segunda-feira, maio 01, 2006

MUNDO FANTASMA

Um dos nomes do recente cinema romeno, Cristi Puiu estreou-se na realização com “Stuff and Dough”, de 2001, e apresenta em “A Morte do Sr. Lazarescu” (The Death of Mr. Lazarescu) a sua segunda longa-metragem, que marca o início das “Seis Histórias dos Subúrbios de Bucareste”, uma série de filmes que têm em comum a temática do amor.

No caso de “A Morte do Sr. Lazarescu”, de 2005, o realizador parte de uma abordagem do amor pelo próximo, ainda que o que amor seja algo que raramente se vislumbra no filme, o relato de uma turbulenta e tensa noite em que um idoso num estado físico cada vez mais débil – o tal Sr. Lazarescu, um homem pacato mas solitário - é transportado de hospital em hospital, sem que no entanto conte com grande ajuda quer dos médicos, quer dos familiares e conhecidos.

Cristi Puiu filma com um rigor clínico e frio esta penosa viagem, onde a vertigem da morte se intensifica pelo olhar quase documental através do qual o cineasta segue o velho doente e a enfermeira que o acompanha entre as urgências dos hospitais.

Caracterizado por um realismo por vezes sufocante, “A Morte do Sr. Lazarescu” dissemina uma aura de tristeza e desencanto pela forma como expõe a indiferença da maioria das personagens quanto ao destino do paciente, pois quase todas se encontram imersas nos seus próprios problemas e prioridades, negligenciando ou subestimando o estado crítico do Sr. Lazarescu.

Movendo-se entre o drama e o humor negro, o filme é um cruel e doloroso retrato dos recantos menos abonatórios da esfera humana, onde o egoísmo, a apatia e um individualismo exacerbado se revelam e disseminam.
A perspectiva que Puiu traça dos médicos e enfermeiros insiste especialmente neste pessimismo visceral, uma vez que todos (excepto a enfermeira Mioara, que acompanha obstinadamente o Sr. Lazarescu) são retratados como figuras cínicas, irresponsáveis, mesquinhas ou egocêntricas, que raramente exibem qualquer sinal de preocupação pela situação do doente.
É válido que o realizador queira criticar a incompetência que se manifesta em muitos dos serviços de saúde, mas proporcionar um olhar tão tendencioso e caricatural não será a forma mais perspicaz e legítima de o fazer.

Para além desta caracterização simplista, o filme é ainda prejudicado pelas suas excessivas duas horas e meia, que contêm muitas cenas desnecessárias e geram um cansativo efeito de repetição.
Piui tenta evidenciar a rotina que marca a passagem do doente pelos vários hospitais ao longo da noite, mas como as reacções dos médicos não são muito diferentes “A Morte do Sr. Lazarescu” vai perdendo o efeito-surpresa e entrando na previsibilidade.
O abrupto e insatisfatório desenlace também não ajuda a que o balanço seja muito auspicioso, traindo um pouco esta experiência cinematográfica relevante e promissora - por vezes capaz de despoletar um perturbante efeito sensorial -, mas demasiado parcial e desequilibrada.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

8 comentários:

H. disse...

se tivesse tido tempo teria ido ver, mais motivada pelas criticas positivas que por um interesse pessoal... pelos vistos ñ é assim tão perfeito... ;)

gonn1000 disse...

Eu não gostei muito, embora tenha sido dos filmes mais elogiados do festival por muitos.

Mário Lopes disse...

Eu gostei mas admito que tens razão ao dizeres que as duas horas e meia são excessivas. Ainda assim acho que chega ao 7/10 :).

Abraço!

gonn1000 disse...

Tem os seus momentos, mas no geral ficou aquém das expectativas.

Extravaganza disse...

Gonn: mais uma vez discordo da tua opinião. Qto ao amor vê-se: do próprio pelos seus bichos, da enfermeira que o acompanha para com ele, da equipe do hosp. universit.
O realismo é, de facto, sufocante. E pode ser incómodo, para quem não está familiarizado com aquele tipo de ambientes.
Qto à indiferença, o Lazarescu nunca foi deixado sozinho numa maca num qq corredor de hospital.
Nem todos os médicos foram retratados como cínicos (ex.º o radiologista que fez a TAC).
Não acho que o olhar fosse tendencioso e caricatural. Foi bastante realista e reflecte bem a complexidade da questão. Repara que hospitais com más condições têm profissionais pouco "bem dispostos". Acho que a falta de condições de trabalho endurece toda a gente.
Acho que a ideia era mais criticar a falta de condições dos serviços de saúde do que a incompetência dos médicos.
Claro que num sistema em condições o Sr. Lazarescu teria os cuidados de saúde a que tinha direito, muito mais céleres, num único hospital.
Sinceramente, gostei bastante do filme, talvez pela dureza da realidade que retrata (lembrou-me os hosp. portugueses, de certa forma).
Nem dei pelo tempo passar e na votação do público, dei 4/5.
:)

Extravaganza disse...

lol
desculpa... o comentário foi quase tão extenso como o filme...

gonn1000 disse...

Concordo com a maior parte do que dizes, mas ainda assim achei que o olhar era tendencioso porque o doente era transportado de hospital em hospital e a reacção dos médicos nunca divergia muito, o que a certa altura acabou também por se tornar previsível e enfadonho. Enfim, achei um pouco forçado, embora haja por lá elementos interessantes.

gonn1000 disse...

"lol
desculpa... o comentário foi quase tão extenso como o filme..."

Ora essa...