sábado, novembro 25, 2006

CRIANÇAS INVISÍVEIS

Nos últimos anos, Robin Williams tem participado em alguns projectos que contrariam a sua imagem de marca tendencialmente associada à comédia, género que marcou grande parte da sua carreira. Títulos como "Insomnia", de Chris Nolan, e sobretudo "Câmara Indiscreta", de Mark Romanek, ajudaram a confirmar a versatilidade do actor, propondo-lhe outro tipo de registos aos quais se adaptou com considerável solidez.

"Uma Voz na Noite" (The Night Listener) é mais um desses exemplos, misto de drama e thriller psicológico onde um popular radialista inicia uma relação de cumplicidade por telefone com um dos seus ouvintes, um adolescente de saúde frágil, seropositivo e com uma infância atormentada por abusos sexuais.

Williams compõe um sólido protagonista, Gabriel Noone, cujo final do relacionamento com o companheiro mais novo o confronta com o seu envelhecimento e solidão, encontrando refúgio nas conversas com o seu intrigante jovem fã, de quem se torna confidente.
No entanto, à medida que a amizade entre os dois se vai desenvolvendo, Noone começa a ter dúvidas acerca da identidade do seu interlocutor, o que o leva a tentar encontrá-lo, mas sem sucesso, devido à interferência da suposta tutora do jovem.

O realizador Patrick Stettner modela um filme seguro e promissor durante a primeira metade, desenvolvendo um sóbrio drama suportado por personagens com potencial e conseguindo gerar uma apropriada atmosfera intimista. O problema é que, à medida que o argumento vai intensificando a carga de mistério, aproximando-se do thriller, "Uma Voz na Noite" arrasta-se para domínios mais indistintos e minados por algumas doses de previsibilidade.
O filme não deixa de ser absorvente até ao final, mas a capacidade de surpreender é diminuta e o suspense, que se insinua a espaços, é desaproveitado por revelações que, a partir de certa altura, já são óbvias para um espectador minimamente atento.

Um falhanço interessante, portanto, que tem o mérito de, mesmo sendo desigual, nunca abusar de sequências de perseguições redundantes e sustos formatados que a segunda parte encorajava. E para além de Williams, inclui ainda uma irrepreensível galeria de actores secundários composta por Rory Culkin, Sandra Oh, Bobby Cannavale e Toni Collette, esta última no melhor desempenho do filme, entregue a uma personagem difícil que, se interpretada por uma actriz mediana, não sairia da caricatura. É também por isso uma pena que, no obrigatório balanço final, e pese embora alguma ocasional inspiração, "Uma Voz na Noite" não consiga ultrapassar a barreira de uma esforçada competência.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

8 comentários:

P.R disse...

Por acaso até tenho curiosidade para ver este filme... Mas numa altura de tantas e boas estreias é complicado quer temporal quer monetariamente conseguir por os olhos em tudo aquilo que desejamos ;)

Abraço

p.s - foste linkado no take a break ;)

gonn1000 disse...

Nesse caso não tenhas muita pressa, acho que não faz parte dos obrigatórios, embora tenha algum interesse.
E obrigado :)

Flávio disse...

Achei péssimo, o razoável é demasiado benevolente. O argumento é tão mau que chega a ser escandaloso, v.g. é espantoso que tenham um protagonista maricas só por causa do gag do avião e dos comissários de bordo: de resto, em que é que a homossexualidade do RW interessa para o filme? O mesmo se diga do 'gag' dos fusíveis e por aí fora.

gonn1000 disse...

Mas porque é que o facto dele ser homossexual tem de estar lá para alguma coisa? Na maioria dos filmes o facto do protagonista ser hetero interessa para quê? E dizer que está lá só por causa desse gag é ignorar a relação com a personagem do Bobby Cannavale, que acho que até está bem trabalhada, embora não seja o centro do filme (nem tem de ser).

missixty2000 disse...

Deixei-te um comentario no post debaixo. Neste não comento porque não vi o filme, nem me sinto entusiasmada a ver! Que me dizes do "Estranhos", aconselhas??
beijos

gonn1000 disse...

Ainda não o vi mas parece-me ter algum interesse, se calhar ainda o vejo esta semana.

Flávio disse...

É verdade que sim Gonçalo, mas eu nestas coisas sou muito clássico (i.e. quadrado). Gosto de uma história contada à moda antiga.

gonn1000 disse...

Ok, comigo o filme não falhou por isso, mas são opiniões :)