quinta-feira, fevereiro 17, 2005

UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA

Há quem acuse Woody Allen de ter entrado numa fase pouco criativa e demasiado repetitiva, com recurso constante aos mesmos ambientes, personagens-tipo e referências.
De facto, os seus últimos filmes não têm marcado propriamente pela surpresa, embora contenham traços de eficácia - os diálogos, sobretudo - que permitem ignorar, pelo menos parcialmente, alguma insistência na auto-citação.

"A Vida e Tudo o Mais" (Anything Else), de 2004, foi talvez o mais refrescante filme do realizador nos últimos anos, convocando o par Jason Biggs/Christina Ricci para uma bem-conseguida comédia romântica.
"Melinda e Melinda" (Melinda and Melinda), a sua nova obra, apresenta uma premissa diferente do filme anterior e aposta na exploração das peripécias de uma personagem - Melinda - segundo duas perspectivas: uma tendencialmente cómica, outra baseada numa vertente mais dramática.

O cinema de Allen sempre conciliou, com maior ou menor intensidade, estas duas componentes, por isso "Melinda e Melinda" não traz nada que o realizador não tenha já abordado. De resto, a história cómica de Melinda adquire, aos poucos, episódios mais dramáticos, enquanto que a história inicialmente trágica incorpora, a espaços, momentos de humor.
Esta interligação, quase inevitável na filmografia do cineasta, já não é propriamente uma novidade, mas tal não seria problemático para "Melinda e Melinda" caso o ponto de partida fosse trabalhado com consistência e uma forte carga inventiva. Contudo, esta(s) história(s) de uma mulher emocionalmente vulnerável que encontra algum calor humano ao interromper um jantar de amigos e vizinhos - naturalmente, ligados ao meio artístico -, que até começa de forma promissora, não gera muitas surpresas ou particular envolvência.

O tipo de personagens de "Melinda e Melinda" segue a linha habitual de Allen, ou seja, são neuróticas q.b., vivem amores desencontrados e encontram-se algo desorientadas.
O problema é que nenhuma suscita muita empatia ou complexidade, em parte porque não há nenhuma que seja muito explorada, com eventual excepção da(s) protagonista(s). É pena, porque no vasto elenco há actores que mereciam personagens mais fortes e consistentes - Chloë Sevigny (sempre apelativa, ainda que subaproveitada), Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor ou mesmo um irregular Will Ferrell -, mas que aqui mais não são do que figuras bidimensionais e pouco carismáticas.
A protagonista Radha Mitchell é competente, mas Melinda - tanto na vertente cómica como na dramática - não é uma personagem especialmente aliciante, e por isso o filme nunca chega a conquistar.

Claro que, sendo "Melinda e Melinda" produto da criatividade de Woody Allen, contém ainda episódios cativantes e divertidos, com cenas bem-escritas e profissionalmente filmadas, mas o resultado final é demasiado fragmentado e inconstante.

O filme é geralmente agradável de seguir, mas pouco mais do que isso, nunca efectuando muitos desvios a uma rotina que tem marcado a obra recente do realizador.
"Melinda e Melinda", apesar de algumas tentativas de inovação na forma, acaba por ser mais do mesmo em termos de conteúdo e apresenta Woody Allen em piloto automático, sem grandes ousadias ou rupturas. No entanto, esta opinião poderá variar e ser contrariada, mediante o ponto de vista, pois as formas de perspectivar uma história são, como o filme demonstra, múltiplas e abrangentes.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

8 comentários:

FDV disse...

colocando de parte a [interessante] perspectiva sobre o cinema de woody allen, gostaria de saber se tens alguma informação [ou fonte de informação] sobre os pinhead society. [por curiosidade ouvi algumas músicas da tua rádio e uma delas é desta banda-promessa-adiada].

grato pela atenção.

cumprimentos.

gonn1000 disse...

Infelizmente não te posso ajudar, porque já não sei nada da banda há uns anos...Mas realmente prometiam muito,sobretudo a vocalista. Mas sempre podes recordá-los com o "Kings of Our Size"...

JGSC disse...

Um dos problemas que eu tenho com o Woody Allen (embora goste dele)é o de cada vez mais ter a sensação que ele está constantemente a oferecer o mesmo...

O Puto disse...

De facto reparo que a(s) personagem(ns) de Melinda não se destacam como protagonista(s). As verdadeiras protagonistas são as situações caricatas e a ironia da vida, tão características nos filmes de Woody Allen.

gonn1000 disse...

JGSC: Já somos 2...

O Puto: Sim, talvez demasiado características...

sandra disse...

eu sou ultra-fã de Woody Allen. Este Melinda e Melinda tem alguns pontos interessantes mas não convence. tenho pena...

becksfan

gonn1000 disse...

Pois, não o acho nem melhor nem pior do que os filmes que tem feito ultimamente...

Anónimo disse...

Keep up the good work »