVD...pelo menos o aluguer sai mais barato do que a compra :P!

Abraços

gonn1000 disse...

Ne-To: Concordo, mas a minha é mais verdade do que a tua :P

Daniel: É verdade...

Spaceboy: Ok, espero que não te desiluda, já bastou desiludir-me...

SOLO: Sim, aconselho-te a fazeres mesmo isso :)

Francisco Mendes disse...

Um dos filmes do ano!
“Last Days” captura imaculadamente a facilidade do tombo num trágico abismo de depressão, solidão, desespero e abuso de drogas, no qual malogradas almas jazem. É como vaguear numa espécie de purgatório particular. Assistimos ao crepúsculo de uma alma, enquanto a escuridão assola lentamente o seu âmago. Ainda tremo, perante tal imponência de filme. Devastador!

Conto pelos dedos o número de pessoas que assimilarão e compreenderão o filme... a arte é a mesmo isto... contemplação individual!

brain-mixer disse...

Eu não vi o filme e parece-me não o ver tão cedo... À parte Elephant, todo o resto de Van Sant não me entusiasma.

nuno disse...

o gerry foi sem dúvida, um dos filmes que me custou mais ver num cinema. o elephant... exactamente o contrário. ontem tive a oportunidade de ver o dogville à tarde e o manderlay à noite. para quem gostou do dogville, não sairá defraudado da sequela. gostaria de vos aconselhar o binjip do kim ki-duk q estreará em portugal dia 10 de novembro e o caché de michael haneke, q ainda n tem data prevista...

gonn1000 disse...

Francisco Mendes: Decididamente não concordamos mesmo quanto a este filme :)

Brain-Mixer: Não vi todos os seus filmes, mas o que vi oscila entre o interessante e o dispensável.

Nuno: Aconteceu o mesmo comigo no "Gerry" e no "Elephant". Também gostei do "Dogville", por isso aguardo "Manderlay" com alguma expectativa. O "Caché" é que não me convenceu, e do Kim Ki-Duk só vi "Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera", filme pouco entusiasmante.

nuno disse...

eu só gostei até ao Outono:) mas o binjip será uma nova experiência para ti...

nuno disse...

qt ao caché, considero-o o melhor trabalho de realização que vi este ano... mas isto são opiniões;)

gonn1000 disse...

Ok, fico à espera do "Binjip", então...
Acho que o Haneke é um bom realizador, mas em "Caché" o argumento é, na minha opinião, mal explorado, tornando o filme aborrecido e inconsequente.

Anónimo disse...

adorei a sua análise! assisti o filme e acho que ele prende por você esperar sempre que algo vai acontecer. e por aquela atmosférica meio de droga que, quem curte, acaba querendo assistir, mesmo. achei o filme deprê, mas entendo quem gostou. o filme fala de coisas legais... música, fama, drogas. abraços

gonn1000 disse...

Obrigado.
Sim, o filme aborda tudo isso, daí ter ficado com alguma expectativa, e se é verdade que o Van Sant sabe construir atmosferas aqui falhou no argumento, que recorre quase sempre e lugares comuns arty. Dispenso.