domingo, março 04, 2007

A ESCOLA DA VIDA

Um professor e uma aluna. Ele, Dan, um dedicado mas algo controverso docente de um liceu de Brooklyn que encontra na sua profissão o único ponto de equilíbrio e motivação; ela, Drey, uma estudante de uma das suas turmas, que apesar de ainda estar a entrar na adolescência já sofreu a dor de um pai ausente e de um irmão preso por tráfico de droga. Entre os dois começa a consolidar-se uma afinidade gerada pela partilha de um segredo - ela encontra-o a inalar droga numa das casas-de-banho da escola - e esta atípica ligação vem tirar algum espaço à solidão e desorientação que marca o dia-a-dia de ambos.

A partir desta premissa simples, mas muito bem aproveitada, "Half Nelson - Encurralados" oferece um complexo e absorvente estudo de personagens ancorado em dois desempenhos notáveis, que catapultam os protagonistas para a lista de actores a ter em conta: Shareeka Epps, uma jovem revelação que surpreende pela expressão de serenidade magoada, e sobretudo Ryan Gosling, actor que já tinha dado provas de talento em títulos como "Crimes Calculados" ou "Stay" mas que oferece aqui uma interpretação quase inexcedível.
Na pele de um homem cujo idealismo é cada vez mais um refúgio de curta duração, Gosling emana raiva, entusiasmo, desencanto, esperança e frustração ao longo de um quotidiano que lhe proporciona escassos pontos de fuga. O mais recorrente acaba por ser a cocaína, da qual se torna indissociável e cuja dependência começa a ameaçar a sua conduta como professor.

Aproximando-se da espontaneidade e vibração de um Edward Norton mais jovem, Gosling é sem dúvida o grande trunfo de "Half Nelson - Encurralados", tendo sido justamente nomeado para o Óscar de Melhor Actor Principal por este desempenho.

Felizmente, o filme tem ainda outras mais-valias, não se esgotando num one man show mas conseguindo enveredar por caminhos ardilosos sem nunca escorregar para um tentador moralismo, cenas de choque gratuito ou um choradinho auto-indulgente assente no triste fado do junkie. Aqui, reconheça-se o mérito de Ryan Fleck, realizador (estreante) e co-argumentista que conduz a sua obra com mão segura e consegue injectar-lhe uma contínua densidade emocional, criando um retrato sóbrio, inteligente e comovente de um jovem adulto incapaz de reestruturar a sua vida mas que tenta, ainda assim, impedir que a sua aluna caia na mesma espiral.

Fleck apresenta uma palpável atmosfera urbana com um acentuado recorte realista, apoiando-se num sólido trabalho de realização, numa outonal fotografia de tons turvos e na escolha de uma determinante (e viciante) banda-sonora, servida pelos Broken Social Scene. Nada mal para uma primeira obra de baixo orçamento, uma das mais estimulantes do cinema independente norte-americano dos últimos tempos e que, por isso mesmo, não merece ficar perdida no meio dos muitos títulos que vão estreando.

E O VEREDICTO É:
4/5 - MUITO BOM


Broken Social Scene - "Stars and Sons"

8 comentários:

suzy bannion disse...

Também gostei muito.Já viste o Gypo?Vale a pena.

gonn1000 disse...

Não, nem ouvi falar dele, acho que não estreou cá.

_Loot_ disse...

É o segundo na minha lista, amanha vou ver O Labirinto de Fauno, já viste?

gonn1000 disse...

Ainda não, talvez seja o próximo.

Nelson Magina Pereira disse...

Concordo contigo. Parece-me um filme bastante interessante. Espero que com a nomeação de Gosling, o publico fique mais susceptível a uma ida ao cinema.

Cumps.

gonn1000 disse...

Também espero, mas parece-me que essa nomeação passou algo despercebida perante muitos, infelizmente.
Fica bem.

wasted blues disse...

Filme bem interessante que escapa com inteligência aos clichés. Grandes interpretações dele, Ryan Gosling, e da miúda.

gonn1000 disse...

Assino por baixo :)