quarta-feira, agosto 02, 2006

COMÉRCIO EMOCIONAL

Com um olhar ácido e nada condescendente sobre as relações humanas contemporâneas, interligadas com o consumismo, egoísmo, dependência e hedonismo, “Shopping and Fucking”, do britânico Mark Ravenhill, está em cartaz na Casa d’Os Dias da Água, na Estefânia, até ao próximo dia 6, numa encenação de Carlos Afonso Pereira.

A peça, assente nas experiências de cinco personagens (interpretadas por Anabela Brígida, pelo próprio Carlos Afonso Pereira, Carlos Vieira, Miguel Moreira e Romeu Costa), debruça-se no modo como estas tentam colmatar a solidão e a falta de comunicação, encontrando no consumo a resposta – mas não necessariamente a solução - mais imediata para as suas inquietações e dilemas. Consumo, que, se engloba produtos vários, inclui também as próprias relações humanas, aqui tratadas como mais uma mercadoria, algo meramente utilitário e, em última instância, tão descartável como uma refeição de fast-food ou um chocolate.

Shopping and Fucking

Entre assaltos a lojas, ataques de padrastos sem pudor, desafios de verdade ou consequência, relações a três, jogos de máscaras, conversas em linhas eróticas ou ofertas de ecstasy em discotecas, condimentados pela música de Madonna, Garbage ou Goldfrapp, “Shopping and Fucking” propõe uma dissecação da identidade e das contradições do âmago humano, sendo as conclusões muito pouco esperançosas e redentoras.

As personagens, todas contaminadas por um estado de apatia emocional, são utensílios indefinidos e maleáveis, que vão sendo encarnadas pelo elenco transferindo-se de actor para actor. Estes vagueiam pelas duas salas que acolhem o espectáculo, mantendo-se perto do público mas nunca chegando a interagir com este, contando com poucos adereços e orientando assim a atenção dos espectadores para o texto.

Contando com uma apreciável dose de experimentalismo e desafio pelas opções cénicas pouco convencionais, “Shopping and Fucking” não surpreende tanto na forma como aborda os seus temas, a espaços estimulante mas que como um todo resulta repetitiva e traída pelo excesso de pretensão.
Se por um lado se concentra em questões pertinentes e actuais, torna-se numa peça cansativa uma vez que as personagens nunca chegam a envolver (a frivolidade destas é intencional, mas é preciso mais para lhes conferir tridimensionalidade) e algumas cenas são demasiado herméticas. Ficam as intenções e pontuais momentos inspirados, o suficiente para que o resultado final seja interessante, mas ainda assim falhado.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

4 comentários:

Andre disse...

Olha que simpático. Análise curiosa. Tem sido um sucesso de público! :)

gonn1000 disse...

Gostava de ter gostado mais, mas achei apenas mediano. But hey, that's just me ;)
E sim, no dia em que fui (quarta-feira) estava lá muita gente.

António J. Martins disse...

É curioso... eu achei a repetitividade muito pertinente, dando uma maior força a um ambiente "globalizado", de perda de identidade individual. E também não posso concordar quando diz que o espectáculo é pretensioso. Penso isso sim, que é um espectáculo bastante cerebral e talvez pouco acessível. O meu veredicto é 4,5/5 ;) ainda bem que não temos todos a mesma opinião.

gonn1000 disse...

São pontos de vista, e sim, ainda bem que não são todos iguais.