sexta-feira, novembro 05, 2004

O INCLASSIFICÁVEL ADOLESCENTE DAS NEVES

Um dos raros exemplos do cinema originário da Islândia que chega a salas nacionais, "Nói, o Albino" (Nói Albinói) foi um dos filmes-sensação do primeiro Indie LX e marca a estreia de Dagur Kari na realização.

Exceptuando discos de projectos como os Gus Gus, Múm, Sigur Rós ou a incontornável Bjork, pouco mais se conhece sobre a música, o cinema ou outras artes originadas em solo islandês. "Nói, o Albino", um singular filme que tem causado algum burburinho internacionalmente, abre uma pequena porta de entrada para o pouco conhecido contexto cinematográfico da Islândia.

Dagur Kari apresenta uma obra que se centra no quotidiano de Nói, um adolescente albino de uma pequena povoação islandesa que exibe um comportamento algo atípico. Apesar de tímido, introvertido e pouco conflituoso, Nói adopta atitudes que expressam um considerável inconformismo e rebeldia, tornando-se num caso problemático para a direcção do seu liceu.

Considerado um solitário sisudo pela maior parte dos que o rodeiam, Nói é percepcionado de forma um pouco diferente por um psiquiatra que o analisa e encontra nele traços de genialidade e brilhantismo. Entregue a uma realidade fechada, amorfa e pouco auspiciosa, o jovem tenta encetar novas vias que lhe permitam chegar a um local mais inspirador e inóspito, almejando fugir da sua terra-natal com Iris, uma rapariga por quem se apaixona. Todavia, o destino parece não favorecer as suas tentativas de prosseguir por um rumo mais encorajador, lançando-o numa espiral de impotência e incompreensão. Envolto num contexto frio e gélido (literal e simbolicamente), Nói apenas encontra algum calor humano nos momentos em que está com Iris, a única pessoa na qual se revê. No entanto, nem mesmo a relação com a jovem lhe permite afastar-se do fantasma da solidão e isolamento.

"Nói, o Albino" retrata, então, as experiências de um jovem outcast, genial mas inadaptado, frágil mas nunca resignado. Dagur Kari proporciona um filme intrigante e incomum, ainda que prejudicado por um ritmo demasiado pausado, moroso e, a espaços, quase letárgico. Se, por um lado, o desenvolvimento consideravelmente lento e pouco dinâmico da narrativa permite gerar alguma envolvência num ambiente rural, calmo e apaziguado, por outro essa falta de ritmo suscita diversos momentos de tédio e desinteresse por uma personagem (bem interpretada por Tomas Lemarquis) e uma história promissoras.
Kari ilustra a vida prosaica de Nói com múltiplas cenas do seu quotidiano, expondo a falta de perspectivas de um jovem enclausurado numa realidade a que não quer pertencer, contudo as sequências de episódios intencionalmente banais e comuns acabam por despoletar mais tédio do que entusiasmo.
O cineasta consegue, ainda assim, gerar uma peculiar atmosfera que transpira melancolia e desolação - as impressionantes paisagens islandesas ajudam, assim como a soturna e minimalista música dos Slowblow (banda da qual o realizador faz parte)-, ainda que pequenos exemplos de gags humorísticos se atrevam a surgir pontualmente, oferecendo cenas com alguma excentricidade.
Dagur Kari gera uma curiosa primeira obra acerca das dores do crescimento, dos processos de adaptação e da falta de comunicação, criando um filme próximo da esquizofrenia desconcertante e hipnótica de "Donnie Darko". "Nói, o Albino" não será tão marcante e surpreendente como esse soberbo filme de Richard Kelly, sendo afectado por uma crescente falta de ritmo e um argumento demasiado fragmentado, mas oferece uma interessante porta de entrada para territórios cinematográficos pouco divulgados.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

2 comentários:

Scott Arthur Edwards disse...

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Anónimo disse...

Não sei bem como descreve-lo por isso deixo a citação:
"De só sentir a terra e o céu
Tão belos ser;
Quem de si sente que perdeu
A alma para os ter." Pessoa

Não chego a perder, muito menos a alma, mas o filme consegue tocar pela fina beleza..