sexta-feira, abril 14, 2006

QUANDO ELA ERA ELE

Numa altura em que as questões ligadas à orientação sexual, cada vez mais discutidas pela opinião pública, se reflectem também no cinema - de "O Segredo de Brokeback Mountain" a "Má Educação", passando por "20 Centímetros" ou "Breakfast on Pluto" -, "Transamerica", a primeira longa-metragem de Duncan Tucker, acrescenta mais uma perspectiva acerca desses domínios.

Tendo como protagonista um transsexual, Bree, cujo principal objectivo é conseguir dinheiro para fazer uma cirurgia que o torne na mulher que desde há muito sente ser, o filme dificulta ainda mais a vida à sua personagem principal quando esta descobre que tem um filho de dezassete anos que a procura, fruto de uma relação casual com uma colega universitária.

De forma a que a sua psicóloga a autorize a realizar a operação cirúrgica, Bree deverá encontrar o seu filho, Toby, deslocando-se para isso de Los Angeles a Nova Iorque, mas esta viagem será apenas o início de um percurso geográfico e emocional mais intenso e extenuante, à medida que os dois parentes vão consolidando um relacionamento difícil mas determinante para ambos.

Dramedy alicerçada em crises de identidade, tensas relações familiares, conflitos interiores e na aceitação ou rejeição da diferença, "Transamerica" é uma obra que, apesar de não inventar nada, reciclando ideias já implementadas pelo cinema independente norte-americano, consegue proporcionar um sólido estudo de personagens, onde o humor nunca se torna óbvio e o drama marca sempre pela subtileza.

O filme segue a matriz do road movie, pois as personagens vão-se revelando a si próprias e umas às outras à medida que a viagem decorre, através de uma estrutura episódica com alternâncias de tom, ora graves ora mais espirituosos, e se o desenlace não é particularmente difícil de prever, pelo caminho há algumas surpresas estimulantes, fruto dos segredos que tanto Bree como Toby escondem.

"Transamerica" tem sido especialmente destacado pela interpretação de Felicity Huffman, e percebe-se porquê. A actriz da série "Donas de Casa Desesperadas" oferece aqui uma complexa composição avessa a estereótipos e caricaturas fáceis, traduzindo com espontaneidade e vibração emocional a postura simultaneamente obstinada e relutante de Bree, num desempenho minucioso e atento a elementos como a colocação da voz ou a linguagem corporal.

Mas se Huffman é brilhante, Kevin Zegers não o é menos no papel de Toby, encarnado um jovem que tenta ultrapassar a solidão e a insegurança através da prostituição e do consumo de drogas.

Não sendo um grande filme, "Transamerica" é contudo uma obra honesta, inteligente e bem escrita, que evita sequências prontas-a-chocar, moralismos forçados, piadas ridículas e discriminatórias ou cenas de uma melancolia moribunda e pretensiosa, elementos que, noutras mãos, poderiam deteriorar a sua premissa. E não são todos os filmes que se podem dar ao luxo de revelar um realizador promissor e de confirmar uma grande actriz.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

6 comentários:

kimikkal disse...

O cartaz está muuuito fixe e é um bom resumo do filme

gonn1000 disse...

Obrigado :)

Mário Lopes disse...

Também acho o cartaz curioso e muito bem conseguido...tal como a tua análise :). Neste sim, parece que estamos de acordo :P!

Abraço

gonn1000 disse...

Obrigado. Sim, neste caso concordamos. Fica bem ()

Kraak/Peixinho disse...

Muito bom este teu texto, Gonn! Achei o filme bastante interessante e sem qualquer pretensão. Eu daria-lhe um 4.

4 Hugzz

gonn1000 disse...

Obrigado. Sim, é um filme leve mas quenão deixa de ter conteúdo interessante :)