domingo, julho 15, 2007

OLHÓ ROBÔ!

“Transformers” inaugura aquilo que se prevê ser uma nova saga no grande ecrã, baseada na série de animação seguida por muitos em finais da década de 80. Michael Bay, tarefeiro a quem Hollywood deve alguns dos maiores sucessos pipoqueiros dos últimos anos, aceitou adaptar o conceito para cinema, o que para os fãs da sua câmara estridente e hipertensa é um bálsamo mas arrisca-se a ser uma maldição para todos os que nunca foram adeptos da filmografia do realizador.

De facto, ao longo do filme a marca identitária de Bay é bem evidente, e o que surpreende é que durante boa parte da sua duração isso até nem é necessariamente mau, ou pelo menos resulta melhor o que se esperaria tendo em conta que este é o criador de títulos como “Armageddon” ou “Pearl Harbour”.
“Transformers” arranca até de modo relativamente desacelerado – para os padrões do realizador -, apoiando-se num protagonista que consegue gerar empatia logo após alguns minutos em cena e em sequências onde a energia cinética não atropela tudo o resto. Visualmente há momentos estimulantes, uma vez que os efeitos especiais são os melhores que o dinheiro consegue pagar e, à medida que os robôs vão surgindo, verifica-se que houve um cuidado para que as suas figuras permanecessem fiéis às da série televisiva sem no entanto deixarem de surpreender por uma sofisticação hi-tech que só poderia ser criada hoje (terão sido escassas as limitações de orçamento para a confecção dos CGI).

Mas, como as películas anteriores de Bay tristemente confirmaram (exceptuando o interessante "A Ilha"), uma impressionante sucessão de efeitos especiais não faz um (bom) filme, sobretudo quanto a duração deste é de duas horas e meia. “Transformers” não se sai mal na vertente de entretenimento exibicionista com imagens de fazer cair o queixo, nem aspira ir muito além disso, mas durante o primeiro terço consegue ser um pouco mais, intercalando com eficácia momentos de humor com acção de bom calibre e, por vezes, alguma inesperada dimensão emocional.

Os gags tanto são divertidos e oportunos como toscos e algo forçados, embora estes últimos sejam compensados por algumas cenas memoráveis q.b. que envolvem o jovem protagonista, Sam Witwicky, e o seu recém-adquirido carro, que afinal é o transformer Bumblebee. As peripécias em que a personagem contacta pela primeira vez com os robôs são bem desenvolvidas e originam sequências em que a capacidade de deslumbramento marca não só Sam mas passa para fora do ecrã, fruto de alguns momentos imaginativos e memoráveis (como os do jardim, à noite).

Os méritos são não só do argumento, que dá espaço para que surja alguma sensibilidade, mas também de Shia LaBeouf, jovem promessa que aqui parece já uma confirmação pela espontaneidade que mantém ao longo de todo o filme. Muito longe dos habituais heróis dos filmes de Bay, alia vulnerabilidade, sentido de humor e coragem sem que a mistura pareça fabricada e é a âncora emocional da acção.
O mesmo já não pode dizer-se das restantes personagens, que são irrelevantes, insípidas ou idiotas – em alguns casos tudo em simultâneo -, o que faz com que o seu destino seja mais ou menos indiferente. Dos soldados amestrados pela bandeira norte-americana às figuras femininas que parecem saídas de um desfile de moda, nenhuma tem grande interesse, mas como LaBeouf está quase sempre presente é motivo mais do que suficiente para que se continue a acompanhar o filme. E depois há, claro, os robôs, embora também aqui se registem desequilíbrios – se visualmente são prodigiosos, não exibem muitos sinais de personalidade, sendo as excepções Bumblebee, presença irresistível, e o icónico Optimus Prime, cuja austeridade e sentido de missão correspondem ao que dele se esperava.

Mesmo assim, “Transformers” é um filme que vai valendo a pena durante grande parte da sua duração, embora a sobrecarga de product placement e as péssimas canções nu metal que por vezes infestam a banda-sonora sejam um sério teste à paciência. O maior escorregão dá-se, contudo, nos minutos finais, onde Bay perde o controlo e esforça-se por apresentar o clímax mais espalhafatoso possível. Aí sim, a prioridade é presentear o espectador com sucessões nada modestas de pirotecnia expressas em explosões, tiroteios, fugas e perseguições.

O problema não é apostar em sequências contínuas de acção trepidante – afinal, nem haveria outra maneira de terminar um filme destes -, antes a forma como estas são servidas. A vertiginosa alternância de planos e perspectivas raramente permite que mesmo o espectador mais astuto se aperceba do que está a ocorrer de facto, e o resultado é uma genérica amálgama de desabamentos de prédios, gritaria e lata amolgada. Aqui “Transformers” encosta-se à lógica de jogo de computador e estica a batalha até aos limites do tolerável, tornando-se redundante e maçador, características pouco desculpáveis num filme que não visa mais do que entretenimento.
Pelo menos, e contrariamente a outros títulos de Bay, este não se leva demasiado a sério e reduz bastante a quantidade de cenas lacrimejantes, manipuladoras e patrióticas (denunciando, até, algumas falhas no sistema) e funciona, ainda, enquanto uma interessante aglutinação de referências – por aqui passam “E.T.” e “Guerra dos Mundos”, de Steven Spielberg (um dos produtores do filme); “Carros”, de John Lasseter; “O Gigante de Ferro”, de Brad Bird, ou o sabor nipónico de animes e manga. No entanto, apesar de alguns elementos inesperadamente bem conseguidos, “Transformers” não se livra de ser um daqueles filmes que, passado o efeito novidade do fogo de vista que destila, corre sérios riscos de não resistir a um revisionamento.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

6 comentários:

_Loot_ disse...

Também acho que começa muito bem mas depois se torna maçador. Vale pelos bons momentos que tem e é sempre bom ouvir Optimus Prime.

Abraço

gonn1000 disse...

Sim, podia ter sido pior, o Bay até progrediu nos últimos dois filmes.

Nelson Magina Pereira disse...

Não há nada como ver. Mas por aqui, a curiosidade não é muita. Bay não me entusiasma muito.

Cumprimentos

gonn1000 disse...

Nem a mim, mas acho que ele já esteve pior.

Nelson disse...

eu foi ver o filme 2 vezes e adorei sobretudo em relação aos efeitos especiais de alta-qualidade que é de abrir a boca, e ração a resto.... é menos bom mas mesmo assim é um bom título a ver ara quem gosta deste tipo de filmes. E para já este verão foi muito fraquinho em relação a "blockbusters", por isso vale a pena ir ver

gonn1000 disse...

Sim, nos efeitos especiais não desaponta, o pior é ser mais desequilibrado no argumento e realização. Mesmo assim, ganha na comparação com outros blockbusters, admito.