domingo, maio 20, 2007

O DESAFIO FINAL (POR ENQUANTO...)

No meio das inúmeras adaptações de super-heróis de comics norte-americanos que têm enchido as salas de cinema nos últimos anos, os dois primeiros filmes do Homem-Aranha destacaram-se por uma rara consistência e intensidade. Sam Raimi, cineasta que já tinha dado cartas em domínios do fantástico mais marginal, saiu-se bem na confecção de dois blockbusters que, apesar dos orçamentos elevados e de generosas doses de efeitos especiais, nunca perderam o rumo e acertaram na exploração das contrariedades e dilemas de Peter Parker e do seu alter-ego.

Com bons resultados nas bilheteiras e alguns aplausos da crítica, esses dois episódios levaram a que "Homem-Aranha 3" (Spider-Man 3) tente agora elevar ainda mais a fasquia, e não faz a coisa por menos: é o filme mais caro de sempre, onde foram empregues mais de 250 milhões de dólares, e estreia em 4253 salas nos EUA, também este um recorde. A ambição reflecte-se ainda no argumento, recheado de linhas narrativas que seguem as ameaças com três vilões, a sempre conturbada vida pessoal do protagonista - marcada por um eventual novo interesse amoroso - e a descoberta do seu lado negro, que lhe impõe um decisivo conflito interior.

Ao longo de mais de duas horas, Raimi apresenta um blockbuster dinâmico, com direito às melhores sequências de acção e efeitos especiais que o dinheiro pode pagar, estando neste aspecto uns passos à frente das já muito impressionantes cenas dos dois capítulos antecessores.
Mas, como nem só destes elementos vive a saga - e ainda bem -, "Homem-Aranha 3" dá continuidade à relação entre Peter Parker e Mary Jane, que aqui se complica quando o Homem-Aranha se torna mais popular do que nunca e é constantemente aclamado e homenageado pelos cidadãos de Nova-Iorque. Este contexto leva a que o filme invista nas consequências da fama, debruçando-se sobre as alterações na personalidade do herói e no peso que a crescente vaidade acaba por ter nas suas relações quotidianas. A passagem da humildade para a arrogância é incentivada pela incorporação de um simbionte alienígena que, para além de gerar mutações no uniforme do aracnídeo - tornando-o negro - encoraja a disseminação dos seus sentimentos mais obscuros, egoístas e mesquinhos.

A fase do uniforme negro é uma das mais emblemáticas da história do Homem-Aranha na B.D., lançando a personagem para novos desafios e alargando a sua já habitualmente considerável dose de problemas. Neste caso, está em causa o fascínio de Parker com os seus poderes, levado a um limite excessivo que compromete as qualidades humanas que os seus amigos e parentes mais próximos lhe reconheciam. Não menos importante é a criação de um novo arqui-inimigo que este novo uniforme acabará por originar - Venom, o alter-ego de Eddie Brock, fotógrafo rival do protagonista.

"Homem-Aranha 3" fica um pouco aquém das expectativas na abordagem destas batalhas interiores do herói, que embora proporcionem alguns momentos densos e empolgantes também suscitam dispensáveis cenas óbvias e caricaturais, com gags demasiado forçados e exagerados. Também não ajuda o facto da narrativa ter de dar espaço a mais dois antagonistas: o Duende-Verde, encarnado por um Harry Osborn que pretende reagir violentamente à morte do pai (decorrida no primeiro filme); e Sandman, um presidiário em fuga da polícia que, devido a um acidente, obtém a capacidade de se transformar em areia e de a manipular. Estes dois casos servem como pretexto para uma análise à hipótese de regeneração, em especial o de Sandman, que ao contrário do que havia sido revelado é o autor do assassinato do tio de Parker. Assim, para além de batalhas com o seu ego o Homem-Aranha tem ainda de lidar com a sede de vingança e com a possibilidade do perdão, elementos que não coabitam e em relação aos quais o herói terá de optar.

À semelhança do que ocorreu no final da trilogia dos mutantes da Marvel, em "X-Men - O Confronto Final", de Brett Ratner, também "Homem-Aranha 3" condensa muitas histórias e personagens num só filme, desenvolvendo uma teia de enredos que nem sempre são explorados da forma mais frutífera. Mesmo assim, as cerca de duas horas e meia não se tornam cansativas pois Raimi consegue imprimir aqui uma energia contagiante e a mistura de drama, comédia e acção, já convincente nos episódios anteriores, volta a resultar.

O elenco mostra-se novamente à altura, sobretudo o par Tobey Maguire/Kirsten Dunst, irrepreensíveis na pele de Peter Parker e Mary Jane, e as novas caras são boas adendas, já que Thomas Haden Church e Topher Grace não desapontam como Sandman e Venom, respectivamente. Algo subaproveitada é Bryce Dallas Howard, que encarna uma Gwen Stacy de relevância questionável para o argumento, e pelo meio premeiam-se os mais atentos com os inevitáveis cameos de Stan Lee e Bruce Campbell. Igualmente obrigatória - e hilariante - é a presença de J.K. Simmons, escolha perfeita para interpretar J. Jonah Jameson, o inimitável director do jornal onde Parker trabalha.

Com uma segunda trilogia já prevista - o primeiro capítulo estreará em 2009 -, a saga do herói não ficará por aqui, ainda que seja duvidoso que as próximas aventuras contem com esta equipa. Seja como for, "Homem-Aranha 3" oferece um bom desenlace (provisório) que, se não tem a carga refrescante do primeiro filme nem a solidez dramática do quase imbatível "Homem-Aranha 2", ficará certamente como um dos blockbusters mais entusiasmantes deste ano. Sam Raimi volta a demonstrar os seus méritos de artesão criativo e, mesmo sem acrescentar muito aos dois filmes anteriores, cria mais uma cativante proposta de entretenimento escapista daquela que é já a melhor saga cinematográfica de sempre inspirada numa personagem dos comics.

E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM

13 comentários:

wasted blues disse...

Já vestiste a t-shirt e o boné? :P

gonn1000 disse...

LOL ah também estavas lá? Ainda não, ainda não... ;)

Carlos Pereira disse...

Estava a ver que tinha sido o único a gostar minimamente do filme ;)

gonn1000 disse...

Ainda bem que não :)

wasted blues disse...

Estava ;) Mas eu fiquei muito desiludida com este filme...

gonn1000 disse...

Pois, era complicado reconhecer-te, a menos que estivesses com uma t-shirt do teu blog ou assim...

Barão da Tróia II disse...

Também gostei, do 300 nem por isso, boa semana

gonn1000 disse...

Gostei de ambos, mas mais deste. Boa semana.

Gonçalo Trindade disse...

Bom entretenimento... mas nada mais. Acredito, no entanto, que este filme será um dos melhores blockbusters do ano.

E o filme mais caro de sempre é o "Guerra e Paz", de Sergei Bondarchuk, um gigantesco épico que adapta a obra de Tolstoy num filme de oito horas.

Finalmente... Eesperei tanto tempo, aguardando a oportunidade certa de partilhar esta pequena informação com alguém. Mas essa oportunidade nunca aparecia. E como não podia dizer aleatoriamente "Ah e tal há este filme de 8 horas ah e tal que é o mais caro de sempre", fui ansiosamente esperando até chegar a minha altura... Mas a oportunidade nunca aparecia... nunca! Até agora! Graças ao "Spider-Man 3" e, acima de tudo graças a ti, Gonçalo, finalmente pude partilhar esta informação! BWHAHAHAHA! Obrigado, Sam Raimi! Obrigado, Gonçalo!

E agora já só me falta ver o raio do filme de oito horas... a ver se compro o DVD.

gonn1000 disse...

LOL, ainda bem que pude ajudar, então, mas segundo outras fontes o novo Spidey é mesmo o mais caro de sempre.
Fica bem e bom filme ;)

Ricardo disse...

Gonçalo,

A melhor saga. Que ainda consideres melhor que os X-men ainda dou por barato mas melhor que os Batman, os de Burton e Nolan? O defeito do Homem-Aranha para mim vai ser sempre o mesmo: o público alvo, que é feito para os adolescentes, mais do que qualquer outro herói de BD.

Abraço,

Morgana disse...

finalmente vi este filme, com um balde de pipocas à frente. foi um belo entertenimento de sábado á tarde.
sabe bem ter um herói por perto de vez em quando ;)

gonn1000 disse...

Ricardo: Sim, acho qualquer filme do "Homem-Aranha" superior a qualquer "Batman", até mesmo o terceiro. Não sou fã de Burton e do homem-morcego o meu preferido até é capaz de ser o do Nolan.

Morgana: Não é o melhor filme do Aranha mas o entretenimento não sai comprometido.