terça-feira, dezembro 20, 2005

A NORA PRÓDIGA COM UM EX-SOGRO DO PIOR

Conhecido sobretudo pelos seus filmes mais académicos e politicamente correctos, como o pouco estimulante “As Regras da Casa” ou o francamente dispensável “Chocolate”, que mais não são do que (sub)produtos saídos da linha de montagem de (suposto) prestígio da Miramax, o sueco Lasse Hallström ameaçava, à custa dessas obras mais recentes, atirar o sua cinematografia para uma absoluta indistinção, limitando-se a seguir lugares-comuns e a apostar em sentimentalismos fáceis.

Contudo, em alguns títulos da fase inicial da sua carreira, o realizador chegou a oferecer motivos que o tornassem num nome a seguir, de que é exemplo o discreto e comovente drama “Gilbert Grape”, onde uns principiantes Johnny Depp e Juliette Lewis encarnavam personagens tridimensionais e um surpreendente Leonardo DiCaprio apresentava uma dos seus desempenhos mais conseguidos (e, curiosamente, um dos menos mediáticos).

“Uma Vida Inacabada” (An Unfinished Life), a sua nova proposta, recupera alguma da genuína e envolvente vibração emocional desse filme, contando uma história simples, mas consistente, assentando em personagens bem esculpidas, situações credíveis e numa subtil reflexão acerca dos laços familiares e da solidão, vincada por conflitos interiores, memórias amargas e tentativas de redenção.

A película segue os novos rumos de Jean, que após ter sido alvo de violência doméstica por parte do seu namorado decide partir com a sua filha para uma pequena localidade rural no Wyoming, pedindo alojamento temporário ao seu ex-sogro, Einar.
Todavia, se por um lado Jean evita, pelo menos durante algum tempo, alguns dos seus problemas, logo que se apercebe que, ao chegar à sua nova casa, terá de lidar com muitos outros, que de resto se encontravam acumulados há já vários anos.

Hallström debruça-se aqui, mais uma vez, sobre as contrariedades e ambivalências das relações humanas, mas ao contrário do que ocorreu em nos seus últimos trabalhos consegue um resultado equilibrado e sensato, e embora algumas questões sejam abordadas e resolvidas de forma algo leve “Uma Vida Inacabada” possui uma série de momentos com uma forte carga dramática, mergulhando no âmago das suas personagens e gerando conflitos emocionais interessantes.

É certo que formalmente o filme não traz nada de novo, apostando numa narrativa convencional e num trabalho de câmara correcto e sóbrio, mas sem grande criatividade.
Hallström revela-se mais convincente através da inatacável direcção de actores, pois as interpretações de Morgan Freeman e, sobretudo, de Robert Redford (uma das melhores do ano) fazem com que “Uma Vida Inacabada” seja quase sempre estimulante, possuindo personagens de carne e osso, bem escritas e melhor encarnadas.
Até Jennifer Lopez, cujos méritos como actriz são algo duvidosos, é capaz de atingir um nível competente, e a pequena Becca Gardner é mais uma jovem promessa a confirmar. Saliente-se ainda a solidez dos secundários, onde constam presenças seguras como Josh Lucas (que já merecia um papel de maior escala) ou Camryn Manheim.

Sereno e contemplativo, “Uma Vida Inacabada” não é uma obra de génio mas também não é essa a sua pretensão, e se não torna Hallström num realizador especialmente inspirado é suficiente para o colocar entre os nomes a ter em conta no futuro, uma vez que este é um belo olhar sobre personagens desencantadas e entregues a si mesmas que, aos poucos, constroem a família possível (as plácidas paisagens do interior norte-americano, que não chegam muito ao outro lado do oceano, também ajudam).
“Duas Vidas e Um Rio”, do próprio Redford, ou “Uma Canção de Amor”, de Shainee Gabel (outro dos filmes mais injustamente ignorados de 2005), são referências próximas, mas não impedem “Uma Vida Inacabada” de ocupar um espaço singular que vale a pena descobrir e partilhar.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

10 comentários:

nuno disse...

concordo ctg qt ao regras da casa, mas o chocolate...

o dicaprio esteve nomeado para o oscar pela 1ª vez com o gilbert grape, voltando este ano a ser com o aviador. por isso tens de reconhecer q uma nomeação aos 19 anos (interpretava 12 acho eu) teve q ser mediática, pois foi sem dúvida o seu lançamento definitivo! um abraço

gonn1000 disse...

Não digo que não tenha sido, mas parece-me que os seus papéis em "Titanic", "O Aviador", "Romeu e Julieta" ou "A Praia" foram muito mais...

H. disse...

ñ é muitoooo bom, mas é bom.
gostei bem mais do Cidder House Rules...
no entanto, Redford e Freeman valem sempre a pena...

gonn1000 disse...

Não vai ficar para a História, mas é bastante agradável, não dei o tempo por mal empregue.

cine-asia disse...

Este filme cheira-me a lemechice. È costume o realizador ir por esses caminhos nos seus melodramas. Mas dps de ler a tua crítica talvez dê uma hipótese e o vá visionar. Cumprimentos.

Sérgio lopes

gonn1000 disse...

Nope, desta vez até o Lasse até moderou a dose e o filme raramente envereda pelo sentimentalismo básico.

serEmot disse...

PArece-me que não se sente o filme a entrar na lamechice pelas boas interpretações de Redford e Freeman. Mesmo assim, considero um filme agradável, mas nada de especial. Por isso, apenas daria um
3/5

Abraço!

gonn1000 disse...

Como eu esperava uma estopada ao nível de "Chocolate", o facto de ser agradável já é muito bom. Não o considero um grande filme, mas merece ser visto.

S0LO disse...

Estou curioso para ver isto =).

Abraço

gonn1000 disse...

Olha que já não deve ficar muito mais tempo em cartaz...