terça-feira, abril 03, 2007

UM PAÍS (E UM REALIZADOR) EM CRISE

Mesmo antes da estreia, "O Caimão" (Il Caimano) era já alvo de alguma controvérsia por se tratar de uma suposta sátira a Silvio Berlusconi, e a dúvida prendia-se com o facto de saber qual seria a abordagem empregue por Nanni Moretti na sua perspectiva sobre o ex-primeiro-ministro italiano.

Ora, apesar desse ter sido o motivo pelo qual o filme gerou mais burburinho, comprova-se agora que esta está longe de ser uma obra que se reduza a uma arma de arremesso, não se centrando somente na crítica a uma figura política uma vez que conta com um argumento que engloba muitos outros elementos. Demasiados, talvez, porque esta história sobre Bruno Bonomo, um produtor de filmes de série-Z em crise - não só profissional como familiar - que encontra na parceria com uma jovem realizadora o impulso para dar um novo sentido à sua vida perde-se constantemente em indecisões e contrastes de tom.

Moretti tanto investe nos dilemas do drama conjugal do seu protagonista como nos episódios dos bastidores cinematográficos que preenchem o dia-a-dia deste, não deixando, claro, de oferecer um olhar sobre Berlusconi, que não por acaso é a figura sobre a qual o filme-denúncia de Bruno se debruça (e aqui entra a lógica de "filme-dentro-do-filme").

Muito para condensar numa só obra? A julgar pelo resultado de "O Caimão", sim, já que esta oscilação entre o retrato da crise da meia idade, do declínio do cinema italiano e das convulsões políticas e sociais da Itália dos últimos anos nunca atinge um ponto de equilíbrio, desperdiçando as potencialidades de um filme que raramemente entusiasma.
O problema nem é só a dispersão do argumento, uma manta-de-retalhos que foca questões relevantes sem as desenvolver convenientemente, antes o facto de "O Caimão" falhar tanto quando tenta a comédia como o drama, tornando-se num objecto cada vez mais indiferente e arrastado e que convida ao bocejo durante as suas duas (longas) horas de duração.
Face a estes desapontantes predicados, de pouco serve a competência do elenco, desperdiçado num filme sisudo e sem chama.

Moretti faz da tensa e angustiante situação do seu protagonista um eco dos sintomas que afectam a Itália de hoje, que de acordo com o filme se encontra imersa num contexto de hesitações - perdida, desnorteada e descaracterizada. Ironicamente, estes são também males de que "O Caimão" acaba por sofrer.

E O VEREDICTO É:
1,5/5 - DISPENSÁVEL

4 comentários:

Kraak/Peixinho disse...

HAHAHA! Naum há paciência para Nanni Moretti.

gonn1000 disse...

Bem, neste caso de facto não tive muita, não :/

Bracken disse...

Nanni Moretti é um dos mais brilhantes realizadores europeus e este "O Caimão", apesar de ser um filme-propaganda, não é inferior aos anteriores. Tive a felicidade de ver o Nanni ao vivo este sábado, no Monumental (é pena não poder escrever "conheci-o pessoalmente") e ouvi-lo foi uma bênção, uma espécie de livro de instruções sobre o filme. Espero que o revejam, com outros olhos.
Um forte abraço,
Bracken

gonn1000 disse...

Dele apenas vi este e "O Quarto do Filho", mas nem um nem outro me convenceram especialmente. Quando chegar aos anteriores logo esclareço as dúvidas.
Abraço e bons filmes.