terça-feira, outubro 12, 2004

DIE HARD

A profícua dupla Q&U (Quentin Tarantino e Uma Thurman) regressa para proporcionar uma das experiências mais insólitas, hipnóticas e refrescantes do ano. "Kill Bill - A Vingança - Vol. 1" foi um dos títulos mais aguardados de 2003, marcando o regresso do realizador de "Cães Danados", "Pulp Fiction" e "Jackie Brown", apenas três dos filmes essenciais dos anos 90.
Amado por uns e ignorado por outros, o primeiro tomo da saga da Noiva ofereceu um competentíssimo espectáculo de cor, energia, dinamismo, coreografias, sonoridades e vibrações. O compacto de efusivas cenas de acção soberbamente filmadas compensava a considerável linearidade e previsibilidade do argumento, somente mais uma variação acerca de uma típica história de vingança. Entre referências à cultura oriental (kung fu, manga, anime) e à cultura pop em geral, o primeiro volume da saga deixava pouco claras algumas das linhas essenciais da história (personagens pouco desenvolvidas e sem motivação definida, sobretudo).

"Kill Bill - A Vingança - Vol. 2" não só ata as pontas soltas do primeiro episódio como proporciona uma experiência mais diversificada, coesa e moderada, diminuindo o trepidante ritmo de matança desenfreada que se verificava no seu antecessor (mas, como em qualquer filme de Tarantino que se preze, ainda há múltiplas e criativas cenas de violência temperada com consideráveis doses de humor negro). Desta vez, o tom é mais contemplativo e sóbrio, com inesperados momentos de contenção e intimismo (que se adensam no surpreendente e emotivo desenlace), privilegiando a força dos diálogos e as especificidades das personagens.

Tarantino combina saborosos condimentos para gerar um resultado apetecível, misturando citações a westerns clássicos, homenagens a séries japonesas de artes marciais, considerações acerca do inesgotável universo da banda-desenhada norte-americana (o diálogo sobre o Super-Homem é daqueles que promete deliciar qualquer fã de comics digno desse nome), unindo o lixo e o luxo da cultura popular das últimas décadas e criando um filme que congrega o velho e o novo (enfim, um remix de alguns dos elementos-chave que contaminaram o universo cinematográfico recente).

Esta curiosa amálgama despoleta inúmeros momentos de antologia, desde as divertidas cenas com o mestre Pai Mei (pastiche das séries kitsch de kung fu), ao infernal duelo de loiras (Uma Thurman VS Daryl Hannah), passando ainda pelo angustiante enterro da Noiva (com direito a claustrofóbicas e sufocantes cenas dentro do caixão) e, sobretudo, a atmosfera surpreendentemente intimista da recta final do filme (o inevitável confronto entre Black Mamba e Bill, interpretado por um intrigante e lacónico David Carradine). Acrescente-se um refinado trabalho de montagem, fotografia, banda-sonora e direcção de actores e obtém-se uma entusiasmante e viciante resolução para a quase mítica saga da Noiva.

"Kill Bill - A Vingança - Vol. 2" supera o primeiro volume e oferece um sólido e imaginativo filme que comprova (mais uma vez) o brilhantismo de Quentin Tarantino. Chamar-lhe obra-prima talvez seja um pouco exagerado, mas esta é uma das experiências cinematográficas mais recomendáveis e estimulantes geradas em 2004.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

7 comentários:

Randomsailor disse...

Os Kills Bills são daqueles filmes em que do primeiro ao último momento mantive um sorrisozinho na boca na escuridão do cinema... Grande Tarantino!

Keep going senhor cinéfilo

E já agora, nice blog! :)

gonn1000 disse...

Pois no meu caso o entusiasmo é mesmo em relação ao segundo, o primeiro nem tanto...e já agora obrigado.

Renato Martins Chaves disse...

Não é nada exagerado.
Os dois Kill Bill são obras-primas , principalmente o Volume 2

gonn1000 disse...

O segundo ainda vá lá, mas para mim o primeiro nem sequer é um bom filme, muito menos uma obra-prima. Gostos...

Araujo disse...

É pá, isto aqui é demais!! Então agora aparece aqui população não seleccionada a comentar filmes como se fossem inteligentes. As vossas capacidades estão limitadas a um balde de pipocas acompanhadas pelo bilhete de cinema, e já é uma sorte se compreenderem o argumento... vejam lá que nem todos os filmes têm por objectivo enterter o público ou seguir as regras de mercado. Vocês precisam é de um cérebro, mas isso não se compra... Este filme não passa de uma forma de entertenimento rasca que é entregue às massas com o mero objectivo de gerar receitas. Não invoca um motivo de força maior que não uma vingança, deveras original. Já agora digam ao Sr.Tarantino para fazer mais um filme muito parcialmente baseado noutro a que ele tenha assistido nos tempos de moço de videoclube... Não me vou dar ao trabalho de ponderar uma classificação a este filme, caguei!

gonn1000 disse...

Entretenimento rasca, porquê? Sim, o tema da vingança não é original, mas a forma como o Tarantino o aborda parece-me bastante refrescante e peculiar, não tanto no primeiro volume (do qual não sou grande admirador) mas pelo menos neste segundo.
E desde quando é que só a "população seleccionada" (seja lá isso o que for) é que pode comentar filmes? E já agora, quem és tu para julgares pessoas que nem conheces?

Lid disse...

Araújo, compre um cérebro pra vc! Qualquer pessoa tem o direito de comentar o que quiser sobre qualquer coisa. E se vc está dando opinião, por que os outros não podem dar tb?
Vc deveria se olhar mais no espelho ao pensar que é tão inteligente para fazer este comentário.
Tsc tsc