sexta-feira, março 09, 2007

O FABULOSO CONCERTO DE TIERSEN

Para muitos, Yann Tiersen será sempre obrigatoriamente associado aos filmes "Adeus, Lenine!" e, sobretudo, "O Fabuloso Destino de Amélie", uma vez que as bandas-sonoras que compôs para ambos foram os trabalhos que mais o aproximaram do grande público. É, no entanto, injusto reduzir o artista a esses dois registos, não só porque o músico francês tinha já uma considerável - e sólida - discografia antes dessas colaborações, mas também porque os territórios sonoros que explora são bem mais diversificados do que os que abordou aí.
Esse eclectismo foi evidente no concerto de quarta-feira na Aula Magna, em Lisboa, esgotado há dias e que levou a que Tiersen e a banda de suporte fossem recebidos por uma sala cheia, preenchida por um público de várias faixas etárias.

Com um alinhamento maioritariamente dominado por temas instrumentais - embora o músico tenha cantado em francês e inglês a espaços -, o espectáculo proporcionou uma equilibrada alternância de atmosferas, percorrendo muitas facetas já expostas nos discos. Desta vez, o álbum em destaque foi "On Tour", registo ao vivo que contamina canções já conhecidas com arranjos diferentes, mais apropriados ao palco. E foi isso que se verificou ao longo da noite, uma sucessão de temas - uns mais emblemáticos do que outros - interpretados num formato que procurou fugir ao óbvio.

Felizmente, essa postura experimental revelou-se quase sempre frutífera, o que não foi muito inesperado tendo em conta a mestria pela qual Tiersen já se destacou nos seus concertos. Contrastando cenários de cativante placidez com outros de dinamismo abrasivo, a noite registou um entusiasmante melting pot que interligou os múltiplos universos pisados pelo músico, desde os esperados domínios parisienses, que lhe trouxeram maior mediatismo, passando por incursões pelo indie rock, música clássica, devaneios noise e pontuais aproximações medievais.
Para além da mistura de géneros, o cardápio musical foi igualmente rico a nível instrumental, dando espaço a autênticos vendavais de guitarras distorcidas e espirais de violinos em fúria, não esquecendo a contribuição menos recorrente da bateria, do baixo, da já habitual caixinha de música ou do acordeão (este usado apenas num tema, "Le Banquet", o que terá defraudado as expectativas de muitos que procuravam ali revisitar Amélie).

O cuidado trabalho de iluminação ajudou a reforçar as paisagens distintas de cada canção, apostando em tons ora discretos ora efervescentes, mas sempre elegantes, cruzando tonalidades várias e implementando uma cenografia envolvente, dotada de uma carga quase cinematográfica. Ao longo de duas horas, Tiersen ofereceu um espectáculo surpreendente e desafiante, ainda que nem sempre acessível - alguns momentos sobrepuseram a visceralidade à melodia e outros prolongaram-se excessivamente -, que lhe permitiu confirmar-se - para quem ainda duvidasse - enquanto músico idiossincrático e muito interessante.

Não admira, por isso, que grande parte do público tenha reagido de de forma tão intensa, com ruidosos aplausos que encorajaram os músicos a regressar a palco para dois encores. Pouco importa que Yann Tiersen tenha encetado apenas duas ou três brevíssimas declarações aos espectadores - quase sempre para agradecer -; as palavras que lhes dirigiu pareceram espontâneas, à semelhança de um concerto que não será esquecido tão cedo.

E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM


Yann Tiersen - "Le Banquet" (ao vivo na Aula Magna)

quinta-feira, março 08, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "BRAVA DANÇA"

Documentário sobre um dos mais marcantes grupos da pop cantada em português, "Brava Dança" viaja até ao início da década de 80 para revelar as origens dos Heróis do Mar. Com base em testemunhos dos artistas e de outras personalidades ou imagens de arquivo, José Francisco Pinheiro e Jorge Pereirinha Pires propõem um olhar centrado na banda mas que é também ponto de partida para reflectir acerca a música nacional dos últimos anos. A ver e ouvir.

Outras estreias:

"A Maldição da Flor Dourada", de Zhang Yimou
"Ghost Rider", de Mark Steven Johnson
"O Bom Alemão", de Steven Soderbergh
"O Mundo Encantado de Beatrix Potter", de Chris Noonan
"Pulse - A Última Dimensão", de Jim Sonzero


Trailer de "Brava Dança"

terça-feira, março 06, 2007

FIM-DE-SEMANA (POUCO) ALUCINANTE

Quando, há dois anos, emergiu uma nova geração de bandas com claras reminiscências do pós-punk, os Bloc Party provaram, com o seu primeiro álbum, "Silent Alarm", ser uma das mais promissoras e atípicas. Não negando óbvias influências - Gang of Four, The Cure -, o quarteto londrino também não se limitou a replicá-las, assinando uma estreia já com claros sinais de personalidade.

"A Weekend in the City", o segundo longa-duração, marca agora o regresso, que poderá frustrar as expectativas de quem conhece o grupo por singles de descarga como "Banquet" ou "Helicopter", tendo o primeiro exposto os Bloc Party a um público relativamente vasto devido a uma popular campanha publicitária.
Longe de ser um "Silent Alarm: Parte II", o novo disco aposta em domínios mais apaziguados do que os do registo antecessor, sendo escassos os momentos de euforia dançável e demais manobras de agitação sonora. Se os primeiros temas exibem ainda uma considerável pulsão, sendo quase continuações directas do primeiro álbum, o alinhamento torna-se progressivamente menos dinâmico, salvo ocasionais erupções de energia em alguns refrões.

Se muitas canções de "Silent Alarm" apelavam à pista de dança (tendência ainda mais evidente no sólido disco de remisturas "Silent Alarm Remixed"), "A Weekend in the City" presta-se mais a audições caseiras ou, porque não, a viagens de carro nocturnas - seguindo a sugestão da óptima capa -, em fase de descompressão após uma noite animada. À partida, contudo, torna-se duvidoso saber se a mudança foi positiva, já que estas novas composições são tendencialmente mais convencionais do que experimentais, situação que, de resto, as canções menos frenéticas do disco anterior já acusavam.

Por vezes o grupo ensaia episódios mais ousados, como em "The Prayer", que Kele Okereke inicia com um incomum registo vocal, rodeado por uma aura negra de percussões hipnóticas e coros sorumbáticos, que sugere a influência fusionista de uns TV on the Radio. Contudo, os condimentos sonoros de grande parte do restante álbum são menos aliciantes e aproximam a banda da formatação de uns U2, Snow Patrol - nomes com quem Jacknife Lee, o produtor, já colaborou - ou Coldplay, proporcionando canções mais polidas e lineares.

No entanto, se os Bloc Party são aqui menos aventureiros musicalmente, aprimoram - e muito - a escrita, ainda que neste caso o mérito seja do vocalista, autor das letras. O título do álbum é desde logo emblemático, uma vez que "A Weekend in the City" propõe uma viagem por Londres e, no caminho, oferece um olhar sobre a juventude urbana do novo milénio, que Okereke caracteriza de forma sensível e honesta, ainda que não escape a alguns clichés (como no demasiado óbvio "Uniform", que quase escorrega para um vulgar hino emo).

Os retratos são sentidos e tanto investem na desolação da era da abundância (em "Song For Clay (Disappear Here)", inspirado no livro "Menos que Zero", de Bret Eston Ellis), na abordagem das drogas - sem moralismos nem excessos de irreverência - ("0n"), no racismo ("Where is Home?") ou no terrorismo e consequente alarmismo ("Hunting for Witches").

As melhores reflexões são, todavia, as mais intimistas, tanto na nostálgica "Waiting For The 7.18", que conta ainda com um dos refrões mais emotivos, como na trilogia da recta final do disco, que Okereke dedica às relações amorosas, desde amargurados one night stands ("Kreuzberg"), paixões adolescentes por consumar ("I Still Remember") ou no mais esperançoso "Sunday", porventura a mais bela descrição de um domingo pós-ressaca vivido a dois.

"A Weekend in the City" resulta assim num disco desigual, pois se as melodias e estruturas que se sucedem de tema para tema são demasiado homogéneas, as canções conseguem distinguir-se facilmente se se der às letras a atenção que estas merecem. Os Bloc Party perderam então em frescura o que ganharam em densidade, e neste caso isso está longe de ser mau, só é pena que também não seja tão bom como se esperaria, tendo em conta a banda em causa.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM


Bloc Party - "I Still Remember"

domingo, março 04, 2007

A ESCOLA DA VIDA

Um professor e uma aluna. Ele, Dan, um dedicado mas algo controverso docente de um liceu de Brooklyn que encontra na sua profissão o único ponto de equilíbrio e motivação; ela, Drey, uma estudante de uma das suas turmas, que apesar de ainda estar a entrar na adolescência já sofreu a dor de um pai ausente e de um irmão preso por tráfico de droga. Entre os dois começa a consolidar-se uma afinidade gerada pela partilha de um segredo - ela encontra-o a inalar droga numa das casas-de-banho da escola - e esta atípica ligação vem tirar algum espaço à solidão e desorientação que marca o dia-a-dia de ambos.

A partir desta premissa simples, mas muito bem aproveitada, "Half Nelson - Encurralados" oferece um complexo e absorvente estudo de personagens ancorado em dois desempenhos notáveis, que catapultam os protagonistas para a lista de actores a ter em conta: Shareeka Epps, uma jovem revelação que surpreende pela expressão de serenidade magoada, e sobretudo Ryan Gosling, actor que já tinha dado provas de talento em títulos como "Crimes Calculados" ou "Stay" mas que oferece aqui uma interpretação quase inexcedível.
Na pele de um homem cujo idealismo é cada vez mais um refúgio de curta duração, Gosling emana raiva, entusiasmo, desencanto, esperança e frustração ao longo de um quotidiano que lhe proporciona escassos pontos de fuga. O mais recorrente acaba por ser a cocaína, da qual se torna indissociável e cuja dependência começa a ameaçar a sua conduta como professor.

Aproximando-se da espontaneidade e vibração de um Edward Norton mais jovem, Gosling é sem dúvida o grande trunfo de "Half Nelson - Encurralados", tendo sido justamente nomeado para o Óscar de Melhor Actor Principal por este desempenho.

Felizmente, o filme tem ainda outras mais-valias, não se esgotando num one man show mas conseguindo enveredar por caminhos ardilosos sem nunca escorregar para um tentador moralismo, cenas de choque gratuito ou um choradinho auto-indulgente assente no triste fado do junkie. Aqui, reconheça-se o mérito de Ryan Fleck, realizador (estreante) e co-argumentista que conduz a sua obra com mão segura e consegue injectar-lhe uma contínua densidade emocional, criando um retrato sóbrio, inteligente e comovente de um jovem adulto incapaz de reestruturar a sua vida mas que tenta, ainda assim, impedir que a sua aluna caia na mesma espiral.

Fleck apresenta uma palpável atmosfera urbana com um acentuado recorte realista, apoiando-se num sólido trabalho de realização, numa outonal fotografia de tons turvos e na escolha de uma determinante (e viciante) banda-sonora, servida pelos Broken Social Scene. Nada mal para uma primeira obra de baixo orçamento, uma das mais estimulantes do cinema independente norte-americano dos últimos tempos e que, por isso mesmo, não merece ficar perdida no meio dos muitos títulos que vão estreando.

E O VEREDICTO É:
4/5 - MUITO BOM


Broken Social Scene - "Stars and Sons"

sábado, março 03, 2007

UM ADMIRÁVEL MUNDO NOVO DE ESCAPISMO

Terceiro romance de Michael Chabon, "As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" (The Amazing Adventures of Kavalier & Clay) foi o que proporcionou ao escritor norte-americano ganhar o Pulitzer em 2001 na categoria de ficção, cimentando a boa reputação iniciada em "The Mysteries of Pittsburgh" (1988) e continuada em "Prodígios" (Wonder Boys, de 1995), este último adaptado para cinema por Curtis Hanson.

O livro alicerça-se na relação de amizade de dois primos que partilham a paixão pela banda-desenhada e acabam por se tornar numa das principais duplas criativas do género, durante os anos 40. Sam Clay, adolescente residente em Brooklyn, Nova Iorque, recebe uma noite a visita inesperada do seu primo checo que desconhecia, Joe Kavalier, cuja ascendência judia o obrigou a fugir de Praga, controlada pelas tropas nazis durante o início da Segunda Guerra Mundial. Se o primeiro teve até então uma vida pacata na companhia da sua mãe e, esporadicamente, do pai, o segundo foi o único elemento da sua família nuclear que conseguiu emigrar, após uma série de episódios arriscados, mas tem ainda a esperança de conseguir trazer para os Estados Unidos, pelo menos, o seu irmão mais novo.

Apesar de personalidades e vivências díspares, os dois jovens rapidamente travam uma amizade que os interligará durante anos, em parte motivada pela paixão que nutrem pela nona arte e pela parceria profissional que esse gosto comum os leva a gerar. Sam toma a seu cargo os argumentos, Joe ocupa-se do desenho e essa simbiose permite-lhes criar uma série de personagens mediáticas, a maior delas O Escapista, um dos muitos super-heróis que surgiram depois do sucesso de vendas do Super-Homem.

Através do percurso e crescimento dos seus dois protagonistas, "As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" traça uma envolvente perspectiva sobre as contrariedades do american dream, centrando-se na evolução da cultura popular das últimas décadas, com especial incidência nos comics e no papel que os seus heróis adquiriram durante o Holocausto.
Genuína e cativante ode à capacidade de evasão que esta amálgama de artes gráficas e literárias proporcionou durante a Era Dourada, proporciona uma interessante análise às singularidades deste meio e ao contexto do seu surgimento.

Chabon impressiona pela riqueza histórica palpável ao longo do livro, fruto de uma longa pesquisa onde contactou com muitos argumentistas e artistas que iniciaram as suas carreiras na época, casos de Will Eisner (autor de "Spirit") ou Stan Lee (talvez o mais emblemático criador da Marvel Comics), entre muitos outros.
O escritor baseou-se nestes relatos para desenvolver a história de Joe e Sam, em especial os momentos que se referem aos bastidores editoriais, alguns dos que emanam maior verosimilhança ao longo da acção. Paralelamente, evoca outras figuras reais como Fredric Wertham, o psicólogo cujo livro "Seduction of the Innocent" desencadeou uma caça às bruxas que quase conduziu ao fim dos comics - devido, sobretudo, às supostas conotações sexuais que estes continham, por exemplo na relação "ambígua" entre Batman e Robin - ou Orson Welles, cujo trabalho na realização ajudou a redifinir os cânones da estrutura das pranchas.

No entanto, o livro não se esgota na exploração da natureza da banda-desenhada e oferece um olhar sobre a realidade americana - particularmente a nova-iorquina - da década de 40, focando ainda questões como o tratamento dos judeus, o núcleo familiar ou a homossexualidade, elementos que, com maior ou menor incidência, entrecruzam o caminho dos dois protagonistas.

Michael Chabon com as 'action figures' de Batman, Lanterna Verde e Super-Homem

Chabon nem sempre consegue equilibrar a gestão de tamanha diversidade ao longo das mais de 600 páginas, pois por vezes a acção torna-se demasiado dispersa e há capítulos que se prolongam para além do necessário (como o de Joe na Antárctida). O espaço dado a cada um dos protagonistas também é desequilibrado, uma vez que Sam é uma personagem menos presente do que Joe, embora talvez mais interessante devido aos conflitos com a sua sexualidade, à forma ambivalente com que encara a BD ou à solidão de que não parece conseguir escapar.

"As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" pode nem sempre conseguir despertar o mesmo entusiasmo, mas nunca se torna previsível ou banal e é resultado de uma evidente paixão do escritor pelas personagens e dedicação aos temas focados. Apresentando uma sólida densidade dramática e uma imaginativa mistura de realismo e fantasia através de uma escrita acessível, embora exigente, é um livro especialmente recomendável a amantes da nona arte mas não deixa de possuir atributos capazes de seduzir um público mais abrangente.

Chabon viria a alargar a sua proximidade com os comics ao assinar o argumento de "Homem-Aranha 2", de Sam Raimi, não por acaso um dos poucos filmes de super-heróis dos últimos anos que funciona plenamente enquanto delicioso e irresistível escapismo. Resta esperar que semelhante impacto se registe caso "As Espantosas Aventuras de Kavalier & Clay" chegue a ser adaptado para cinema - com realização a cargo de Stephen Daldry ("Billy Elliot", "As Horas") -, mas mesmo que tal não aconteça, a (re)descoberta do livro será sempre uma hipótese bastante recomendável.


E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, março 01, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "O LABIRINTO DO FAUNO"

Estreia esta semana o muito elogiado "O Labirinto do Fauno" (El Laberinto del Fauno), nomeado para seis Óscares e vencedor de três (Melhor Direcção Artística, Melhor Fotografia e Melhor Caracterização). Depois de títulos como "Blade 2" ou "Hellboy", Guillermo del Toro apresenta aqui o filme que muitos consideram ser já a sua obra-prima, e há mesmo quem diga que é o melhor conto de fadas para adultos desde "Eduardo Mãos de Tesoura", de Tim Burton. Questões a esclarecer a partir de hoje.

Outras estreias:

"Dreamgirls", de Bill Condon
"Diário de um Escândalo", de Richard Eyre


Trailer de "O Labirinto do Fauno"

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

7 BLOGUES, 6 ESTREIAS, 5 ESTRELAS

A tabela dos suspeitos do costume relativa as estreias de Fevereiro, mais uma vez servida pelo Knoxville.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

SCORSESE ENTRE AMIGOS

Foi a edição dos Óscares com algumas das melhores nomeações dos últimos tempos e, diz quem viu, uma das mais convincentes enquanto espectáculo. Ao contrário de há uns anos, desta vez Marty brilhou e Clint foi quase esquecido, e embora ambos concorressem com bons filmes também prefiro o vencedor "The Departed: Entre Inimigos". Ainda que o Óscar de Melhor Filme e Realizador se devam mais à carreira de Scorsese do que ao filme em si, antes premiar este do que obras menores como "Gangs de Nova Iorque" e "O Aviador", ou voltar a incensar Eastwood (para isso já bastou "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos").

Coppola, Spielberg e Lucas festejam a vitória de Scorsese

O hype de "Babel" não teve reflexo nas premiações e deu à obra de Iñárritu apenas uma estatueta - para a banda-sonora de Gustavo Santaolalla -, e se o filme não é o melhor do mexicano convence, pelo menos, pela realização e montagem. A "rainha" foi mesmo Helen Mirren, que não desmerece, mas Penélope Cruz e Kate Winslet talvez merecessem mais. Forest Whitaker não deixou que fosse desta que DiCaprio levasse um Óscar para casa (e, já agora, nem Ryan Goslin, que passou praticamente despercebido apesar de um excelente desempenho em "Half Nelson - Encurralados").
"Happy Feet" venceu na animação, e ainda bem, mas se "Uma Verdade Inconveniente" é de facto o melhor documentário então o género não teve a frescura que registou em anos anteriores (não vi os outros nomeados). O feelgood movie indie "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" lá conquistou o argumento original e o actor secundário e de resto fiquei ainda mais curioso quanto a "O Labirinto do Fauno". Já "Dreamgirls" não me parece muito mais interessante do que um "Chicago", mas ao contrário deste não monopolizou a noite. Da canção vencedora, como de costume, quanto menos se falar - e ouvir-, melhor.

domingo, fevereiro 25, 2007

FEBRE (E FUNK) DE SÁBADO À NOITE

Embora já tivessem passado por palcos portugueses mais de uma vez, os londrinos Spektrum ainda não o haviam feito depois do lançamento do seu segundo álbum, "Fun at the Gymkhana Club", editado no final do ano passado. A estreia ao vivo do novo disco deu-se na noite de sábado no MusicBox, em Lisboa, espaço que tem recebido alguns nomes da música urbana de dentro e fora de portas.

O quarteto, que em palco se apresentou como trio, uma vez que o teclista esteve ausente, gerou já algum culto por cá, como o confirmou considerável adesão de público ao concerto, que encheu o espaço muito antes da banda entrar em palco. A entrada, à semelhança de outros momentos do espectáculo, foi efusiva, ao som dos dinâmicos "May Day" e "Horny Pony", curiosamente os dois primeiros temas do novo álbum. Propostas que evidenciam bem a receita sonora dos Spektrum, um híbrido imprevisível de funk, pop, electro e soul servido com um ritmo hipnótico, mescla por vezes difícil de assimilar mas dominada por uma vibração desconcertante.

Em disco, as propostas do grupo nem sempre entusiasmam, já ao vivo o contágio sonoro mostra-se mais eficaz e a espaços mesmo fulminante e irresistível, a que não é alheio o carisma da vocalista Lola Olafisoye, cuja postura ora austera ora insinuante toma as rédeas do espectáculo e incita a que o público reproduza a sua pose irriquieta. As suas vocalizações, temperadas por tons oscilantes e desregrados, geram uma aura excêntrica e em certos momentos quase mística, que associada à electrónica minimal e à cadência intrigante da bateria dota a música dos Spektrum de uma bizarra energia.

Apesar deste carácter singular da banda, o concerto foi algo desequilibrado, pois se as canções combinam múltiplas referências não deixam de acusar uma certa repetição de ideias - que se comprova mesmo no segundo álbum, que pouco ou nada corta em relação ao primeiro -, e por vezes prolongam-se para além do necessário, sugerindo alguma redundância.

No entanto, quando o grupo acertou, não deu tréguas a ninguém, como o comprovaram ocasionais episódios de explosão rítmica visíveis em "Don't Be Shy", um dos singles de "Fun at the Gymkhana Club", e principalmente em "Kinda New", uma das recuperações do disco de estreia, "Enter the... Spektrum", que gerou o maior acesso dançável entre a audiência e acendeu o rastilho para uma experiência sensorial imbatível. Também "Freefall", outra canção do primeiro álbum, causou estragos no muito aplaudido encore, infelizmente a última de um concerto que, embora eficaz e convincente, foi demasiado curto, não atingindo sequer uma hora de duração.
Mesmo assim, a julgar pelas reacções da maioria dos presentes ao longo do concerto, terão sido poucos ou nenhuns os que deram o seu tempo por perdido, o que leva a crer que os Spektrum continuarão a ter casa cheia da próxima vez que voltarem a palcos nacionais.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

Spektrum - "Don't Be Shy"

sábado, fevereiro 24, 2007

SPACE CAKE IS A FAKE

Visita-relâmpago à capital holandesa, onde ainda deu para estar duas tardes às voltas entre as ruas e os canais. O tráfego de bicicletas é ainda maior do que pensava, o que praticamente só traz vantagens - económicas, ambientais, na circulação pela cidade -, embora a própria morfologia de Amesterdão também ajude, uma vez que não tem grandes declives . Sistema de transportes públicos eficiente, tanto de metro como sobretudo de tram (metro de superfície, que vai a quase todo o lado), preços menos exorbitantes do que noutras capitais europeias (os dos CDs e DVDs, então, são de meter inveja, e tirando as novidades são muito mais baratos do que os de cá), e ambiente aparentemente seguro q.b., a julgar pelas bicicletas à disposição na maioria das ruas, muitas sem cadeados. Não convém é fotografar o inevitável Red Light Discrict, sob pena de se ser atirado ao canal por alguns locais mais impacientes, segundo me disseram dois polícias à paisana. A revisitar com mais tempo...

AND THE WINNERS WILL BE...

Em mais uma inciativa organizada pelo Knoxville, alguns bloggers apostaram nos vencedores para os Óscares deste ano, cuja cerimónia decorre amanhã. Não é que leve muito em consideração as escolhas da Academia, mas de qualquer forma aqui fica a previsão.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

COLD CITY?

A confirmar daqui a umas horas...

Coldplay - "Amsterdam"

ESTREIA DA SEMANA: "HALF NELSON - ENCURRALADOS"

Esta semana chega finalmente a Portugal um dos filmes indie mais elogiados dos últimos tempos, e merecidamente. "Half Nelson - Encurralados", de Ryan Fleck, segue a cumplicidade que se forma entre um jovem professor dedicado mas toxicodependente e uma das suas alunas adolescentes que descobre o seu vício acidentalmente.
Proporcionando a Ryan Gosling uma brilhante personagem que o actor compõe com uma interpretação à altura (tornando-o num dos nomeados para os Óscares), o filme é um drama comovente sem cair em artifícios e uma muito auspiciosa primeira obra para o realizador Ryan Fleck. De entre as muitas estreias que têm proliferado nas salas ultimamente, esta será uma das poucas a não deixar passar.

Outras estreias:

"Lições de Condução", de Jeremy Brock
"Livro Negro", de Paul Verhoeven
"O Bom Pastor", de Robert De Niro
"Um Trunfo na Manga", de Joe Carnahan
"Venus", de Roger Michell

Trailer de "Half Nelson - Encurralados"

terça-feira, fevereiro 20, 2007

SONHOS VENCIDOS

Segunda metade do díptico que começou com "As Bandeiras dos Nossos Pais", "Cartas de Iwo Jima" (Letters from Iwo Jima) centra-se na batalha travada entre americanos e japoneses durante a Segunda Guerra Mundial pela disputa de Iwo Jima, ilha do Pacífico, e debruça-se sobre a perpectiva dos soldados nipónicos sobre o conflito.

Ainda mais contido e lacónico do que o título anteriormente estreado, "Cartas de Iwo Jima" baseia-se nas cartas trocadas entre os militares japoneses em missão na ilha e as suas famílias que os esperavam no país-natal, oferecendo um interessante e envolvente testemunho do quotidiano da guerra e do sentimento de perda que já se sentia muito antes do momento da derrota.

Vincado por um heroísmo magoado e desencantado, este é um retrato inevitavelmente trágico das contradições humanas e dos absurdos da guerra, elaborado sem desrespeitar qualquer dos lados do conflito. Um dos momentos mais fortes do filme é mesmo quando alguns dos soldados japoneses se apercebem que partilham, afinal, mais semelhanças do que diferenças com os seus antagonistas, ainda que isso não coloque em causa o sentido da missão de que estão incumbidos.

Assente numa narrativa mais linear do que "As Bandeiras dos Nossos Pais", "Cartas de Iwo Jima" possui, à semelhança deste, uma impressionante energia cromática, com uma fotografia de tons turvos e esbatidos onde predominam camadas de cinzentos, dotando o filme de uma singular dimensão visual.
Também nas sequências de combate há paralelismos, tendo em conta a carga crua e seca com que Eastwood as filma, consolidando um realismo asfixiante que ecoa em toda a película. Fulcral para essa carga realista é a opção pelo idioma japonês, uma decisão arriscada, uma vez que esta se trata de uma obra americana, mas plenamente justificada, tornando a acção ainda mais verosímil.

No entanto, apesar de alguns momentos sublimes, "Cartas de Iwo Jima" não chega a impor-se como a notável experiência cinematográfica que se apregoa em alguns círculos e que certas sequências sugerem. É certo que se trata de um filme rigoroso, complexo e denso, mas também excessivamente longo e cuja acção não é imune a alguma redundância, contendo mesmo cenas desnecessárias e cansativas.
Apoiado num estilo demasiado contemplativo, nem sempre é capaz de gerar a tensão dramática que a história pede e acaba por se tornar arrastado a espaços, ainda que a direcção de actores (em particular Ken Watanabe e Kazunari Ninomiya) e a realização de Eastwood só mereçam elogios. Um título a descobrir, em todo o caso, ainda que longe do clássico a que poderia ascender.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

BLINKS & LINKS (60)

Obrigado aos responsáveis pelos seguintes blogs por me blinkarem: 24 hour party people, A Revolta dos Petroleiros, As Imagens Primeiro, Grito Urbano, "My Asian Movies", Não Me Parece e Phantom Limb.

domingo, fevereiro 18, 2007

OSSOS COM BOA ESTRUTURA

Uma das bandas que revisitou o garage e o punk no início do novo milénio, os nova-iorquinos Yeah Yeah Yeahs entraram para a lista de entusiasmantes promessas com a edição de dois EPs e confirmaram ser uma banda a merecer atenção quando editaram o primeiro longa-duração, "Fever to Tell", em 2003. Directo, rude, tenso e dinâmico, foi um álbum imponente que colocou o trio, e especialmente a carismática vocalista Karen O., como porta-estandartes da geração que colheu influências na revolução sonora de finais dos anos 70 e no indie rock da década de 90.

Três anos depois, "Show Your Bones", o segundo álbum, prova que o grupo não foi apenas um curioso hype momentâneo mas é um projecto sólido e uma aposta segura, evitando repetir a receita do registo de estreia (ao contrário do que ocorreu com os Franz Ferdinand ou The Strokes) mas mantendo elementos suficientes que não desvirtuam a sua personalidade. Uma personalidade ainda em contrução, diga-se, já que ainda é muito evidente a herança de nomes como PJ Harvey, Siouxsie and the Banshees ou Sonic Youth, a que os Yeah Yeah Yeahs foram comparados desde o início. Mas esta é uma banda capaz de superar paralelismos óbvios, e seria injusto não o reconhecer quando "Show Your Bones" apresenta um conjunto de canções tão digno e cativante.

Mais apaziguado e sóbrio do que o seu antecessor, é um disco onde as explosões sonoras são agora a excepção e não a regra, sendo escassos os momentos de descarga de adrenalina que dominavam as composições do trio. Se isso lhes retira algum efeito surpresa e a desconcertante espontaneidade pela qual se distinguiram, permite-lhes explorar outros caminhos vincados por uma maior maturidade e apuro, tanto na sonoridade como nas letras. Também a voz de Karen O. alcança aqui outros voos, não se limitando a um registo reminiscente de outras riot grrrls e conseguindo sugerir um intimismo que já tinha dado bons resultados em ocasionais canções de "Fever to Tell", como a emblemática e sensível "Maps".

É precisamente nos momentos contidos e contemplativos que o álbum mais brilha, casos de "Dudley", uma deliciosa quase-balada, da arrepiante e amargurada "The Sweets", da não menos intensa "Warrior", onde Karen O. faz lembrar uma Courtney Love de outros tempos mais inspirados, e sobretudo de "Cheated Hearts", o tema de eleição do disco, pequeno milagre em forma de música e uma das grandes canções de 2006.

O "problema" de "Show Your Bones" é não manter sempre este nível, pois embora não tenha nenhum tema que envergonhe os seus autores também não são todos os que mantêm a fasquia tão alta. Nada que impeça a banda de superar, com distinção, o desafio do segundo álbum, algo que nos dias de hoje nem sempre é fácil de concretizar (vejam-se os exemplos dos Bloc Party ou The Killers). Se souberem evoluir como o têm feito até aqui, vale a pena esperar que os Yeah Yeah Yeahs continuem a mostrar mais de si.

E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM

Yeah Yeah Yeahs - "Turn Into"

sábado, fevereiro 17, 2007

TV PARA TODOS OS GOSTOS:

22h25: "Roda Livre", de Wes Anderson (AXN)
22h50: "Os Homens do Presidente", de Alan J. Pakula (Hollywood)
23h00: "Tarzan, o Homem Macaco", de W.S. Van Dyke (2:)
23h30: "Má Educação", de Pedro Almodóvar (RTP1)
23h35: "O Príncipe das Trevas", de John Carpenter (FOX)
00h15: "Perigo Íntimo", de Alan J. Pakula (TVI)
00h45: "O Último Metro", de François Truffaut (2:)
01h00: "Ela, Eu e o Outro", de Bobby e Peter Farrelly (SIC)
01h00: "Vida de Solteiro", de Cameron Crowe (Hollywood)


Gael Garcia Bernal em 'Má Educação'

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "CARTAS DE IWO JIMA"

Depois de "As Bandeiras dos Nossos Pais", estreado no mês passado, chega finalmente às salas a outra metade do díptico de Clint Eastwood dedicado a uma das batalhas mais emblemáticas da Segunda Guerra Mundial.
"Cartas de Iwo Jima" (Letters from Iwo Jima) centra-se no dia-a-dia dos soldados japoneses durante o período bélico e volta a exibir uma peculiar aura de desencanto, juntando-se já, à semelhança do título que o complementa, às boas surpresas do início de 2007.

Outras estreias:

"Hannibal - A Origem do Mal", de Peter Webber
"O Regresso", de Asif Kapadia
"O Último Rei da Escócia", de Kevin Macdonald
"Tenacious D - Rock dos Infernos", de Liam Lynch
"Zoom", de Peter Hewitt


Trailer de "Cartas de Iwo Jima"

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

HAPPY VIOLENTINE

O filme é uma experiência engraçada, a canção é do caraças:


Garbage - "#1 Crush"

REQUIEM PARA UM SONHO

Parcialmente inspirada em factos reais, uma vez que se centra no assassinato de Robert F. Kennedy, "Bobby" revela como o dia de 6 de Junho de 1968, data em que ocorreu o crime, foi marcante para algumas das pessoas que, à semelhança do senador, também se encontravam no Hotel Ambassador, em Los Angeles.

Emilio Estevez oferece aqui uma obra que combina traços ficcionais e documentais, pois se as personagens do hotel são fictícias, as aparições de Kennedy são todas reaproveitadas de imagens de arquivo, gerando um misto singular que tem também como força inegável as muitas caras conhecidas de um cast de luxo.

Nomes como Laurence Fishburne, Anthony Hopkins, Helen Hunt, Joshua Jackson, Ashton Kutcher, William H. Macy, Martin Sheen ou Christian Slater, entre outros, aceitaram colaborar no projecto a troco de pequenas quantias, e ao alternar constantemente entre as inúmeras personagens "Bobby" traz à memória alguns trabalhos de Rober Altman. Apostando também nos moldes da narrativa em mosaico, o filme vai interligando as múltiplas figuras presentes no hotel, que em comum têm a expectativa pelas mudanças que a eleição de RFK poderá gerar.

Mais uma película recente de Hollywood a reflectir sobre a América de ontem e de hoje - à semelhança, por exemplo, de "Boa Noite, e Boa Sorte", de George Clooney, ou "As Bandeiras dos Nossos Pais", de Clint Eastwood -, "Bobby" deixa bem claro que se trata de um labour of love, pela forma como o senador concede alguma esperança aos que aguardam a sua visita, prometendo a hipótese de viragem de um contexto conturbado (vincado pelas brumas da Guerra do Vietname).
Se o tom inicial do filme é sóbrio, o desenlace peca pela falta de subtileza, apregoando um apelo pacifista de modo demasiado gritante, embora sincero. E há que reconhecer que esse final, apesar de previsível e um pouco ingénuo, tem um considerável impacto dramático, e sobretudo não deita a perder os bons momentos que o filme apresentou até aí.

É fácil acusar "Bobby" de ter demasiada ambição, desde logo pelo excessivo número de personagens e, principalmente, por deixar a maioria por desenvolver, mas essa diversidade de indivíduos focados também contribui para que Estevez capture aqui um zeitgeist muito específico com uma apreciável eficácia (a rigorosa montagem merece especial destaque).
A presença dos actores não é menos determinante, e há mesmo boas surpresas como uma cena entre as amarguradas Demi Moore (inesperadamente convincente) e Sharon Stone ou as dos jovens Elijah Hood e Lindsay Lohan, que contribuem para que o balanço destes retratos fugazes marque pela positiva, mesmo não sendo alheio a desequilíbrios.

Interessante, mas longe de brilhante, "Bobby" é então uma obra genuína, empenhada e pertinente, que permite adicionar Emilio Estevez ao grupo de realizadores com algo a dizer. Neste caso, pelo menos, vale a pena ouvi-lo.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

domingo, fevereiro 11, 2007

APOCALIPSE NA ARENA

O início foi logo arrebatador, com a violenta descarga de “Mr. Self Destruct”, uma das canções mais emblemáticas de “The Downward Spiral”, para muitos a obra-prima dos Nine Inch Nails e um dos marcos do rock dos anos 90. A banda de Trent Reznor, que se estreou na noite de ontem em palcos portugueses, no Coliseu de Lisboa, era aguardada por uma multidão de fãs que esgotou o recinto no primeiro de três concertos agendados, a maioria privilegiando o preto como cor dominante da indumentária, condizente com o tom apocalíptico do espectáculo.

A explosão de energia cinética das canções do grupo não deixou indiferente a iluminação do palco, que ao fim da terceira, “Terrible Lie”, foi subitamente abaixo. Nada que tenha impedido Reznor de continuar, levando-o a afirmar que este nem seria o primeiro concerto caso não houvesse problemas técnicos e pedindo para que ligassem as luzes da sala, iluminando o público e deixando os músicos envoltos em névoa durante a visceral “March of the Pigs”.

No tema seguinte, “Something I Can Never Have”, já os problemas estavam resolvidos, que segundo o vocalista se deveram ao detector de fumo. Impondo uma serenidade quase sepulcral, em tudo contrastante com a abrasiva atmosfera presente até então, a canção do já longínquo “Pretty Hate Machine” (o influente álbum de estreia do projecto, de 1989) voltou a confirmar-se como uma das mais belas que os Nine Inch Nails já criaram. Foi também um exemplo da versatilidade de Reznor, que tanto convence num registo contido, entregue à placidez do piano, como nos mais frequentes e também magnéticos acessos de fúria descontrolada, com expoente máximo nos espinhosos “Burn” e “Wish”, dominados pela negra vibração das guitarras.

Ecléctico e bem estruturado, o alinhamento percorreu todos os discos da banda sem deixar espaço para qualquer hipótese de descanso ao longo de hora e meia. Os músicos foram imparáveis na sua entrega, e se apenas o mentor trocou algumas (poucas) palavras com a audiência, tal não parece ter impedido os espectadores de aderir à intensidade que emanava do palco, sendo recorrente a agitação na plateia através de muitos aplausos ou da resposta imediata ao irresistível apelo dançável de momentos como “Only” ou “The Hand That Feeds” (as canções de “With Teeth” que melhor resultaram ao vivo).

Com tantos episódios memoráveis, é no mínimo discutível eleger os mais marcantes, embora o dos candeeiros no sorumbático “Eraser”, o crescendo do subtil “La Mer” interligado com o hipnótico “Into the Void” - a par de “No, You Don’t”, as únicas incursões pelo díptico “The Fragile” - e, claro, o inevitável hino “Closer”, estejam entre os de referência obrigatória.
Obrigatória era também a interpretação de “Hurt”, a canção a que mesmo a maior parte dos detractores dos Nine Inch Nails reconhece qualidades, quanto mais não seja pela sentida versão de Johnny Cash. Incitando à presença de isqueiros, que contribuíram para a consolidação de uma aura quase solene, instalou um raro momento de intimismo já na recta final do concerto, que terminou da melhor forma com o clássico “Head Like a Hole”, mais um forte exemplo de comunhão entre banda e público.

Face a tão irrepreensível prova de vitalidade e carisma, lamenta-se apenas que não tenha havido o tão requisitado encore e a escolha da banda responsável pela primeira parte, os The Popo, competentes e esforçados mas pouco entusiasmantes (sobretudo quando havia a hipótese do seu lugar ser ocupado pelos bem mais recomendáveis Ladytron).
De qualquer forma, a espera valeu a pena, e mesmo actuando em Portugal com anos de atraso comprovou-se que os Nine Inch Nails ainda estão longe de ultrapassar o prazo de validade. Que venha então o novo álbum, “Year Zero”, previsto para Abril, e que não demorem tanto tempo a regressar a palcos nacionais.


E O VEREDICTO É:
4/5 - MUITO BOM

Nine Inch Nails - "La Mer/ The Great Below"

sábado, fevereiro 10, 2007

PAIS & FILHOS

O dia-a-dia trivial (ou nem por isso) dos subúrbios tem servido de mote para muitos títulos do cinema independente norte-americano dos últimos anos, originando abordagens ácidas e cruéis ("Felicidade" ou "Conta-me Histórias", de Todd Solondz), desencantadas e melancólicas ("Ghost World - Mundo Fantasma"; de Terry Zwigoff ou "Os Amigos de Dean", de Arie Posin) ou irónicas e corrosivas ("Beleza Americana, de Sam Mendes; ou a série televisiva "Donas de Casa Desesperadas", de Marc Cherry).

"Pecados Íntimos" (Little Children), de Todd Field, lança mais um olhar sobre esse quotidiano onde uma aparente serenidade e um contagioso marasmo envolvem um bairro nos arredores de Boston, explorando as idiossincrasias de alguns dos seus habitantes cuja "normalidade" será mais ilusória do que palpável.
À partida, não estará aqui (e não está) nada que não tenha já sido objecto de atenção noutros (muitos) filmes, mas se Field não desbrava caminhos desconhecidos consegue, e muito bem, apresentar um retrato que escapa quase sempre ao óbvio, moldando personagens de corpo inteiro e não meras caricaturas que compilam excentricidades.

Da infidelidade à pedofilia, do desajustamento à solidão, da dissolução familiar a crises de identidade, "Pecados Íntimos" percorre algumas das zonas mais nebulosas do âmago humano mantendo quase sempre uma surpreendente consistência e maturidade, com uma perspectiva complexa sobre questões que não o são menos.
Field, que adapta o livro de Tom Perrotta, revela sensibilidade e inteligência neste envolvente retrato dos comportamentos de adultos que ainda estão a aprender a lidar com as suas responsabilidades, e não demora muito para que se perceba que "Little Children", o título original do filme, se refere a eles e não aos seus filhos.

Sarah e Brad serão o exemplo mais paradigmático, encetando uma relação adúltera que funciona como um excitante ponto de fuga à rotina letárgica dos seus casamentos, uma oportunidade de inverter o status quo e injectar alguma adrenalina ao ennui existencial que se propaga por todos.

Ela, dona de casa cansada (para não dizer desesperada) de um marido distante, cinzento e viciado em sites de pornografia; ele, daydreamer que vai adiando um exame decisivo para o início da sua vida profissional e entretanto toma conta do filho enquanto a esposa trabalha.
Longe da atmosfera crua e agonizante de um "Perto Demais", de Mike Nichols, ou de "Desencontros", de John Curran, outros títulos recentes por onde passa a infidelidade conjugal, "Pecados Íntimos" une os dois protagonistas pela capacidade de deslumbramento que ainda não perderam, a única via que encontram para escapar a dias entediantes e indiferenciados.

Ainda mais insatisfeito consigo próprio está Ronnie, regressado da prisão por prática de actos obscenos perante crianças e que apenas encontra apoio na mãe. Ao adoptar a casa desta para novo local de residência desencadeia uma onda de pânico no bairro, incitando os ímpetos alarmistas de grande parte dos moradores (com apoteose na excelente cena da piscina).
À semelhança de Michael Cuesta (em "L.I.E. - Sem Saída") ou Nicole Kassell (em "O Condenado"), também Todd Field foge aos lugares-comuns na caracterização da pedofilia, desenhando uma personagem tão ambígua como as restantes e responsável por alguns dos momentos mais inquietantes do filme (vincados por um estranho suspense, a milhas de qualquer tipo de sensacionalismo ou de choque fácil pelo recurso ao abjecto e escabroso).

Percorrendo de forma refrescante cenários já vistos e revistos, "Pecados Íntimos" alterna várias vezes de tom ao longo das suas mais de duas horas mas raramente falha na sua interligação. A narração em off, escolha algo duvidosa nos primeiros minutos, acaba por se justificar com o decorrer da narrativa, e tem mesmo um papel preponderante para que a densa carga dramática do filme seja condimentada com preciosos episódios cómicos, que emergem nos momentos mais inesperados. Field, para além de uma realização sem reparos, mostra-se atento aos comportamentos humanos, mergulhando nas suas contradições sem nunca as julgar, arriscando-se a deixar o espectador desnorteado por se rever tanto em sequências caracterizadas por um raro sentido de observação.

Se a escrita é inspirada, com diálogos vivos e credíveis, as interpretações respiram a mesma espontaneidade. Kate Winslet, justamente nomeada para o Óscar, é mais uma vez brilhante, tornando Sarah numa personagem magnética, e Patrick Wilson adiciona outro desempenho acima da média depois das boas provas dadas em "Hard Candy" ou na série "Anjos na América". Jackie Earle Haley, também nomeado pela Academia, dá a Ronnie uma intrigante ambivalência emocional que vai da fragilidade à obsessão, e Jennifer Connelly alia beleza a sobriedade no papel de mãe e esposa dedicada, mesmo quando traída.

O primeiro grande filme a estrear em 2007, só muito dificilmente "Pecados Íntimos" não será recordado no final do ano como um dos melhores. Drama adulto, sério sem ser sisudo, ousado mas dispensando excessos de irreverência, aperfeiçoa as capacidades que Todd Field evidenciava ocasionalmente no anterior "Vidas Privadas" e que, agora sim, se torna num cineasta a não perder de vista.

E O VEREDICTO É:
4/5 - MUITO BOM

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

VÍDEOS ARTY

Já vai um pouco tarde, mas de qualquer forma aqui fica um post para dar os parabéns ao Artur (AKA Turat Bartoli), um dos elementos do núcleo duro do Cine7, pelo seu 21º aniversário. E como presumo que estas duas canções sejam especiais, cá ficam os vídeos. O primeiro para a festa, o segundo para a ressaca:


New Order - "Crystal" (o tal vídeo que inspirou o nome dos The Killers)



Radiohead - "Like Spinning Plates" (é favor apagar as luzes)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

ZEITGEIST: 09/06/2007

Boas notícias neste ínicio de ano, que está a ser musicalmente promissor a nível de concertos por cá. Depois dos Nine Inch Nais, Bloc Party e Cansei de Ser Sexy, entre outros, terem confirmado a sua presença em palcos portugueses, também os Smashing Pumpkins colocaram Lisboa como local de apresentação do seu novo álbum, "Zeitgeist" (com lançamento previsto para Julho).
A banda de Billy Corgan actua a 9 de Junho no Festival Alive, em Algés, um evento que contará também com os Beastie Boys (em estreia nacional) e Pearl Jam.
Enquanto não chegam, convém ir recordando a discografia do grupo. Pode começar-se por "Adore", my personal favorite:

The Smashing Pumpkins - "Ava Adore"

ESTREIA DA SEMANA: "AS VIDAS DOS OUTROS"

Numa semana de nove (sim, nove!) estreias, por aqui arrisca-se a aposta em "As Vidas dos Outros" (Das Leben der Anderen), do alemão Florian Henckel von Donnersmarck. Decorrido na Alemanha de Leste poucos anos da queda do muro de Berlim, centra-se num agente da polícia secreta alemã e nas suas investigações relativamente ao dia-a-dia de um escritor e da sua esposa.
Alvo de várias distinções em festivais internacionais e um dos nomeados para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, parece ser uma proposta interessante de drama e suspense aliados a uma reflexão sobre a liberdade e a identidade.

Outras estreias:

"10 Dias para Encontrar um Melhor Amigo", de Patrice Leconte
"A Profecia Celestina", de Armand Mastroianni
"A Teia da Carlota", de Gary Winick
"Hollywoodland", de Allen Coulter
"O Grande Silêncio", de Philip Gröning
"Rocky Balboa", de Sylvester Stallone
"Socorro, Conheci os Meus Pais", de Greg Glienna
"Tempos Cruéis", de David Ayer


Trailer de "As Vidas dos Outros"

DOUTOR, PRECISO DE AJUDA

Logo vi que ia dar nisto... "Nip/Tuck", uma das boas séries que finalmente chegou à TV portuguesa em Janeiro, estreou-se na TVI com três episódios na mesma semana. Na seguinte, só já passou um, à quarta-feira, mas compreende-se. Na semana passada, um novo episódio foi emitido à segunda-feira, apesar de na programação do site não haver qualquer aviso; e nesta, embora continuasse previsto para quarta, voltou a ser substituído por um qualquer telefilme manhoso.

Os responsáveis pela TVI têm todo o direito de escolher os programas que entendem - mesmo que grande percentagem sejam novelas a competir na corrida pela estupidificação -, mas custava muito ter um mínimo de respeito pelo espectador que, para além de ter de suportar intervalos megalómanos, nem sequer tem acesso a informações correctas sobre os horários? Enfim, o pior é que casos destes parecem ser mesmo a regra.
A propósito, alguém tem os números do doutor Sean e do doutor Christian? É que a TVI bem está a precisar de um facelift....

terça-feira, fevereiro 06, 2007

O FIEL PESCADOR (E O MERCENÁRIO OPORTUNISTA)

De "O Fiel Jardineiro", de Fernando Meirelles, a "Hotel Ruanda", de Terry George, passando por "Shooting Dogs - Testemunhos de Sangue", de Michael Caton-Jones ou "A Intérprete", Sidney Pollack, têm surgido, nos últimos tempos, vários filmes que se debruçam sobre questões problemáticas do continente africano.
"Diamante de Sangue" (Blood Diamond) é o mais recente e desenrola-se nos bastidores do tráfico de diamantes, em particular durante a guerra civil na Serra Leoa, em 1999.
A acção segue o percurso de um pescador, cuja aldeia foi invadida por rebeldes e que tenta reencontrar a sua família, e de um mercenário, que o ajuda nessa busca em troca do seu novo companheiro de viagem lhe revelar onde escondeu uma pedra preciosa que descobriu quando trabalhava como escravo.

Edward Zwick realiza um filme de óbvia vertente humanista, denunciando os jogos de poder praticados pelos governantes de alguns países africanos, assim como a forma estratégica como recorrem à comercialização de bens procurados pelos ocidentais de forma a manterem um ambiente bélico dentro de portas.
Esta consciência social é, de resto, um hábito recorrente na filmografia de Zwick, que já focou os conflitos raciais ("Tempo de Glória"), a Guerra do Golfo ("Coragem Debaixo de Fogo") ou as relações entre o ocidente e o oriente ("O Último Samurai"). Raramente o faz, contudo, de forma especialmente complexa ou estimulante, apresentando trabalhos quase sempre competentes mas nunca geniais. "Diamante de Sangue" não é excepção, alicerçando-se num argumento algo formulaico e previsível, colocando questões relevantes ao espectador mas avançando também com as respostas, deixando pouco espaço para a ambiguidade.

Em parte, Zwick oferece aqui um "filme de mensagem" que não difere muito de outros tantos que Hollywood gosta de fabricar ocasionalmente e onde a perspectiva é não raras vezes linear. Não faltam aqui diálogos expositivos nem sequer a quase omnipresente banda sonora de travo world music (composta por um James Newton Howard em modo meloso), mas felizmente há também momentos interessantes quando "Diamante de Sangue" deixa de lado a sua carga panfletária e aposta naquilo que tem de melhor: a sua componente de filme de aventuras.
Quando não perde tempo com planos de postal ilustrado (ainda que contem com a excelente fotografia de Eduardo Serra), o realizador mostra-se eficaz em sequências de acção ambientadas em cenários tão belos quanto inóspitos, e mesmo quando a verosimilhança é colocada em causa o resultado não deixa de ser empolgante.

Outro factor que compensa o academismo do filme é o elenco, encabeçado por um trio de actores já com provas dadas e que concede às personagens mais espessura dramática do que a que o argumento lhes destinaria.
Se Djimon Hounsou é apenas competente, não podendo fazer muito mais para defender uma personagem demasiado genérica (quantos filmes já recorreram ao cliché do nativo africano humilde e de bom coração?), Jennifer Connelly consegue compor a típica jornalista idealista com um carisma e espontaneidade acima da média, mas é Leonardo DiCaprio que torna esta numa obra um pouco mais do que razoável.
O actor, que no também recente "The Departed: Entre Inimigos", de Martin Scorsese, tinha proporcionado um desempenho inatacável, mantém-se aqui quase ao mesmo nível na pele do mercenário Danny Archer, conciliando arrogância, egoísmo e alguma esperança na grande personagem de "Diamante de Sangue" (justificando assim a sua nomeação para o Óscar de Melhor Actor Principal).

É pena que Zwick nem sempre aproveite o elenco e a temática do filme da melhor forma, já que Connelly merecia mais tempo de antena e a carga edificante que sobressai ao longo da acção atinge o auge nos minutos finais (e perfeitamente dispensáveis), num desenlace tão politicamente correcto que quase deita por terra o que de bom a película tem para oferecer. O balanço é, ainda assim, positivo, embora também algo frustrante pois estas mais de duas horas poderiam ter resultado num "Diamante de Sangue" de quilate muito superior.

E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

domingo, fevereiro 04, 2007

OS FILHOS PRÓDIGOS

Depois da recente digressão de promoção do disco e DVD "Fácil de Entender", que os levou a actuar por todo o país, os The Gift regressaram, nas noites de sexta e sábado, ao local onde tudo começou há mais de dez anos: Alcobaça.
Estes dois concertos, decorridos no bar Clinic, tiveram a particularidade de serem dirigidos apenas aos fãs mais acérrimos, uma vez que os bilhetes só foram disponibilizados através do site oficial da banda.

Com 150 espectadores por noite (ainda que houvesse cerca de 800 interessados em estar presentes), o grupo apresentou-se num formato mais intimista, devido não só às contingências do próprio espaço (exíguo) mas também às do público, com quem os The Gift partilharam uma química peculiar.

O segundo concerto, no sábado, não registou diferenças de alinhamento em relação ao do dia anterior e percorreu marcos dos três álbuns de originais da banda, assim como os dois inéditos incluídos no registo ao vivo "Fácil de Entender". Um dos primeiros temas da noite foi, contudo, "Summertime", canção que não está disponível em nenhum dos discos. Gravada entre "Film" e "AM/FM", funciona enquanto mais-valia apresentada em ocasiões especiais, segundo o esclarecimento de Nuno Gonçalves. O título deve-se à inclusão de excertos da composição homónima de George Gershwin, e ambas têm ainda em comum tons plácidos e apaziguados que proporcionaram um tranquilo início da actuação.

Não tão tranquilo foi "My Lovely Mirror", que surgiu com arranjos diferentes dos da versão presente em "Vinyl", sendo agora revestido com uma maior carga electrónica e a participação da bateria, que lhe deram maior dinamismo. Os fãs acompanharam a banda desde o início, originando o primeiro de vários momentos eufóricos que condimentaram as duas horas de concerto.
Outros de energia semelhante foram o inevitável "OK! Do You Want Something Simple?", o primeiro single dos The Gift, a deliciosa pérola poppy "Question of Love" ou os mais recentes "Driving You Slow", "11:33" e "Music", três dos mais emblemáticos de "AM/FM", que geraram uma adesão generalizada. Do mesmo disco, foram ainda recordados "Red Light", revestido de texturas e alternando entre episódios de descarga e outros mais serenos, e "1977", numa versão visceral que levou a uma explosão cinética tanto da banda (em particular da vocalista Sónia Tavares) como do público, encerrando o concerto com uma overdose de energia.

"Fácil de Entender", interpretada durante o espectáculo e no encore, foi a mais votada pelos fãs para constar do alinhamento dos dois concertos. Uma escolha inesperada para a banda, que se confessou surpreendida pelo facto de grande parte dos fãs ter privilegiado uma canção tão mediática (embora grande parte do cardápio musical da noite tenha optado também pelos temas mais óbvios, não necessariamente os mais interessantes).

Em "645", o grupo convidou os espectadores a filmarem a actuação e a enviarem os resultados para o SAPO Vídeos, a fim de se criar um videoclip com as melhores imagens recolhidas. Outra das novidades relacionadas com a Internet foi a notícia de que o grupo tem já uma página no Myspace, e lançou o desafio de que esta se torne na mais vista de uma banda portuguesa. Já perto do final da actuação, foi sorteada a The Gift Box, uma caixa inédita com material relativo à banda.

Seguramente memorável para os 150 fãs presentes, que aplaudiram e cantaram de forma incansável, a noite comprovou também - mais uma vez -, que os The Gift são uma aposta ganha ao vivo. Se é certo que o público já estaria conquistado à partida, o grupo não deixou de oferecer uma actuação coesa que justificou o entusiasmo.
O espaço não permitiu que se registasse aqui a sofisticação e perfeccionismo cenográficos que a banda já exibiu noutras ocasiões, assim como a colaboração de mais músicos (estavam apenas seis em palco), mas em contrapartida possibilitou a consolidação de uma aura acolhedora e descomprometida, onde as canções foram alternadas com muitos relatos de episódidos curiosos aos espectadores. A julgar pelas reacções, a troca parece ter valido a pena, e ficou já prometido um novo encontro para o próximo ano, que se suspeita ter já espaço reservado em muitas agendas.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM


The Gift - "Driving You Slow"

sábado, fevereiro 03, 2007

OS MISTERIOSOS ASSASSÍNIOS EM LONDRES

Em 2006, "Match Point" impôs-se como um dos filmes essenciais do ano, assinalando um fulgurante regresso de Woody Allen após uma série de obras recentes sempre longe da mediocridade, é certo, mas também sem atributos que as elevassem acima de uma confortável mediania.

"Scoop", se por um lado partilha alguns elementos com o seu antecessor - o cenário da acção volta a ser Londres, Scarlett Johansson pica novamente o ponto no elenco, a história alicerça-se num assassino -, não conta com a sua dose de inspiração, ficando aquém da elegância formal e da crescente tensão que essa quase obra-prima apresentava.
Contudo, na sua despretensão e ligeireza, esta comédia consegue ainda cativar e divertir com inteligência, não percorrendo territórios muito imprevisíveis (pelo contrário, exibe constantemente sinais reconhecíveis de Woody Allen) mas resultando num objecto mais interessante do que alguns dos últimos trabalhos do realizador (casos dos desequilibrados "Hollywood Ending" ou "Melinda e Melinda").

Obra quase sempre mais simpática do que intrigante, centrada numa estudante de jornalismo norte-americana que desconfia que um jovem aristocrata é o mais recente serial killer londrino, "Scoop" compensa em eficácia o que lhe falta em criatividade, e se os resultados são algo irregulares é difícil não reconhecer que ainda há por aqui muitos diálogos de génio.
Não são todas as comédias que têm o privilégio de se sustentarem num humor simultaneamente inteligente e acessível, mas Allen volta a estabelecer esse estimável equilíbrio, oferecendo generosas doses de gags irresistíveis a um ritmo que, mesmo com altos e baixos, acerta mais do que falha.

Scarlett Johansson, a mais séria candidata a nova musa do realizador, partilha com ele o protagonismo do filme, e entre os dois estabelece-se uma interessante química. É curioso notar que, se em títulos anteriores Jason Biggs ou Will Ferrell, entre outros jovens actores, adoptaram os tiques de interpretação de Allen, desta vez esse papel cabe a Scarlett, que encarna uma personagem bem distinta da que compôs em "Match Point": onde Nola Rice era carnal, magnética e insinuante, Sondra Pransky é desajeitada, tagarela e neurótica q.b..
Nos secundários, Ian McShane merecia mais tempo de antena e Hugh Jackman não entusiasma numa interpretação algo insípida, a milhas do carisma que o ajudou a notabilizar-se através da saga X-Men.

Divertimento leve e sem grandes ambições, "Scoop" não entra para a lista de películas inesquecíveis do cineasta, mas após uma carreira tão longa e profícua não seria justo exigir-lhe isso a cada novo filme, sobretudo quando, mesmo em piloto automático, é capaz de proporcionar obras consistentes como esta. E se a próxima - que se tudo correr com a cadência habitual estreará em 2008 - mantiver pelo menos este nível qualitativo, já será mais um título a aguardar sem reservas.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "PECADOS ÍNTIMOS"

Mais um olhar sobre o quotidiano dos subúrbios norte-americanos, tema-chave de grande parte do cinema indie, "Pecados Íntimos" (Little Children) é o mais recente filme de Todd Field, que se distinguiu sobretudo por "Vidas Privadas".
No seu novo drama, o realizador promete mais um retrato intimista servido por um elenco aparentemente irrepreensível, com Kate Winslet, Jennifer Connelly e Patrick Wilson, entre outros. Nomeado para três Óscares (Melhor Actriz Principal, Melhor Actor Secundário e Melhor Argumento Adaptado), promete ser uma das grandes estreias deste início de ano.


Outras estreias:

"Bobby", de Emilio Estevez
"Cargo", de Clive Gordon
"Em Busca da Felicidade", de Gabriele Muccino
"Flyboys - Nascidos para Voar", de Tony Bill
"Não És Tu, Sou Eu", de Juan Taratuto


Trailer de "Pecados Íntimos"

7 BLOGUES, 6 ESTREIAS, 5 ESTRELAS

Cá fica mais uma tabela de estrelas, desta vez com algumas das primeiras estreias de 2007, em mais uma produção do Knoxville.