domingo, agosto 05, 2007

PRANCHAS E VINHETAS NO PEQUENO ECRÃ

“Salvem a chefe de claque, salvem o mundo”. Esta foi uma das frases que ajudou a que “Heroes” se tornasse numa das séries televisivas mais populares e aclamadas dos últimos anos, resultado de um considerável fenómeno “passa-a-palavra” que gerou expectativa em torno de um projecto com uma premissa intrigante.
Na sequência de múltiplos filmes inspirados nas aventuras de super-heróis dos comics, a série transportou esse universo para a televisão, e mesmo não sendo das primeiras a fazê-lo – ícones como Batman ou Super-Homem, por exemplo, já asseguraram lá presença desde há muito – conseguiu injectar ao género doses de criatividade e entusiasmo como raramente se têm encontrado nas adaptações cinematográficas.

Não é que Tim Kring, o seu autor, apresente aqui nada nunca antes visto. Pelo contrário, “Heroes” é bastante devedor de inúmeras referências da BD, adoptando características de personagens já conhecidas dentro desse meio - os poderes especiais dos protagonistas da série são todos decalcados de super-heróis já existentes – ou a sua lógica narrativa – o modo como os episódios estão estruturados, terminando sempre com um cliffhanger decisivo, é herdado dos issues de muitos comics, assim como a construção dos subplots.
A mais-valia está na forma como a série mistura essas influências na criação de uma nova mitologia que consegue ser refrescante, apresentado uma galeria de personagens carismáticas que se cruzam num argumento eficaz e surpreendente q.b.. De resto, Kring nem pretende enganar ninguém e é o primeiro a assumir as suas influências, ou não fosse uma série de banda-desenhada criada por um dos protagonistas, o desenhador Isaac Mendez, uma das peças essenciais para fazer arrancar a história.


Os próprios desenhos das telas de Isaac foram criados por Tim Sale, nome familiar para quem acompanha o universo dos comics, e o argumentista Jeph Loeb, do mesmo meio, foi um dos consultores executivos. Chris Claremont, nome incontornável na evolução das aventuras dos X-Men, é também homenageado ao partilhar o apelido com um empregado de uma loja, e até há um cameo de Stan Lee, outra figura histórica da Marvel Comics.

Embora contenha pormenores deliciosos para os adeptos da nona arte, “Heroes” está muito longe de ser um objecto dirigido somente a esse público, não contendo quaisquer restrições para que outros o possam apreciar.
As personagens, todas cidadãos aparentemente normais, não demoram a gerar familiaridade, e por isso é difícil não aderir aos vários arcos narrativos que vão sendo criados em torno delas à medida que vão descobrindo e reagindo às suas capacidades especiais. Do inimitável e adorável Hiro Nakamura, protagonista algumas sequências que, mais do que comics, respiram influências manga, aliando dinamismo e humor; à chefe de claque Claire Bennet, que do estereótipo só mantém o facto de ser loura; aos irmãos Peter e Nathan Petrelli, que não poderiam ser mais diferentes; ou ao misterioso e calculista Noah Bennet, que parece saber mais sobre os heróis do que eles próprios; não faltam aqui personagens interessantes, e vai sendo viciante acompanhar o seu processo de descoberta.

Um dos factores mais elogiados em “Heroes” é a ausência dos tradicionais uniformes e nomes de código, uma vez que os protagonistas nem sabem como lidar com os seus poderes e têm, ainda assim, de os adaptar à rotina do dia-a-dia, encontrando-se muito longe do papel de super-heróis tradicionais. Este elemento torna a acção mais verosímil e reforça a identificação do espectador com as personagens, já que também estas agem como pessoas normais – embora vão descobrindo que há algo que as distingue da maioria e não envolve necessariamente capacidades sobre-humanas.
Mais uma vez, esta tridimensionalidade não é novidade neste universo, tendo em conta que foi o que distinguiu as aventuras de Peter Parker/Homem-Aranha das de tantos outros super-heróis, e mesmo a inexistência de uniformes e identidades secretas já foi uma tendência na BD, sobretudo na década de 90, tanto nos comics mais alternativos – a linha Vertigo da DC – como mainstream – quando personagens como Jubileu ou Gambit aderiram aos X-Men (e até ocorreu no cinema, como o comprova “O Protegido”, de M. Night Shyamalan). Esta ausência de exclusividade em nada compromete, contudo, a consistência de “Heroes”, que possui um lado humano suficientemente vincado e onde as demonstrações dos poderes dos protagonistas nunca se sobrepõem à carga emocional que se vai desenvolvendo.

Nesta primeira temporada, intitulada “Genesis”, a incidência é sobretudo neste processo de auto-descoberta das personagens, e talvez por isso no final fique a sensação de que funciona principalmente enquanto porta de entrada para uma saga de maior fôlego e intensidade. É quase sempre entusiasmante seguir estas aventuras, mas lamenta-se que não haja maior interacção entre os vários heróis, que vão seguindo pistas diferentes e acabam por se reunir num acontecimento fulcral já no desenlace e antecipado muitos episódios antes.
A resolução da temporada é, de resto, um dos aspectos menos conseguidos, pois se nos últimos episódios há uma atmosfera de suspense bem construída o capítulo derradeiro termina de forma demasiado abrupta e anti-climática, o que gera alguma decepção considerando que grande parte da acção foi desenvolvida em função desse momento. Claro que isso não coloca em causa os muitos bons momentos ocorridos ao longo da série, alguns de antologia, mas acaba por reduzir algum do impacto desta enquanto um todo.
Tirando este aspecto, “Heroes” é uma série bastante recomendável, lúdica e desafiante como poucas, entretenimento inteligente capaz de agradar a um público alargado. E o melhor é que, a julgar pelo sugestivo epílogo, a segunda temporada promete ir ainda mais além, oferecendo oportunidades ilimitadas para o percurso de pelo menos um dos protagonistas. Enquanto esta não chega, vale a pena ir vendo e revendo a primeira.


E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

8 comentários:

Carlos Pereira disse...

Só vi o episódio piloto e gostei imenso. A ver se sai rapidamente em DVD. Abraço Gonçalo ;)

gonn1000 disse...

Nesse caso deverás gostar dos restantes, a série não desilude. Fica bem :)

Ricardo disse...

Só? A par de Dexter, esta série foi uma excelente lufada de ar fresco, na tua esca-la um 4,5 :)

gonn1000 disse...

Gostei, mas acho que ainda pode melhorar bastante. Talvez na segunda temporada.
"Dexter" ainda nao vi.

iLoveMyShoes disse...

:) ora aí está uma série que me fez ficar em casa aos sábados à tarde (e eu não sou um rapaz de séries). Que venha rapidamente a segunda temporada e o dvd da primeira!!

gonn1000 disse...

E parece que até cumpriram os horários (coisa rara, sobretudo no canal em questão).
Tenho expectativas consideráveis para a segunda temporada, espero que não desiluda.

Anónimo disse...

Chefe de claque é provavelmente a pior tradução do mundo, ou seja, tá ao teu nível, gonçalinho. Continua assim, uma cheerleader não é uma chefe de uma claque, senão tinhas mil chefes de claque numa só claque, já que são todas cheerleaders. A chefe de claque é cheerleading captain. É mais um bocado da qualidade a que nos tens habituado. :)

gonn1000 disse...

Obrigado, ainda bem que vai havendo quem perceba dessas coisas :)
E tens que me dar o teu contacto, estou a pensar contratar-te como detector oficial de erros deste blog. És esforçado, há que admitir.