terça-feira, outubro 04, 2005

CANÇÕES DE ENCANTAR

Projecto paralelo de Ben Gibbard (dos Death Cab for Cutie) e Jimmy Tamborello (dos Dntel), os Postal Service contam ainda com a colaboração das cantoras Jenny Lewis e Jen Wood e oferecem no álbum de estreia "Give Up", de 2003, uma estimulante e envolvente mistura de indie pop e electrónica, uma amálgama que não é propriamente original mas que é aqui concebida de forma singular e muito inspirada.

O processo de criação do disco foi algo atípico, pois Gibbard e Tamborello trabalharam separadamente, o primeiro ocupando-se das vozes e letras e o segundo da componente electrónica, trocando as suas ideias através do correio (daí a origem do nome do grupo).

O resultado desta experiência teve frutos bem profícuos, pois "Give Up" é um álbum invulgarmente convincente e cativante, reunindo a sensibilidade e carga emocional associada às composições e prestação vocal de Gibbard (que já havia sido comprovada nos muito estimáveis Death Cab for Cutie) e o experimentalismo digital das texturas electrónicas criadas por Tamborello.

Os Postal Service são assim um projecto que, apesar de congregar traços de outros nomes - por aqui passam a synth pop dos Depeche Mode e dos New Order, paralelismos com o indie rock agridoce dos Eels, Smashing Pumpkins (fase "Adore") e Grandaddy ou uma ousadia estética próxima dos Notwist ou mesmo Aphex Twin -, recontextualiza múltiplas influências para originar um conjunto de canções contagiantes que não recorrem a estruturas formatadas, conseguindo ter elementos de produção intrincada mas sendo também surpreendentemente acessíveis e trauteáveis.

Embora contenham uma considerável carga electrónica, os temas de "Give Up" não possuem a frieza e a marca excessivamente maquinal que por vezes contamina essas esferas (como no electroclash, por exemplo), mas mantêm, ainda assim, um forte apelo dançável que se combina espontaneamente com a densidade emocional proporcionada pela voz encantatória e angelical de Gibbard - acompanhada, a espaços, pelas de Jenny Lewis e Jen Wood -, capaz de tornar sublimes versos como "I want so badly to believe that there is truth, that love is real", que se interpretados por outro cantor poderiam soar a banalidades imberbes.

Interligando melancolia, inocência, esperança e introspecção com uma genuinidade comovente, canções como o muito catchy single "Such Great Heights", a belíssima e etérea "Brand New Colony", a claustrofóbica "This Place is a Prison" (o momento mais denso do disco), a uplifting "We Will Become Silhouettes" ou a irresistível "Clark Gable" (com um viciante bater de palmas incapaz de deixar alguém indiferente) são deliciosas pérolas pop de um álbum consistente, com tanto de melódico como de desafiante.

Um dos grandes discos não só de 2003 mas dos últimos anos, "Give Up" peca apenas por ser um pouco curto e não muito heterogéneo (as atmosferas das canções nunca se tornam cansativas, mas são demasiado semelhantes, e o disco talvez se tornasse ainda melhor se fosse mais ecléctico).
Tirando estas pequenas limitações, a estreia dos Postal Service é uma brilhante e muitíssimo agradável proposta de uma reluzente pop electroacústica que não merece passar despercebida.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

segunda-feira, outubro 03, 2005

CENAS DE UNS CASAMENTOS

Um dos grandes sucessos de bilheteira do Verão de 2005 nos EUA, "Os Fura-Casamentos" (The Wedding Crashers) é a mais recente comédia de David Dobkin ("Em Defesa de sua Majestade") e segue o percurso de dois amigos (interpretados por Owen Wilson e Vince Vaughn) cujo principal hobby é infiltrarem-se em casamentos na tentativa de desfrutarem das cerimónias de copo-de-água gratuitamente.

Entre as mais-valias desta actividade frequente encontram-se a oportunidade de se deleitarem com fartos banquetes e os contactos com as não menos aliciantes jovens convidadas que se encontram presentes e que cedem com facilidade às tentativas de sedução do duo (muitos por culpa das suas histórias mirabolantes e dos pequenos shows que encenam, tornando-se quase sempre no centro das atenções).

O que inicialmente parece ser mais uma comédia de humor duvidoso, entre o grotesco e o desbragado, na linha de muitos teen movies que se disseminaram como cogumelos no final dos anos 90, segue depois modelos mais próximos dos das comédias românticas, com a inevitável previsibilidade que isso acarreta.
De resto, esse convencionalismo acaba por marcar, na maioria das vezes, grande parte destas comédias mainstream norte-americanas, que mesmo quando tentam parecer irreverentes e ousadas acabam por se submeter a um moralismo forçado e formatado.

"Os Fura-Casamentos" é mais uma prova dessa tendêcia, pois a partir do momento em que a dupla central se apaixona por duas filhas do ministro das finanças o argumento é alvo de uma considerável mudança de tom e vê reforçada a carga melosa, na tentativa de fazer com que o filme agrade a gregos e a troianos (ou, melhor dizendo, a um público masculino e feminino).

David Dobkin não chega a abusar da lamechice barata (embora esta esteja presente) nem recorre a muitos rodriguinhos melodramáticos, mas o seu trabalho também não vai além daquilo que se esperaria de um tarefeiro minimamente competente.
A realização é pouco inventiva, mas o ritmo possui alguma energia, e os desempenhos dos actores são eficazes, mesmo que não haja por aqui grandes personagens.

Owen Wilson e Vince Vaughn funcionam bem juntos, embora não saiam de esferas que já se tornaram na sua imagem de marca (Wilson contido e discreto, Vaughn histriónico e impulsivo), Christopher Walken expõe o seu carisma habitual e Rachel McAdams é uma supresa refrescante e graciosa, encarnando uma personagem que equilibra candura e inteligência (uma actriz a ter em conta e igualmente convincente noutros registos, como o thriller "Red Eye", de Wes Craven, pode comprovar).

Mesmo com um humor pouco rebuscado que raramente é hilariante, "Os Fura-Casamentos" consegue funcionar enquanto entretenimento light aceitável, desde que não se peça para ser mais do que isso (mas o filme também não pretende alcançar outros patamares). Ou seja, compensa em cenas divertidas q.b. aquilo que lhe falta em substrato cinematográfico, o que para uma película assumidamente efémera e descartável não é assim tão negativo...
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

domingo, outubro 02, 2005

31 SONGS

Anda por aí a circular pelo espaço virtual um desafio inspirado no livro "31 Songs", de Nick Hornby, cujo objectivo é apresentar as nossas 31 canções preferidas. É uma tarefa árdua, mas consegui realizá-la, e a única regra foi não repetir nenhum artista (porque senão colocava aqui álbuns completos dos Garbage, Depeche Mode, Smashing Pumpkins, Massive Attack, enfim...). And the winners are:

“#1 Crush”, Garbage
“Kelly Watch the Stars”, Air
“Ilusão/ Desilusão”, Da Weasel
“So Free (3 Acts)”, The Gift
“Search Me Not”, Silence 4
“Coisas”, Ornatos Violeta
“Be There”, UNKLE feat Ian Brown
“Move With Me”, Neneh Cherry
“Man Next Door”, Massive Attack
“Where is My Mind”, Pixies
“Blue American”, Placebo
“The River”, PJ Harvey
“De Azul em Azul”, Rádio Macau
“Metamorfose”, Mãozinha
“Blue Monday”, New Order
“Something I Can Never Have”, Nine Inch Nails
“Blindfold”, Morcheeba
“Violet”, Hole
“Appels & Oranges”, Smashing Pumpkins
“How to Disappear Completely”, Radiohead
“Fly”, Lamb
“I'm Doing Fine”, Day One
“Roses”, dEUS
“Never Let Me Down”, Depeche Mode
“Smells Like Teen Spirit”, Nirvana
“You Were the Last High”, Dandy Warhols
“I Deserve It”, Madonna
“All is Full of Love”, Bjork
“A Forest”, Cure
“Climbatize”, Prodigy
“Keep Your Dreams”, Primal Scream

Numa lista que não é seguramente definitiva, ficaram excluídas canções de muitos outros nomes - Gus Gus, Chemical Brothers, Curve, Franz Ferdinand, Blur, Sneaker Pimps, 12 Rounds, Postal Service, R.E.M., Flunk, Cardigans, Bran Van 3000, Portishead, Joy Division, Soul Coughing, Asian Dub Foundation, Ladytron, Muse, Luscious Jackson, Eels, Interpol, Elliot Smith, DJ Shadow, ... -, que também mereciam estar aqui mas ficarão para uma próxima oportunidade.

Estas são as minhas escolhas, quais as vossas?

CINE G&L

Realizado entre 15 e 21 de Setembro de 2005, o 9º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa trouxe múltiplas obras cinematográficas inéditas - curtas e longas-metragens, assim como documentários - a salas da capital, apresentando títulos de várias origens geográficas e que exploram de forma diversificada a temática LGTB (e um ciclo especial dedicado à retrospectiva do catálogo New Age). Estive presente quase todos os dias através do Jornal Inside e abaixo constam as análises a alguns dos filmes que vi por lá:

Antecipação

"20 Centímetros", Ramón Salazar

"Carne Fresca, Procura-se", Anders Thomas Jensen

"City of Happiness", Michael Roes

"Comme un Frère", Bernard Alapetite/ Cyril Legann

"Garçon Stupide", Lionel Baier

"Hilde's Journey", Christof Vorster

"L'Ennemi Naturel", Pierre Erwan Guillaume

"O Verão de Victor Vargas", Peter Sollett

"Oldboy - Velho Amigo", Park Chan-Wook

"Popular Music", Reza Bagher

sexta-feira, setembro 30, 2005

COMBATES SEM MURROS NO ESTÔMAGO

Depois do sobrevalorizadíssimo biopic “Uma Mente Brilhante” e do quase ignorado western esotérico “Desaparecidas”, Ron Howard assinala o regresso à realização com “Cinderella Man”, a sua visão sobre a história verídica de Jim Braddock, pugilista que se tornou célebre durante a Grande Depressão.

Paradigma do self-made man e de figura abençoada pelo sonho americano, Braddock teve uma carreira conturbada e irregular, vincada por múltiplas derrotas que quase o obrigaram a abandonar definitivamente os ringues de boxe e a sujeitar-se a outra ocupação.
Contudo, quando ninguém esperava, o pugilista provou ser um lutador – literalmente – e o seu empenho e perícia contribuíram para que se tornasse num símbolo de heroísmo e persistência.

Baseando-se nestes factos, “Cinderella Man” tem reunidas as condições para ser mais um filme centrado no triunfo sobre a adversidade, e é precisamente isso em que acaba por se tornar, apresentando mais um concentrado de esperança, optimismo e obstinação habitual no cinema mainstream norte-americano (e descaradamente orientado para os Óscares).

Esse elemento não é necessariamente mau, mas quando o mentor do projecto é alguém como Ron Howard os resultados dificilmente seriam os mais criativos e ousados. De facto, a película só a espaços consegue afastar-se do esquematismo que domina tantas outras obras do género, e aqui sofre ainda mais dessa tipificação ao apostar nos clichés dos “filmes de boxe”. Ou seja, uma lógica linear onde o espectador sabe que a fase inicial, geralmente amargurada, logo conduzirá a um desenlace próspero e profícuo.

Howard segue essa via formatada, e se até o faz com alguma competência – o ambiente de época está bem recriado, a fotografia e a banda-sonora não comprometem, o elenco (onde constam Russell Crowe, Rennée Zellweger ou Paul Giamatti) cumpre -, não evita cair na previsibilidade, apresentando personagens planas, um trabalho de realização sem rasgos e um argumento que raramente surpreende.

O maior problema, no entanto, é o da narrativa desigual, pois se os primeiros momentos do filme ainda expõem alguma fluidez a última meia-hora, uma sucessão de combates carregados de intermináveis pontos supostamente climáticos (que apenas geram uma tensão forçada e até manipuladora), faz com que os momentos que antecedem o desenlace sejam bastante redundantes e enfadonhos, atirando decididamente o filme para a mediania.

“Cinderella Man”, não obstante uma ou outra cena mais conseguida, é um título que não se afasta muito das obras habituais de Howard: produtos suficientemente eficazes, politicamente correctos, inofensivos, sem considerável marca autoral e que pouco trazem de novo ao Cinema. A vantagem é que também dificilmente insultam – pelo menos de forma gritante – a inteligência do espectador, o que nos dias de hoje já é um factor a salientar.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, setembro 29, 2005

O MEU CHOURIÇO É MELHOR QUE O TEU!

Pois é, o país está animado com a sempre entusiasmante fase de campanha eleitoral. Mas o que seria de uma campanha sem um cartaz à altura, sobretudo nos dias de hoje onde a imagem parece sobrepôr-se a tudo o resto?

Alguns dos cartazes mais... errr... "peculiares" podem ser encontrados aqui, e os três próximos visitantes do site ganham um chouriço caseiro (calma, esta parte do prémio era só um teste, mas digam lá se não é um isco apelativo?).

O DESPERTAR DAS MEMÓRIAS

Estreia de Omar Naïm na realização, “The Final Cut – A Última Memória” desenrola-se numa sociedade futurista marcada por novas descobertas tecnológicas, sendo uma delas um chip que é instalado no cérebro à nascença e que regista todos os momentos da vida de um ser humano, gravando as suas memórias. Estas recordações digitalizadas serão a base para a criação de vídeos após a morte daqueles que tiveram o chip incorporado, vídeos esses que são editados por especialistas e exibidos nos funerais.

Esta ideia daria para gerar um filme entusiasmante, pois fornece material suficiente para discutir questões éticas relacionadas com o direito à privacidade ou com a morte, mas o “The Final Cut – A Última Memória” não assenta tanto neste conceito e envereda antes por territórios do thriller, explorados de forma rotineira e pouco imaginativa, desperdiçando assim o considerável potencial da sua premissa.

Para além de um bom ponto de partida, a película de Omar Naïm conta também com actores talentosos, mas também estes são subaproveitados. Robin Williams, o protagonista, não é especialmente interessante no papel de um solitário editor de memórias que descobre uma marcante imagem ligada ao seu passado (a milhas da ambiguidade e complexidade da sua interpretação em “Câmara Indiscreta”, de Mark Romanek); Mira Sorvino tem uma presença demasiado discreta e uma personagem fraca para defender; e Jim Caviezel oferece um desempenho competente mas o argumento não o deixa fazer mais.

Assim, “The Final Cut – A Última Memória” está longe de ser uma primeira obra promissora, uma vez que Naïm não consegue proporcionar uma narrativa coesa e intrigante que poderia ter tornado este projecto num grande filme, tendo em conta que aborda o tema da memória, capaz de originar resultados absorventes (como “O Despertar da Mente”, de Michel Gondry; “Memento”, de Chris Nolan; ou “Pago Para Esquecer”, de John Woo, por exemplo).
O que resta é uma película insípida e monótona, incapaz de surpreender e desprovida de qualquer tensão dramática, que se vê sem esforço mas que dificilmente gerará boas memórias...

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

quarta-feira, setembro 28, 2005

MIX DOS 90s

Um dos discos de estreia mais estranhos e inclassificáveis de finais dos anos 90, “Glee” apresentou ao mundo – ou a parte dele – os canadianos Bran Van 3000, colectivo de Montreal criado pelo DJ/ realizador de vídeos e documentários Jamie “Bran Man” Di Salvio que agrega quase 20 elementos e apresenta uma paleta sonora igualmente extensa.

Editado em 1998, o álbum é uma gigantesca amálgama de quase todas as sonoridades que marcaram a década, apresentando um ecléctico melting pot que inclui pop, soul, techno, trip-hop, rap, drum n’ bass, electrónica, folk, hip-hop, spoken word, funk, lounge, indie rock, R&B, reggae ou country, entre outras contaminações difíceis de catalogar.

Esta inegável diversidade é cativante e conquista pela ousadia e doses de desafio que expõe, mas também torna “Glee” num disco demasiado desequilibrado e fragmentado, que tanto gera momentos geniais e de antologia como oferece exercícios de um cut n’ paste algo inconsequente e enfadonho.

Felizmente, os episódios inspirados superam os mais banais, e algumas das primeiras canções do álbum são concentrados de energia contagiante, como o denso “Forest”, o melódico e viciante “Rainshine”, o fugaz e emotivo “Problems”, o intrigante e soberbo “Afrodiziak” ou o irresistível single “Drinking in LA”.
A recta final do disco é bem menos estimulante, uma vez que temas como “Old School”, “Willard” ou “Mama Don’t Smoke” não contêm uma mistura de géneros tão conseguida e seriam mais adequados como lados-b, pois apenas desequilibram um álbum que por vezes roça o brilhantismo.

Imprevisível e envolvente, por vezes intencionalmente kistch mas também subtil, a estreia dos Bran Van 3000 expõe uma atitude fusionista que aproxima a banda de nomes como Beck, Tricky, Beastie Boys, Cibo Matto, Luscious Jackson, Soul Coughing, Dee-Lite, Whale, Gorillaz ou Morcheeba, entre outros projectos que se destacaram pelo inventivo cruzamento de referências aparentemente distantes.

Muito bem produzido e com solidez a nível instrumental e vocal (as combinações das vozes de Jayne Hill e Sara Johnston, da cantora soul Stephane Moreille, do MC Steve “Liquid” Hawley e do próprio Di Salvio originam resultados muito entusiasmantes), “Glee” consegue conciliar vibração emocional a um apelativo sentido de humor, tornando-se num disco convincente e com personalidade mas que não é a obra-prima que por vezes ameaça ser pois dispara em várias direcções e nem sempre acerta. Quando o faz, no entanto, proporciona momentos que lhe permitem juntar-se à lista de álbuns muito meritórios – e injustamente esquecidos – dos anos 90.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

A MORTE FICA-LHES TÃO BEM

Através de filmes marcantes como "Night of the Living Dead" (1968), "Dawn of the Dead" (1978) e "Day of the Dead" (1985), George Romero tornou-se num dos nomes fulcrais do cinema de terror, particularmente de obras centradas em aventuras com zombies e largas doses de suspense.

"Terra dos Mortos" (Land of the Dead), quarto episódio da saga dos mortos, volta a evidenciar o profissionalismo do cineasta, confirmando que ainda é um autor a ter em conta e capaz de dar continuidade à sua respeitável filmografia.

Desenrolando-se anos após os eventos de "Day of the Dead", a película não é uma sequela desta última mas o seu ponto de partida assenta nas situações que aí ocorreram. Assim, o filme decorre numa realidade futura onde a Terra foi dizimada por zombies, forçando os seres humanos a ocupar lugares estratégicos onde conseguem ainda sobreviver e escapar à ameaça dos seus perigosos antagonistas e predadores.

Um desses locais é Fiddler's Green, dividido entre uma zona quase paradisíaca, reservada aos mais ricos e abastados, e e as zonas periféricas, guetos de onde reside a maior parte dessa sociedade.
Contudo, aos poucos até esta cidade, à partida um refúgio seguro, será alvo das investidas dos mortos-vivos, pois estes tornam-se menos irracionais e adoptam um plano que colocará em risco a continuidade da raça humana.

Embora não seja uma obra especialmente criativa - o que tem para oferecer já foi feito, sobretudo pelo próprio Romero -, "Terra dos Mortos" é, ainda assim, um bom concentrado de acção, suspense, terror, drama, algum humor negro e um travo de gore, capaz de proporcionar um muito competente exercício de série B.

Há alguns elementos pouco conseguidos, como a irregular direcção de actores (onde se destacam, apesar de tudo, John Leguizamo ou Dennis Hopper) ou a superficialidade das personagens, compensados por um argumento linear mas eficaz, um ritmo equilibrado e sempre envolvente e um astuto trabalho de realização, que apesar do notório low-budget consegue ser bastante seguro.

"Terra dos Mortos" proporciona alguns momentos de assinalável desconforto e claustrofobia, para os quais contribuem a convincente soturnidade dos zombies ou as intrigantes atmosferas nocturnas, e felizmente Romero mantém uma postura back to basics, ou seja, fixa-se no que é essencial e não se perde em sequências de carnificina descontrolada ou em cenas de pirotecnia megalómana, concedendo assim uma considerável carga realista aos acontecimentos. Interessante, também (embora um pouco óbvio e simplista) é o subtexto social do filme, onde o realizador recorre a alguma ironia e estabelece paralelismos com as desigualdades presentes no mundo contemporâneo.

Não atingindo o estatuto de clássico nem de obra essencial - ao contrário de outros títulos de Romero -, "Terra dos Mortos" eleva-se, contudo, acima da mediania e supera o nível medíocre da maioria da concorrência dentro do género, que ultimamente se tem mostrado muito pouco profícua. Não chega a ser o melhor do que se fez recentemente em domínios de filmes de zombies - "28 Dias Depois", de Danny Boyle, é mais inventivo e surpreendente -, mas anda lá perto, conquistando pela eficácia, economia e rigor que evidencia.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, setembro 27, 2005

MAGIA, PRECISA-SE

Adaptação para o grande ecrã da série televisiva homónima dos anos 60, “Casei com uma Feiticeira” (Bewitched) é uma comédia romântica realizada por uma especialista do género, Nora Ephron (“Sintonia de Amor”, “Você tem uma Mensagem”), e protagonizada por dois dos actores mais mediáticos de Holywood, Nicole Kidman e Will Ferrell.

Isabel Bigelow (Kidman) é uma jovem feiticeira que, cansada de ver a sua vida facilitada pela magia, tenta tornar-se numa mulher normal, ambicionando viver os dramas e contrariedades do quotidiano urbano sem contar com a ajuda dos seus dons.
Ingénua e emotiva, Isabel procura também encontrar algo que nunca teve oportunidade de conhecer, uma das poucas coisas que não pode adquirir graças aos seus bruxedos: o amor.

Por ironia do destino, Isabel trava conhecimento com Jack Wyatt, um actor que tenta reabilitar a sua carreira através da participação numa nova versão da série televisiva “Casei com uma Feiticeira”, na qual interpretará um dos papéis principais, repartindo o protagonismo com... Isabel, que se estreia assim como actriz de forma inesperada.

“Casei com uma Feiticeira” é um filme com uma premissa curiosa, pois não se limita a apresentar um episódio longo e devidamente actualizado da série mas baseia-se nesta para a utilizar como mote do próprio argumento, propondo uma experiência com algum potencial.
Infelizmente, esta é uma daquelas películas cuja execução não está à altura do potencial, pois apesar de um ponto de partida relativamente engenhoso o filme desenvolve-se de um modo bastante rotineiro e previsível, raramente arriscando sair do formato estereotipado de uma comédia romântica comercial e pouco inventiva.

A realização de Ephron é competente, mas indistinta, as interpretações são igualmente aceitáveis, ainda que desprovidas de grande carisma – Kidman cumpre, mesmo com uma personagem sem substância, Ferrell é menos apatetado e mais tolerável do que noutros papéis (supostamente) cómicos e Michael Caine e Shirley MacLaine são dois secundários que mal têm oportunidade de mostrar o que valem -, mas o maior problema é mesmo o do argumento, uma colecção de clichés onde o moralismo fácil e o romance pouco inspirado geram um resultado monótono e cansativo.

Os episódios cómicos também raramente funcionam, e no máximo suscitam um discreto sorriso benevolente, pois o tipo de humor presente em “Casei com uma Feiticeira” é tão estafado e politicamente correto que provavelmente só agradará a tias e sobrinhas que apreciem filmes limpinhos, inofensivos e pouco desafiantes.

Não acrescentando nada de novo e não conseguindo sequer funcionar enquanto um entretenimento escorreito, “Casei com uma Feiticeira” afunda-se na sua própria leveza e é apenas mais um filme inócuo, apropriado para encher a programação televisiva das tardes de fim-de-semana e pouco mais. Uma obra francamente dispensável, e não há feitiço que a salve...

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

O CAMPO E A CIDADE

E pronto, chegou ao fim este fim-de-semana prolongado (para mim), passado entre deambulações nocturnas na sexta por Lx @night na sexta e um devio para o interior durante os três dias seguintes.

Após uma friday night fever um pouco infrutífera, que não correu bem conforme o esperado, parti na manhã de sábado para o Fundão, em plena época das vindimas, onde revi alguns familiares e conheci mais uns quantos de quem nunca tinha ouvido falar (they're everywhere...), dei uma mãozinha no campo (quanto mais não seja para que não me chamassem "menino da cidade") e ainda tive tempo para uns mergulhos (o Verão já acabou, é certo, mas há que aproveitar as últimas résteas de Sol). Não deu para descansar muito, mas foi um contraponto apropriado para uma semana de "overdose" cinematográfica...

sexta-feira, setembro 23, 2005

PEDAÇOS DE UMA VIDA

Loïc é um jovem de 20 anos que reside numa cidade suíça, dividindo a sua rotina entre o trabalho numa fábrica de chocolates e conversas na internet onde combina encontros sexuais com estranhos.

Não tendo nenhum projecto especial para o seu futuro, Loïc pensa apenas nas experiências do seu dia-a-dia, até que certos acontecimentos fazem com que comece a cansar-se das recorrentes aventuras hedonistas com múltiplos parceiros e a procurar algo mais, embora não saiba definir exactamente aquilo que busca.

“Garçon Stupide”, de Lionel Baier, é um estudo de personagem que se debruça sobre as atribulações e conflitos interiores de um jovem cujo espectro emocional se torna cada vez mais denso à medida que vai deixando de ter referências que o orientem ou encoragem.

Embora estabeleça alguns laços afectivos com a sua melhor amiga Marie, com quem mantém uma relação próxima mas também dolorosa; com Lionel, um dos homens que conheceu via internet e o único que não o encara como um objecto sexual; e com Rui, um jogador de futebol local que idolatra; Loïc acaba por se deparar, ainda assim, com a solidão, que juntamente com a sua falta de cultura e de objectivos lhe antecipa um futuro pouco promissor.

Lionel Baier gera uma primeira longa-metragem sólida e envolvente, conseguindo delinear um retrato introspectivo sobre as dores do crescimento, a confusão sexual e as contrariedades da amizade, recorrendo a um estilo de realização realista e por vezes próximo de um registo documental (sobretudo nos diálogos do protagonista com Lionel, próximos de uma reportagem televisiva), apresentando algumas similaridades com “Não Dou Beijos”, de André Téchiné, ou “L.I.E. – Sem Saída”, de Michael Cuesta.

A tridimensionalidade do filme é reforçada pelas muito consistentes interpretações, e Pierre Chatagny, no papel principal, é especialmente exemplar, irradiando uma espontaneidade e ingenuidade credíveis e cativantes, moldando uma personagem forte e interessante de seguir. Para tal terá contribuído o facto de muitas das situações do argumento se basearem na vida do próprio actor (e na do realizador), o que torna a narração na primeira pessoa em voz-off, na última cena, particularmente significativa.

“Garçon Stupide” é uma obra apelativa mas que nem sempre resulta, evidenciando algumas fragilidades (de resto, naturais numa primeira longa-metragem). Se as cenas entre Loïc e Marie ou as deambulações nocturnas do protagonista (estas vincadas por ocasionais cenas de sexo cruas, mas nunca exibicionistas) resultam bastante bem, originando uma primeira hora de filme inspirada, as sequências com Rui, o jogador de futebol, são algo forçadas e desnecessárias, expondo inclusivamente alguns problemas de ritmo.

No entanto, estes passos em falso não chegam a afectar de forma muito grave a consistência da película, que apesar disso é uma sensível, melancólica mas também divertida perspectiva acerca do fim da adolescência e da entrada na idade adulta, fase difícil e complexa mas capaz de inspirar entusiasmantes abordagens cinematográficas. Felizmente, é o caso.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

TONIGHT TONIGHT...

...Electrodomésticos @Incógnito

Quem mais vai?

Actualização: Bem, afinal acabei por não ir, estive por Lisboa à noite mas alguns episódios conturbados fizeram com que, infelizmente, tivesse de alterar os planos. Espero que quem foi se tenha divertido... Entretanto nos próximos 3 dias vou estar pelo interior, por isso bom fim-de-semana ;)

LINKS E BLINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Brunomon, Kraak FM <'+++< e Trips Along the Blue por me blinkarem ;)

quinta-feira, setembro 22, 2005

ENSAIO SOBRE A VINGANÇA

Um dos filmes orientais mais elogiados dos últimos anos – vencedor do Grande Prémio do Júri na edição de 2004 do Festival de Cannes, por exemplo -, “OldBoy – Velho Amigo” é o segundo tomo da trilogia da vingança do sul-coreano Park Chan-Wook, iniciada com “Sympathy for Mr. Vengeance”, de 2002 (que não chegou a salas nacionais).

Oh Dae-Su chega ao fim de uma aparentemente normal noite de boémia já sob os efeitos do álcool, mas estaria longe de imaginar que uma situação destas não voltaria a ocorrer tão cedo, e menos ainda que não reencontraria a sua mulher e filha, pelo menos nos próximos anos, uma vez que é raptado e encarcerado num pequeno quarto de hotel por motivos que desconhece.

Contudo, esse estado de súbito aprisionamento, angustiante e misterioso, prolonga-se por quinze anos, durante os quais Oh Dae-Su não contacta com ninguém (excepto com alguns indivíduos que lhe levam a comida) e só toma conhimento do mundo exterior através da televisão.
Após mais de uma década de reclusão forçada, o protagonista é finalmente libertado, tendo então apenas um motivo que orienta a sua existência amargurada: vingar-se daquele que o condenou a um longo martírio e lhe destruiu a vida.
Com base nesta premissa, “Oldboy – Velho Amigo” segue os cinco dias infernais que se sucedem à ansiada liberdade de Oh Dae-Su, onde este inicia uma jornada pela qual esperava há vários anos.

Park Chan-Wook apresenta um filme intenso e efervescente, com momentos de uma violência explícita e brutal, marcada por um considerável sadismo e requintes de malvadez.
Comparado a “Kill Bill: A Vingança”, de Quentin Tarantino, “Oldboy – Velho Amigo” exibe, à semelhança deste, largas doses de humor negro e cenas de violência estilizada, mas as atmosferas da película de Wook são mais doentias e claustrofóbicas e não apostam tanto numa amálgama de referências da iconologia pop.

Visualmente estimulante, o filme capta eficazmente o negrume dos ambientes urbanos, com contrastes de cores e texturas que mesclam traços das estéticas de David Fincher e Wong Kar-Wai, mas a absorvente banda-sonora é igualmente decisiva para complementar a visceralidade e energia cinética de muitas sequências.

Embora seja uma obra interessante, “Oldboy – Velho Amigo” só atinge um patamar superior na recta final, quando as motivações do antagonista de Oh Dae-Su são reveladas e geram momentos de grande impacto dramático.
Até aí, o filme motiva e inquieta mas não chega a conquistar por completo, pois apesar de contar com um ponto de partida curioso não se afasta muito de uma convencional estória de vingança (contada com competência formal mas sem golpes de génio, que só surgem na última meia-hora).

O estilo é conseguido e inatacável, mas em termos de impacto emocional o resultado é mais desequilibrado, e o facto de nenhuma personagem não gerar especial empatia também não ajuda.
Um filme a (re)descobrir, mesmo assim, ainda que o epíteto de “obra-prima” seja excessivo para designar um título meritório, mas longe de indispensável.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quarta-feira, setembro 21, 2005

NOVOS OLHARES

Um olhar sobre a sociedade argelina actual, “City of Happiness” é um documentário de Michael Roes que se centra nas vivências de alguns jovens inconformados com um sistema que não aceitam mas ao qual têm, ainda, que se submeter.

Partindo das perspectivas de Nadir, um estudante universitário que apresenta ao espectador as figuras, locais e situações que marcam o seu dia-a-dia, o filme mergulha em parte do quotidiano de um país cujos reflexos dos desequilíbrios políticos e económicos são bem evidentes.

Recusando a digressão turística de cartão-postal e afastando-se igualmente de retratos de um miserabilismo fácil e oportunista, “City of Happiness” oferece uma pertinente e interessante reflexão acerca de uma cultura distante dos padrões das sociedades ocidentais, mas como Michael Roes expõe, alguns elementos das novas gerações vão tentando, com maior ou menor persistência, encontrar alternativas que lhes permitam alterar ou abandonar uma sociedade que tanto os acolhe como os reprime.

Por vezes leve e espirituoso, noutros momentos melancólico e amargurado, “City of Happiness” é um documentário escorreito, conseguindo aliar a vertente lúdica à informativa, mas sofre de óbvias limitações técnicas, com um trabalho de realização pouco inventivo e que evidencia meios modestos. A película tem também um ritmo irregular, apresentando sequências excessivamente longas e redundantes que a tornam numa obra desigual.

Contudo, num projecto destes os elementos técnicos acabam por contar menos do que os humanos, e Roes gera aqui um documentário honesto e com alma, muito por culpa da genuinidade e empatia emanadas por Nadir, que conduz a acção de forma envolvente q.b..

Modesto, mas relevante, “City of Happiness” é mais um dos bons exemplos da versatilidade e abrangência temática do cinema documental, género que se tem afirmado nos últimos anos e que encontra em Michael Roes mais um curioso nome com potencial.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, setembro 20, 2005

CRIMES PASSIONAIS

Primeira longa-metragem de Pierre Erwan Guillaume, “L’ Ennemi Naturel” desenrola-se numa pequena aldeia francesa assombrada pela misteriosa morte de um adolescente.
Nicolas Luhel é um jovem agente da judiciária cuja missão é descobrir que situação levou à morte do rapaz, mas a resolução desse mistério complexifica-se à medida que as investigações apontam para suspeitos que se recusam a cooperar na busca de respostas.

Serge Tanguy, o pai da vítima, é acusado pela sua ex-mulher de ter assassinado o seu filho, por isso Nicolas considera-o o principal suspeito deste caso, mas ao realizar os seus inquéritos o jovem investigador apercebe-se de que esta não é apenas mais uma missão, estabelecendo uma estranha e conturbada relação com Tanguy.

“L’ Ennemi Naturel” percorre territórios do policial francês, mais centrado na componente psicológica do que em cenas de perseguições e tiroteios, apresentando um conflito essencialmente cerebral entre as personagens.

As paisagens naturais do norte da Finisterra, com tanto de belo como de estranho e inóspito, são um cenário apropriado para reforçar a crescente solidão e nervosismo de Nicolas, que se encontra numa busca sem aliados e com múltiplos entraves.
A realização árida e naturalista de Pierre Erwan Guillaume também contém a sobriedade necessária para que o filme exponha uma vital carga de verosimilhança e realismo, mas a película não resulta tão bem noutros elementos, sobretudo na concepção do argumento e das personagens.

As atmosferas nebulosas e enigmáticas do filme não encontram, infelizmente, um contraponto à altura no mistério que envolve a morte do adolescente, solucionado de forma pouco convincente, que se limita a esconder factos do espectador pretendendo assim surpreender.

Outro problema são as personagens, figuras que não geram empatia nem interesse, tornando-se figuras demasiado distantes e mal definidas, com a eventual excepção do protagonista. Os traços da crise existencial que começa a contaminar Nicolas prometem um intrigante estudo de personagem, mas a execução não é especialmente entusiasmante, e a sua relação com Serge, vincada pela sugestão de uma carga homo-erótica latente, contém potencial mas é subaproveitada.

Desequilibrado e frequentemente enfadonho, “L’ Ennemi Naturel” limita-se a seguir os códigos do policial e só a espaços se afasta da banalidade.
Há momentos conseguidos, como os da dilaceração emocional de Nicolas (nos últimos minutos do filme) ou as sequências nocturnas à beira-mar, que apresentam uma interessante aura lacónica, mas não chegam para compensar a falta de chama do argumento, o ritmo letárgico da narrativa, as personagens superficiais ou as interpretações de escasso carisma, tornando esta numa primeira-obra desinspirada e indistinta.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

segunda-feira, setembro 19, 2005