segunda-feira, abril 02, 2007

CINEMA - TOP 10 2006: OS MELHORES

(Post "um pouco" atrasado, eu sei, mas não queria deixar estas escolhas de fora...)

2006 foi um ano de muitos bons filmes, mas poucos realmente marcantes e perto da excelência (ao contrário de 2005, por exemplo, quanto a mim com mais obras acima da média). Dos 145 que vi no cinema - não incluindo os que só foram exibidos em festivais - estes foram os meus preferidos:


1 - «Voltar» - tudo sobre as mães delas
Longe do negrume claustrofóbico do anterior (e brilhante) "Má Educação", Almodóvar
regressou com um filme que, se infelizmente não gerou o consenso de um "Tudo Sobre a Minha Mãe", não deixa de figurar entre os melhores momentos da sua filmografia. Comovente, sensível e maduro como poucos, "Voltar" é um prodígio a todos os níveis, da apurada realização ao sólido argumento, embora o maior destaque vá para o elenco, mais uma vez irrepreensível. Que o diga Penélope Cruz, actriz irregular que aqui arranca, provavelmente, o seu melhor desempenho de sempre, na pele da memorável Raimunda.

2 - «Munique» - guerra e paz
Algumas obras recentes de Steven Spielberg ("Relatório Minoritário", "Guerra dos Mundos") têm sido contaminadas por interessantes zonas de sombra, mas em "Munique" esse carácter soturno vai mais além. Partindo do atentado nos Jogos Olímpicos de 1972 para propor um olhar complexo e inquietante sobre o conflito israelo-árabe e, em última instância, sobre a ambiguidade humana, "Munique" não se limita a lançar bases de reflexão, pois é também um thriller feito com um profissionalismo ímpar e um drama implacável, dispensando facilitismos hollywoodescos. E um dos grandes filmes do ano.

3 - «O Segredo de Brokeback Mountain» - amor e ovelhas
Um dos mais mediáticos filmes de 2006, este é igualmente um dos mais estimulantes, confirmando não só a versatilidade de Ang Lee, realizador que raramente desaponta independentemente do registo em que se mova, como a dos seus dois protagonistas: Jake Gyllenhaal e Heath Ledger. Se as capacidades interpretativas do primeiro actor não são novidade, as do segundo revelam-se aqui como nunca antes, e juntos construíram uma das mais dolorosas e pungentes histórias de amor vistas no grande ecrã durante o ano.

4 - «Match Point» - o jogo
O percurso recente de Woody Allen parecia colocá-lo entre os cineastas seguros e confiáveis, mas já pouco inovadores, limitando-se a repisar territórios que lhe proporcionaram, noutros tempos, epítetos mais auspiciosos. Com "Match Point", contudo, tudo muda. A acção passa de Nova Iorque para Londres, a omnipresente Scarlett Johansson recebe o título de nova musa e o filme apresenta uma elegância e engenho como há muito não se via na obra do realizador. Eis um regresso surpreendente.

5 - «A Senhora da Água» - o ilusionista
Não era fácil superar "A Vila", o filme anterior de M. Night Shyamalan e o mais belo que realizou. Ainda não é "A Senhora da Água" que consegue fazê-lo, mas a espaços este conto de fadas para adultos está lá muito perto, evidenciando o perfeccionismo e a singular sensibilidade que distinguem o jovem realizador no cinema actual. Recheado de sequências de antologia com algumas das mais inesquecíveis imagens do ano (enriquecidas pela excelente banda-sonora de James Newton Howard ), o filme gerou reacções extremas mas, para quem estiver disposto a compreendê-lo, fica como um dos melhores momentos de uma filmografia irregular, mas muito interessante.

6 - «O Tempo Que Resta» - a última hora
Já se suspeitava que François Ozon era um realizador a ter em conta, mas até agora ainda não tinha apresentado um filme tão envolvente e memorável como "O Tempo que Resta". Belo e sóbrio drama sobre os últimos dias de um jovem fotógrafo confontado com uma doença mortal, possibilitou também a Melvil Poupaud uma das interpretações mais comoventes do ano. A melhor surpresa do cinema francês de 2006 mora aqui.

7 - «Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue» - África deles
No mesmo ano em que levou às salas a malograda sequela de "Instinto Fatal", Michael Caton-Jones gerou também "Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue", obra que compensa em falta de mediatismo o que oferece em densidade e acutilância. Propondo um olhar sobre o contexto conturbado do Ruanda, é um filme de uma rara intensidade e realismo, fugindo das armadilhas que facilmente surgem quando Hollywood decide abordar situações que vitimam países do terceiro mundo. A (re)descobrir.

8 - «Em Paris» - o meu irmão, eu e o meu irmão
"Minha Mãe" já tinha provado que Christophe Honoré era um nome a ter debaixo de olho, e "Em Paris" felizmente confirma-o. Nos antípodas do filme antecessor, este é um drama familiar que incide em particular na relação de dois irmãos, interpretados por dois dos mais talentosos jovens actores franceses: Romain Duris e Philippe Garrel. Experimental mas longe de hermética, "Em Paris" é uma obra inspirada e calorosa, deixando muita curiosidade quanto ao próximo tabalho do realizador francês.

9 - «O Paraíso, Agora!» - coragem debaixo de fogo
Inesperada surpresa oriunda da Palestina, este é um retrato de dois terroristas suicidas saturados das consequências que o conflito traz ao seu quotidiano. Hany Abu-Assad convence por nunca simplificar as situações e personagens, apresentando um filme com figuras tridimensionais em vez de estereótipos. A direcção de actores é fundamental, e o protagonista Kais Nashef, até aqui desconhecido, é mesmo responsável por uma das interpretações mais impressionantes do ano.

10 - «Ninguém Sabe» - irmãos inseparáveis
Modesto, mas magnético, este drama centrado em quatro pequenos irmãos que têm de sobreviver sozinhos na ausência da mãe é a primeira obra de Hirokazu Kore-eda a estrear em salas nacionais. Infelizmente, porque a julgar pela subtileza com que o realizador consegue desenhar prosaicas cenas do dia-a-dia, a par de uma forte densidade emocional, fazem dele um cineasta que não merece passar despercebido entre os muitos do novo cinema japonês.

Os 10 seguintes:

«Os Amigos de Dean», de Arie Posin
«Transamerica», de Duncan Tucker
«Finais Felizes», de Don Roos
«Babel», de Alejandro González Iñárritu
«V de Vingança», de James McTeigue
«Wolf Creek», de Greg McLean
«Walk the Line», de James Mangold
«X-Men: O Confronto Final», de Brett Ratner
«Alguns Dias em Setembro», de Santiago Amigorena
«Voo 93», de Paul Greengrass

12 comentários:

Spaceboy disse...

Não percebo o que é que o match poin faz só em 4º lugar. nem no pódio está. não percebo.

gonn1000 disse...

Ah, gostei (quase quase) tanto dele como dos que estão em 3º e em 2º, mas as listas numeradas têm destas coisas :)

Spaceboy disse...

mas é que ele merecia era o 1º lugar e nem há mais discussões. o mar adentro é um belo filme, mas a genialidade do woody allen no match point aliada à beleza e grandiosidade da scarlett johansson só merece o 1º lugar, nada abaixo.

gonn1000 disse...

"Mar Adentro"? Esse foi em 2005 :P
De qualquer forma, a genialidade do Almodóvar no "Volver" aliada à beleza e grandiosidade da Penélope Cruz só merece o 1º lugar, nada abaixo ;)

Barão da Tróia II disse...

Bela lista, só consegui ver 3, espero pelo DVD e que o meu puto tenha 18 anos, lololol, boa semana.

gonn1000 disse...

Obrigado, vá lá 3 em 20 não é assim tão mau...

_Loot_ disse...

145 filmes uau :)
Continuo a achar que o Munique é sobrevalorizado.

gonn1000 disse...

"Munique" foi pouco consensual, mas acho que é dos melhores que o Spielberg fez ultimamente e o Eric Bana está brilhante.

Spaceboy disse...

eu queria dizer o volver. e o almodovar já mostrou mais genialidade noutras obras. a penélope é linda e é uma boa actriz, mas não tem aquele click, aquela aura que a scarlett tem.

gonn1000 disse...

A aura que lhe dá para participar em videoclips de gosto (muito) duvidoso? :P

Sim, ela vai bem no "Match Point", mas o "Volver" disse-me mais, embora seja visto por muitos como um Almodóvar "menor" e o "Match Point" como um regresso em grande do Allen (neste último aspecto concordo, mesmo não o elegendo como filme do ano).

kimikkal disse...

"O paraíso, agora!" foi para mim a surpresa do ano, primeiro porque o enredo parece diferente no início do que realmente é, depois porque é um filme surpreendentemente acessível sem no entanto entrar em facilitismos holywoodescos e finalmente porque saímos do cinema com uma ideia diferente do que é a Palestina.

gonn1000 disse...

Concordo, foi uma revelação inesperada mas muito bem-vinda.