domingo, julho 22, 2007

O VIZINHO ACIDENTAL

"No Mundo das Mulheres" (In the Land of Women) marca a estreia na realização de mais um elemento do clã Kasdan, Jon, depois do seu pai, Lawrence ("Os Amigos de Alex", "Noites Escaldantes", "O Turista Acidental") e do irmão, Jake ("Zero Effect", "Orange County" ou episódios da série "Freaks and Geeks"). E o mínimo que se pode dizer é que o talento parece ser de família, a julgar pela forma hábil como o filme recusa os mecanismos da comédia romântica, ainda que a promoção (e mesmo o título) que lhe foi feita possa levar a que o público o confunda com um banal chick flick. Nada mais errado, este é um melodrama polido mas inteligente e perspicaz, com personagens tridimensionais em situações terra-a-terra, muito longe de fantasias românticas hollywoodescas e facilististas (tendência que aliás até critica nas entrelinhas).

Kasdan relata aqui o percurso de um jovem de 26 anos que, depois de abandonado pela namorada (mais fascinada pela ascendente carreira de modelo e actriz), deixa a sua casa em Los Angeles para passar algum tempo com a sua avó doente, no Michigan, onde tenta encontrar coordenadas para uma nova vida e terminar, finalmente, a escrita de um livro que prepara há muito. Aí, nos intervalos entre a criação de argumentos para filmes softcore - tarefa que lhe vai assegurando alguma independência financeira -, conhece a vizinha da frente, uma serena mulher de meia idade pela qual sente uma empatia imediata, e acaba por sair também com as suas filhas, sobretudo com a mais velha, uma adolescente de carácter firme.

"No Mundo das Mulheres" olha com honestidade e subtileza para as vicissitudes das relações humanas, misturando comédia e drama nas doses certas e alternando sequências ora melancólicas ora espirituosas. A banda-sonora sublinha essa atmosfera agridoce, contando com canções de bandas indie como os Mates of State, OK Go, Rogue Wave ou Kingsbury Manx. Também os diálogos, credíveis e vivos, contribuem muito para situações que nunca são forçadas, e as personagens exibem imperfeições mas não deixam de gerar empatia, tornando-se rapidamente próximas do espectador.
Junte-se uma realização fluída e atenta aos detalhes da vida nos subúrbios, assim como um elenco em estado de graça, onde tanto brilham figuras veteranas - Olympia Dukakis, uma avó hilariante, ou Meg Ryan, mãe e esposa à beira do abismo - como estimáveis novos valores - Adam Brody, a confirmar a boa impressão deixada pela série "The O.C. - Na Terra dos Ricos", ou Kristen Stewart, para quem se prevê uma carreira profícua - e não é preciso mais para que aqui se encontre um dos mais belos filmes dos últimos tempos.

Infelizmente, os muitos bons elementos de "No Mundo das Mulheres" não o impedem de perder algum fulgor na recta final, onde Kasdan parece não saber como resolucionar a teia de relacionamentos que foi desenvolvendo - à semelhança do protagonista, que não encontra um desenlace convincente para o seu livro. Não é um grande tropeço, apenas menos satisfatório do que o que o argumento oferece até aí, embora acabe por retirar algum do impacto emocional ao filme, caindo na mediania após um punhado de sequências brilhantes. Este desequilíbrio percebe-se tendo em conta que esta é, afinal, a obra de estreia de Kasdan, mas pelos momentos refrescantes e inspirados que oferece espera-se que seja a primeira de muitas.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

10 comentários:

H. disse...

Concordo com a menção positiva a esta obra. Realmente a escolha do título foi um bocado infeliz (e desta vez nem foi culpa das nossas célebres traduções!) e pode induzir nessa confusão que dizes. Realmente, este filme afasta-se claramente de terrenos de comédias românticas made in Hollywood e até mesmo de algum cinema "indie" que já começa a gastar as fórmulas. Tem uma abordagem sóbria, mas nem por isso menos humana, dos problemas de cada personagem, e apesar de não cair nem no choradinho nem no cor-de-rosa, não deixa de nos fazer sair da sala com uma sensação de esperança...
Uma boa surpresa :)

gonn1000 disse...

Sim, consegue andar entre o choradinho e o cor-de-rosa sem cair para nenhum dos lados o que, convenhamos, não é fácil. E é difícil sair da sala sem, pelo menos, simpatizar com o filme.

Nelson Magina Pereira disse...

Exactamente. Concordo com a tua análise. Para mim foi uma surpresa ver este filme. Uma boa primeira obra e sim, consegue não cair no que à partida seria mais facil, o tal choradinho.

gonn1000 disse...

Só é pena que esteja a passar tão despercebido, mas já é habitual.

_Loot_ disse...

Concordo com o que escreveste, uma boa surpresa.

Abraço

gonn1000 disse...

Parece que é consensual, então.
Fica bem :)

_Loot_ disse...

Esqueci-me de dizer sobre a banda sonora, também gostei muito dos INSX lá no fim

gonn1000 disse...

Ah sim, não tem muito a ver com o resto mas não resultou mal.

Anónimo disse...

Devo ter falhado a idea do filme... a mim não me disse nada

gonn1000 disse...

Acredito, não dirá o mesmo a toda a gente. Eu não dei o tempo nem o dinheiro por perdido.