quarta-feira, julho 11, 2007

TIROS PELA CULATRA

Com argumento assinado por Lars Von Trier, "Querida Wendy" (Dear Wendy) exibe alguns paralelismos com "Dogville", o filme do cineasta dinamarquês que também decorria numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos e ia mergulhando nas clastrofóbicas relações da sua comunidade. Desta vez, a realização ficou a cargo do conterrâneo Thomas Vinterberg, outro nome central do movimento Dogma 95 que ganhou algum prestígio com "A Festa" (1998) e perdeu grande parte dele com "O Amor É Tudo" (2003). Não parece ser agora que o reconquistará, num filme sustentado por uma boa premissa que não chega, contudo, para compensar um desenvolvimento atabalhoado.

"Querida Wendy" até arranca relativamente bem, alicerçando-se nas reflexões do protagonista, um jovem solitário e tímido que encontra na posse de uma arma a forma de reforçar a auto-estima. Aos poucos, a sua rede de amigos começa a alargar-se para além de Wendy - a arma, à qual dedica cada vez mais atenção -, encontrando afinidades com outros jovens da povoação, igualmente retraídos, e que adoptam o mesmo processo para aumentarem a confiança em si próprios. Assim, acabam por formar um pequeno grupo denominado Dandies, que preconiza a posse de armas mas não a sua utilização, defendendo acima de tudo ideais pacifistas. A única ocasião em que recorrem a elas é nas sessões de tiro privadas, como meio de desenvolver a disciplina e a concentração, rejeitando ímpetos violentos.

Inevitavelmente, chega o dia em que o cenário se altera e o grupo acaba por estar no local errado à hora errada, entrando em conflito com a polícia devido a um equívoco numa situação que rompe com o ambiente tranquilo que se manteve até então. E é aí que "Querida Wendy" se torna num filme decididamente falhado, caíndo num poço de previsibilidade que alguns desequilíbrios de momentos anteriores já insinuavam.

Von Trier parece ter escrito o argumento tendo em vista uma crítica feroz ao livre porte de arma nos EUA, o que talvez nem resultasse mal caso se preocupasse minimamente com as personagens, dando-lhes algum substrato dramático em vez de as usar como descartáveis instrumentos da sua tese.
Tirando o protagonista, que ainda é alvo de alguma densidade psicológica, nenhum dos elementos dos Dandies vai além do estereótipo loser mais batido e simplista. Mesmo assim, o modo como o argumento os trata no desenlace do filme não deixa de ser arrogante, e sobretudo muito pouco compensador para o espectador que aguentou uma narrativa tão irregular apenas para chegar a um final que se adivinha ao fim de vinte minutos.
A previsibilidade nem é o maior defeito, antes a perspectiva básica e moralista com que o argumentista aborda a questão, confundindo acutilância e sentido de oportunidade com irreverência e violência gratuitas. "Querida Wendy" cai assim num antiamericanismo fácil e preguiçoso, a milhas da subtileza presente em "Dogville".

A narração em off do protagonista, quase omnipresente, é outra opção que em nada contribuiu para a consistência do filme, e se ao início até ajuda a compreender os seus dilemas rapidamente se torna intrusiva. O elenco desperdiça actores como Jamie Bell - aqui muito longe do magnetismo de "Billy Elliot" ou "Os Amigos de Dean" -, Bill Pullman ou Mark Webber, que de resto nunca chegam a ter personagens sólidas para interpretar.

Nos momentos iniciais, "Querida Wendy" chega a sugerir fazer ao western o que o também recente "Brick", de Rian Johnson, fez ao film noir, reformulando e recontextualizando o género através de um elenco jovem e de uma sensibilidade pós-moderna. Mas não, a Vinterberg somente interessa conduzi-lo como mera arma de arremesso aos EUA, e nem o interessante trabalho de realização nem a banda-sonora - à base de canções dos The Zombies - são capazes de disfarçar as debilidades de um filme que, ao ter tantas pretensões de dar um murro no estômago, não consegue mais do que uma série de tirinhos de pólvora seca.


E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

terça-feira, julho 10, 2007

FANTASMAS DO PASSADO

A propósito do novo álbum de Kristin Hersh, vale a pena recordar um dos temas do seu disco de estreia a solo, "Hips and Makers". Aqui fica "Your Ghost", arrepiante colaboração com Michael Stipe, dos R.E.M.:

(ANTI-)ESTRELA VETERANA

Na década de 80, ajudou a construir a reputação da editora da 4AD integrando uma das suas bandas fundamentais, os Throwing Muses. Na de 90, iniciou com "Hips and Makers" (1994) um percurso a solo e deu-lhe continuidade com uma série de outros discos que a distinguiram como uma cantautora a escutar. Já no novo milénio, criou os 50 Foot Wave e redobrou a visceralidade presente no outro grupo do qual fez parte, parcialmente reduzida nos seus álbuns em nome próprio.

Em "Learn To Sing Like A Star", o seu sétimo disco a solo, Kristin Hersh volta a lembrar que ainda é uma das figuras de referência do rock alternativo actual através de um conjunto de canções marcadas por várias facetas do seu percurso.
Cruzando a energia da guitarra eléctrica com a elegância e depuração de violinos, violoncelos, guitarra acústica e piano, a cantora - que toca também grande parte dos instrumentos - propõe uma série de temas sólidos e pessoais, que à consistente arquitectura instrumental aliam a sua expressiva voz. Esta mantém a carga genuína e emotiva, transpirando um timbre peculiar pela qual Hersh sempre se evidenciou, distanciando-se de tentações miméticas de quaisquer estrelas (ao contrário do que os irónicos título e capa do disco sugerem).

A milhas do plástico emo que infecta novas bandas e das doses de depressão sem fim à vista também presente em alguns projectos indie, "Learn To Sing Like A Star" é um álbum onde a mágoa, a melancolia e a desilusão estão presentes mas não como mero efeito postiço ou teatral. São, antes, o reflexo de vivências que se moldam em canções cuja honestidade cativa, relatadas por alguém capaz de dar densidade às palavras.

Nos temas mais dinâmicos, Hersh aproxima-se da matriz sonora dos Throwing Muses, caso de "In Shock", que abre o álbum com rajadas de guitarras, ou "Day Glow", outro testemunho de intensidade. Os momentos apaziguados resultam igualmente bem, em episódios de sensibilidade envolvente como "Nerve Endings" ou "Peggy Lee", estes mais seguidores do trajecto que a cantora tem vindo a sedimentar a solo.

Embora todos se revelem apelativos, não havendo episódios menores a apontar, também não há nenhum que sobressaia, e é esse o problema de "Learn To Sing Like A Star": sendo um bom disco, nunca é atravessado por rasgos de inspiração muito acima da média. Esse aspecto não compromete, contudo, que aqui se encontre um claro depoimento de maturidade, expresso através de canções que, mesmo não vincando pela ruptura, são capazes de despertar uma ressonância emocional digna de registo.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM



Kristin Hersh - "In Shock"

segunda-feira, julho 09, 2007

AS CINCO

Cinco pequenas histórias que em comum têm peripécias em torno do homicídio de uma jovem rapariga - é esta a proposta de “A Rapariga Morta” (The Dead Girl), segunda longa-metragem de Karen Moncrieff, realizadora que passou pela série televisiva “Sete Palmos de Terra” e que se estreou em cinema com “Blue Car”, em 2002.

A experiência na brilhante série de Alan Ball é visível, uma vez que o filme opta pelo drama de tons densos, emanando um magnetismo que origina uma tensão apenas interrompida por ocasionais e muito discretos momentos de humor negro. O tema da morte é também outro forte ponto de contacto, estando na base das situações que as personagens aqui enfrentam. Contudo, apesar de investir nesses mesmos ambientes – mais do que no filme anterior -, Moncrieff não oferece aqui um mero sucedâneo e consegue tecer uma das teias dramáticas mais absorventes de 2007, apresentando uma obra que equilibra inteligência, subtileza e depuração emocional.

O argumento é bem esculpido, mantendo uma aura misteriosa sem no entanto escorregar para os exageros e reviravoltas de um thriller pouco exigente. A realização e montagem merecem também elogios, contribuindo para que “A Rapariga Morta” capte a atenção logo nos primeiros minutos e continue envolvente durante os cinco segmentos que servem de palco às cinco mulheres que Moncrieff observa: a Estranha, a Irmã, a Mulher, a Mãe e a Morta.

Puzzle menos intrincado do que os que se encontram em filmes-mosaico recentes – e que este não chega a ser de facto -, tem ainda a seu favor um magnífico elenco, tanto de protagonistas como de secundários. Rose Byrne, Mary Beth Hurt e Marcia Gay Harden são todas convincentes nos papéis de mulheres muito diferentes mas interligadas pela solidão e busca de respostas, mas Toni Colette e Brittany Murphy ascendem a um nível superlativo - a primeira naquele que é talvez o melhor episódio da película (contracenando com Giovanni Ribisi em algumas das cenas mais inquietantes) e a segunda interpretando a personagem que dá título ao filme com uma espontaneidade e dedicação impressionantes.

Após o promissor, embora irregular “Blue Car”, Moncrieff apresenta agora uma obra mais madura e segura, e só se lamenta não dar mais tempo de antena a algumas personagens, o que em nada compromete que "A Rapariga Morta" seja uma das melhores surpresas do cinema independente norte-americano estreadas este ano.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sexta-feira, julho 06, 2007

REGRESSO REQUENTADO

Promovida a um dos ícones pop da última década e meia, conhecida pela suas desafiantes mutações de disco para disco e a maior responsável pela inserção da Islândia no mapa musical - não obstante as contribuições dos Sugarcubes, que integrou, e posteriormente de uns Gus Gus ou Sigur Rós -, Björk tem tido um percurso que, apesar de desencadear frequentemente crispadas divisões de opiniões, atestou sempre a marca da sua singularidade no contexto artístico recente.

Com "Volta", esse estatuto não parece sofrer ameaças, uma vez que a unanimidade sai mais uma vez esbatida em torno de um disco que para uns atesta o regresso à (boa) forma e para outros limita-se a recorrer a auto-citações.

De facto, o primeiro single "Earth Intruders" antecipava um retorno às raízes de "Post", o pico de criatividade da cantora, aproximando-se dos ambientes quase industriais e efusivos de "Army of Me" mas condimentando-os com percussões tribais que fizeram dele uma refrescante porta de entrada para o álbum. No entanto, foi um tema enganador, pois "Volta" raramente segue uma via tão imediata e aposta antes em composições mais herméticas e laboratoriais, não muito distantes dos ensaios pouco entusiasmantes do antecessor "Medúlla".

Björk oferece aqui um curioso caldeirão de influências, convocando convidados especiais de todo o globo como os norte-americanos Antony Hegarty e Timbaland - haverá quem não o requisite hoje em dia? -, a chinesa Min Xiao-Ben ou o malinense Toumani, só que infelizmente um bom prato não se faz só a partir da junção de bons ingredientes e com um disco não é diferente. Não se pode acusar a islandesa de falta de ambição, até mesmo pela criação de uma sonoridade específica para as canções do disco que caracterizou como techno voodoo, catalogação interessante mas que, na prática, não parece ter muito mais fundamento do que a também recente nu rave.

O cruzamento de geografias é promissor, o problema é que neste misto de electrónica, jazz, sons orientais, contaminações africanas e pontuais acessos noise a pop fica quase esquecida, e foi através da desconstrução desta que a carreira da cantora viveu os momentos mais inspirados - nos irregulares, mas ousados primeiros três discos a solo -, de onde surgiram algumas canções de génio como "Hyperballad", "Isobel" ou "Joga".

Em "Volta" ainda se registam alguns episódios recomendáveis, embora não tantos quanto se esperaria: "The Dull Flame Of Desire", mesmo que demasiado longa, é uma sóbria canção de amor que nasce do diálogo entre Björk e Antony; enquanto que "Innocence" suporta-se na elasticidade dos beats fornecidos por Timbaland, que se interligam razoavelmente com a voz da islandesa e fazem lembrar "Alarm Call". Outro tema de "Homogenic", "Pluto", vem à memória ao longo do disco, já que "Declare Independence" partilha da mesma atmosfera caótica e distorcida, filha bastarda de uns Nine Inch Nails e Atari Teenage Riot, que surpreende face à calmaria presente nos temas anteriores mas torna-se cansativa ao fim de três ou quatro audições.

Infelizmente, momentos como "Vertebrae By Vertebrae", "Pneumonia" ou "Hope", além de serem demasiado semelhantes entre si, também não são especialmente convidativos, soando mais a esboços minimalistas do que a canções conseguidas e arrastando-se sem irradiar grandes doses de criatividade, vivendo muito dos trejeitos vocais de Björk que, se noutros tempos ainda poderiam considerar-se refrescantes ou exóticos, hoje estão já estafados e previsíveis. "My Juvenile", outro dueto com Antony, resulta igualmente tépido e sem chama, fechando em baixa um disco que não fornece muitos motivos para que se volte a ele.
Nem um desastre completo nem um regresso imponente, este é um álbum desequilibrado, mais seguro do que o anterior "Medúlla" mas que, tal como esse, compromete o lugar da sua autora enquanto figura de proa da música actual.

E O VEREDICTO É:
2/5 - RAZOÁVEL



Björk - "Earth Intruders"

quinta-feira, julho 05, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "NO MUNDO DAS MULHERES"

Um jovem escritor parte da California rumo à sua terra-natal, Detroit, após ser abandonado pela namorada. Lá, enquanto cuida da avó doente, conhece uma mulher mais velha e as suas duas filhas, que aos poucos vão assumindo um papel relevante no seu novo quotidiano.
"No Mundo das Mulheres" (In the Land of Women) é uma comédia dramática que marca a estreia na realização de Jon Kasdan, filho do cineasta Lawrence Kasdan ("Os Amigos de Alex", "O Turista Acidental"). Este pequeno filme é protagonizado por Adam Brody (mais conhecido como Seth da série "The O.C."), Meg Ryan e Kristen Stewart (a filha de Jodie Foster em "Sala de Pânico") e tem ar de curiosa proposta indie que se arrisca a passar ao lado. A confirmar.

Outras estreias:

"Belle Toujours", de Manoel de Oliveira
"É Coisa de Rapaz ou Rapariga?", de Nick Hurran
"Taxidermia", de György Pálfi
"Transformers", de Michael Bay


Trailer de "No Mundo das Mulheres"

terça-feira, julho 03, 2007

20 DE 2007

Percorridos os primeiros seis meses do ano, chega o momento de fazer o balanço dos filmes e discos que mais impressionaram por estes lados. Sem grandes surpresas a assinalar, sempre há motivos suficientes para encontrar dez títulos - tanto do cinema como da música - que merecem especial destaque. Espero que lá para finais de Dezembro as listas estejam bem diferentes.

10 FILMES:

1 - "Pecados Íntimos", Todd Field
2 - "Half Nelson — Encurralados", Ryan Fleck
3 - "As Vidas dos Outros", Florian Henckel von Donnersmarck
4 - "Homem-Aranha 3", Sam Raimi
5 - "The Fountain — O Último Capítulo", Darren Aronofsky
6 - "Shortbus", John Cameron Mitchell
7 - "A Rapariga Morta", Karen Moncrieff
8 - "Geração Fast Food", Richard Linklater
9 - "Zodiac", David Fincher
10 - "Assalto e Intromissão", Antony Minghella

10 DISCOS:

1 - "We Are the Night", The Chemical Brothers
2 - "Fantastic Playroom", New Young Pony Club
3 - "Au Revoir Simone", Au Revoir Simone
4 - "Chromophobia", Gui Boratto
5 - "The Magic Position", Patrick Wolf
6 - "A Weekend in the City", Bloc Party
7 - "23", Blonde Redhead
8 - "Lucky Boy", DJ Mehdi
9 - "Grow Up and Blow Away", Metric
10 - "The Reminder", Feist

segunda-feira, julho 02, 2007

TRÊS É DEMAIS (?)

No advento da animação digital que tem marcado o cinema deste género nos últimos anos, a saga de Shrek teve um papel decisivo, erguendo-se como uma referência capaz de agradar a um público vasto através de personagens bem delineadas, um humor perspicaz e por vezes com vários níveis de leitura, argumentos capazes de homenagear e satirizar o universo dos contos de fadas e, claro, técnicas imaginativas e mesmo pioneiras.

A combinação de todos estes elementos tornou os dois primeiros filmes do carismático ogre verde em entretenimento familiar acima da média, mas como tem sido hábito nas terceiras partes de outros blockbusters "Shrek o Terceiro" (Shrek the Third) coloca em causa o equilíbrio que estas aventuras continham. A mudança de realizador talvez ajude a explicar essa relativa perda de vitalidade, já que Chris Miller aposta numa narrativa mais previsível do que Andrew Adamson, apoiando-se também em gags algo óbvios, e ainda que se registem suficientes momentos divertidos raramente são hilariantes e falham quase tanto como acertam.

O filme segue, por um lado, a vingança de Príncipe Encantado, que se une a uma série de vilões clássicos de inúmeras fábulas para reclamarem o lugar de respeito a que defendem ter direito após recorrentes derrotas e exclusões, o que os leva a invadir o castelo de Far Far Away. Para além deste problema, Shrek enfrenta um momento de crise ao saber que Fiona está grávida, e de imediato começam a surgir os primeiros fantasmas da paternidade (ou, mais especificamente, incontáveis ogres bebés que atormentam o sono do protagonista).

Apesar de uma premissa que até parece acrescentar algo de novo à saga, "Shrek o Terceiro" desenvolve-se de forma bastante linear, sem a considerável frescura que caracterizou os antecessores. Falta aqui risco e ousadia, e o resultado é um Shrek em versão clean e politicamente correcta, com medo de ofender.

Essa falta de arrojo reflecte-se nas personagens - tanto nas novas, nos desengraçados Artur e Merlin; como nas habituais, pelo gritante desaproveitamento do Burro e do Gato das Botas, que trocam de corpo não se sabe muito bem com que finalidade (uma vez que o efeito cómico que daí resulta é nulo). As excepções ficam por conta da equipa de princesas destemidas - Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida e Rapunzel - lideradas por Fiona, que geram os momentos mais divertidos, e das (infelizmente) diminutas participações de outros aliados como Pinóquio ou os Três Porquinhos.

Em tempo de vacas magras, "Shrek o Terceiro" nem é das piores propostas em cartaz, conseguindo ser um divertimento ligeirinho e competente, e a hora e meia de duração até joga a seu favor, pois se o filme se prolongasse provavelmente cairia na monotonia (que, de qualquer forma, se evidencia a espaços). Assim é uma película longe de imperdível mas que ainda funciona e inspira alguma simpatia, embora seja desejável que haja um maior sopro criativo caso a saga se arraste para um quarto episódio.


E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

domingo, julho 01, 2007

DURO DE MATAR

Num Verão especialmente recheado de estreias de segundos e terceiros episódios de várias sagas, a maioria aquém das expectativas, "Die Hard 4.0 - Viver ou Morrer" (Live Free or Die Hard) até era um dos que se incluiria, à partida, nos menos promissores, já que o cargo de realizador de serviço para esta quarta aventura foi entregue a Len Wiseman, cujos créditos incluem o pouco auspicioso "Underworld - Submundo" e a sua sequela.
Contudo, apesar dessa suposição dominada por alguma relutância, o regresso de John McClane merece ser saudado, pois este é um blockbuster que, não trazendo nada de novo, cumpre exemplarmente a sua tarefa de proporcionar um aceleradíssimo e bem oleado entretenimento, condimentado por doses muito generosas de acção e humor.

Sim, o filme investe em território pisado e repisado inúmeras vezes, dentro e fora da saga, e quem não aderiu aos episódios anteriores não terá aqui atractivos que façam mudar de ideias. Mas o que interessa é saber se "Die Hard 4.0 - Viver ou Morrer" respira e está à altura do espírito das aventuras do carismático anti-herói encarnado por Bruce Willis, e nesse departamento sai-se surpreendentemente bem, o que não seria fácil tendo em conta que dois dos títulos anteriores foram assinados por John McTiernan e o primeiro é uma referência dentro do género.

Len Wiseman não demonstra aqui grandes ideias que o levem a ser considerado um realizador particularmente digno de nota, ainda que seja um tarefeiro empenhado em nunca deixar o filme cair no marasmo. Arranca, pelo menos, um assinalável equilíbrio entre sequências de acção musculada e gags certeiros, ocasionalmente irónicos e auto-conscientes e nunca metidos a martelo, que vivem muito da atitude única de um protagonista que só poderia ser assegurado por Willis. O actor não se leva demasiado a sério e adere, como nos episódios antecessores, a 100% ao desbragamento trepidante de sucessivas cenas de perseguição e tiroteio, revelando-se incansável e numa forma física susceptível de causar inveja a muitos jovens (aspirantes a) estrelas.

O argumento, no fundo uma desculpa para um concentrado de momentos que testam continuamente a verosimilhança, até tem alguma ressonância dos tempos actuais, já que os vilões são ciberterroristas cuja sabotagem aos serviços dos EUA que recorrem a tecnologias inviabiliza ou descoordena muitas das estruturas de transportes, energia ou comunicação.
No entanto, o melhor que daí resulta é ver a forma como John McClane reage e é encarado num mundo tecnologicamente mais avançado, onde o seu papel de agente da velha guarda é subestimado por muitos, tanto aliados como inimigos, o que desencadeia algumas das melhores piadas do filme.
Os antagonistas não são figuras muitos convincentes, pois Maggie Q limita-se à função de agente robótica e sensual e Timothy Olyphant é caracterizado apenas pela obstinação, e ainda que as suas motivações sejam explanadas ao longo do filme não vai muito além da caricatura. Mais conseguido é o sidekick de McClane, um jovem hacker interpretado pelo relativamente desconhecido Justin Long que gera empatia e tem boa química com Willis. Ainda acerca de geeks, o realizador Kevin Smith tem aqui uma participação especial também como hacker, que proporciona alguns momentos de humor inspirado e oportuno.

Filme de acção back-to-basics, sem a overdose de CGI que contamina muita da concorrência actual, "Die Hard 4.0 - Viver ou Morrer" é uma maratona desconcertante onde, tal como McClane, também o espectador se arrisca a perder o fôlego no meio de carros que atingem helicópetros em pleno vôo, de outros que circulam em sentido contrário num túnel sem iluminação ou, porque não, de uma luta corpo-a-corpo num automóvel preso num elevador (!).
Já que é para servir cargas massivas de energia cinética, Len Wiseman não faz a coisa por menos e, ainda que formulaico, este é um blockbuster vitaminado que funciona e impressiona. Efémero? Claro que sim. Descartável? Também, mas nem por isso despiciendo desde que não se peça mais do que duas horas de escapismo em estado bruto.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

sábado, junho 30, 2007

SE7EN

Este foi um dos blogs contemplados nas escolhas do My_Little_Bedroom e dO Astronauta na selecção para as 7 Maravilhas da Blogoesfera, e desde já agradeço a ambos pela menção. A proposta da iniciativa, organizada pelO Sentido das Coisas, é esta:

"Depois da ideia de se elegerem as 7 Maravilhas do Mundo, alguém teve a brilhante ideia de eleger as 7 Maravilhas de Portugal. E como se não bastasse, outra alma iluminada teve a ideia de fazer a votação para as 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa. Bem, depois disto tudo também tive uma ideia... Por a votação as 7 Maravilhas da Blogoesfera.

Regulamento:
1. Podem participar na votação todos os bloggers que mantenham blogues activos há mais de um mês [os outros esperem por outra ideia brilhante que alguém irá ter].

2. Cada blogger deverá referenciar sete nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.

3. Cada blogger só poderá votar uma vez, e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor lhe aprouver], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail: 7.maravilhas.blogoesfera@gmail.com.

No e-mail, para além da escolha, deverão indicar o link para o post onde efectuaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 01/07/2007.

4. De forma a reduzir alguns constrangimentos [e desplantes], e evitar algumas cortesias desnecessárias, também são considerados votos nulos:
- Os votos dos blogger(s) em si próprio(s) ou no(s) blogue(s) em que participa(m);
- Os votos no blog O Sentido das Coisas.

No dia 7.7.2007 serão anunciados os vencedores e disponibilizadas todas as votações."


Assim sendo, as minhas escolhas - após algumas dores de cabeça para me decidir - são as seguintes:

apARTES
As Imagens Primeiro
More All of Me
Planet Fiction
Planeta Pop
Sound + Vision
Take a Break

E fica o desafio para que sigam o exemplo, quanto mais não seja para verem como é difícil escolher apenas 7.

sexta-feira, junho 29, 2007

3 NON BLONDES

Com pouco mais de uma década de carreira, os Blonde Redhead têm já uma discografia relativamente extensa, com seis álbuns de originais e cujo sétimo tomo chega agora com "23". O trio (que incialmente era quarteto), composto pela japonesa Kazu Makino e pelos gémeos italianos Amedeo e Simone Pace, começou por destacar-se por recuperar a herança indie e noise de uns Sonic Youth, patente num rock lo-fi, experimental e de considerável sentido atmosférico.
Contudo, os Blonde Redhead de hoje são uma banda diferente, e embora a espaços ainda mantenham esses elementos investem maioritariamente em canções mais polidas, condimentadas com uma sensibilidade pop pouco presente nos primeiros registos.

"23" apresenta então dez temas onde o grupo soa mais imediato mas não necessariamente menos exigente, uma vez que a composição é acessível sem ser facilista e a produção evidencia um rigor que se traduz em cenografias ainda enigmáticas e estimulantes (ou não estivesse a cargo de Alan Moulder).

Interessante contraste entre momentos de luz e sombra que se manifestam nas subtis mudanças de sonoridade, na voz agridoce de Makino ou nas letras (ora melancólicas, ora ligeiramente optimistas), "23" resulta num disco equilibrado e convidativo, capaz de seduzir durante várias audições. Seja nos tons épicos da faixa-título - uma das melhores -, no romantismo amargurado de "The Dress" ou na placidez de travo electrónico de "Top Ranking", os Blonde Redhead comprovam que a opção por novos caminhos se revelou bem sucedida.

A banda não desbrava aqui novos territórios, mas sabe como renovar muitos sinais reconhecíveis, desde o shoegaze de uns My Bloody Valentine ou Lush ao rock esparso, negro e amargurado, próximo dos Radiohead ou Archive (estes últimos reflectem-se sobretudo nas canções cantadas por Amedeo Pace, como a óptima "Spring and by Summer Fall ou "S.W.").
O savoir faire do grupo traduz-se num disco que alia eficazmente elegância e mistério - ainda que o tema final, "My Impure Air", não o termine da melhor forma - mas ao qual faltam momentos que o atirem para um nível mais apaixonante.
Seja como for, "23" é um álbum seguro e recomendável, em especial para apreciadores de dream pop bem feita, algo pelo qual uma editora como a 4AD sempre se destacou e cuja reputação os Blonde Redhead não comprometem.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM



Blonde Redhead - "23"

quinta-feira, junho 28, 2007

8 BLOGUES, 5 FILMES, 1 REALIZADOR

As escolhas e classificações dos bloggers do costume relativas às estreias de Junho. O realizador do mês foi Steven Soderbergh, à conta do recente (e fraquinho) "Ocean's 13". Daqui a um mês há mais, resta saber quem irá ser o nome em destaque: Michael Bay ("Transformers") ou Quentin Tarantino ("Death Proof")? Façam as vossas apostas.

ESTREIA DA SEMANA: "A RAPARIGA MORTA"

A melhor estreia da semana, e certamente uma das mais recomendáveis deste Verão, "A Rapariga Morta" (The Dead Girl) é a segunda longa-metragem de Karen Moncrieff, realizadora de alguns episódios da série "Sete Palmos de Terra" e de uma primeira obra, "Blue Car", que passou quase despercebida.
O filme, bem mais interessante do que o antecessor, cruza cinco histórias que em comum têm a personagem que inspira o título, proporcionando um drama sobre a morte e o universo feminino que, além de um argumento bem explorado, inclui um elenco exemplar onde constam Toni Collette, Brittany Murphy, Marcia Gay Harden ou James Franco. A não perder.

Outras estreias:

"Die Hard 4.0 - Viver ou Morrer", de Len Wiseman, o surpreendente regresso de John McLane num muito aceitável filme de acção
"Querida Wendy", de Thomas Vinterberg, desapontante abordagem ao livre porte de arma nos EUA, com (mau) argumento de Lars Von Trier



Trailer de "A Rapariga Morta"

terça-feira, junho 26, 2007

GOLPE BAIXO

Há quem defenda “Ocean’s 13” suportando-se nos créditos de Steven Soderbergh, artesão camaleónico que tem cimentado uma filmografia assente numa multiplicidade de registos. Deve-se a ele a coolness que afasta este de muitos outros blockbusters de Verão, em parte pelo seu aprazível trabalho de realização, com enquadramentos imaginativos que não caem na monotonia; pela banda-sonora de David Holmes, que se conjuga eficazmente com as imagens; e claro, pelo elenco, um autêntico who’s who de algumas das caras mais carismáticas de Hollywood.

Ora, se todos estes elementos podem ser contributos valiosos para que daqui saia um filme pelo menos interessante, “Ocean’s 13” acaba por ser um lamentável tiro ao lado, já que apenas desperdiça recursos e nem sequer consegue oferecer os mínimos de entretenimento. Nada que não pudesse apontar-se já ao título que iniciou a série, “Ocean’s 11”, seguramente um dos mais sobrevalorizados dos últimos anos; e ao segundo regresso a saga mostra que é um claro exemplo onde o estilo esmaga a substância, e o que no primeiro filme poderia aceitar-se como relativamente refrescante descarrila aqui para um frustrante modo de piloto automático.

Ao contrário do que o percurso “autoral” de Soderbergh poderia sugerir, “Ocean’s 13” é um daqueles produtos que contribui para que os blockbusters sejam encarados com desconfiança por muitos, objectos rasos e preguiçosos, tendencialmente esquecíveis. Não vem nenhum mal ao mundo do facto deste ser um filme leve e despretensioso, mas à medida que a acção se vai desenrolando a falta de chama vai sendo cada vez mais evidente, não havendo entusiasmo nem na narrativa nem nos actores.
Destes, Clooney e Pitt trocam algumas linhas de diálogo razoavelmente divertidas, o problema é que já seriam poucas para sustentar um sketch e mostram-se ainda mais insuficientes para que se aguente todo o filme sem olhar para o relógio. De resto, todos os actores parecem apenas figurantes e mal chegam a ser esboçadas caricaturas, tanto que ao pé disto um filme de Michael Bay é um prodígio de construção de personagens e densidade dramática (agora a sério, o maltratado “A Ilha” é francamente superior a este banal heist movie).

Dizer que o argumento é esquemático talvez seja um eufemismo, uma vez que o filme propõe uma história de vingança, desprovida de qualquer intensidade, em que o gang de Danny Ocean sabota a inauguração de um casino. Soderbergh não resiste a debitar todo o plano dos protagonistas, perdendo largos minutos em estratégias fastidiosas que apenas entopem a narrativa e debilitam o ritmo, e nem as novas presenças do elenco, Al Pacino e Ellen Barkin, trazem especiais mais-valias, sujeitando-se ao papel de marionetas da acção.

Em última instância, a campanha de marketing sustentada nos muitos nomes mediáticos faz com que tudo valha a pena para a equipa do filme, já que o interesse artístico de “Ocean’s 13” é inversamente proporcional ao comercial. Só é pena que, nesse processo, um espectador com alguma exigência esteja sujeito a ficar de fora.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

segunda-feira, junho 25, 2007

SPACE COWBOY

Com "Twin Falls Idaho - Vida Comum" (1999) e "Northfork" (2003), Michael Polish destacou-se enquanto realizador promissor, dada a estranheza e moderada bizarria presentes nessas duas obras, que aliadas a uma atmosfera sensível e enigmática lhe permitiram iniciar com alguma consistência um percurso autoral.
"O Astronauta" (The Astronaut Farmer), o seu novo filme, confirma as idiossincrasias do realizador mas também as suas debilidades, pois embora seja uma película suficientemente ousada e criativa não consegue estar à altura daquilo a que se propõe.

O protagonista do filme é Charles Farmer, um engenheiro aeroespacial que teve de abandonar subitamente o seu sonho de ser astronauta da NASA devido a um incidente familiar, situação que conduziu a que fosse viver para uma quinta no Texas com a sua esposa e filhos.
Contudo, em vez de se conformar a uma vida pacata e rotineira, Farmer continuou a perseguir a sua ambição, e para isso construiu um foguetão no seu celeiro e manteve o desejo de um dia viajar nele para o espaço. Os problemas surgem quando diversas entidades, entre as quais o FBI, a NASA e muitos media, começam a investigar a preparação da sua missão e a colocá-la em causa, surgindo assim entraves legais que nem por isso abalam as aspirações do protagonista.

Inicialmente, "O Astronauta" começa por entusiasmar ao focar o projecto de um outcast que apenas tenta lutar por algo com que sempre sonhou, perseguindo o american dream à sua maneira. Aos poucos, todavia, uma inexorável alienação começa a dominar a personagem e o próprio filme, já que Polish parece defender que os fins justificam os meios, o que no caso se traduz numa crescente irresponsabilidade de Farmer e da sua família, descurando questões como a segurança deles próprios e dos que os rodeiam.

O filme toma claro partido do protagonista, o que implica fazer dos agentes do FBI os maus da fita e ridicularizá-los com doses cavalares de incompetência - no extremo oposto, Farmer é bem sucedido na sua missão espacial, cuja equipa é formada pelo seu filho de quinze anos e duas filhas que não terão mais de dez.
Além de testar a condescendência que se possa ter em relação à plausibilidade de um argumento, "O Astronauta" cai no ridículo involuntário ao apostar num exercício inspirador e edificante centrado numa personagem que almeja o espaço mas é incapaz de olhar para além do próprio umbigo.

Em vez de uma fábula subversiva, a película resulta num engodo ingénuo e não raras vezes irritante ao atentar contra os mínimos do bom-senso. E no entanto, Polish ainda consegue, surpreendentemente, ofecer aqui algumas boas sequências de união familiar, sobretudo antes da perseguição do sonho cair na megalomania. Os actores ajudam a que as cenas entre os elementos da família Farmer pareçam genuínas, já que tanto os mais jovens - que inclui as filhas dos irmãos Polish - como os mais velhos respiram espontaneidade.
Destes últimos, Billy Bob Thornton, J.K. Simmons e Bruce Willis não desmerecem, mas é Virginia Madsen quem mais brilha, com um desempenho luminoso que confirma que é uma das actrizes mais talentosas e subaproveitadas da actualidade, e é uma pena que a sua personagem vá perdendo intensidade ao longo do filme, tornando-se num utensílio que reforça a ambição do marido.

Esta redução da densidade emocional invade também o argumento, que adere ao melodrama de gosto duvidoso na recta final, desperdiçando algumas pérolas de intimismo anteriores. E contra isso nem a sóbria e fluída realização nem a bela fotografia são suficientes para salvarem "O Astronauta" do falhanço (interessante, apesar de tudo), o que faz com que ainda não seja desta que Polish esclareça se é um realizador competente com alguns acessos de inspiração ou um cineasta em potência e a ter em conta.

E O VEREDICTO É:
2,5/5 - RAZOÁVEL

sábado, junho 23, 2007

CANÇÕES DE SOMBRA COM RAIOS DE SOL

Há uns anos, o papel da inglesa Sophie Michalitsianos na história da música recente resumir-se-ia à sua colaboração como violoncelista dos Sparklehorse, mas em 2006 revelou que possuía também talento como vocalista, compositora e produtora, uma vez que assumiu todas estas funções no seu disco de estreia, “The Bells of 1 2”, que assinou como Sol Seppy.

E ainda bem, porque as canções que aqui apresenta colocam-na já como um nome a acompanhar, praticante de uma indie pop intimista e serena, capaz de suscitar comparações com outras referências igualmente estimáveis – Hope Sandoval é quase inevitável; Lori Carson, Nina Persson ou Mirah também não andam longe – sem no entanto deixar de emanar um encanto próprio.

Encantador é mesmo o adjectivo mais apropriado para caracterizar este disco, uma obra discreta que se vai insinuando aos poucos e que convida, sem insistir, a audições repetidas para que se descortinem as camadas de mistério e emoções camufladas que algumas composições escondem.
Pianos, guitarras e violoncelos aliam-se a ténues, mas determinantes, presenças electrónicas, dando a estas canções uma interessante dimensão electroacústica que convive bem com uma voz fresca e delicada. As melodias conseguem ser cativantes sem caírem no óbvio, guiando-se sempre por um minimalismo que contribui para que do álbum transpareça uma aura intimista e singular.

Alternando entre momentos melancólicos e esperançosos, “The Bells of 1 2” oferece um sólido conjunto de canções feitas de histórias pessoais e transmissíveis. Seja na ode ao amor e amizade de “Come Running”, no retrato de inadaptação de “Wonderland”, na hipnótica e sedutora “Loves Boy”, na mais descontraída “Slo Fuzz” ou nas belíssimas “Injoy” (dificilmente há canção mais apropriada para um dia de chuva) e “Enter One” (a fechar o disco com um refrão angelical e arrepiante), Sol Seppy testa registos relativamente diversificados e o resultado é quase sempre meritório.

Por vezes, os discretos sussurros e quase silêncios arriscam-se a colocar reservas quanto a algumas canções, mas no geral é difícil não aderir a esta agradável surpresa. Lamenta-se, contudo, que não se encontrem mais temas como “Move”, o mais atmosférico, nebuloso e intempestivo, que se distancia da quietude dos restantes episódios do álbum.
Tivesse “The Bells of 1 2” apostado noutras composições como essa e talvez fosse um disco mais conseguido, com camadas de maiores contrastes, embora assim seja já uma estreia bastante auspiciosa e envolvente, revelando uma cantautora que, se estiver ao nível do potencial que aqui denuncia, poderá vir a tornar-se imprescindível.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM



Sol Seppy - "Wonderland"

quinta-feira, junho 21, 2007

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Nos últimos tempos, filmes dedicados ao 11 de Setembro têm surgido com alguma recorrência, contando com maiores ou menores doses de ficção e investindo nos motivos que levaram aos atentados ou nas consequências destes. Do docudrama "Voo 93", de Paul Greengrass, ao thriller "Alguns Dias em Setembro", de Santiago Amigorena, passando pela crónica de "World Trade Center", de Oliver Stone - e estes são só os casos em que as referências aos eventos são mais directas -, o cinema tem sido uma hipótese de catarse face às memórias de um dia trágico e determinante.

"Infinite Justice" não será dos mais mediáticos, o que é pena, uma vez que o paquistanês Jamil Dehlavi apresenta aqui uma visão interessante do contexto geopolítico actual sem cair em simplismos ou maniqueísmos, gerando um thriller carregado de nervo e intensidade que evita pirotecnias hollywoodescas e demais ataques à plausibilidade.
Parcialmente inspirado na história de Daniel Pearl, repórter capturado e assassinado por terroristas islamitas, o filme segue as investigações de um jornalista cuja irmã foi vítima da tragédia ocorrida no World Trade Center e que, determinado a encontrar respostas para o sucedido, inicia uma busca onde vai acumulando informação que poderá funcionar como rastilho para dinamitar algumas entidades do sistema.
Partindo de uma reportagem sobre a rede financeira da Al Quaeda, a pesquisa de Arnold Silverman acaba por levá-lo a deparar-se com uma das figuras-chave da organização, Kamal, um britânico de ascendência paquistanesa e educação universitária com um papel decisivo nos incidentes do 11/9.

Intrincada mistura de realidade e ficção - sendo por vezes arriscado discernir onde acaba uma e começa a outra -, "Infinite Justice" é especulativo mas não histérico, contendo um equilíbrio assente no olhar tridimensional e complexo que Dehlavi oferece. Explorando com solidez as motivações dos dois protagonistas através de flashbacks oportunos e bem geridos, o filme desenvolve-se sempre a um ritmo escorreito, sem palha narrativa, e mesmo que por vezes seja demasiado cerebral, obrigando o espectador a digerir grandes doses de informação sem muitas pausas, mantém-se absorvente e a espaços desconcertante.

Os praticamente desconhecidos Kevin Collins e Raza Jaffrey expõem carisma na liderança de um elenco competente e a realização, de origem digital e low budget, não deixa de ser segura e elegante, e se não proporciona grandes momentos de cinema aproxima-se da eficácia de algumas (boas) séries televisivas policiais recentes, servindo bem a história que tem para contar.
"Infinite Justice" é por isso uma obra que não merece passar despercebida, abordando com subtileza e perspicácia uma temática com forte tendência para descarrilar para perspectivas tendenciosas, previsíveis ou estridentes. A sua descoberta justifica-se e recomenda-se.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

"Infinite Justice" integra a programação do Lisbon Village Festival e é exibido hoje à meia-noite no cinema São Jorge, em Lisboa

ESTREIA DA SEMANA: "SHREK O TERCEIRO"

As terceiras partes parecem ser a tendência deste Verão, e a saga do ogre mais famoso do cinema não é excepção. "Shrek o Terceiro" (Shrek the Third) é também, infelizmente, mais um caso a confirmar a desinspiração que tem caracterizado esses terceiros capítulos, pois embora cumpra os mínimos de entretenimento não acrescenta nada de relevante ou surpreendente.
Os fãs das aventuras no reino Far Far Away não deverão arrepender-se muito desta hora e meia, já quem não se deixou convencer pelos anteriores não encontrará aqui motivos para mudar de ideias.
Mesmo assim, fica o aviso de que este ligeirinho filme de animação de Chris Miller é francamente preferível à falhadíssima proposta de terror "Os Abandonados", forte candidato a pior do ano.

Outras estreias:

"Inimigos do Império", de Xiaogang Feng e Feng Xiaogang
"Os Abandonados", de Nacho Cerdà


Trailer de "Shrek o Terceiro"

terça-feira, junho 19, 2007

OS FUGITIVOS

Filmes ambientados em prisões não são propriamente uma novidade, assim como o não são os que assentam em rocambolescas conspirações governamentais, onde nem tudo é o que parece. Ao repisar estes domínios, não era fácil que “Prison Break” conseguisse impor-se enquanto um objecto particularmente digno de nota, sobretudo por investir neles não através de um filme mas como série televisiva, onde o desafio de enfrentar o desgaste caracterizado por lugares-comuns seria ainda mais exigente.

No entanto, a julgar pela primeira temporada, os seus criadores – Paul Schering e uma equipa de produtores executivos que inclui, entre outros, Brett Ratner - foram francamente bem sucedidos, já que esta história – a de um engenheiro de estruturas que assalta um banco de forma a ser enviado para uma prisão de alta segurança e daí tenta libertar o seu irmão, injustamente condenado à morte - é um feliz exemplo de como um produto televisivo pode ser capaz de atingir um público relativamente vasto sem deixar de ser inteligente e bem estruturado.

Fruto de um argumento de precisão milimétrica, de uma realização ágil e de um elenco consistente, “Prison Break” decorre a um ritmo acelerado, embora não hiperactivo, oferecendo muitos picos de intensidade em cliffhangers estrategicamente colocados mas dando sempre espaço para que as personagens vão ganhando densidade, até porque se estas não tivessem espessura o plano de fuga do protagonista dificilmente se tornaria tão empolgante.

A energia narrativa e a contínua disseminação de intrigantes subplots quase disfarçam os ocasionais buracos no argumento, coincidências demasiado convenientes ou atitudes algo improváveis de algumas personagens, e em muitas situações o sistema de vigilância das prisões de alta segurança não ficará muito bem visto dada a facilidade com que os reclusos escapam ao controlo dos guardas. Felizmente, mesmo com estes pontuais ataques à verosimilhança, a série desenvolve-se com uma tensão crescente e não demora muito para que nasça a ânsia de ver mais do que um episódio de seguida.

Constituída maioritariamente por nomes desconhecidos, “Prison Break” contribuiu já para que muitos se candidatassem a estrelas em ascensão, como é o caso do protagonista, Wentworth Miller, com um underacting perfeito na pele do circunspecto e perspicaz Michael Scoffield, uma das melhores personagens a surgir na televisão nos últimos anos.
Com outro desempenho subtil e convincente, Sarah Callies interpreta a enfermeira que se tornará no interesse amoroso de Scoffield e a química entre ambos gera alguns dos momentos mais emotivos da série, bem distintos daqueles vividos por T-Bag, um melindroso assassino e pedófilo (encarnado sem reparos por Robert Knepper) ou Abruzzi, um não menos ameaçador recluso com ligações à máfia (interpretado pelo veterano Peter Stormare).

Ancorada em personagens suficientemente ambíguas, a série resulta numa sólida combinação de thriller, drama e suspense, e ainda que geralmente não ultrapasse um profissionalismo e eficácia inatacáveis, suportados por sólidos valores de produção e uma escrita atenta aos pormenores, “Prison Break” deixa a milhas muitos objectos similares que chegam às salas de cinema (Steven Soderbergh, por exemplo, bem podia aprender aqui umas coisinhas que o ajudassem no sonolento “Ocean’s 11” e respectivas sequelas).
Só é pena o desfecho tão frustrante, não por estar mal conseguido – antes pelo contrário, nunca é minado pela previsibilidade - mas porque os últimos episódios colocam os nervos em alta e o final acaba por ficar em aberto, sem que nenhum dos arcos da narrativa tenha resolução. Nada que não se perdoe caso a segunda temporada mantenha os mesmos níveis de adrenalina e entusiasmo em estado puro.


E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM

segunda-feira, junho 18, 2007

UNDERGROUND

Se bandas como os Interpol, Bloc Party ou Editors, entre tantas outras, têm feito com que as influências pós-punk se mantenham em muito do rock recente, há quem não esqueça que, antes disso, havia o punk, inclusive português, facção que está devidamente representada em "Ataque Frontal: Underground Português do Século XXI".

Compilação organizada pela editora Impulso Atlântico, reúne 50 grupos nacionais, entre veteranos e novatos, que em comum têm as raízes underground e a revolta que se manifesta quase sempre de forma explícita nas letras e sonoridade das canções.
Peste & Sida, Tara Perdida, If Lucy Fell, The Parkinsons ou TwentyInchBurial são alguns dos nomes presentes num álbum duplo, essencial para adeptos do género e bastante elucidativo para curiosos. Mas independentemente dos gostos, é um documento que revela obstinação e amor à camisola, sendo representativo de um género que tem marcado, de forma mais ou menos evidente, a música que se faz por cá.



The Parkinsons - "Angel in the Dark"

sábado, junho 16, 2007

O PESTINHA

Introduzindo um realizador a ter em conta no cinema independente norte-americano recente, Burr Steers, "A Estranha Vida de Igby" (Igby Goes Down, 2002) é um interessante relato do crescimento e da solidão, ancorado nas experiências de um adolescente. Mais um retrato de famílias disfuncionais, que tanto tem inspirado inúmeras obras indie nos últimos anos, o filme narra o percurso atribulado de Igby, vincado pelos seus problemas escolares e de socialização.

Steers terá certamente lido "Uma Agulha no Palheiro" (The Catcher in the Reye), o livro de J.D. Salinger que continua a marcar gerações pela combinação de humor negro e sensibilidade na abordagem da complexidade da adolescência. Essas características não só se verificam em "A Estranha Vida de Igby" como o protagonista do filme tem muitos traços em comum com Holden Caulfield, seja pela carga satírica dos seus comentários, pela postura distante e desconfiada ou pela fragilidade que esconde.

Para isso em muito contribui o desempenho de Kieran Culkin, que dá uma notável prova de talento na construção de uma personagem que, apesar da considerável arrogância, é capaz de gerar empatia. Todo o elenco é, de resto, muito convincente, o que nem surpreende já que contém nomes como Susan Sarandon (uma óptima mãe histriónica), Claire Danes (com o encanto habitual), Bill Pullman (memorável num pungente retrato da esquizofrenia) ou Ryan Phillippe (mais uma vez sóbrio e equilibrado). Alguns encarnam figuras que não vão muito além da caricatura, e embora merecessem mais o protagonista é alvo de um considerável desenvolvimento, o que acaba por assegurar a consistência do filme.

"A Estranha Vida de Igby" não será uma obra especialmente original, pois para além dos paralelismos com o livro de Salinger não se distancia muito de outras dramedies indie, mas Steers supera essa condicionante com um argumento sólido, de onde se destacam alguns diálogos apropriadamente irónicos entre algumas cenas de uma estimável secura emocional.
Se essas várias mudanças de tom, entre momentos cómicos e dramáticos, nem sempre são bem sucedidas, a realização é competente e a banda-sonora exibe bom-gosto, recorrendo a canções dos Dandy Warhols, Badly Drawn Boy, Beta Band ou Coldplay (muito apropriada, a utilização de "Don't Panic"). Uma promissora primeira-obra que passou algo despercebida mas justifica a (re)descoberta.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

quinta-feira, junho 14, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "A PONTE"

Um dos interessantes documentários do ano, "A Ponte" (The Bridge) incide sobre os suicídios que ocorrem na ponte Golden Gate, em São Francisco. Eric Steel recolheu relatos de familiares e amigos de suicidas (e até de um sobrevivente) e gerou um complexo relato do sofrimento que encoraja a morte auto-infligida. A abordagem é seca, directa, por vezes exaustiva e moralmente discutível (ao apresentar imagens de actos suicidas), mas merece ser vista e discutida, sobretudo numa altura do ano em que são raros os filmes que convidem minimamente à reflexão.

Outras estreias:

"Lady Chatterley", de Pascale Ferran
"Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado", de Tim Story
"Santo António, Guerreiro de Deus", de António Guerriero Di Dio
"Taxi 4", de Gérard Krawczyk
"Teresa, O Corpo de Cristo", de Ray Loriga



Trailer de "A Ponte"

quarta-feira, junho 13, 2007

ARMAS ROCK

Diz quem viu que coube aos WrayGunn uma das melhores actuações tugas do Alive. Infelizmente não consegui ver muito do concerto, mas deixo a entrevista a Paulo Furtado e Raquel Ralha com alguns momentos do espectáculo. Mais vídeos do festival aqui.


segunda-feira, junho 11, 2007

BOYS WILL BE BOYS

Consistente, a estreia dos Beastie Boys em palcos nacionais, no Alive, ainda que provavelmente não tenha decorrido da forma que muitos esperariam. Os temas instrumentais do novo "The Mix Up", sendo interessantes, não encontraram grande resposta em parte significativa do público, e aí a culpa foi mesmo da banda que abusou da dose dos mesmos (opção desnecessária, já que iriam apresentá-los hoje no concerto da Aula Magna).
Teve, no entanto, a vantagem de contribuir para o reforço do eclectismo de um espectáculo que uniu vários registos, do hip-hop a acessos punk ou experimentais, com direito a passagens por episódios jazzy, à contribuição do DJ e à quase stand up comedy do trio nova-iorquino (nem sempre conseguida).
No geral, saúda-se a fuga ao óbvio, embora no final tenham servido hits como "Intergalactic" ou "Sabotage", que souberam bem depois de algum desnorte. Por mim, que só costumo ouvir regularmente o "Hello Nasty", podem voltar quando quiserem. Eis um excerto:


domingo, junho 10, 2007

GO BABY GO GO

Ao segundo dia, o melhor concerto do Alive voltou a registar-se no palco secundário. Desta vez, a "culpa" foi dos britânicos The Go! Team, que na sua estreia em palcos tugas não poderiam ter deixado melhor impressão. Disco, funk, hip-hop e pop juntos numa centrifugadora irriquieta e viciante, a deixar a milhas os mais concorridos White Stripes (zzzzzzzzzzzzzzzzz...) e Smashing Pumpkins - e isto vindo de um fã da banda de Billy Corgan. Aqui fica o videoclip de "Junior Kickstart", incluído em "Lightning, Thunder, Strike", o disco de estreia da banda, e o resumo do segundo dia do festival:

sábado, junho 09, 2007

THE RAKES BEM VIVOS!

Palmas para os The Rakes, que se revelaram uma óptima banda ao vivo - não que os discos não sejam bons - no primeiro dia do Festival Alive, ontem. Alan Donohoe, és o maior!
Em jeito de homenagem, deixo o recuerdo de "Retreat", um dos mais pujantes singles do álbum de estreia "Capture/Release", de 2005. Entretanto, o resumo do primeiro dia do festival pode ser lido aqui.

quinta-feira, junho 07, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "O ASTRONAUTA"

Dono de uma quinta no Texas, casado e com três filhos, Charles Farmer não é contudo um homem realizado pois tem desde sempre o sonho de ser astronauta. O momento em que esse desejo se tornará realidade aproxima-se, no entanto, à medida que se fazem os últimos preparativos para que o foguetão que construiu possa finalmente partir do seu celeiro para o espaço (!).
"O Astronauta" (The Astronaut Farmer) é o mais recente filme de Michael Polish, autor dos também estranhos q.b. "Twin Falls Idaho - Vida Comum" e "Northfolk", e protagonizado por Billy Bob Thornton e (pela excelente) Virgina Madsen. Bastante irregular, é mesmo assim um título a ter em conta, e pelo menos infinitamente mais interessante do que o tão mediático - e tão oco e banal - "Ocean's 13".

Outras estreias:

"Capitão Alatriste", de Agustín Díaz Yanes
"Ocean's 13", de Steven Soderbergh



Trailer de "O Astronauta"

quarta-feira, junho 06, 2007

QUANDO UM CONCERTO NÃO PARECE PEQUENO

A guitarra de Tó Trips e o contrabaixo de Pedro Gonçalves foram os grandes protagonistas do concerto dos Dead Combo na passada sexta-feira na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, à semelhança do que ocorre nos discos da dupla, onde esses dois instrumentos são a base para que se percorram uma série de territórios sonoros aparentemente díspares mas que o projecto sabe como tornar complementares.

Previsto para as onze da noite, o espectáculo arrancou com quase uma hora de atraso, o que acabou por dar tempo para que os espectadores fossem chegando, conversando e ambientando-se, pelo que quando o duo entrou em palco já a sala se encontrava repleta para acolher os temas de "Vol. 1" e "Vol. 2: Quando a Alma não é Pequena".

Todas instrumentais, as canções cruzaram géneros e referências, viajando por domínios que tanto tocaram o jazz, o tango ou o rock alternativo, aproximando-se ainda do blues ou de bandas-sonoras de westerns, dos Calexico ou de Ennio Morricone.
Curioso é o facto de, apesar de marcadas por um travo cosmopolita, as composições dos Dead Combo não deixarem de evidenciar sinais de uma génese ainda muito portuguesa, emanando uma carga por vezes tão melancólica e soturna que quase traduz o sentimento do fado. "Assobio (canção do avô)" terá sido uma das mais paradigmáticas dessa ressonância lusa, que Tó Trips revelou ter sido inspirada no assobio de Vasco Santana n'"O Pátio das Cantigas". Já as versões de "Like a Drug", dos Queens of the Stone Age - em modo "música de restaurante chinês" -, e de "Temptation", de Tom Waits, foram casos de mais evidentes contaminações externas.

Estabelecendo uma interessante ponte imaginária entre os bairros típicos lisboetas e os áridos desertos norte-americanos - e esta será só uma das hipóteses -, a música do duo não conteve, contudo, fôlego suficiente para entusiamar ao longo da cerca de hora e meia de duração do concerto. Por um lado, muitos dos temas são demasiado semelhantes, tornando-se por vezes difíceis de distingir, e ao vivo não sofrem grandes alterações face ao que se ouve nos discos; por outro, a postura demasiado estática da dupla e o minimalismo cénico não proporcionaram muitas surpresas.

Tó Trips dirigiu-se várias vezes ao público, com algum sentido de humor, em breves comentários que foram apresentando os temas, e em alguns momentos a dupla tornou-se num trio pela contribuição de Ana Araújo no piano, mas só isso não serviu para conceder especiais mais-valias a um concerto que no seus piores episódios foi sonolento e nos melhores apenas correcto, apesar da demonstração de técnica e das por vezes intrigantes paisagens sugeridas.

E O VEREDICTO É:
2/5 - RAZOÁVEL



Dead Combo - "Cacto"

segunda-feira, junho 04, 2007

LIXO ACUMULADO

Adiado ao longo de vários meses, "Absolute Garbage", o Best Of dos Garbage, deverá ser editado em Julho, e além de um CD com os singles óbvios haverá edições especiais acompanhadas com remisturas (algumas bem recomendáveis, como as dos Massive Attack ou Fun Lovin' Criminals) e um DVD com quase todos os videoclips da banda.
Que é como quem diz, que tão cedo não deveremos ouvir falar de novos álbuns, sobretudo agora que Shirley Manson se prepara para gravar o seu primeiro a solo. Até é capaz de ser o melhor a fazer, já que a julgar pelo inédito que a compilação inclui os novos caminhos do grupo também não seriam muito interessantes (nada que o quarto disco, "Bleed Like Me", não tenha denunciado, ficando muito abaixo da excelência de um "Version 2.0").
Bem pensado seria editar o tal disco de lados-B que anda a ser prometido há anos, todos muito mais entusiasmantes do que este novo - e tépido - "Tell Me Where It Hurts". É bom ver que a Shirley continua bonita, mas dá pena vê-la desperdiçar a voz e a presença numa canção destas:




Garbage - "Tell Me Where It Hurts"

domingo, junho 03, 2007

CSI SÃO FRANCISCO

Cinco anos depois de "Sala de Pânico", David Fincher regressa finalmente com "Zodiac", o muito aguardado thriller baseado no caso verídico do serial killer que atormentou São Francisco durante as décadas de 60 e 70. Recuperando a matriz de "Se7en - Sete Pecados Mortais", a obra que inscreveu o realizador entre os nomes fulcrais do cinema dos anos 90 e funcionou como template para muitos imitadores, "Zodiac" é no entanto um filme bem distinto deste e mesmo um trabalho atípico dentro da filmografia do cineasta.

Longe da tensão e paranóia fim-de-milénio dos superlativos "O Jogo" ou "Clube de Combate", esta é uma película que revela menor ousadia formal, não sendo um exercício de ruptura mas antes uma obra que se suporta nos cânones do policial sem contudo deixar de evidenciar a mestria que distingue um cineasta rigoroso de um mero tarefeiro.

A marca de Fincher continua presente, pois mesmo sem grandes tentativas de desconstrução "Zodiac" é uma experiência cinematográfica densa e consistente. Desta vez, o argumento surpreende não pelo facto de oferecer reviravoltas mirabolantes ou assentar numa narrativa que descoordena o espectador, mas antes pelo facto de apostar numa linearidade que não deve, contudo, ser confundida com ligeireza ou convencionalismo, já que o realizador mostra, talvez como nunca antes, um olhar minucioso sobre a realidade que retrata, naquele que é o seu filme mais cerebral.
Essa sobriedade manifesta-se também na componente visual, distante do grotesco sofisticado de alguns momentos de "Se7en - Sete Pecados Mortais" ou da energia cinética hi-tech de "Clube de Combate" e "Sala de Pânico". A vertente experimental do cinema de Fincher - que, recorde-se, tem um passado ligado à publicidade e videoclips - volta contudo a demarcar-se através do recurso à câmara digital Thomson Viper, que potencia um absorvente jogo de luz e sombra nas cenas nocturnas, por vezes aproximando-se das paisagens de outro esteta norte-americano, Michael Mann, e nesse campeonato "Zodiac" nada fica a dever a "Colateral" ou "Miami Vice".

O cineasta afirmou que pretendeu manter-se o mais próximo possível da forma como as investigações dos assassinatos decorreram, seguindo de perto os dois livros de um dos investigadores, o cartoonista Robert Graysmith, e isso é palpável ao longo do filme. O espectador é assim poupado a cenas onde a sua suspension of desbelief é ameaçada, já que as sucessões da acontecimentos são quase sempre plausíveis e factuais, e o realizador nunca lhe tira o tapete debaixo dos pés, ao contrário do que ocorre na maioria dos títulos da sua filmografia.
Este aspecto talvez ajude a explicar o relativo falhanço da película nas bilheteiras norte-americanas, uma vez que "Zodiac" é um policial pausado e meticuloso, onde a intensidade não provém de dinâmicas sequências de perseguições ou tiroteios nem de um banal exercício whodunit mas do estado obsessivo que se vai ocupando progressivamente dos seus protagonistas.

Num thriller de actores e não de efeitos, a escolha do elenco é essencial e neste caso revela-se certeira. Jake Gyllenhaal, na pele de um cartoonista obstinado em descobrir - e provar - a identidade do serial killer, não se afasta muito do tipo de papéis pelos quais se celebrizou, o que não é um problema já que volta a aliar sensibilidade, espontaneidade e discrição, e tem ainda a vantagem da sua personagem ser a mais desenvolvida. Mark Ruffalo é também credível como detective de homicídios, ainda que o filme não lhe dê o devido espaço para atingir voos mais altos, mas quem mais convence é Robert Downey Jr, actor que a cada desempenho demonstra uma notável capacidade camaleónica e aqui repete o feito, encarnando com presença e carisma um memorável jornalista criminal.
Chloë Sevigny ou Brian Cox complementam uma sólida direcção de actores, e embora nenhum dos nomes do elenco desiluda, fica a sensação de que alguns são subaproveitados devido a um argumento que, apesar de interessante, não mergulha tanto no âmago das personagens como seria desejável.
Se a crise pessoal, familiar e profissional do cartoonista Graysmith é eficazmente trabalhada, os abismos emocionais dos outros dois protagonistas são alvo de uma abordagem algo superficial, já que o filme concede maior enfoque aos pormenores técnicos da investigação e à personagem de Gyllenhaal. Será por aqui que, não obstante as qualidades enunciadas, "Zodiac" mais falha, nunca atingindo um peso dramático que o torne no grande filme que se sabe que Fincher é capaz de fazer.

Este intrincado thriller fica, assim, uns furos abaixo de obra-primas como "Clube de Combate" mas é ainda uma proposta irrecusável, sobretudo para os apreciadores de policiais sérios e inteligentes. Mesmo com um desenlace anti-climático (atípico nas obras do realizador), encontram-se aqui duas horas e meia de suspense nada despiciendo de onde sobressai uma carga visual hipnótica - a estupenda fotografia de Harris Savides ajuda - e uma soberba reconstituição de época (ou épocas, já que a acção decorre ao longo de várias décadas mas é a de 70 que adquire maior protagonismo).
Não sendo genial, "Zodiac" é uma prova de maturidade e deixa ainda várias cenas de antologia - como a inquietante sequência inicial ao som de "Hurdy Gurdy Man", de Donovan -, motivos mais do que suficientes para saudar o regresso de um dos cineastas mais estimulantes dos últimos anos, capaz de retratar o caos urbano como poucos.


E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM

sexta-feira, junho 01, 2007

SISTEMA ENTRÓPICO

Enquanto responsável pela editora DFA, James Murphy tornou-se num dos timoneiros na disseminação da amálgama punk, funk, electro e disco que tem dominado alguma da música mais entusiasmante da década, diluíndo as fronteiras entre o rock e a música de dança com resultados por vezes infecciosos. No primeiro álbum dos LCD Soundsystem, Murphy assinalou um testemunho emblemático e deixou para a posteridade singles de inegável eficácia como "Yeah" ou "Tribulations", que quase compensavam o nível irregular das composições desse díptico algo sobrevalorizado.

"Sound of Silver", nova proposta após "45:33", um curioso disco para a Nike com música para jogging, alarga o espectro de influências que já se evidenciavam no registo de estreia, e se é verdade que Murphy é oportuno nas citações mais ou menos óbvias e oferece por vezes momentos criativos, no geral este é ainda um álbum desequilibrado, com mais ambição do que sucesso nos resultados alcançados.

"Get Innocuous!", o primeiro tema, é paradigmático dos problemas do disco. O início é intrigante, com sintetizadores pilhados dos Kraftwerk ao serviço de uma cadência minimalista e repetitiva, mas cativante, que infelizmente é mal aproveitada ao longo de mais de sete minutos que se tornam monocórdicos e cansativos. "Time to Get Away", com uma estrutura não muito diferente, também acusa algum cansaço, ainda que tenha a vantagem de durar menos tempo, e por isso só à terceira canção é que os resultados começam de facto a entusiasmar.
Single simultaneamente abrasivo e trauteável, "North American Scum" é uma injecção de energia rítmica que, ao contrário da maioria das canções do álbum, se mantém do princípio ao fim e promete causar estragos numa pista de dança que se adivinhará concorrida.

Ainda mais surpreendente é a canção seguinte, "Someone Great", de longe a melhor de "Sound of Silver" e imprescindível entre as mais cativantes de 2007, que revela um lado dos LCD Soundsystem, contido e frágil, até então inexplorado. Metade canção de embalar, metade exercício dançável embora longe de pujante, é o ponto em que o projecto mais se aproxima de uma balada - até tem direito ao brilho dos xilofones - e o resultado é belíssimo. Infelizmente, este oásis de inspiração não tem continuidade no resto do disco, já que "All My Friends" volta a insistir numa repetição rítmica abusiva, desta vez via piano, e a tendência prossegue em "Us v Them" e no tema-título.

O tema final recupera algum do interesse perdido, através de uma inesperada mudança de azimutes onde Murphy se candidata a sósia de Lou Reed - depois das muitas vénias a David Byrne - em "New York, I Love You But You're Bringing Me Down", carta de amor e ódio (ou, pelo menos, desencanto) à Big Apple com uns LCD Soundsystem atipicamente acústicos. É pena que, apesar de ocasionais pistas interessantes como esta e de uma curiosa fusão de heranças - de David Bowie a Human League, passando pelos Talking Heads -, "Sound of Silver" seja um trabalho desigual e quase sempre frustrante. Um disco competente, mas cansativo.


E O VEREDICTO É:
2,5/5 - RAZOÁVEL




LCD Soundsystem - "North American Scum"

8 BLOGUES, 5 FILMES, 1 REALIZADOR

Mais um mês a acabar, mais uma tabela dos bloggers habituais a chegar via Knoxville. Desta vez, o realizador do mês foi David Fincher, cujo recente "Zodiac" estreou há duas semanas, e não poderia concordar mais com os dois títulos escolhidos.