quinta-feira, abril 14, 2005

VIDAS REAIS

Um dos filmes mais elogiados do início de 2005, multipremiado na mais recente edição dos Óscares, onde foi o vencedor em quatro categorias (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz Principal e Melhor Actor Secundário), "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos" é mais um inquietante drama gerado por um dos principais cinestas norte americanos contemporâneos.

Clint Eastwood, que é aqui o realizador e actor principal (e colabora ainda na banda-sonora), proporciona uma obra marcada por atmosferas de melancolia e desolação que servem de alicerce a um vibrante olhar sobre as relações humanas.

"Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos" centra-se em Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), uma jovem empregada de café que, apesar de ter tido uma vida pouco próspera, mantém ainda a esperança em consolidar o seu principal desejo: tornar-se uma pugilista profissional. Contudo, à medida que se aproxima dos 30 anos, a concretização dessa ambição torna-se cada vez mais improvável, por isso Maggie tenta convencer Frankie Dunn (Clint Eastwood), um veterano e reputado treinador de boxe, a auxiliá-la no seu ansiado projecto. Relutante, Dunn coloca múltiplos entraves, mas aos poucos vê-se tentado a ceder e forja com a jovem uma densa e singular cumplicidade, desfazendo, em parte, a solidão e o cepticismo que o atormentam.

Se por um lado segue os moldes e convenções dos filmes de boxe, exibindo os clichés e situações habituais do género, "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos" não se esgota nesse formato, e apresenta uma interessante perspectiva sobre as dimensões do sonho e da desilusão, focando as interligações de um absorvente trio de personagens (para além do duo Swank/Eastwood, destaca-se ainda Morgan Freeman no papel de um ex-pugilista amigo de Dunn, que é também o narrador do filme).

De facto, a primeira hora da película segue a rotina que marca a maioria dos filmes de boxe, expondo episódios mais ou menos previsíveis e estereotipados. Contudo, essa fase inicial do filme consegue ser absorvente devido à tridimensionalidade das personagens principais, capazes de ultrapassar as limitações do argumento.

"Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos" atinge maior brilho e densidade na sua etapa final, onde acontecimentos inexoráveis despoletam uma aura soturna e claustrofóbica que tornam o filme numa obra marcante e a espaços demolidora. No entanto, aqui mantêem-se ainda aspectos não muito conseguidos, como a caricatural caracterização da família de Maggie ou pontuais passos em falso do argumento, que aposta em demasiadas muletas pouco verosímeis para disseminar uma sobrecarga de desalento e ambientes trágicos.

Em certos momentos, há perigosas aproximações com os estafados telefilmes que focam "um caso da vida", dado o nível de negritude e infortúnio. Felizmente, Eastwood envereda quase sempre por tons sóbrios e discretos, evitando armadilhas do melodrama mais fácil e pegajoso, abordando as situações com considerável subtileza.

O trio de personagens é suficientemente intrigante, e o facto de serem interpretados por actores de primeira linha - excepto Eastwood, cujo desempenho, apesar de esforçado, é apenas competente - ajuda a gerar boas doses de carisma e intensidade. O contraste entre o cativante idealismo de Maggie e o cinzento cepticismo de Frankie funciona particularmente bem, e a química e entrega dos dois actores ajuda a que as personagens se tornem sempre envolventes.

A realização é subtil e adequadamente minimalista, enveredando por um realismo cru e despojado, e o óptimo trabalho de fotografia e iluminação auxiliam a disseminação de uma forte carga sombria e soturna, contribuindo para acentuar a forte tensão dramática da película. Eastwood consegue filmar de forma convincente tanto as dinâmicas cenas de combate no ringue, irradiando uma energia cinética contagiante, como os episódios mais pausados e lacónicos, oferecendo momentos de grande impacto emocional.

O resultado é um filme sólido, maduro e honesto, o mais entusiasmante de Eastwood nos últimos anos, depois do sobrevalorizado "Mystic River" e dos desapontantes "Dívida de Sangue" e "Um Crime Real". Os epítetos de obra-prima e inspirada prova de genialidade - com que "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos" foi recebido de forma quase unânime - é que não serão os mais apropriados, uma vez que não há aqui nada de verdadeiramente inovador e o filme contém, como foi referido, alguns desequilíbrios.

Mesmo assim, possui méritos suficientes para se tornar numa obra cujo visionamento se recomenda, dando aos actores o espaço que estes merecem e abordando de forma inteligente o âmago das relações humanas, elementos nada negligenciáveis.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

16 comentários:

Nuno Cargaleiro disse...

Devo dizer que apesar não achar o filme mau, acho que podia ser muito melhor, já que o acho muito "americanizado"... sendo um filme sobre eutanásia, porque sim, esse é o verdadeiro tema do filme (o resto são esquemas para captar-nos) acho que perde demasiado tempo e fala sobre o tema de uma forma leve... E juro, já não aguento ver o Morgan a fazer de narrador outra vez!...

gonn1000 disse...

Pois, também não o considero assim tão marcante. A eutanásia é um dos temas fortes do filme, mas não referi isso porque poderia ser um "spoiler" forte e revelar demasiado a quem não o viu...

FDV disse...

ainda não vi, mas está para breve.

[ando um bocado desligado das idas ao cinema, facto que deverei emendar]

cumprimentos.

S0LO disse...

E é precisamente a sua simplicidade e a mensagem final que fazem de "Million Dollar Baby" um grande filme :)!

Cumprimentos cinéfilos

Maria disse...

Encontrei este blog por acaso e agora sou uma visitante assídua. Também sou uma cinéfela incurável e é muito bom ler textos tao bem escritos de alguem que obviamente gosta e percebe de cinema.
Quanto a Million Dollar Baby também acho que foi ligeiramente sobrevalorizado embora nao deixe de ser um bom filme. A comparação com o típico telefilme americano pode parecer exagerada mas este é um filme que acaba por ir por um caminho excessivamente melodramatico.
De qualquer forma, a realização de Clint Eastwood é marcante, tal como a interpretação de Morgan Freeman!

gonn1000 disse...

FDV: Já não deve permanecer muito mais tempo em cartaz...Cumprimentos

sOlo: Eu diria que fazem antes um bom filme :)

Maria: Obrigado ;) Alguns momentos lembram de facto formatos do telefilme, embora a realização, o trabalho dos actores e a construção das personagens consigam superar isso...Volta sempre

Daniel Pereira disse...

Acima de tudo, "Million Dollar Baby" é um filme sobre o mundo em que vivemos e a crueldade que este nos pode proporcionar. É mesmo isso que nos mostra Eastwood nos seus filmes. Senão lembremos a inocência da personagem de Tim Robbins em "Mystic River", a impossibilidade do amor em "The Bridges of Madison County" ou a personagem de Kevin Costner em "A Perfect World", porventura o melhor filme de Eastwood.

gonn1000 disse...

Sim, e Estwood consegue apresentar um apropriado tom àspero e seco que ajuda a consolidar essa mesma crueldade, não deixando, contudo, de proporcionar também um grande impacto emocional...

Ganda bacano disse...

Yó bacano... este filme é do bom, é mesmo, atão!? Tou-te a dizer... a primeira vez que o vi passei-me, partiu-me todo, atão a gaja queria fazer carreira no boxe e vai-se abaixo por causa dum erro do assistente, pcht... naaaaahh! Por mais que eu goste de filmes de boxe, este aqui só tem o problema do fim... o velho com a mania de ser um gajo fodido a chorar "já não vou ganhar dinheiro à custa desta mula", é pá digo-te mesmo sinceramente, curtia bués se o filme tivesse acabado com uma vingança violenta, assim ao bom estilo do Kill Bill. Digo-vos mesmo pra mim o final foi o que estragou o filme, perdeu-se uma oportunidade de ter uma versão feminina do Rocky, quem sabe!? Pode ser que se faça uma sequela com o velho a treinar a filha... seja o que Deus quiser. Pior que isto só mesmo a falta de uma sequela da Lista de Schindler. Olha bacano curte bués, fica bem... ou como se diz adeus no teu bairro "Djalé, Bombé, Arche arche"

gonn1000 disse...

Pois...

**Leonardocrescendo...** disse...

Sou prof de Filosofia e atualmente usei o filme Mar Adentro e Menina de Ouro para comparar as duas formas de eutanásia apresentadas nos filmes.Porém,acho que no caso de Menina de Ouro o tema foi muito pouco abordado,sendo deixado em segundo plano.

gonn1000 disse...

Também achei isso, a abordagem de Eastwood foi menos aprofundada do que a de Amenábar, daí que também prefira o filme do segundo.

ana disse...

gandes actores....n poderia ter sido melhor?

gonn1000 disse...

Os actores são bons, o filme também mas não tanto.

João disse...

Este é um dos meus filmes preferidos. sinceramente, não liguei muito à parte da eutanásia, que acho que prolonga muito o filme e retira-lhe unidade. mas o que vinha para trás achei tão bom - a luta dela, a perseverança e ao mesmo tempo a sua inocência e simplicidade - que, para mim, é suficiente para achar este filme uma obra-prima, um dos melhores filmes que já vi e, seguramente, dos mais comoventes.

gonn1000 disse...

Acho que essa parte que ficou para atrás, embora trabalhada de forma competente, já foi vista noutros filmes de boxe, e a perspectiva de Eastwood não acrescenta muito.