quarta-feira, março 09, 2005

VERA CHEIA DE GRAÇA

Mike Leigh tem vindo a distinguir-se como um dos mestres do cinema realista britânico, e alguns títulos da sua filmografia – os emblemáticos “Nú” (Naked) ou “Segredos e Mentiras” (Secrets and Lies), por exemplo - atestam a sua capacidade para proporcionar credíveis e minuciosas atmosferas habitadas por um quase sempre notável e muito profissional elenco. Contudo, o cineasta acusava, no seu filme anterior, “Tudo ou Nada” (All or Nothing), sinais de algum esgotamento de ideias ao enveredar por uma pouco surpreendente auto-citação, repetindo os mesmos tipos de temas e personagens.

“Vera Drake”, a sua obra mais recente, mantém os tons realistas e os traços de drama familiar mas inova ao debruçar-se agora sobre uma temática específica, polémica e actual: o aborto. A película é já uma das mais elogiadas e premiadas de Leigh – conquistando as distinções de melhor filme e melhor actriz no Festival de Veneza e seis prémios da British Independent Film Awards, entre outros galardões e nomeações – e, por isso, suscitava expectativa q.b. e fazia prever uma perspectiva peculiar sobre um tema incontornável.

No entanto, e embora possua óbvios méritos, “Vera Drake” é um daqueles casos onde o burburinho que antecipou a sua estreia entre nós funcionou contra si, uma vez que o filme não apresenta assim tantas qualidades que o tornem num objecto tão único e marcante.

No cerne da acção encontra-se uma mulher de meia-idade, mãe, esposa e empregada de limpeza dedicada, proveniente de humildes meios londrinos do pós-Segunda Guerra Mundial. O que torna Vera diferente de tantas outras mulheres é o facto de praticar, desde há vários anos, abortos clandestinos a múltiplas jovens, elaborados em condições precárias e limitadas. Vera esconde este facto da própria família, embora seja já uma figura conhecida entre um restrito círculo de mulheres que a encaram como uma presença confiável, segura e com provas dadas dentro desates conturbados processos.

A realização destes actos, encarados como criminosos e moralmente condenáveis segundo a legislação da época, não é motivada por qualquer interesse económico – são feitos a título gratuito -, e derivam apenas das consideráveis doses de generosidade e altruísmo que Vera emana naturalmente (auxiliando assim, segundo ela, as atormentadas jovens na resolução dos seus problemas). Todavia, a situação torna-se mais tensa para a protagonista quando as autoridades tomam conhecimento dos seus actos, o que inicia um tumultuoso e abrupto processo de crise familiar e de desolação contínua.

Se por um lado Leigh nunca exagera na tentativa de veicular uma posição específica quanto à questão do aborto, evitando que “Vera Drake” se transforme em mais um panfleto filmado, o desenrolar da acção contém, ainda assim, alguns elementos de irregularidade que tornam o resultado final pouco convincente. As motivações nobres e dignas de Vera Drake são logo um dos pontos questionáveis do filme, não que a personagem seja inverosímil, mas porque dificilmente será representativa do conjunto de indivíduos que praticam semelhantes actos (legalmente condenáveis na sociedade da época).

É certo que Imelda Staunton é exímia na sua composição (justamente nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Secundária), e a sua Vera Drake comove e enaltece, mas Leigh abusa do tom e transforma-a quase numa mártir, factor que se destaca, sobretudo, na segunda parte do filme, um cansativo concentrado de interminável sofreguidão e desencanto. Os ambientes crus e realistas são excelentes, assim como todo o núcleo de actores – dos principais aos secundários, todos demonstram entrega e empenho -, mas isso já não é novidade num trabalho de Mike Leigh, e é pena que estes sejam os únicos elementos realmente satisfatórios em “Vera Drake”. O ritmo da narrativa é, infelizmente, demasiado arrastado e pouco envolvente, não dispensando alguns episódios francamente redundantes e aborrecidos, e o argumento previsível e convencional também não contribui para que o filme consiga inquietar ou despertar especial interesse.

Em vez ser um absorvente e complexo drama sobre as ambiguidades e contradições humanas, que era o que se esperaria de um cineasta subtil e perspicaz como Mike Leigh, “Vera Drake” reduz-se aos domínios algo lineares e formatados de um esforçado, mas pouco consistente telefilme da BBC, com tanto de competente como de indistinto. Ainda assim, quem procurar ver uma actriz em pleno estado de graça não sairá da sala de cinema completamente defraudado...

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

11 comentários:

O Bom Selvagem disse...

Hesitei entre ver este Vera Drake e o Million Dollar Baby :)

gonn1000 disse...

Apesar de tudo, prefiro o MDB. A crítica segue em breve...

Gustavo H.R. disse...

Ora, que desencorajador ler uma posição desfavorável a este filme. É um dos mais aguardados de 2005 (ainda não há data para estrear no Brasil) para mim. Trata-se realmente de filme e temática delicados. Espero que seja superior a SECRETS & LIES.

gonn1000 disse...

Gostei muito de "Secrets & Lies", mas este "Vera Drake" não me convenceu. Também o aguardava com alguma expectativa, mas desapontou-me. De qualquer forma, nada como conferires por ti próprio quando chegar aí...

Beep Beep disse...

"não que a personagem seja inverosímil, mas porque dificilmente será representativa do conjunto de indivíduos que praticam semelhantes actos"

Claro que não, e isso está bem especificado no filme:

- Na "amiga" que lhe encaminha as raparigas

- Nas outras prisioneiras com quem ela fala no final do filme

- No espanto da polícia, quando ela lhes revela que não levava nada pelo serviço

gonn1000 disse...

Certo, mas ainda assim Leigh abusa da beatificação da personagem, e a segunda parte do filme é especialmente marcada por um registo "dramalhoso" e de auto-comiseração constante...

S0LO disse...

Efectivamente também gostei mais do Million Dollar Baby.

Cumprimentos cinéfilos

gonn1000 disse...

Pois, também eu, embora também o ache sobrevalorizado...

Beep Beep disse...

"segunda parte do filme é especialmente marcada por um registo "dramalhoso" e de auto-comiseração constante..."

Pois, aí está a diferença. Achei que até foi bastante contido, com muitos silêncios e falta de palavras. E não achei que se tratasse de auto-comiseração. Antes do choque interno de uma pessoa sobre quem o mundo desabou de repente, e que se apercebe que nunca esperou, nem estava preparada para que tal acontecesse.

gonn1000 disse...

"Pois, aí está a diferença. Achei que até foi bastante contido, com muitos silêncios e falta de palavras."

Eu diria antes entediante e redundante do que propriamente contido, mas respeito a tua opinião. Enfim, tu gostaste muito e eu nem por isso, paciência :)

Anónimo disse...

Keep up the good work
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