quinta-feira, novembro 02, 2006

O MEU IRMÃO, EU E O MEU IRMÃO

Os primeiros momentos de “Em Paris” (Dans Paris) podem levar o espectador a pensar que o filme é mais um dos que peca por ser demasiado “espertalhão” e auto-consciente, tanto pela forma como uma das personagens fala directamente para a câmara, caracterizando-se simultaneamente como narrador, como pelo enfoque algo obsessivo, e que ameaça cair na redundância, sobre a relação conjugal de dois jovens.
Se se tiver em conta que a realização está a cargo de Christophe Honoré, cuja película anterior, “Minha Mãe”, se aproximava perigosamente da pretensão e do choque gratuito, então poderá temer-se que em “Em Paris” o cineasta tenha alargado o espaço para a auto-indulgência mascarada de transgressão e ousadia.

No entanto, após os minutos iniciais, o filme vai colocando de parte esta carga mais ostensiva para se dedicar, e ainda bem, ao que acaba por ter de melhor: um conjunto de personagens bem trabalhadas, unidas pelos laços familiares e entretanto afastadas por muitos outros factores que parecem agora irrisórios quando um dos elementos da família atravessa um momento crítico.

“Em Paris” assenta na relação de dois irmãos, Guillaume, o mais velho, que regressa do interior de França a Paris após o fim de um relacionamento que o deixou à beira da depressão, e Jonathan, o mais novo, que aí vive com o pai e leva uma vida despreocupada.
O estado desolado do primeiro leva a que o segundo, assim como os pais, tentem encontrar uma solução para o afastar do abismo, mas o melhor em que Jonathan consegue pensar é num desafio ao irmão, que o obrigará a ir ter consigo para passearem juntos pelo Bon Marché de Paris, à semelhança do que ocorria quando eram crianças.
Contudo, e ao contrário do combinado, Jonathan acaba por demorar mais de uma manhã a chegar ao local marcado, e o filme segue os episódios decorridos ao longo desse dia que vão, aos poucos e de forma mais ou menos directa, mudando a atitude e a ligação dos dois protagonistas.

Inesperadamente afastado da aura fria e clínica de “Minha Mãe”, “Em Paris” partilha com este um olhar sobre as relações humanas, em especial as familiares, que desta vez é bem mais caloroso, a espaços mesmo percorrido por uma envolvente candura, ainda que não deixe de evidenciar as contrariedades das emoções ou as dificuldades de comunicação geradas entre os que estão unidos pelo sangue.
O retrato resulta num filme genuíno e comovente, que não obstante pontuais cenas dispensáveis (fica por esclarecer a função do narrador) impõe-se como um drama adulto marcado por pontuais escapes cómicos, onde é claro o amor de Honoré pelas suas personagens.

Estas são, de resto, interpretadas por um elenco inatacável, sendo os protagonistas dois dos melhores jovens actores franceses, Romain Duris e Louis Garrel. Duris não destrona o seu magnífico desempenho em “De Tanto Bater o Meu Coração Parou”, mas também não desilude na pele do angustiado Guillaume, e Garrel surpreende como Jonathan, uma personagem mais espirituosa do que as que o actor encarnou em títulos como “Os Sonhadores” ou “Os Amantes Regulares” e que ameaçavam limitá-lo a composições mais soturnas. Guy Marchand é também brilhante no papel do pai, que encoraja Jonathan a ajudar o irmão e tenta tornar a sua família mais coesa.

Peculiar é ainda a utilização da banda-sonora, cujo espectro vai dos Metric a Kim Wilde, incluindo a partitura instrumental de Alex Beaupain. Particularmente significativas são as cenas da conversa telefónica entre Guillaume e a sua ex-namorada, em que ambos cantam “Avan la Haine”, ou aquela, também protagonizada pela personagem de Duris, em que uma canção de Kim Wilde é ouvida no quarto e oferece um momento de arrepiante intimismo.
Intimismo é, aliás, um elemento que Honoré parece ter interesse em desenvolver, e se “Minha Mãe” já sugeria que o realizador era capaz de originar abordagens estimulantes, “Em Paris” confirma-o, estando uns furos acima do seu antecessor. Motivo mais do que suficiente, portanto, para colocar o cineasta entre os novos nomes do cinema francês a seguir com atenção e esta numa obra a não perder entre as estreias da recta final de 2006.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

14 comentários:

Kraak/Peixinho disse...

Este filme deve ser bem engraçado, segundo o que li pelos media. Naum posso deixar passar. :)

Hugzz sem manos

gonn1000 disse...

É bom é, e deve estar quase a estrear por cá :)

H. disse...

uma surpresa. nunca esperei que fosse tão bom. gostei imenso :)

gonn1000 disse...

Já reparei :) Eu tinha gostado do "Minha Mãe", este é melhor e se o Honoré continuar a melhorar vai tornar-se num caso sério.

Lord of Erewhon disse...

Muito interessante o teu blog... e o que escolhes expressa critério e bom gosto.

gonn1000 disse...

Obrigado :)

André disse...

Gosto muito do Honoré e tenho pena de n ter visto a ante-estreia deste. Espero pela estreia. Conheces o 17 fois Cecile, tb dele?

gonn1000 disse...

Não, só o "Minha Mãe", acho que foi o único que teve estreia comercial por cá.

Anónimo disse...

Obrigado pela dica, vou ver. Boa semana.

gonn1000 disse...

De nada, boa semana.

Tata disse...

Tenho de ver!!! Tenho de ver!!!nao posso perder!!!
Logo, o ROMAIN E O LOUIS :D

obrigado pela dica!!!!

gonn1000 disse...

Está quase a estrear, o trailer já anda por aí ;)

Hugo Alves disse...

É mais do que bom :P (e não me refiro apenas à cinefilia da obra. A construção do drama e a utilização do espaço são conjugadas de modo muito inteligente).

gonn1000 disse...

Talvez seja mais do que bom, sim, quando o vi fiquei indeciso mas se tiver tempo ainda o revejo para confirmar a classificação.