domingo, junho 11, 2006

JOGO DE LÁGRIMAS (E DE RISOS)

Com uma obra tão diversificada quanto desequilibrada, Neil Jordan apresenta em “Breakfast on Pluto” mais um título a acrescentar ao grupo dos seus filmes recomendáveis.
Crónica do percurso errático de Patrick Braden, um jovem que desde cedo sentiu predilecção por roupas femininas e que acaba por adoptar o nome “Kitten”, a película segue a viagem física e emocional do seu protagonista e a forma como este e os outros reagem à descoberta da sua identidade.

Kitten está determinada a encontrar a sua mãe, que a abandonou quando era ainda uma recém-nascida, e esta busca influencia todo o seu crescimento, tornando-se com o passar dos anos num sonho de difícil concretização mas que nunca deixa de ser perseguido obstinadamente.

Se a abordagem da transexualidade tem inspirado alguns filmes de esferas independentes – sendo dois dos mais recentes “Transamerica” ou “20 Centímetros” -, Neil Jordan prova aqui que o tema está longe de se esgotar e oferece uma perspectiva própria, unindo traços do realismo britânico com um formato que se aproxima de um conto de fadas on acid.

Decorrendo maioritariamente na Londres da década de 70, “Breakfast on Pluto” é um excêntrico melting pot, já que Kitten envolve-se com a prostituição, terrorismo, bandas rock e espectáculos de ilusionismo, vivendo experiências vincadas pela imprevisibilidade (e alguma implausibilidade).

Inventivo, mas também irregular, o filme assenta numa narrativa episódica, de atmosferas díspares (mas frequentemente kistch), que nem sempre é capaz de equilibrar as constantes oscilações entre o drama e o humor.
Ainda assim, Jordan nunca deixa de ser eficaz e faz com que as mais de duas horas de duração da película não se tornem cansativas, proporcionando uma realização engenhosa, uma banda-sonora tão colorida como a fotografia e aproveitando a solidez do elenco.

Cillian Murphy, no papel de protagonista, defende a personagem mais interessante com o desempenho mais forte, compondo uma Kitten que se entrega sempre ao idealismo independentemente do caos que a rodeia. O actor comprova aqui novamente a sua versatilidade, depois de já ter encarnado personagens tão diferentes em títulos como “Intervalo”, “Batman – O Início” ou “Red Eye”.

Muitas vezes aliciante, “Breakfast on Pluto” não chega contudo a entrar na lista de obras superiores, uma vez que o argumento demasiado disperso, alguma irreverência gratuita e o papel quase decorativo da maioria das personagens secundárias o impedem de ir mais longe.
O filme peca também por, à semelhança do seu protagonista, não se levar muito a sério, o que se por um lado ajuda a consolidar a sua vertente escapista dificulta uma abordagem consistente das temáticas complexas em que incide.
Estas debilidades são compensadas, no entanto, pelo brilhantismo que se regista a espaços, e que faz com que “Breakfast on Pluto”, apesar de apostar mais na forma do que no conteúdo, ainda conste nas boas experiências cinematográficas de 2006.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

16 comentários:

o terceiro homem disse...

Nem sempre é obrigatório que um filme seja uma obra superior para garantir interesse e encanto. Este é um desses casos. Apesar dos defeitos, gosta-se.

gonn1000 disse...

Sim, tem falhas mas não deixa de ser uma obra a merecer atenção.

Kraak/Peixinho disse...

Um bom filme, sem dúvida, apesar de alguma ficção a mais pelo meio. O desempenho de Cillian Murphy é muito bom, na minha opinião.

Hugzz on Mars

gonn1000 disse...

Ena, estamos de acordo, às vezes acontece...
Fica bem :)

H. disse...

Eu achei-o excelente, confesso! Já li IMENSAS críticas negativas (a tua até é razoavelmente positiva...) mas eu fiquei rendida, superou as minhas expectativas. Um dos melhores deste ano a meu ver.
Ah, e gostei da tua descrição: « (...) uma perspectiva própria, unindo traços do realismo britânico com um formato que se aproxima de um conto de fadas on acid» ;)

O Cillian Murphy está perfeito :)

gonn1000 disse...

Não creio que seja dos melhores do ano, mas é um dos que se recomendam. E sim, o Cillian dá mais uma grande prova de talento.

Iluvatar disse...

É sem duvida um bom filme (e sim, apesar de algumas falas) mas é dauqeles que se pode perfeitamente aconselhar. Fica-me na memoria a excelente banda sonora e claro Cillian Murphy.

Cumps.

O Condado disse...

Neil Jordan é excelente! Mas difícil excer-se em relação á obra da sua vida, "Crying Game".
Para quando alguma coisa sobre cinema brsileiro?
Um abraço

gonn1000 disse...

Iluvatar: Gostei mais do Cillian do que da banda-sonora, embora seja bastante apropriada ao filme.

O Condado: Também gostei mais de "Jogo de Lágrimas", mas se ele continuar neste nível também não me queixo.
De cinema brasileiro, já destaquei "O Homem que Copiava", "Carreiras", assim como obras de Walter Salles e Fernando Meirelles. Assim que haja oportunidade, destacarei outros.

MYXPlus disse...

Adorei o filme. Foi excelente a forma como o Cillian interpretou a personagem.

gonn1000 disse...

Acho quie o filme está longe da excelência, o Cillian nem tanto.

CPiteira disse...

Mas porque é que só agora é que escreves sobre o filme?
Não me digas que só o viste agora?
Não me digas que só chegou às tuas salas de cinema agora?
...desculpa mas esta era a parva palerma/ brincadeirinha de dizer que moras "longe"...

Breakfast on Pluto? adorei!

O desempenho de Cillian Murphy é sem dúvida mt bom! Acho que ele chegou a sentir que era aquela personagem... só pode mesmo!

o teu blog? mt bom!
Parabéns
1bj
C.

CPiteira disse...

desculpa mas n quero mesmo fazer auto-publicidade gratuita...
mas eu vi o filme desta forma!http://claudiapiteira.blogspot.com/2006/04/same-world-different-planet-breakfast.html
:)

Pedro Ferreira, Visconde de Cunhaú disse...

No campo do cinema brasileiro destaco dois filmes que podes investigar:
-Desmundo

- Crónicas de um Novo Mundo

gonn1000 disse...

CPiteira: Por acaso vi o filme no dia da estreia, mas entretanto fui escrevendo sobre outros. Mesmo assim, acho que nunca é tarde.
Quanto à publicidade, vou enviar-te por mais o meu NIB e teremos que discutir o valor ;)

Pedro Ferreira, Visconde de Cunhaú: Já ouvi falar de "Desmundo", mas "Crónicas de um Novo Mundo" desconheço por completo.

Scott Arthur Edwards disse...

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