terça-feira, setembro 18, 2007

BARALHAR E VOLTAR A DAR

Já estiveram por cá várias vezes, mas ainda não parecem prejudicados pelas visitas regulares, pois mesmo assim os britânicos Massive Attack fizeram com que o Coliseu de Lisboa tenha concentrado ontem uns quantos milhares, que preencheram quase todos os cantos da sala.

Ainda no ano passado actuaram no festival Hype@Tejo, e apesar de nem aí nem na noite de ontem terem apresentado inéditos - nada se conheceu, portanto, de "Weather Underground", o novo álbum com edição prevista para este ano - também não deixaram de oferecer um espectáculo seguro e satisfatório.

O grupo de Bristol, agora um duo reduzido a 3D (Robert Del Naja) e Daddy G - com colaborações ocasionais -, não exibiu as doses de surpresa e brilhantismo que o tornaram numa das referências máximas da música pop (em sentido muito lato) da década de 90, já que o concerto contou quase sempre com grandes canções mas servidas sem grande garra, evidenciando uma postura algo acomodada.

O alinhamento não se desviou muito dos temas de "Collected", o best of editado no ano passado, e dos quatro álbuns de originais o mais explorado foi "Mezzanine", a notável obra-prima com que o grupo se reinventou em 1998, adicionando a visceralidade das guitarras à matriz sonora gerada no marcante "Blue Lines", de 1991.
Ironicamente, foi a presença destas que levou a que o espectáculo de ontem nem sempre tivesse o fulgor que se esperava, uma vez que, ao as adicionar a canções que não recorriam a elas originalmente, a banda perdeu-se em alguns devaneios cansativos e redundantes, acrescentando rudeza e distorção a temas que deveriam ter mantido a placidez electrónica (como em "Future Proof" ou no final de "Safe From Harm").

De "Mezzanine" o concerto resgatou também uma das suas vocalistas, Liz Fraser, a musa que deu voz aos Cocteau Twins e que ontem interpretou os dois temas que assinou com os Massive Attack: "Teardrop" e "Group Four". A primeira é uma das mais belas e emblemáticas canções da banda, embora ao vivo não tenha despertado grande entusiasmo, sobretudo pela fraca forma vocal de Fraser, ali muito longe da magia do original. A sua presença resultou bem melhor no duo com 3D em "Group Four", tema que fechou a noite e um dos poucos que se aproximou da excelência, principalmente na sequência instrumental em crescendo com desconcertantes explosões de bateria e guitarra (que, aí sim, fez sentido).

Os últimos vinte minutos foram, de resto, os melhores, e incluíram ainda o inebriante "Inertia Creeps", onde os sons de Istambul se cruzaram com o trip-hop, e o indispensável "Unfinished Simpathy", numa versão ligeiramente mais soul induzida pela óptima interpretação de Deborah Miller (também em alta em "Safe From Harm").

Outro dos convidados da noite foi o já habitual Horace Andy, que participou em todos os discos do grupo, sendo quase sempre solicitado para temas condizentes com as suas raízes reggae e dub. Foi o caso de "Hymn of the Big Wheel" ou "Angel", dois dos momentos mais aplaudidos, e é pena que o não menos obrigatório "Man Next Door" não tenha sido contemplado no alinhamento.

Embora tenha contado com demasiados episódios mornos, o espectáculo de ontem provou que os Massive Attack são, ainda assim, capazes de oferecer uma actuação acima da média, para a qual contribuiu a elaborada e sedutora vertente cenográfica, com um sofisticado trabalho de iluminação (cujos tons se moldaram às atmosferas de cada canção) e curiosos placards electrónicos (que divulgaram várias informações sobre Lisboa, antes da entrada do grupo em palco, ou sobre a guerra do Iraque, já a meio do concerto, dando continuidade à subtil atitude política que sempre emanou do projecto). Poderão não exercer o fascínio de outros tempos, mas se em vez de geniais se apresentarem, pelo menos, sempre competentes, valerá a pena voltar a acolhê-los por cá.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

11 comentários:

Paulo Abreu disse...

Massive Attack pop?!

gonn1000 disse...

Sim, disse música pop em sentido lato, e isso as canções deles não deixam de ser.

Black Absynthe disse...

Achei teu blog enquanto procurava por outra coisa mas - no fim das contas - acabou valendo a pena !!!

Belo Trabalho !!!

Paulie !!!

gonn1000 disse...

Obrigado :)

Anónimo disse...

alguém picar-se com o gonn1000 por dizer que massive attack é pop é como ir a roma e não ver o papa.

gonn1000 disse...

Papa pop?!

gonn1000 disse...

Pronto, se se considerar que a pop se resume apenas a Shakiras e Aguileras, então não incluo aí os Massive Attack. Mas como para mim também lá cabem uma Björk, uns Depeche Mode ou um Beck, não me parece descabido.

Anónimo disse...

estás a dar justificações a mais, não precisas de ir por aí. é óbvio que o beck é tão pop quanto a shakira. só um idiota é que não percebe isso (atenção: não te estou a chamar idiota).

gonn1000 disse...

Pois estou, não havia necessidade.

Paulo disse...

Não me foi possível assistir este ano, mas pelo que já me tinham dito e que confirmei com o teu comentário, foi em tudo idêntico ao espectáculo do ano passado no Coliseu do Porto. Claro que no caso dos Massive Attack, nada de novo continua a ser muito bom, mas ainda assim prefiro poupar-me para o seu regresso depois do novo álbum de originais.

gonn1000 disse...

Sim, quem foi ao concerto à procura de inéditos terá saído desiludido, mas não me queixo deste formato best of. Mas da próxima convém que tragam algo de novo, sim.