domingo, julho 16, 2006

CASA DE PÂNICO

Um dos filmes independentes que mais burburinho tem gerado ultimamente, acolhido com entusiasmo em festivais como o de Sundance, "Hard Candy" é a estreia nas longas-metragens de David Slade, mais um realizador com experiência na área da publicidade, territórios que já revelaram talentos marcantes como David Fincher ou Mark Romanek.

A acção da película concentra-se quase exclusivamente em duas personagens, Hayley, uma rapariga de 14 anos, e Jeff, um reputado fotógrafo trintão. Após poucas semanas de conversas através da Internet, os dois decidem conhecer-se pessoalmente num café e, pouco depois, encontram-se já em casa dele, e a partir daqui "Hard Candy" torna-se numa tensa e inquietante experiência não só para os dois protagonistas (em especial para Jeff), mas também para o espectador.

Tema delicado e polémico, a pedofilia tem sido alvo de abordagem recente noutros filmes independentes, casos de "O Condenado" ou "L.I.E. - Sem Saída", mas enquanto esses se aproximavam do drama "Hard Candy" envereda mais por domínios do thriller, funcionando enquanto um prodigioso exercício de estilo sem deixar de ser um acutilante estudo sobre a ambiguidade moral.

A câmara de Slade movimenta-se com desenvoltura e criatividade, proporcionando muitos momentos de impressionante impacto visual. O filme contém fluência e energia na realização (que consegue ser vibrante sem conter tiques de videoclip acelerado), um estupendo trabalho de fotografia e uma rigorosa atenção aos cenários e ambientes (vejam-se os decors do apartamento de Jeff), que lhe conferem uma rara elegância formal, e o ritmo da narrativa raramente falha, emanando uma estranha envolvência.

Contudo, apesar deste perfeccionismo estético, "Hard Candy" não é tão equilibrado no argumento, que apesar de interessante tem um desenvolvimento cuja credibilidade é questionada em algumas cenas, em particular no forçado e maniqueísta desenlace, deitando por terra a ambivalência moral presente em grande parte da película.

Parte do problema do argumento prende-se com a personagem de Hailey, demasiado camaleónica e cujas motivações são apenas sugeridas mas não reveladas, e se essa aura enigmática funciona até certa altura mostra-se algo frustrante no final do filme.
Aplauda-se, no entanto, a soberba interpretação da jovem Ellen Page, perfeita no misto de fragilidade, genialidade e calculismo, destacando-se automaticamente como uma das grandes revelações do ano. Patrick Wilson é igualmente exemplar na composição do (inicialmente) tranquilo e discreto Jeff, embora o seu desempenho não seja tão surpreendente pois o actor já tinha dado provas de talento na mini-série "Anjos na América".

Ficando aquém do grande filme que os primeiros minutos sugerem, "Hard Candy" não deixa de ser uma boa surpresa, possuindo algumas sequências de antologia que seduzem pela sua palpável carga sufocante (não querendo revelar muito, diga-se apenas que a melhor de todas arrisca-se a deixar de rastos os espectadores do sexo masculino). Uma obra desequilibrada, mas merecedora de atenção.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

11 comentários:

H. disse...

ñ é uma obra-prima mas é uma óptima estreia e o carácter provocador e enigmático consegue resultar.
grandes desempenhos, excelente fotografia cm dizes.
sem dúvida a ver!

180min disse...

o inicio é fascinante... muito promissor, é pena perder-se na sua própria história. visualmente é excelente...

Joana C. disse...

O que gostei mais deste filme foi da sua componente visual, sem dúvida muito cuidada e cheia de estilo.

Mário Lopes disse...

Acho que é um bom filme, mas que poderia ter ido mais longe explicando melhor o que ía na cabeça da Hailey. Além disso, acho que nos leva a pender mais para um dos lados da razão, o que não é de todo positivo.

Mas para primeira obra, não se safa nada mal :).

Abraço

gonn1000 disse...

H.: Sim, merece muito ser visto, aspesar das limitações.

180min: Promete mais do que cumpre, mas ainda assim tem interesse.

Joana C.: Também acho que é o seu ponto forte, juntamente com as interpretações.

Mário Lopes: Pois, esse carácter tendencioso também não me agradou muito.

wasted blues disse...

Acabei por não ir ver e tenho pena. Poderá não ser brilhante, mas parece-me ter o seu "quê"... ou estou errada?

gonn1000 disse...

Tem sim, embora seja um filme um pouco sobrevalorizado não há dúvida de que Slade começa bem.

Knoxville disse...

É como dizes, uma obra desiquilibrada e sobrevalorizada, mas que escapa ao comum que nos é bombardeado todos os dias. A ver, mas longe de ser obra de culto, como muitos a querem tornar.

gonn1000 disse...

Pois, é bom mas arrisca-se a desiludir se as expectativas forem muito altas.

Anónimo disse...

Mas para quem quer simplesmente ver cinema, isto é, sentar em frente ao ecrãn na esperança de ser surpreendido... Acho que a coisa até acontece. Eu gostei bastante, talvez não note as falhas que lhe atribuiram porque a história ali a ser contada ou o modo como é transmitida é totalmente diferente do que já tive oportunidade de ver..

gonn1000 disse...

É verdade que surpreende, muitas vezes até, mas acho que nem sempre pelos melhores motivos.