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quinta-feira, março 10, 2005

O AMOR E A CIDADE

Filme-sensação dos Césares de 2004, os mais importantes galardões cinematográficos franceses, “A Esquiva” (L’ Esquive) é um pequeno filme de baixo orçamento realizado pelo tunisino Abdellatif Kechiche e apresenta um olhar sobre um conjunto de jovens de um bairro social parisiense. Vencedora da cerimónia nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Esperança Feminina (para a muito promissora actriz Sara Forestier), a película combina drama e comédia para focar um quotidiano suburbano vincado pelo choque de culturas e tensões da adolescência.

“A Esquiva” insere-se na linha dos filmes sobre minorias étnicas – neste caso, a comunidade abordada é a islâmica – que tem dominado algum do cinema de domínios mais marginais nos últimos anos, mas aqui o retrato prefere adoptar tons mais leves e optimistas e não se debruça tanto num realismo cru e desencantado que domina alguns dos exemplos do género. Não é que os traços de realismo não estejam presentes, pelo contrário, dado que Kechiche recorre frequentemente a um tipo de realização próxima do registo documental, mas o ponto de vista do cineasta não aposta em atmosferas de considerável fricção ou visceralidade, frequentemente presentes em dramas urbanos, seguindo antes por domínios mais cândidos e esperançosos.

O ponto de partida é uma peça teatral baseada em "O Jogo do Amor e do Acaso", de Marivaux, trabalhada por um grupo de estudantes de liceu da periferia e cuja temática – desde o conflito e classes às vicissitudes amorosas – irá estabelecer relações próximas com as conturbadas peripécias dos jovens. A peculiar ligação de dois dos actores da peça – Krimo (Osman Elkharraz) e Lydia (Sara Forestier) – está na origem de uma série de episódios, geralmente divertidos e por vezes surpreendentes, que interligarão uma rede de personagens num intrincado jogo de equívocos e contradições.
Com este ponto de partida, Kechiche proporciona um filme que conquista pela eficaz e credível captação de ambientes e esferas urbanas, que servem de cenário a um curioso e sensível retrato da adolescência onde as referências culturais entram em colisão e tendem a reformular-se. Nesse sentido, “A Esquiva” percorre domínios não muito distantes de “Joga Como Beckham” (Bend it Like Beckham), de Gurinder Chadha, com o qual partilha um irresistível bom-humor quase omnipresente que molda as experiências de uma comunidade de imigrantes (a comédia britânica focava, no entanto, a cultura indiana).

O elenco, constituído por adolescentes de bairros sociais, é globalmente sólido e convincente, e as personagens geram doses suficientes de empatia para que o seu rumo cative e envolva. Contudo, é inevitável não verificar aqui uma abordagem demasiado simplista e reluzente de temáticas complexas e delicadas das comunidades islâmicas, mas essa escassez de complexidade é compensada pela vibrante genuinidade e honestidade do projecto, que apesar de contar com um orçamento reduzido consegue desenrolar-se com assinalável carisma e energia.

Há alguns passos em falso, como a pouco conseguida cena com os polícias (um promissor, mas mal aproveitado momento de tensão) ou mesmo o desapontante desenlace, mas ainda assim “A Esquiva” destaca-se acima da mediania e proporciona duas horas razoavelmente divertidas e que, a espaços, contêm questões pertinentes e actuais. Nada mau para um pequeno filme simpático…

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, novembro 04, 2004

ESTREIAS DA SEMANA - 4 A 10 DE NOVEMBRO

Entre as obras cinematográficas que chegam a salas nacionais esta semana, encontram-se exemplos do thriller político, ficção científica, drama, western ou filme de acção.

"O Candidato da Verdade" ("The Manchurian Candidate") marca o regresso de Jonathan Demme ("O Silêncio dos Inocentes", "Filadélfia") à realização num remake do filme homónimo de John Frankenheimer, de 1962. Entre ambientes de tensão e paranóia, a acção centra-se no "major" do Exército norte-americano Bennett Marco (Denzel Washington), assolado por memórias da guerra no Kuwait que o deixam cada vez mais intrigado e desconfiado acerca da veracidade dos factos que envolvem o condecorado heroísmo de Raymond Shaw (Liev Schreiber), seu ex-colega de pelotão. Tal atmosfera de insegurança intensifica-se quando Marco descobre que Shaw tenciona candidatar-se à presidência dos EUA, apoiado pela sua influente mãe, a polémica senadora Eleanor Prentiss Shaw (Meryl Streep). Esta teia de acontecimentos lança o mote para um thriller psicológico carregado de ambientes de intriga, conspirações e um subtexto que alude para a actual situação política mundial (e para a dos EUA em particular). Já vi e recomendo.

"Sky Captain e o Mundo de Amanhã" ("Sky Captain and the World of Tomorrow") regista a estreia de Kerry Conran na realização e contém traços do film noir e ficção científica. A película situa-se na Nova Iorque de finais dos anos 30 e segue as peripécias de uma repórter e de um aviador que tentam descobrir a causa do desaparecimento de vários cientistas. Gwyneth Paltrow, Jude Law e Angelina Jolie são os actores principais desta aventura. Este promete...

"A Esquiva" ("L'Esquive") aborda a relação de Krimo e Lydia, dois adolescentes dos subúrbios parisienses que participam numa peça de teatro baseada numa obra de Marivaux. Este drama é realizado por Abdel Kechiche e inclui Osman Elkharraz, Sara Forestier e Sabrina Ouazani no seu elenco.

Outro exemplo do cinema francês recente, "Agentes Secretos" ("Agents Secrets") reúne o casal Monica Bellucci/Vincent Cassel para proporcionar uma história envolta em ambientes de espionagem e suspense, seguindo a missão de quatro agentes secretos em Marrocos. Frédéric Schoendoerffer realiza.

Também com Vincent Cassel, "As Aventuras de Blueberry" ("Blueberry") inspira-se na série de banda-desenhada de Moebius para retratar as aventuras de Mike Blueberry, o xerife de uma pequena povoação dos EUA que tentará punir o assassino Wally Bount. Este western shamã conta com Jan Kounen na realização. Já vi e não me convenceu, em breve comento mais aprofundadamente...

"Liberdade Perdida" ("Out For a Kill") é o mais recente filme protagonizado por Steve Seagal e retrata as experiências de um arqueólogo que é preso injustamente por tráfico de droga e procurará vingança. O realizador de serviço é Michael Oblowitz. Next!!

O único filme português que se estreia esta semana, "Kiss Me", é a nova obra do cineasta António da Cunha Teles e centra-se em Laura, uma jovem mulher de uma pequena vila dos anos 50 que tenta procurar uma vida mais auspiciosa e descobrir o amor. "Kiss Me" é protagonizado por Marisa Cruz, Nicolau Breyner, Rui Unas e Manuel Wiborg.