quinta-feira, julho 21, 2005

CLUBE DE COMBATE

Nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, “Cruel” (Ondskan) é a segunda longa-metragem de Mikael Håfström e propõe um amargurado olhar sobre os códigos sociais, a violência e o crescimento.

Centrado em Erik Ponti, um jovem sueco de 16 anos que é enviado para um colégio interno por mau comportamento, o filme segue a sua jornada no novo local de estudo e residência, expondo as suas tentativas de não voltar a entrar no ciclo de violência que fez com que fosse repreendido anteriormente.

Embora consiga forjar alguns laços de confiança nesse novo meio – nomeadamente com o ponderado colega de quarto e com uma jovem e bela empregada -, Erik assume uma postura directa e frontal que cedo lhe garante uma série de antagonistas, sobretudo grande parte dos estudantes mais velhos que manipulam a rede de relações internas através da cultura da violência, originando um sistema baseado no medo e na repressão.

Deparando-se com a sua última oportunidade para continuar os estudos, Erik fica cada vez mais relutante quanto à atitude a adoptar. Por um lado, voltar a desiludir a sua mãe é algo que pretende evitar, por outro, considera inaceitável submeter-se às penosas e humilhantes ordens e caprichos dos colegas mais velhos, que o encaram como um alvo de chacota. Recusando tornar-se mais uma vítima de punições infundadas e abusivas, o jovem reage e coloca em causa o sistema que envolve os colegas, mas logo descobre que o preço a pagar pode ser demasiado elevado.

“Cruel” desenrola-se durante os anos 50, num período onde o impacto do nazismo ainda se encontrava bem presente, mas a sua perspectiva sobre as redes de disseminação de abusos físicos e/ou psicológicos em certas formas de organização social continua bem actual, e Håfström consegue criar um apropriado retrato cru, seco e realista que torna o filme numa poderosa experiência cinematográfica.

Complexo e verosímil, “Cruel” é um filme simultaneamente duro e comovente, que consegue despoletar um forte impacto emocional sem recorrer a rodriguinhos melodramáticos ou vícios de um típico “filme-choque” (embora contenha momentos tensos e claustrofóbicos, estes nunca se tornam exagerados ou gratuitos).

Grande parte da credibilidade das situações é gerada pela brilhante direcção de actores, uma vez que o elenco, apesar de maioritariamente jovem, é bastante seguro. Andreas Wilson, no papel de protagonista, é especialmente notável num desempenho capaz de espressar as convulsões internas de um adolescente incapaz de responder a uma realidade contraditória. Combinando austeridade e fragilidade, Wilson assinala uma muito promissora prestação e é um dos maiores trunfos do filme.

Para além do protagonista, “Cruel” impõe-se como um filme portentoso devido à realização simples e despojada de Håfström, certeira para uma história destes contornos, e ao coeso trabalho de argumento, que foge a simplismos e moralismos (ainda que perca algum fôlego nas cenas finais, não compromete o filme).

Pertinente e genuíno, “Cruel” é uma obra adulta e sensível que oferece um atento olhar sobre o lado mais desencantado e doloroso da juventude, constituíndo um dos títulos que, apesar de chegar a salas nacionais com algum atraso, ainda vem a tempo de integrar o núcleo dos filmes obrigatórios de 2005.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

10 comentários:

Francisco Mendes disse...

Tremendo filme, que irá passar despercebido!

O final é previsível, mas o filme é bem executado e é um inteligente olhar sobre a natureza da violência e suas repercussões.

Existe algum exagero na dramatização de certas cenas, certos dilemas são resolvidos com excessiva simplicidade. Mas O profundo estudo de personalidade faz desta película uma obra poderosíssima.

3/5 :P

S0LO disse...

Ah...cá está um bom filme para ver :D!

Cumps. cinéfilos

gonn1000 disse...

Francisco Mendes: Pois, infelizmente o mais provável é passar despercebido, mas é uma das melhores propostas de um cartaz cinematográfico muito fraco. É simplista em alguns momentos (na resolução, sobretudo), no entanto não deixa de ser imperdível...

SOLO: Sim, um (muito) bom filme para se ver :)

Duarte disse...

Um filmito agradável, mas sinceramente esperava muito mais, até porque a premissa era deveras interessante. Mas o filme não tem nervo e coragem para elevar o material à disposição, e a realização televisiva e desisnpirada também não ajuda. E o último terço do filme é previsível, simplista e banal...

gonn1000 disse...

Parece-me muito mais do que um "filmito", embora a solução para o desenlace não seja propriamente a mais verosímil. A realização não inova, mas o seu estilo simples e despojado parece-me apropriado para este tipo de filme e permite centrar toda a atenção nas (muito boas) interpretações.

O Puto disse...

Um óptimo filme e uma boa surpresa vinda da Suécia. A juntar a "Saraband", embora noutra esfera.

gonn1000 disse...

Sim, é um belo filme, muito acima de "Saraband", que apesar da unanimidade crítica não me agradou minimamente (enfim, é um daqueles no qual não me revejo mesmo...).

Spaceboy disse...

Fui ver o filme à pouco e fiquei deslumbrado! Saí do Quarteto encantadoramente perturbado...muito bom.

gonn1000 disse...

Ainda bem que gostaste, é uma pena estar em exibição em tão poucas salas :(

Scott Arthur Edwards disse...

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