domingo, agosto 14, 2005

O PREÇO DA FAMA

Autor de obras aclamadas como "Menos que Zero", "As Regras da Atracção", "Psicopata Americano" e "Os Confidentes", Bret Easton Ellis salientou-se na década de 80 como um dos escritores norte-americanos mais singulares da sua geração, proporcionando um olhar negro e corrosivo sobre certos aspectos das sociedades urbanas contemporâneas.

"Glamorama", editado em 1998, mantém a perspectiva corrosiva e cáustica acerca de alguns elementos da american way of life, demolindo em especial o culto das celebridades e os ambientes do star system actual.

Ellis apresenta as peripécias de Victor Ward/Johnson, um modelo em ascensão que tenta também desenvolver uma carreira de actor. Tal como a maioria das personagens criadas pelo escritor, o protagonista de "Glamorama" não é propriamente um ser humano de qualidades assinaláveis, uma vez que o egoísmo e o narcisismo são as suas principais características, mas Ellis consegue torná-lo num anti-herói suficientemente interessante e por vezes hilariante.

Uma vez que a acção é narrada por Victor, é mais fácil para o leitor tomar contacto com o seu mundo vincado por ambientes de frivolidade, onde a busca da fama é uma constante e a imagem sobrepõe-se a qualquer outro elemento. Se em obras anteriores Ellis retratava de forma irónica e satírica as atmosferas universitárias ou o quotidiano dos yuppies, aqui o alvo são os (pseudo)famosos e todos os que se esforçam por atingir tal estatuto, que o autor caracteriza sem quaisquer contemplações.

A primeira parte de "Glamorama" mergulha nas vedetas do showbiz nova-iorquino de finais dos anos 90 e segue o dia-a-dia de Victor, que decorre entre cocktails, filmagens, castings, festas e reuniões, onde a agitação é constante e a futilidade serve de acompanhamento.
Ellis oferece uma descrição minuciosa deste microcosmos, enumerando regularmente uma série de figuras que obtiveram os seus cinco minutos de fama e apostando também num obsessivo product placement e numa banda-sonora detalhada (elementos interessantes mas que podem fazer, no entanto, com que o livro se torne um pouco datado).
Assim, na sua rotina diária Victor encontra gente como Joaquin Phoenix, Uma Thurman ou Patrick Bateman (o protagonista de "Psicopata Americano"), entre outros nomes mediáticos desta esfera de estrelas.

Contudo, o livro não se esgota num olhar cortante sobre a banalidade que contamina as celebridades, pois "Glamorama" junta a esta comédia de costumes elementos de espionagem e suspense, uma vez que o clima de tensão se instala abruptamente e mantém-se até ao final.

O quotidiano boémio do imaturo e leviano protagonista é interrompido quando este aceita uma proposta (monetariamente compensadora) e viaja para a Europa na tentativa de localizar uma ex-colega de liceu, Jamie Fields.
Ao submeter-se a este desafio algo enigmático, Victor envolve-se numa complexa teia de conflitos e conspirações, uma vez que contactará de perto com operações terroristas cujos responsáveis são as figuras menos óbvias.

Denso e intrigante, "Glamorama" escapa a modelos convencionais e aposta numa narrativa surpreendente onde a imprevisibilidade é uma constante e os acontecimentos decorrem a um ritmo frenético. Se nas primeiras páginas o livro envereda por atmosferas leves, torna-se depois cada vez mais negro e claustrofóbico à medida que o mundo de Victor se desmorona aos poucos, tornando-o numa vítima de um sistema que ajudou a consolidar.

Ellis gera aqui uma obra ousada que descoordena não só o protagonista mas também o leitor, proporcionando uma sequência de acontecimentos com progressivas doses de bizarria e surrealismo.
Oscilando entre o humor negro e cruéis e arrepiantes descrições de catástrofes (as peripécias do último terço do livro são literalmente explosivas), "Glamorama" é uma obra envolvente como poucas, mas que nem sempre convence. Se por um lado a sinistra espiral de mistérios é absorvente, as suas resoluções não são as mais conseguidas, pois o desenlace não é dos mais inspirados e deixa muitas questões em aberto.

Esquizofrénico e desregrado, "Glamorama" possui um bom ritmo, uma série de momentos de antologia e um protagonista interessante de seguir, mas contém também alguns episódios repetitivos e inconsequentes que o tornam num livro desequilibrado.
Apesar do seu potencial não ser plenamente atingido, os seus méritos superam os defeitos, e Ellis proporciona aqui uma curiosa amálgama de temáticas, onde cabem a solidão, o consumismo, a cultura pop, a vertente descartável e efémera das relações, a violência, ou o hedonismo, todas abordadas com a acidez habitual do autor.

"Glamorama" não é um livro para juntar ao núcleo de obras essenciais, mas é suficientemente perspicaz, divertido e relevante para merecer que se percam algumas horas com ele. E dificilmente haverá uma mistura mais conseguida de "Pret-a-Porter" e "Clube de Combate" do que a que Ellis apresenta aqui...

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

4 comentários:

Duarte disse...

É um calhamaço do caraças, mas bastante aconselhável. Gosto muito do estilo de escrita do Ellis.

gonn1000 disse...

Sim, é mesmo um calhamaço (cerca de 500 pgs.), mas não me arrependo de o ter lido. Resta ver se o filme estará à altura...

Rui Luis Lima disse...

Descobri o Ellis quando surgiu o "Menos Que Zero" já lá vão uns vinte anitos, na época surgiu o book do Ellis, o do Jay McInnerney e o célebre "Mil Luzes de Nova Iorque" e o "Dança de Família" do David Leavitt... acompanhei os books do Ellis e do Jay e recomendo vivamente um calhamaço no bom sentido do Jay intitulado "Quando o Brilho Cai", foi perdido num empréstimo e acabei por ter de comprar uma edição americana... por outro lado tendo em conta que eles foram amigos... nunca é demais ler o book "Modelos" em que o Jay recria o estilo do Ellis, numa saborosa aventura.
Um Abraço e Bons Filmes (Boas Leituras e Sons do Melhor)

gonn1000 disse...

Também gosto de David Leavitt, até mais do que do Ellis (mas também li mais livros do Leavitt). Jay McInnerney é que não conheço, mas pelos vistos merece investigação. Obrigado pelas sugestões :)