quinta-feira, junho 30, 2005

O STRESS E A CIDADE

Embora tenha já uma considerável experiência enquanto argumentista, produtor e realizador televisivo, Paul Haggis só adquiriu maior visibilidade através da escrita do argumento de "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos", o muito aclamado (e sobrevalorizado) filme e Clint Eastwood.

Os trabalhos anteriores de Haggis, no entanto, nem sempre foram alvo de elogios - a sua colaboração na série televisiva "Walker: o Ranger do Texas" não é propriamente um sinal de credibilidade -, por isso era difícil prever se "Colisão" (Crash), a sua estreia na realização de longas-metragens, seria uma obra inspirada ou um desfile de clichés.

Felizmente, o filme não só é convincente como figura, desde já, entre os títulos cinematográficos fulcrais de 2005.
Explorando as interligações de uma extensa galeria de personagens situadas em Los Angeles, "Colisão" é um forte e sensível olhar sobre as vicissitudes das relações humanas e o que nos separa e aproxima uns dos outros.

Abordando com especial ênfase a temática da xenofobia, o filme aposta num elenco multicultural para evidenciar o melting pot de um ambiente urbano onde o ritmo do dia-a-dia é cada vez mais inquietante e acelerado, reflectindo-se nas (progressivamente conturbadas) relações pessoais.

Haggins envereda por um retrato complexo e abrangente, evitando caracterizações simplistas e mensagens edificantes e moralistas, concedendo ambiguidade às personagens sem nunca as julgar nem as tratar como símbolos de uma qualquer etnia ou ideologia.

A soberba direcção de actores é decisiva para que a densidade dramática do filme resulte, e nesse sentido "Colisão" oferece um dos elencos mais coesos do ano.
Entre estrelas mediáticas como Sandra Bullock (num dos seus papéis mais interessantes), Matt Dillon (que encarna aqui um intrigante polícia), Brendan Fraser (que mais uma vez comprova ser um actor a ter em conta) ou Don Cheadle (seguro como sempre), passando por nomes promissores como Ryan Phillipe (encarnando um jovem que aprende a não ver o mundo a preto-e-branco) ou Larenz Tate e o cantor Ludacris (numa dupla de delinquentes), o filme contém uma série de presenças que compõem personagens credíveis e absorventes.

Se o contributo dos actores é um dos pontos fortes de "Colisão", este nem sempre é bem aproveitado, uma vez que há algumas personagens cujo potencial fica algo inexplorado. Haggis poderia, por isso, ter estendido um pouco mais a duração do filme, de forma a que o desenvolvimento das personagens fosse ainda mais conseguido.

Apesar dessa pequena limitação, esta é ainda uma obra bem acima da média, atestando o talento de Haggis não só na criação de argumentos mas também na realização. Apresentando uma sólida gestão do ritmo, com uma eficaz interligação dos múltiplos episódios de um quotidiano em ebulição, o realizador proporciona ainda uma envolvente energia visual, pois a sua perspectiva de uma LA nocturna é tão entusiasmante como a que Michael Mann efectua em "Colateral" (com uma banda-sonora e fotografia notáveis).

Partindo de um início não muito original - um acidente de viação que serve de ponto de partida para que as personagens se entrecruzem, algo que "Amor Cão", de Alejandro Gonzalez Iñarritu, ou "Crash", de David Cronenberg já desenvolveram -, "Colisão" torna-se numa película surpreendente, cativando devido à combinação de vinhetas geralmente cruas e realistas que conseguem despoletar momentos de um intenso impacto emocional sem recorrerem a fórmulas melodramáticas e rodriguinhos fáceis.

Duro mas também emotivo, "Colisão" é um brilhante filme-mosaico, uma equilibrada estreia na realização de um cineasta/argumentista que se distingue aqui como um dos nomes mais promissores do actual cinema norte-americano. Se desse mais tempo e espaço para as suas personagens se revelarem na sua plenitude, "Colisão" poderia ascender ao estatuto de obra-prima. Assim, é "apenas" muito bom, e um dos títulos obrigatórios de 2005. Imperdível.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

22 comentários:

Duarte disse...

Vou-me repetir, porque tu já sabes o que sinto em relação ao mesmo, mas este filme é péssimo ! Forçado, simplista, premeditado, manipulador, falso, artificial, etc...just plain sucks.

gonn1000 disse...

Andas é a ver muito "O Grande Lebowski", o que, obviamente, não faz bem a ninguém...Mas como gostaste do "Pedaços de uma Vida" até te perdoo este deslize :P

Duarte disse...

The Dude abides !!!

gonn1000 disse...

The Dude is a bore!!! :P

S0LO disse...

LOL...a discussão que vai para aqui :P! Na minha opinião este filme já é um dos melhores do ano. Só espero que não se esqueçam dele para os Óscares :).

Cumps. cinéfilos

gonn1000 disse...

Yup, já o coloquei no meu TOP 10 de 2005...

Fica bem ()

Turat Bartoli disse...

The Dude lives on!!! (allways)

Cumps()

gonn1000 disse...

Não te fica nada bem dizeres isso :P

Turat Bartoli disse...

A 1ª vez que vi o Dude não me impressionei muito, mas dei-lhe oportunidades e El Duderino acaba por ser o maior. E aquele Walter é algo mesmo de génio, génio.
O Dude merece uma oportunidade tua, ele merece tudo!
Give the man.. the Dude a chance:)

gonn1000 disse...

LOL...Vá, quanto é que os Coen te meteram no bolso para fazeres esta propaganda toda? :P

Enfim, como anda a passar no Hollywood talvez o reveja numa tarde aborrecida (zzzzzzzz)...

Fica bem ()

Turat Bartoli disse...

Não o percas e fá-lo sem preconceitos! "Aborrecido" é 1 palavra deveras estranha para o caraterizar dada a natureza e ritmo do filme, qualidade à parte.

Just let dedurized...

Fica bem()

gonn1000 disse...

Ok, ok, já percebi que gostaste muito, mas desta vez não concordamos. Gostos...

Fica bem ()

Daniel Pereira disse...

Muito provavelmente estará no meu top 5 do ano. Obra-prima.

gonn1000 disse...

É QUASE uma obra-prima :), mas até agora também está no meu Top5 de 2005...

Nuno disse...

Está no meu top 5 e tenho a certeza que acaba o ano no top 10, por muitos filmes que veja até lá.

Em relação aos outros dois filmes aqui falados também gostei muito mas não são tão marcantes, são daqueles que por algumas cenas se tornam bons, o "Crash" é um grande filme pelo seu todo.

Ne-To disse...

Imperdível é a palavra certa.

Um dos grandes filmes do ano.

Cumprimentos

gonn1000 disse...

Nuno: Sim, é um dos filmes fulcrais do ano, no meu top10 estará de certeza...

Ne-To: Yup, that's it :)

Spaceboy disse...

Já fui ver o filme e é realmente imperdível. Um filme que devia ser obrigatório toda a gente ver, que demonstra bem como a xenofobia ainda está muito presente na nossa sociedade, sem no entanto tomar partidos. Altamente recomendado.

gonn1000 disse...

Sim, o filme não é maniqueísta, o que nem sempre se pode dizer da maioria de obras que abordam o tema.

Sérgio Ramos disse...

para mim... 5/5 um dos melhores filmes qe ja tive oportunidade de assistir...

btw, parebens pelo bom blog

João disse...

sinceramente não gostei muito do filme, ainda que no final melhore, com a ambiguidade que dá às personagens e admito também que o elenco é muito bom. De resto, também acho este filme simplista e forçado, principalmente no início.

gonn1000 disse...

Sérgio Ramos: Não acho assim tão bom, mas gostei muito.

João: Eu gostei da abordagem, tem alguns defeitos mas ainda assim é muito eficaz.