quinta-feira, setembro 07, 2006

TUDO SOBRE A MÃE DELAS

No anterior "Má Educação", Pedro Almodóvar regressou aos ambientes negros e sinistros que caracterizaram a primeira fase da sua filmografia, proporcionando uma das suas obras mais sombrias e inquietantes, com uma frieza que contrastava com os calorosos melodramas "Fala com Ela" e "Tudo Sobre a Minha Mãe".

Com "Voltar" (Volver), o cineasta afasta-se desses domínios marcados pela obsessão e pelo desejo e volta a apostar nos elementos que notabilizaram essas suas duas muito aclamadas películas: um elenco maioritariamente feminino, a abordagem dos laços familiares e da morte, e atmosferas desprovidas da irreverência e até mesmo bizarria presente nos seus filmes iniciais.

"Voltar" aborda a história de duas irmãs, Raimunda, uma empregada de limpeza cuja vida problemática se torna ainda mais conturbada quando a filha mata o seu marido em legítima defesa, e Sole, uma supersticiosa e insegura cabeleireira clandestina que, após a morte da tia, começa a ter visões da mãe, falecida há meses.

Noutras mãos, uma premissa destas poderia gerar um rocambolesco drama de faca e alguidar com pózinhos de esoterismo saloio (e tão na moda), mas Almodóvar trabalha-a com inteligência e maturidade num filme que expõe um envolvente olhar sobre as cumplicidades, segredos e mentiras do universo feminino, temática que não é nova - longe disso - mas que o realizador abordou quase sempre com sensibilidade e consistência.

Mais sóbrio e contido do que histriónico e garrido, "Voltar" é um melodrama que incorpora traços do suspense e está também muito bem condimentado por irresistíveis momentos de humor, sempre acessíveis mas nunca banais, surgindo espontaneamente entre a melancolia e o desencanto que ocupam grande parte do filme.

Inspirando-se em situações vividas na sua vila natal, La Mancha, área onde decorre parte da acção, Almodóvar retrata aqui a relação das mulheres locais com a morte, em que estas têm por hábito falar com os falecidos, tentando colmatar assim a dor da perda. A dor é, aliás, um dos elementos que une as personagens de "Voltar", figuras cujas vidas pouco prósperas apenas encontram refúgio no seu espírito de partilha e entre-ajuda.

Apesar das muitas lágrimas que polvilham o filme, este não apresenta um pingo de sentimentalismo flácido ou oportunista, emanando uma palpável genuinidade. A responsabilidade é tanto das subtilezas do argumento e da realização de Almodóvar como do soberbo elenco (justamente premiado no festival de Cannes), uma vez que todas as actrizes defendem muito bem as suas personagens.

Penélope Cruz, geralmente uma actriz de escassos recursos, apresenta aqui um desempenho muito convincente, tornando Raimunda numa protagonista carismática e interessante de seguir. Lola Dueñas, no papel da frágil Sole, oferece outra segura composição, assim como Blanca Portillo, comovente na pele de Agustina, a dedicada amiga das irmãs. Carmen Maura, uma das veteranas no cinema de Almodóvar, acrescenta mais uma forte interpretação à sua sólida carreira, e até Chus Lampreave, a memorável velhinha que tinha um lagarto chamado "Dinheiro" em "Que Fiz Eu Para Merecer Isto?", tem uma breve participação.

Muito bem escrito, filmado e interpretado, "Voltar" confirma que os últimos anos têm mesmo consolidado a fase áurea do cineasta espanhol, e merece lugar cativo entre os filmes indispensáveis de 2006, sendo também um dos melhores trabalhos do realizador, o que não é dizer pouco.
E O VEREDICTO É: 4,5/5 - MUITO BOM

22 comentários:

Andre disse...

Eu tb gostei muito.

P.R disse...

Tenho muita curiosidade para ver este filme. Quando é que estrei cá, sabes?

brain-mixer disse...

Fiquem com a notícia de que criei um SPIN-OFF do brain-mixer!! ;)

Visitem já em:
brain-poster.blogspot.com

gonn1000 disse...

André: Também foste ao S. Jorge? Se calhar vi-te :)

P.R.: Tanto quanto sei, a estreia só está prevista para Setembro.

Brain-Mixer: Já já?? Ok, já lá fui :)

Joana C. disse...

Sou uma grande fã do cinema do Almodovar e estou ansiosa por ver este filme que, segundo tenho lido também noutros sítios, é muito bom.

180min disse...

desiludiu-me este volver, não há dúvidas de um almodóvar. o argumento não me supreendeu, mas a realização superou isso...

quantos às mulheres, Carmem Maura está perfeita, Penelope Cruz não me convence ainda (e podiam ter evitado aquele playback doloroso), Lola Duenas foi tão sobreaproveitada e Yohana Coba manifestamente frágil.

os homens são preteridos, mas parecem mover grande parte da acção.

no entanto, é um bom filme. longe de ser uma grande obra de almodovar.

gonn1000 disse...

Joana C.: Então não deverás sair desiludida :)

180mim: O argumento não é especialmente surpreendente, mas está muito bem conseguido. Pois, a cena do playback poderia ter sido feita de outra forma, mas não creio que prejudique muito o resultado global.

Andre disse...

Gonn, pois fui sim senhor.
Eu acho o filme confortavelmente previsível. Não sendo uma grande história é uma boa história. Se calahar até adivinhamos tudo o que lá se passa, mas está tão bem contado que acaba por surpreender.
Qt ao playblack da penelope, eu acho que é mais que assumido. E depois?

gonn1000 disse...

Acho que o segredo é mesmo estar muito bem contado. Não sei se o playback era para ser assumdio, mas se não era estava muito mal disfarçado.

iLoveMyShoes disse...

:) Sou um fã do Sr. Almodovar. E este filme não me desapontou. A verdade é que ele já não tem que nos surpreender (o que por acaso acho que aconteceu com Má Educação, mas isso é outra história). Volver é simplesmente delicioso e a Senhora Dona Penelope está de facto fantástica, muito espanhola, muito guapa.

Mário Lopes disse...

Direita Volver :P (Que piada tão seca...lol).

Gostei da análise. Espero ver e gostar do filme aquando da sua estreia nas salas de cinema.

Abraço

gonn1000 disse...

iLoveMyShoes: Não gosto de todos os filmes dele, mas este, sem inovar, consegui convencer-me. E acho que o "Má Educação" ainda foi surpreendente q.b.

Mário Lopes: Acho que vais gostar, sim.

H. disse...

espero que estreie em breve, se já tinha mta expectativa, agora ainda mais...

gonn1000 disse...

À partida julgo que só mesmo em Setembro, mas os calendários das estreias não são muito fiáveis, de qualquer forma...

Jo disse...

Gostei muito de sua crítica, me deu vontade de ver o filme...

gonn1000 disse...

Obrigado, espero que também gostes do filme.

Hugo Alves disse...

Aquele segmento final é uma das chaves do filme (refiro-me ao filme que passa na televisão). Tenho por hábito dizer que Visconti é uma luz que ilumina. Mas neste caso é mais do que óbvio.

Nestas coisas não há coincidências. Volta-se sempre à base. E Almodóvar também. Pela mão de Visconti.

gonn1000 disse...

Não conheço a obra de Visconti, logo não posso fazer comparações.

Hugo Alves disse...

O Cinema é um produto histórico. E este Volver confirma-o. As influências são explicitas e Visconti é mostrado de explcitamente. O filme que passa na TV é Bellissima e é uma chave que permite ler as relações entre mãe e filha...
Dá jeito conhecer umas coisas às vezes

gonn1000 disse...

Ok, esclarecido, não tinha apanhado essa referência, acho que conheço algumas coisas mas não há tempo para tudo ;)

sónia disse...

por segundos pensei que me ia desiludir , mas qual que ... gostei mesmo ! gostei tambem do " nao te movas " tambem com a penelope cruz , recomenda-se ...

gonn1000 disse...

Não é um filme muito bem cotado, mas vi-o duas vezes e só melhorou. O "Não te Movas" é que não cheguei a ver, mas consta que aí a Penelope também teve um bom desempenho.