quinta-feira, novembro 15, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "CONTROL"

Chega finalmente a salas nacionais "Control", estreia na realização de longas-metragens de Anton Corbijn, o inimitável fotógrafo que já deixou uma forte marca na imagem dos Depeche Mode ou U2. Aqui o foco são os Joy Division, em particular o vocalista Ian Curtis, num biopic que relata os episódios que antecederam o seu suicídio, em 1980. Sam Riley e Samantha Morton são os protagonistas de uma das principais estreias da recta final de 2007. A banda-sonora vale muito a pena, e espera-se que o filme também.

Outras estreias:

"Across the Universe", de Julie Taymor
"Beowul 3D Digital", de Robert Zemeckis
"Delírios", de Tom DiCillo
"E Não Viveram Felizes Para Sempre", de Paul Bolger e Yvette Kaplan
"Gangster Americano", de Ridley Scott
"Nomad - A Profecia do Guerreiro", de Sergei Bodrov e Ivan Passer



Trailer de "Control"

quarta-feira, novembro 14, 2007

FESTEJOS SEM CERIMÓNIAS

No último concerto da digressão de "Edição Ilimitada", o seu quarto álbum de originais, a anteceder o lançamento de "Matéria Prima", restrospectiva da banda a editar no início de 2008, os Mind da Gap recordaram quinta-feira na Aula Magna momentos das várias fases da sua carreira.

Acolhido por fãs acérrimos, recém-convertidos e alguns curiosos, o trio de Ace, Presto e Serial não demorou muito a lançar ondas de energia pela sala, desafiando o público, incitando-o a dançar e a não permanecer sentado em várias ocasiões. O convite foi sempre correspondido, o que fez com que, embora o recinto estivesse apenas com cerca de metade da lotação, o concerto nunca tenha perdido o ritmo, mantendo um dinamismo regular do início ao fim.

Contudo, se não houve momentos mortos, também não foram muitos os memoráveis, em parte devido ao alinhamento, com temas demasiado semelhantes, mas também ao som, que não deixou que as palavras disparadas por Ace e Presto fossem sempre perceptíveis.
Isto não pareceu incomodar a maioria dos que lá estiveram, já que os aplausos foram constantes, os pedidos de músicas também, e o bom-humor dos dois MCs encarregou-se de gerar vários episódios curiosos. Ace foi especialmente mordaz em breves comentários ao cenário político ou ao entretenimento televisivo, conquistando a adesão imediata do público, ao qual dirigiu diversos agradecimentos.

Ao longo de duas horas, o grupo portuense ofereceu um medley com alguns dos seus principais temas, convidou Maze, dos Dealema, para duas colaborações e revisitou os seus quatro álbuns de originais, não esquecendo canções obrigatórias como "Falsos Amigos" ou "Todos Gordos", intercaladas por êxitos mais recentes como "Não Stresses" ou "Tilhas? São Sapatilhas".
O já velhinho "Dedicatória", primeiro single do disco de estreia, "Sem Cerimónias" (que celebra dez anos), foi um dos pontos altos, confirmando-se ainda como um tema essencial do hip-hop feito por cá, e será o cartão de visita da compilação "Matéria Prima".

Com a química entre banda e público a compensar alguma falta de surpresas ou rasgos, a actuação chegou para atestar a boa forma dos Mind da Gap e terá sido uma oportunidade para alguns dos espectadores se terem inciado nos concertos - a julgar pela faixa etária de muitos e pelo facto de outros tantos terem começado a sair antes do encore. Espera-se que hajam outras, tanto para o público como para o grupo.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM




Entrevista aos Mind da Gap

segunda-feira, novembro 12, 2007

VIAGEM AO SUBMUNDO LONDRINO

Depois de "Uma História de Violência" ter assinalado um considerável ponto de viragem na sua filmografia, David Cronenberg mantém essa tendência em "Eastern Promises", outra obra longe dos universos alucinantes e bizarros pelos quais se notabilizou tanto numa fase inicial, em títulos como "Scanners" ou "A Mosca", como em anos mais recentes, em "eXistenZ" ou "Spider".

Isto não implica, contudo, que o seu novo filme esteja desprovido de fortes marcas identitárias, uma vez que desde o início que a narrativa mergulha numa atmosfera sinuosa e inquietante, e à medida que se vai desenvolvendo a acção abre espaço para a exploração de temas recorrentes do cineasta canadiano, sejam questões relacionadas com o corpo e as suas alterações, sejam os interstícios mais negros da esfera humana e a forma como a violência regula relações.

Embora invista ainda em temáticas familiares, "Eastern Promises" surpreende pelo realismo dos cenários, personagens e situações, e arrisca-se a ser mais perturbante do que outros filmes do realizador, assentes nas fronteiras entre domínios do terror e da ficção científica.
Ambientado nos recantos mais obscuros de Londres, este cruzamento de thriller e drama centra-se numa enfermeira que, após ter ajudado a dar à luz uma bebé cuja mãe adolescente morreu no parto, tenta encontrar a sua família tendo como única pista um diário.
A sua busca leva-a a contactar com alguns elementos da máfia russa, já que a jovem que ajudou era vítima de uma rede de prostituição de leste, e a situação complica-se quando o dono de um restaurante que lhe propõe ajuda parece, afinal, ter mais interesse no diário do que o aparente altruísmo inicial sugeria. O circunspecto motorista deste acaba por ser uma peça essencial no jogo de forças que então se impõe, proporcionando algumas das principais surpresas da narrativa.

Cronenberg recorre a um argumento de Steve Knight, o mesmo autor do de "Estranhos de Passagem", filme de Stephen Frears que oferecia outro pungente olhar sobre o submundo londrino, e a precisão milimétrica com que desenha retratos de conflitos ambíguos é um dos trunfos de "Eastern Promises". Outro é a fotografia de Peter Suschitzky, que muito contribui para a criação de uma intrigante energia visual, reforçando a aspereza e verosimilhança dos por vezes claustrofóbicos cenários urbanos que aqui são percorridos.

Aliados à segura realização, capaz de servir algumas cenas de antologia - como as dos (literalmente) cortantes momentos iniciais ou de uma sequência de combate num balneário -, estes elementos concedem ao filme um assinalável equilíbrio, felizmente complementado pela apurada direcção de actores.

Viggo Mortensen apresenta aqui um dos seus melhores desempenhos, mais conseguido do que o de "Uma História de Violência", conferindo densidade a uma personagem enigmática e envolvente. Naomi Watts também não desaponta como enfermeira obstinada, ainda que nao se desvie muito do seu registo habitual, Vincent Cassel oscila entre o frágil e o histriónico numa das personagens mais surpreendentes, e o veterano Armin Mueller-Stahl é apropriadamente austero e nebuloso.

Coeso e absorvente, "Eastern Promises" não chega a ser arrebatador devido a um desenlace algo abrupto, fechando demasiado cedo uma história que talvez ganhasse com mais alguns minutos - a personagem de Watts, por exemplo, poderia ter sido mais desenvolvida. Ainda assim, é um filme acima da média e o melhor do cineasta em muitos anos, demonstrando que, não obstante alguns altos e baixos na sua obra, Cronenberg continua a ser um realizador singular e um atento observador do mundo de hoje.


E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

"Eastern Promises" é exibido nesta terça-feira pelas 16h30 no Cinema Villa, em Cascais, no âmbito do European Film Festival

sábado, novembro 10, 2007

26

E pronto, a barreira do quarto de século foi ultrapassada, e já me encontro mais perto dos 30 do que dos 20. Mas mesmo estando a aproximar-me da suposta crise que daí advém, enquanto tiver gente como a Shirley, a Björk ou as meninas das Cibo Matto a cantar para mim, vou continuar a festejar:



Sugarcubes - "Birthday"



Garbage - "When I Grow Up"



Cibo Matto - "Birthday Cake"

quinta-feira, novembro 08, 2007

UMA BANDA PARA ADMIRAR

Se dúvidas houvessem, os Interpol provaram ontem que são uma das bandas actuais que melhor incorpora a herança do pós-punk, sensação que já havia sido sugerida no disco de estreia, "Turn on the Bright Lights" (2002), reforçada em "Antics" (2004), e apenas levemente colocada em causa em "Our Love to Admire" (2007), o disco mais recente, que acusou alguma estagnação na sonoridade do quarteto nova-iorquino, mesmo não deixando de concentrar uma série de boas canções.

E foi de grandes canções que viveu o alinhamento de um esgotadíssimo concerto do Coliseu de Lisboa, a confirmar o crescente mediatismo de uma banda que já ganhou lugar cativo na lista de essenciais do rock actual, e prova disso foi o modo efusivo como alguns dos temas foram recebidos, demonstrando que os Interpol possuem na sua discografia meia dúzia de hinos urbanos.

O arranque, com "Pioneer to the Falls", que também é o primeiro tema do novo disco, cativou pela imponência, mas com canções mais antigas, como "Say Hello to the Angels", "Narc" e "Obstacle 1", logo a seguir, é que a banda acendeu um rastilho que a levou a resultados explosivos, e que de resto preencheram grande parte do alinhamento.

O desequilibrado "Our Love to Admire" não teve, felizmente, muito mais espaço do que os dois álbuns anteriores, e todos foram devidamente representados por pela maioria das melhores composições do grupo. Não faltou a pujante "Slow Hands", com um refrão que não deu descanso aos corpos de muitos dos que dançaram na plateia, nem outros pontos altos de "Antics" como a irresistível "Evil" ou a belíssima canção de amor que é "C'Mere", cuja ressonância emocional foi visível.
Nem todos os temas mais recentes conseguem atingir esse impacto, mas os que o concerto incluiu resultaram bem, tanto "Mammoth", com o seu atípico compasso dinâmico, como o abrasivo "Heinrich Maneuver", o dolente "No I in Threesome" e sobretudo "Rest My Chemistry", o melhor momento de "Our Love to Admire".

Cruzamento brilhante entre melancolia, excitação e sentido de urgência, a hora e meia servida pela banda ganhou ainda pelo cuidado cénico, que se reflectiu nas recorrentes projecções e nas mudanças de tonalidades de canção para canção, entre azulados e violetas ou em estratégicos episódios surpreendentes como a explosão de luz na contemplativa "Lighthouse".

Se na sua estreia em Portugal, na última edição do festival Super Bock Super Rock, muitos acusaram o quarteto de adoptar uma postura demasiado fria e distante, nesta nova visita o grupo não foi propriamente caloroso mas demonstrou simpatia através dos frequentes agradecimentos emitidos pelo vocalista Paul Banks - nem faltou o obrigatório "obrigado" - ou dos seus elogios a Lisboa. Antes isto do que tagarelices forçadas e dispensáveis, até porque no que realmente interessa - a música - o desempenho dos Interpol foi inatacável, exibindo uma evidente coesão, com uma segurança instrumental invejável e uma não menos envolvente entrega vocal de Paul Banks.

O encore sublinhou o carisma e consistência de um grande espectáculo, com "Take You on a Cruise", a muito aguardada "Stella Was a Diver and She Was Always Down" e a certeira "PDA", esta última com direito a uma extensão instrumental de guitarra e bateria, que alargou o apelo dançável presente na maioria do concerto e fechou da melhor forma uma clara prova de solidez.

Antes do óptimo concerto dos Interpol, a noite começou com uma primeira parte à altura, a cargo do trio italo-japonês Blonde Redhead, também sediado em nova-iorque embora praticante de um rock mais etéreo e onírico, suportado por atmosferas intrigantes e pelas convincentes vozes de Kazu Makino e Amadeo Pace.

Temas do aclamado "23", o seu mais recente álbum, dividiram o protagonismo com recordações de registos anteriores, num aquecimento durou pouco mais de meia hora mas chegou para comprovar que não eram poucos os conhecedores do grupo. Quem não conhecia teve em momentos como "Equus", "23" e principalmente "Spring and by Summer Fall" (uma das mais apaixonantes canções de 2007) excelentes portas de entrada para uma banda que, tal como a de Paul Banks, merece um concerto em nome próprio por estes lados.


E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

Fotos: Vera Moutinho

ESTREIA DA SEMANA: EUROPEAN FILM FESTIVAL

A partir de hoje, há mais um festival de cinema a acrescentar à lista que não tem parado de aumentar ultimamente: o European Film Festival, que até dia 17 se instala nas salas do Casino do Estoril e do Cascais Villa. O evento, dirigido por Paulo Branco, exibe 14 obras inéditas em competição e inclui, noutras secções, várias ante-estreias como o (recomendável) novo filme de David Cronenberg, "Eastern Promises", ou "Control", de Anton Corbijn.

Pedro Almodóvar e David Lynch são os realizadores em destaque, e o primeiro estará presente na cerimónia de abertura, esta noite (assim como algumas das suas actrizes de eleição, como Rossy de Palma ou Marisa Paredes), e amanhã à tarde num encontro com o público. As obras de ambos ocupam uma considerável fatia do cartaz, que as revisita na íntegra e inclui alguns títulos nunca exibidos antes por cá (como os primeiros filmes de Almodóvar ou as curtas-metragens de Lynch).

O European Film Festival contempla ainda concertos de Victoria Abril, Bernardo Sassetti Trio e Julee Cruise, que tal como as Master Classes de Werner Schroeter ou Raoul Ruiz, entre outros, são de acesso gratuito. Todas as informações no site oficial.

Das estreias da semana propriamente ditas não há muito a destacar, ainda que "A Morte do Sr. Lazarescu", de Cristi Puiu, ou "30 Dias de Escuridão", de David Slade (o realizador de "Hard Candy"), mereçam uma espreitadela.

terça-feira, novembro 06, 2007

UMA HISTÓRIA SIMPLES

Quem nunca sentiu uma cumplicidade imediata com um conhecimento novo, que acabaria por perder-se inexplicavelmente ao fim de alguns contactos, talvez não se reveja em "Click", um dos minicomics da norte-americana Sara Ryan. Mas como presumo que não seja o caso da maioria dos que lêem estas linhas, recomendo que o descubram no ComicSpace, onde esta pequena história da argumentista de BD indie pode ser lida na íntregra.

segunda-feira, novembro 05, 2007

FESTIVAL DE INTERPRETAÇÕES NUM DRAMA SÓBRIO

"Ao Anoitecer" (Evening) chega às salas discretamente mas tem desde logo um forte factor de interesse, o impressionante elenco, praticamente um "quem é quem" de algumas das melhores actrizes de hoje, divididas por várias gerações. Não são muitos os filmes que podem orgulhar-se de reunir Claire Danes, Meryl Streep, Glenn Close, Toni Collette, Miranda Richardson ou Vanessa Redgrave, mas se por um lado Lajos Koltai consegue juntá-las no mesmo projecto fica também sujeito às expectativas que muitos poderão depositar numa obra que envolve tamanho talento interpretativo.

Felizmente, o realizador húngaro não desaponta e, mesmo não gerando aqui uma experiência cinematográfica insuperável, é capaz de apresentar um filme interessante, onde o resultado final não fica ofuscado pelos nomes do elenco e permite identificar aqui outros elementos meritórios.

Adaptado do livro homónimo de Susan Minot, "Ao Anoitecer" teve um argumento que contou com a colaboração da escritora e de Michael Cunningham (autor de "As Horas" ou "Uma Casa no Fim do Mundo", também já transpostos para cinema), e do trabalho da dupla saiu um drama intimista e complexo, que funciona como um envolvente estudo de personagens.

O filme parte do estado actual de Ann, uma mulher de idade avançada que se encontra acamada, vítima de cancro, enquanto é tratada pelas duas filhas e lhes revela, num estado entre o sono e a vigília, nomes de pessoas da sua juventude que elas não reconhecem. O espectador, no entanto, fica a conhecê-las através de constantes flashbacks rumo aos anos cinquenta, em particular à breve estadia de Ann em casa de uma amiga da classe alta britânica prestes a casar, e que aí acaba por ser um dos vértices de um inesperado triângulo (aliás, quadrado) amoroso.


Aos poucos, "Ao Anoitecer" vai revelando acontecimentos fulcrais passados nesses tempos que influenciaram toda a vida da protagonista, e que são recordados por ela, num misto de entusiasmo e frustração, à medida que a morte se insurge como destino cada vez mais próximo. É, de resto, na sua juventude que se alicerça grande parte da acção do filme, regressando pontualmente ao presente para seguir as inquietações das suas filhas.
Tanto num cenário como noutro há espaço para várias personagens, o que não há muito é tempo para algumas, já que ao longo das suas duas horas a película opta por desenvolver com mais profundidade a protagonista e mais duas ou três figuras, deixando outras entregues às necessidades do argumento.

Não é que "Ao Anoitecer" não tenha uma série de cenas com densidade emocional, pelo contrário, o problema é que da soma destas não resulta um todo muito coeso, ou pelo menos não tanto para o tornar num filme de excepção.
Tecnicamente, Lajos Koltai oferece um trabalho sem reparos, uma vez que a sua realização é leve e fluída, a reconstituição de época é convincente e com óbvios bons valores de produção e a fotografia seduz e conduz a momentos de fascinante energia visual (ou não tivesse sido um dos trunfos do seu primeiro filme, "Sem Destino"), o que com a mais-valia de um elenco irrepreensível poderia fazer desta uma obra de calibre superior.

Contudo, quando actrizes como Miranda Richardson, Meryl Streep ou Glenn Close não têm oportunidade de desenvolver as suas personagens e o argumento contém algumas soluções algo apressadas, questões por explorar (o fascínio da protagonista por Harris, por exemplo) ou uma carga poética e simbólica por vezes forçada, o resultado não é tão estimulante, ainda que mereça elogios.

Em contrapartida, é bom ver que, para além das actrizes já consagradas, "Ao Anoitecer" permite testemunhar o talento de nomes em ascensão como Mamie Gummer, filha de Streep, numa interpretação promissora, ou Hugh Dancy, que defende uma das melhores personagens com um comovente desempenho, a confirmar as boas impressões deixadas em "Shooting Dogs — Testemunhos de Sangue", de Michael Caton-Jones. Já Patrick Wilson é menos memorável, pois embora seja competente ampara-se mais no magnetismo físico do que na entrega interpretativa (embora o seu papel também não lhe forneça grandes desafios).

Mesmo sem dar o salto para o núcleo de obras obrigatórias, "Ao Anoitecer" é uma proposta bastante recomendável, desenhando um subtil mapa de experiências e memórias e captando com sensibilidade detalhes das relações amorosas, familiares e sociais, evitando ainda cair na formatação e previsibilidade de um anódino "filme de prestígio". Uma das boas estreias recentes.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

domingo, novembro 04, 2007

FERA FERIDA

Pobre Milla Jovovich. É esta a ideia que fica depois de visto ".45", o mais recente filme que protagoniza, e que prova que ainda não é desta que a modelo tornada actriz consegue um papel que a confirme como uma certeza da sétima arte.
É certo que o seu currículo inclui a participação em obras de Richard Linklater, Spike Lee ou Wim Wenders, embora nos últimos anos as suas escolhas tenham incidido em títulos pouco aliciantes como "Resident Evil" ou "Ultravioleta", que lhe oferecem pouco espaço para demonstrar o seu talento interpretativo.

".45", estreia na realização do norte-americano Gary Lennon, poderia ser um ponto de viragem na sua carreira, já que lhe pede que faça mais do que contracenar com explosões e efeitos especiais, sendo um drama urbano com potencial, mas é pena que arranque mal e nunca consiga melhorar.

Jovovich encarna Kat, a atraente e carismática namorada de um respeitado traficante de droga, Big Al, e tudo lhes corre bem até ao momento em que as constantes crises de ciúmes ameaçam dinamitar a relação. Juntando desconfianças sobre a infidelidade da sua companheira e muito álcool, Big Al adopta um comportamento cada vez mais agressivo, passando do insulto verbal à violência física, e deixa Kat numa encruzilhada sobre o seu futuro.

".45" começa com um misto de irreverência e tentativa de provocação, apresentando personagens feias, porcas e más, ainda que supostamente cool, que disparam diálogos carregados de palavras pouco simpáticas. Nada contra, afinal nem todos os filmes têm que focar gente adorável, o problema é que não é Tarantino nem Scorsese quem quer, e Gary Lennon não constrói mais do que personagens caricaturais, sem a espessura emocional que as torne interessantes.

Isto até poderia funcionar se o argumento do filme fosse minimamente criativo e surpreendente, e se por vezes até acaba por sê-lo, é só pelos piores motivos. A protagonista passa de mulher de armas a menina desprotegida, vítima das circunstâncias, e ".45" aproveita a oportunidade para se transformar num panfleto contra a violência doméstica, apelando a que as mulheres não hesitem na denúncia dos horrores que sofrem em privado.
O propósito poderá ser nobre, já o modo como é trabalhado não vai além dos vícios de telefilme "caso-da-vida", e nem as cenas de nudez (algo desnecessárias) nem o misto de ficção e reportagem (através dos depoimentos das personagens de frente para a câmara) fazem com que o produto final seja mais arrojado.

Filme de auto-ajuda disfarçado de retrato realista, cruel e visceral do quotidiano em bairros "perigosos" de Nova Iorque, ".45" até acaba por trair as suas boas intenções quando a protagonista adopta atitutes não muito menos condenáveis do que as do namorado. Pelo menos a "mensagem" que Lennon passa é a de que na vida vale tudo, desde que feito em nome da emancipação feminina, num testemunho de girl power que até faria corar de vergonha as Spice Girls.

Na recta final do filme há ainda espaço para o twist mais previsível do ano - mal preparado, mesmo, e revelado numa cena anterior -, resultado de um conjunto de sequências inverosímeis que infelizmente pretendem ser levadas a sério.
No meio disto os actores pouco podem fazer, e se Angus MacFadyen é um Big Al canastrão, Stephen Dorff e Sarah Strange ainda são capazes de injectar alguma consistência às suas personagens, mais do que a que ".45" merece. Milla Jovovich também se esforça, e chega a gritar muito em cenas "chocantes" que, contudo, se habilitam a causar pouco impacto já que a sua personagem insiste em não gerar empatia. Como este pouco auspicioso filme, de resto.


E O VEREDICTO É: 1/5 - DISPENSÁVEL

WINDOWS 2007

Espectáculo que recorre a 4 artistas de várias áreas diferentes, "Window" junta Mônica Coteriano (dança/voz/textos), Tó Trips e Pedro Gonçalves - os Dead Combo -(música) e André Gonçalves (multimédia).
Em causa está uma reflexão em torno do conceito de janela que ora oferece momentos cantados ou de spoken word, pequenos devaneios espirituosos e muita imaginação na forma como são aproveitados os dois painéis do palco, resultando numa criativa conjugação de som e imagem.

Uma das iniciativas do Festival Temps D'Images a descobrir esta noite pelas 21h30 no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

sexta-feira, novembro 02, 2007

UM FILME PARA ACORDAR O PASSADO

Um dos temas recorrentes de parte do cinema português dos últimos anos é o do passado recente do país, em particular questões relacionadas com o antigo regime, exploradas em títulos como "Inferno" ou "20,13", de Joaquim Leitão; "Os Imortais", de António-Pedro Vasconcelos; "Capitães de Abril", de Maria de Medeiros; ou "Preto e Branco", de José Carlos de Oliveira, entre outros.

"Julgamento", de Leonel Vieira, também volta a mexer em algumas feridas eventualmente por sarar, uma vez que no centro dos acontecimentos estão reminiscências de torturas efectuadas pela PIDE a alguns dos protagonistas, obrigando-os a lidar com fantasmas de uma outra época que regressam através de um reencontro inesperado.

Ao assistir a um julgamento em que a sua filha participa como advogada de defesa, Jaime, um professor universitário de meia idade, reconhece no arguido traços de um agente da PIDE que o torturou nos seus tempos de jovem antifascista, e que terá sido um dos responsáveis pela morte de Marcelino, um dos seus melhores amigos.

A revolta que acumulou ao longo dos anos encoraja-o a procurar respostas e a fazer justiça pelos seus próprios meios, e assim rapta o suposto ex-agente e leva-o para a sua casa de campo, onde as regras do jogo são agora ditadas por si. Esse confronto torna-se ainda mais conturbado quando a filha de Marcelino, com quem mantém uma relação, e dois amigos de longa data também alvo da acção da PIDE, acabam por ter conhecimento do rapto e reagem de modo díspar e hesitante, gerando um problema legal e moral de difícil resolução.

Desdobrando-se entre o thriller e o drama, "Julgamento" confirma o eclectismo estilístico de Leonel Vieira, que aqui apresenta um filme nos antípodas da comédia de "A Bomba", do romance de "A Selva" ou do olhar sobre a juventude urbana de "Zona J".
De tom menos ligeiro do que alguns desses títulos, mergulha num retrato geracional de forma mais densa e madura do que se esperaria, evitando as tentações de algum cinema assumidamente comercial que se faz por cá - não há por aqui overdoses de cenas de sexo gratuitas, linguagem censurável ou violência despropositada.

Tecnicamente, Vieira mantém a eficácia pela qual já se havia distinguido, apostando numa realização fluída e dinâmica, mas não epiléptica, num apurado trabalho de fotografia e iluminação e numa banda-sonora capaz de sugerir tensão sem resvalar para picos dramáticos insuflados.

O argumento exibe algumas semelhanças com o de "A Noite da Vingança", de Roman Polanski, que também era marcado por fortes contornos políticos (nomeadamente ditatoriais), onde uma vítima raptava o seu suposto torturador, ainda que "Julgamento" esteja longe de ser um exercício copista, conseguindo definir personagens e ambientes próprios.

Por vezes o debate interno do protagonista é previsível e o de algumas das outras personagens fica por explorar com um grau de complexidade mais acentuado, mas o filme está uns degraus acima de um mero objecto panfletário pronto a despertar consciências, contando com figuras adequadamente ambíguas e credíveis. Também era difícil não o fazer tendo em conta o elenco, sem dúvida um dos mais consistentes vistos numa película portuguesa nos últimos tempos, que concentra uma galeria de veteranos como Júlio César, José Eduardo, Carlos Santos e Henrique Viana, este no seu último papel.

Todos oferecem fortes interpretações, embora Júlio César talvez seja o que mais impressione uma vez que a sua personagem, a protagonista, é a que permite maior versatilidade. Alexandra Lencastre confirma as sólidas impressões que os seus últimos trabalhos têm reforçado, sobretudo os que fez com Fernando Lopes ("O Delfim", "Lá Fora"), e Fernanda Serrano não compromete num papel que poderia ter mais relevo.

"Julgamento" poderá não ser ainda o filme que levará a que Leonel Vieira seja considerado um "autor" pelos seus detractores, mas é um digno exemplo de cinema que tem em vista o grande público sem prescindir de uma abordagem inteligente às questões que foca, servindo-a com uma profissionalíssima embalagem industrial. Caso raro tanto em filmes portugueses como estrangeiros, e que por isso mesmo impõe que este seja saudado, visto e divulgado.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, novembro 01, 2007

TECHNO MINIMAL NUMA NOITE ESPECIAL

Na madrugada de hoje, a discoteca Lux, em Lisboa, teve uma sessão de Halloween diferente ao acolher Gui Boratto, produtor, compositor e DJ brasileiro cuja música não podia estar mais distante do cardápio sonoro habitual no dia das bruxas.

Não que isso tenha sido uma condicionante, pelo contrário, já que não foram poucos os que quiseram dançar ao som de "Chromophobia", o disco de estreia do músico, gerando uma enchente impressionante e longas filas à porta do espaço, onde mesmo durante a actuação muitos aguardavam ainda a entrada.

Um dos nomes mais fortes da Kompakt, editora alemã que tem dado cartas na área da música de dança, em particular do techno minimal, Gui Boratto conta já com 10 anos de percurso como produtor, durante os quais colaborou com figuras tão diferentes como Manu Chao, Chico Buarque, Des'ree ou Garth Brooks.
Esses trabalhos pouco ou nada têm a ver, contudo, com os que faz hoje, alicerçados numa electrónica engenhosa e subtil, simultaneamente dançável e contemplativa, recheada de pormenores mas com um apelo melódico directo.
Singles como "Arquipélago" ou "Like You", assim como remisturas para temas da banda-sonora do filme "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, concederam-lhe uma aura de respeito que o disco de estreia consolidou, sendo uma das edições mais entusiasmantes do ano.

No set que apresentou nesta madrugada, Boratto voltou a demonstrar os seus méritos em cerca de duas horas onde desfilaram não só composições de "Chromophobia" mas também algumas dos EPs que lançou antes.

Ao vivo a maioria dos temas adquiriu uma vertente mais funcional e por vezes abrasiva do que o que pode ouvir-se nos discos, onde o apelo dançável surgiu mais pronunciado e o techno nem sempre foi minimal, optando a espaços por um maior dinamismo e aceleração. Esta opção impediu que o alinhamento fosse tão ecléctico como o do álbum de estreia do DJ, uma vez que não incluiu, por exemplo, nenhum dos episódios de tons mais ambientais, embora no geral Boratto tenha dado uma prova de eficácia, sabendo como animar a expectante multidão que preenchia toda a pista de dança e que não parou enquanto as canções se foram sucedendo.

Não por acaso, as de "Chromophobia" foram que resultaram melhor, recebidas com recorrentes aplausos e gritos, em especial a mecânica e incisiva "Gate 7" ou a reluzente "Beautiful Life", um dos raros casos que se desviou do techno para se aproximar das fronteiras de uma pop encantatória e imediata.

Suficientemente hipnótico e pulsante, este set de Gui Boratto contribuiu para reforçar o estatuto de rapaz-prodígio que muitos lhe têm concedido, dando bons motivos para que os seus passos continuem a ser acompanhados pois o melhor ainda poderá estar para vir.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quarta-feira, outubro 31, 2007

MÚSICA BRASILEIRA PARA O HALLOWEEN

Quem quiser sair de casa a altas horas no dia das bruxas pode dançar ao som do paulista Gui Boratto, que estará no Lux nesta quarta-feira, e embora a sua música não seja assustadora, ao contrário da de inúmeros "artistas" brasileiros mais disseminados, é uma proposta a ter muito em conta.

O compositor/músico/produtor/DJ/etc brasileiro é um dos rapazes-prodígio do techno minimal e um dos trunfos da editora alemã Kompakt, cujo álbum de estreia, "Chromophobia", editado este ano, conseguiu convencer até os menos aficionados do (sub)género (como eu, que o tenho há meses como disco de cabeceira).
O single "Beautiful Life" não é muito representativo do que o álbum tem para oferecer, mas não deixa de ser um bom aperitivo:



Gui Boratto - "Beautiful Life"

terça-feira, outubro 30, 2007

10 BLOGUES, 5 FILMES, 1 REALIZADOR


A tabela de estrelas de Outubro, via Knoxville, cujo realizador em destaque foi M. Night Shyamalan. As opiniões dividiram-se, mas acho que "The Village" é de longe o melhor, embora o massacrado "Lady in the Water" também não desmereça.
Aproveito para deixar aqui também as estreias que vi mas que não foram escolhidas, assim como outros filmes vistos no cinema ou em casa este mês:

Estreias:

".45", Gary Lennon - 1/5
"Ils", David Moreau e Xavier Palud - 4/5
"Julgamento", Leonel Vieira - 3/5
"The Breakup Kid", Bobby Farrelly e Peter Farrelly - 2/5

Outros:

"Choses Secrètes", Jean-Claude Brisseau - 2/5
"Dark City", Alex Proyas - 3/5
"Midnight Cowboy", John Frankenheimer - 3/5
"Morvern Callar", Lynn Ramsey - 1/5
"O Ano em que os Meus Pais Partiram de Férias", Cao Hamburguer - 3/5
"Peggy Sue Got Married", Francis Ford Coppola - 2/5
"Personal Velocity: Three Portraits", Rebecca Miller - 2/5
"Pierrot Le Fou", Jean-Luc Godard - 1/5
"Saneamento Básico", Jorge Furtado - 3/5

segunda-feira, outubro 29, 2007

AS ÚLTIMAS ONDAS

Nos últimos dias dediquei um post ao disco e outro ao concerto dos Micro Audio Waves, e como às vezes não há dois sem três fica aqui mais um dedicado ao trio, desta vez com a entrevista que lhes fiz na semana passada. Que me desculpe quem não simpatiza com a banda, mas como não há muitos projectos nacionais que me tenham impressionado em 2007 acho que este merece a dose tripla:


Entrevista aos Micro Audio Waves

domingo, outubro 28, 2007

TEIAS E MUTANTES

aqui falei do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, a decorrer até dia 4 de Novembro, embora só neste fim-de-semana lá tenha ido sem ser em trabalho - ou melhor, teve que ser assim depois da câmara e microfone me terem pregado partidas, por isso nada de entrevistas ao Manara e outros autores, mas adiante.

Ainda sou capaz de lá voltar, já que houve pouco tempo para explorar em condições tudo o que havia nas bancas, e por isso só trouxe duas recordações:


Finalmente vou conseguir saber se o hype Josh Whedon no universo X é justificado (não tenho paciência para a a Buffy mas gostei de "Serenity");



O Aranha e o Miller no mesmo livro, parece-me bem, e desconhecia que o autor de "Sin City" tinha iniciado o seu percurso nos comics com o sobrinho da tia May.

E espero não voltar a cair no vício de comprar BD de super-heróis regularmente, foram necessários muitos anos para o largar e a carteira agradeceu...

sábado, outubro 27, 2007

ROCK IT 2NIGHT!

Faltavam cerca de dez minutos para a uma da manhã quando Cláudia Efe, Flak e C. Morg, mais conhecidos como Micro Audio Waves, iniciaram o concerto no MusicBox, em Lisboa, com quase uma hora de atraso que pareceu ter passado despercebida para grande parte do público, que até aí se entreteve com copos, música ambiente e conversas várias. Mas mesmo os que deram pelo atraso terão "perdoado" o trio - acompanhado por mais dois elementos - logo aos primeiros minutos de actuação, já que o grupo entrou em palco com "At the Age of Five", um dos melhores temas de "Odd Size Baggage", o seu terceiro registo de originais.

Para além de ser uma canção hipnótica e servir como brilhante introdução para o espectáculo, foi apresentada numa versão consideravelmente diferente da do disco, onde a bateria ganhou protagonismo e ajudou a implementar uma cadência mais enérgica e dançável. Esta situação não foi, de resto, caso único, já que a maioria dos temas do concerto surgiram com alterações face ao que se conhecia dos discos, não sendo meros decalques mas antes repensadas para melhor se adaptarem a um formato ao vivo.

Esta foi sem dúvida uma grande mais-valia, mostrando uma vertente mais orgânica da banda, pois embora a presença da electrónica tenha sido uma constante não o foi tanto como em disco, dando lugar a recorrentes devaneios de guitarra e bateria, esta última o elemento responsável pela força rítmica da maioria dos temas (a remeter para alguns territórios dos Moloko ou dos Spektrum).
A considerável rudeza instrumental, distante da sofisticação e sobriedade registadas nos álbuns, fez com que a voz de Cláudia Efe ficassse por vezes submersa no meio de momentos de descarga, mas isso não impediu que os Micro Audio Waves tenham gerado um concerto sem episódios menores, mantendo um perfeito domínio do ritmo e uma notável coesão.

Mesmo as canções menos interessantes de "Odd Size Baggage" ganharam aqui vida nova, caso de "Future Smile", que conseguiu cativar numa versão mais acelerada (e onde, mais uma vez, a bateria foi fulcral), ou "Curl Like a Cannonball", cujas imponentes camadas de distorção dos momentos finais foram um curioso contraponto à carga contemplativa inicial.

"Down by Flow" provou ser um single já bem conhecido pela maioria do público presente, não sendo poucos os que acompanharam a vocalista no refrão, e "2night (U & I)" parece seguir-lhe os passos pelas boas reacções que despoletou, levando muitos a dançar ao seu ritmo frenético.

Melhor ainda foi "Odd Size Baggage", o grande momento da noite, que resultou numa excelente centrifugadora de ruído tornado melodia, mais uma vez com um irrecusável apelo dançável. "Fully Connected", disparado logo a seguir, ofereceu competição à altura e também apareceu com texturas mais agressivas do que em disco, e outros temas como "Escape From Albania" mantiveram o alto nível de intensidade. No extremo oposto, "Shadow of Things" ou "Long Tongue" enveredaram por ambientes mais apaziguados e igualmente cativantes, mas não demorou muito para que a agitação voltasse a tomar conta do palco e dos espectadores.

Se "Odd Size Baggage" fora já um passo em frente para os Micro Audio Waves, a julgar pelo que demonstram em concertos como este terão avançado mais dois ou três, corrigindo alguns desequilíbrios que impediram que todo o disco estivesse à altura de uma série de momentos acima da média.

Para além de estetas exigentes em álbum, baseados num sólido domínio da electrónica, convencem ainda pela crueza e visceralidade rock que exibem ao vivo, e o mínimo que se pode dizer para resumir o espectáculo é que terá sido seguramente o melhor shot de adrenalina da noite, e nada indigesto.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

FEBRE (AMARELA) DE SÁBADO À TARDE

'Samurai Champloo', uma das seis séries que estreiam sábado no AXN

Neste fim-de-semana, o canal AXN inaugura a Zona Animax, dedicada à animação nipónica (aka Anime), que vai passar a preencher a programação dos inícios das tardes de sábado e domingo.

Hoje, a partir das 12h45, arrancam então seis(!) séries, a maioria inéditas por cá, e das quais apenas vi alguns episódios da bizarra e inclassificável "Excel Saga" e da curiosa "Trigun". As restantes são "OutlawStar", "Orphen", "Samurai Champloo" e "Inuyasha". Não vou poder ver nenhuma nem hoje nem amanhã, mas aceito recomendações.

quinta-feira, outubro 25, 2007

(BOAS) ONDAS ELECTRÓNICAS

Nos seus dois registos anteriores – o EP homónimo e o álbum “No Waves” – os Micro Audio Waves destacaram-se como um dos projectos nacionais mais ousados na abordagem à electrónica, encetando manobras de considerável experimentalismo que, aos poucos, foram adoptando contornos mais pop.
“Odd Size Baggage”, o mais recente disco, reforça essa aproximação ao formato canção, quase fugindo aos ensaios por vezes herméticos que dominaram os primeiros trabalhos, e ao fazê-lo torna-se no melhor cartão de apresentação que o trio de Cláudia Efe, Flak e C.Morg criou até agora.

É certo que o grupo tinha já algumas composições interessantes, como o single “Fully Connected”, que lhes rendeu elogios de gente como o guru John Peel, embora não as suficientes para evitar que os seus discos fossem mais esboços de ideias do que a concretização destas. “Odd Size Baggage” não está ainda imune a desequilíbrios, mas exibe maior consistência, uma personalidade mais vincada e demonstra que os Micro Audio Waves parecem ter encontrado uma linguagem própria, devidamente expressa num estimulante conjunto de canções.

Versátil e imaginativo, o álbum apresenta alguma da melhor electrónica feita nos últimos tempos, interligando-a com passagens pelo rock ou R&B e equilibrando momentos de apelo dançável com episódios de tranquilidade e placidez. Da elegância de uma produção milimétrica, que traduz bom gosto e contemporaneidade, ao carisma de Claudia Efe, cuja voz é capaz de seduzir seja em estados mais frágeis ou austeros, “Odd Size Baggage” é, em vários momentos, um atestado de segurança e maturidade, pop nacional do melhor que se fez este ano.

A comprová-lo estão canções como “2night (U&I)”, que transpira intensidade e incita à festa; o spoken word visceral da faixa-título, impressionante devaneio centrado na letra de um manual de instruções para um computador; “At the Age of Five”, com um contagiante electro cru e cerebral; “Shadow of Things”, um belo interlúdio contemplativo; ou “Down By Flow”, um óptimo single onde Efe se encosta a uma Róisín Murphy no seu melhor.

Tivesse apenas estes temas e “Odd Size Baggage” seria um brilhante EP, mas tem o dobro e resulta num disco nem sempre tão inspirado, e que até demora a arrancar, já que as três primeiras canções do alinhamento são as menos apelativas, onde o experimentalismo se sobrepõe à pop e os Micro Audio Waves saem a perder. O instrumental “Russian Connection”, mais à frente, também não é especialmente marcante, e o facto de ser dos momentos mais longos volta a quebrar a coesão de um álbum que, de resto, tende a viciar e confirma a criatividade de uma banda em evidente estado de progressão.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Os Micro Audio Waves actuam esta sexta-feira no MusicBox, em Lisboa, antes dos DJ sets de Richard Dorfmeister e Mike Stellar. O espaço abre às 22 horas.



Micro Audio Waves - "Down by Flow"

ESTREIA DA SEMANA: "O ESCAFANDRO E A BORBOLETA"

Depois de "Antes que Anoiteça", Julian Schnabel regressa com "O Escafandro e a Borboleta" (Le Scaphandre et le Papillon), mais uma obra inspirada num caso real e com um protagonista numa situação-limite. Desta vez, o realizador segue o jornalista Jean-Dominique Bauby, que ficou paralizado após um AVC e conseguia apenas mexer um olho, a sua única forma de comunicar com terceiros.

Se é verdade que "Mar Adentro" já enveredou por temática próximas há pouco tempo, diz quem viu que aqui a abordagem é distinta, mas não menos conseguida. Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner são os dois nomes centrais deste filme que deu a Schnabel o prémio de Melhor Realizador na última edição de Cannes.

Outras estreias:

"A Outra Margem", de Luís Filipe Rocha
"Ao Anoitecer", de Lajos Koltai
"Bratz, O Filme", de Sean McNamara
"Os Seis Sinais da Luz", de David L. Cunningham
"Rescue Dawn - Espirito Indomável", de Werner Herzog
"Resident Evil 3: Extinção", de Russell Mulcahy
"Terra de Cegos", de Robert Edwards



Trailer de "O Escafandro e a Borboleta"