domingo, novembro 27, 2005

HÁ ANIMAIS QUE FALAM COMO NÓS

Surpreendente sucesso de bilheteira em França e nos Estados Unidos, “A Marcha dos Pinguins” (La Marche de L’ Empereur) é uma curiosa obra que coloca em causa os limites entre o cinema documental e ficcional e lança definitivamente o pinguim para o grupo de animais mais carismáticos do momento (algo que já se evidenciava, por exemplo, na longa-metragem de animação “Madagáscar” ou em vários anúncios publicitários).

O realizador e biólogo Luc Jacquet seguiu a travessia anual dos pinguins imperadores por territórios inóspitos da Antártida, apresentando os seus rituais de acasalamento, as constantes disputas entre fêmeas, o nascimento e os primeiros dias das crias, assim como as imprevisíveis e nefastas contrariedades que se atravessam no seu caminho, desde astutos predadores a problemáticas condições climatéricas.

Tendo em conta a sua premissa, “A Marcha dos Pinguins” poderia ser mais um documentário formatado, semelhante a tantos outros que focam a vida animal e são exibidos em muitos canais de televisão regularmente. Contudo, Jacquet recorre aqui a elementos algo invulgares, antropomorfizando os pinguins e recorrendo a uma narração em off, na primeira pessoa, que visa exprimir as emoções e dramas destes, de forma a aproximá-los do espectador. O problema é que o recurso à voz é muitas vezes desnecessário e, sobretudo, mal trabalhado, ora caindo em reflexões existenciais inócuas e pretensiosas ou em relatos demasiado infantis e recheados de rodriguinhos dóceis.

“A Marcha dos Pinguins” é assim um filme onde cada imagem vale, sem dúvida, mais do que mil palavras (ou pelo menos, do que aquelas a que Jacquet recorre), envolvendo e deslumbrando através dos esplêndidos desertos de gelo e das impressionantes peripécias que marcam a viagem dos caricatos e perseverantes protagonistas.
A banda-sonora, da autoria de Émilie Simon, é tão bela como as imagens, oferecendo aconchegantes canções marcadas por electrónicas suaves e voz angelical, aproximando-se dos ambientes dos islandeses Múm ou de Emiliana Torrini e funcionando enquanto adequado complemento da vertente visual.

É pena, por isso, que a geralmente intrusiva voz off e a excessiva duração do filme façam com que, apesar de enriquecida por alguns momentos prodigiosos, “A Marcha dos Pinguins” seja uma obra repetitiva e, no fundo, apenas mais um feel-good movie simpático e por vezes comovente.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

12 comentários:

Joana C. disse...

achei um filme cheio de ternura mas concordo plenamente contigo quando falas nas excessivas vozes-off. há uma versão do filme sem essas ditas vozes incomodativas mas infelizmente não foi a versão que chegou aos nossos cinemas.

gonn1000 disse...

Sim, a versão americana também tem narração em off, mas segundo consta não é tão sentimentalizada. Como não a vi, não sei...

missixty2000 disse...

Prontos logo vi que senão dissesses lamechas,,dirias sentimentalizada, deve ser mesmo algum trauma de pequeno!!!eheheh

gonn1000 disse...

Bah, ainda não viste o filme, por isso depois falamos...

Nic disse...

uma prova que a narracao nao e' la' muito essencial foi que eu vi este filme dobrado em mandarin com sub-titulos em chines (eu nao pesco uma) e compreendi a estoria.
http://viajeans.blogspot.com/2005/06/navios-ou-pinguins.html

gonn1000 disse...

LOL, ora aí está uma versão que não conhecia...

membio disse...

apesar de achar que a narração por vezes falhava, gostei imenso do filme que vem carregado de imagens bastante poderosas...

gonn1000 disse...

Acho que ainda vale a pena ver, apesar de não me ter convencido por completo.

Francisco Mendes disse...

De acordo neste filme. Demasiado sobrevalorizado pela crítica americana, o filme consegue até ser bem patético... críticas à parte, vale a pena a espreitadela.

gonn1000 disse...

LOL pois, não diria patético, mas o filme é um bocado tolinho, às vezes...

S0LO disse...

Tenho que me dedicar um pouco mais aos documentários...o trailer deste parece-me bom.

Abraços

gonn1000 disse...

O trailer não é mau, o filme é mediano. De documentários recentes, gostei mais do "Rize" ou do "Dentro de Garganta Funda".