domingo, janeiro 14, 2007

sexta-feira, janeiro 12, 2007

A VERDADE DA MENTIRA

"Memento", "Insónia" e "Batman: O Início" colocaram o britânico Christopher Nolan entre os realizadores revelados na última década que se tornaram alvo de maior culto, através de três filmes (ou quatro, se se incluir a sua menos conhecida primeira obra, "Following") que marcaram pela sua carga cerebral, fria e engenhosa.
Com uma estética própria, que para além de incorporar referências do film noir as redefine para o novo milénio, Nolan possui já uma filmografia digna de nota, não ofecerendo exemplos de genialidade mas também nunca estando abaixo do interessante.

No seu novo trabalho, "O Terceiro Passo" (The Prestige), o realizador reúne um elenco de luxo - Christian Bale, Hugh Jackman, Scarlett Johansson, Michael Caine e um regressado David Bowie - ao serviço de um thriller (com temperos de fantástico) centrado nos bastidores do ilusionismo durante a Londres vitoriana, seguindo a relação conflituosa de dois mágicos reputados, que de colegas passaram a concorrentes.

A premissa é intrigante, apostando em tons potencialmente tensos, nebulosos e enigmáticos, de resto presentes nos títulos anteriores de Nolan. Aliada ao savoir faire do cineasta e a actores com carisma, sugeria aqui um filme com predicados mais do que suficientes para, pelo menos, ascender além da mediania. Infelizmente, não é o que se verifica, pois embora "O Terceiro Passo" se desembarace com relativa eficácia enquanto aceitável entretenimento, não vai muito além disso, deixando por explorar questões de alguma complexidade que são focadas mas não aprofundadas.

O antagonismo entre a dupla de protagonistas - vincado pela intensa dedicação (ou obsessão) que ambos têm pela arte da manipulação -, assim como as relações entre a ciência e a magia, dava matéria para um denso estudo sobre o comportamento humano e os contrastes entre o real e o ilusório, mas a perspectiva de Nolan é demasiado esquemática e linear.
É certo que o realizador é competente, e por vezes surpreendente, na gestão dos twists que pontuam a acção, mas preocupa-se mais com as sucessões de reviravoltas do que propriamente com a espessura das personagens, que apesar de bem interpretadas nunca parecem tridimensionais.

"O Terceiro Passo" é assim um filme que, ainda que se ancore nas zonas de sombra dos seus protagonistas, nunca penetra nos abismos destes, resultando num trabalho demasiado "limpo" e pouco desafiante. Não que as duas horas de entretenimento que proporciona sejam negligenciáveis, sobretudo quando servidas por bons valores de produção, um elenco e realização seguros e um ritmo que não compromete, mas falta aqui a dose de "magia" que lhe permitiria ascender a uma divisão de outra estirpe.
A espaços, Nolan exibe a precisão milimétrica que o distingue de um vulgar tarefeiro - como Neil Burger, cujo tépido e tematicamente próximo "O Ilusionista" é ainda menos conseguido -, mas não chega para que "O Terceiro Passo" não deixe a sensação de falhanço interessante, por vezes inspirado mas no geral muito acomodado. Um ligeiro passo em falso que não invalida, contudo, que continue a acompanhar-se a caminhada do realizador.

E O VEREDICTO É:
2,5/5 - RAZOÁVEL

quarta-feira, janeiro 10, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "GERAÇÃO FAST FOOD"

Há três anos, o documentário "Super Size Me - 30 Dias de Fast Food", de Morgan Spurlock, gerou polémica ao debruçar-se sobre os benefícios e (sobretudo) malefícios dos hambúrgueres e da comida rápida em geral. Agora, "Geração Fast Food" (Fast Food Nation), de Richard Linklater ("Antes do Anoitecer", "Escola de Rock"), volta a focar a questão, inspirando-se no livro homónimo de Eric Schlosser para seguir a história do "Big One", um popular menu de uma das marcas do género, que acaba por interligar o percurso de diversas personagens. O intrigante elenco inclui, entre outros, Catalina Sandino Moreno, Ethan Hawke, Greg Kinnear ou... Avril Lavigne :S

Outras estreias:


"A Coragem do Guerreiro", de Ronny Yu
"A Maldição 2", de Takashi Shimizu
"As Bandeiras dos Nossos Pais", de Clint Eastwood
"Body Rice", de Hugo Vieira da Silva

terça-feira, janeiro 09, 2007

A CIDADE DAS CRIANÇAS PERDIDAS

Do cinema iraniano recente têm chegado a Portugal sobretudo títulos de Abbas Kiarostami ("O Vento Levar-nos-á", "Dez"), mas do mesmo local há outros realizadores que importa conhecer, como Bahman Ghobadi, que tem em "As Tartarugas Também Voam" (Lakposhtha hâm parvaz mikonand) a sua terceira longa-metragem e a segunda a estrear por cá, depois de "Um Tempo para Cavalos Bêbedos".
Premiado nos festivais de Berlim, San Sebastian ou Festróia, entre outros, o filme concentra-se no quotidiano de um grupo de crianças do Curdistão que, pouco antes da invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, tentam preparar-se para o pior, uma vez que entre a população de refugiados na zona fronteiriça se pressente o desastre iminente.

Lideradas pelo precoce Soran, mais conhecido como Parabólica, passam os dias a limpar os campos de minas, uma das poucas tarefas que lhes proporciona alguma hipótese de subsistência. Parabólica, figura respeitável na região devido ao seu relativo domínio da língua inglesa e interesse pelas tecnologias, ameaça perder parte do seu carisma devido à chegada de Henkov, um lacónico rapaz sem braços cujas premonições o tornam alvo de atenção. Orfão e traumatizado pela guerra, o recém-chegado viaja com a sua irmã, a silenciosa Agrin, por quem Parabólica se interessa, e com um bebé praticamente cego.

Através da interacção destas personagens, "As Tartarugas Também Voam" traça uma perspectiva, por vezes esperançosa mas tendencialmente angustiante, das frágeis realidades vividas pelos refugiados de guerra, presos a uma vertigem constante devido a um apocalipse bélico que parece prestes a explodir.

Enquanto tal não acontece, acompanham as notícias emitidas pelos canais de televisão ocidentais, na tentiva de encontrar informações que lhes permitam antecipar os ataques, centrando especial atenção em George Bush, que Parabólica encara de forma reverencial (considerando-o a figura nuclear da nação que virá para os salvar, mas que indirecta - e ironicamente - será responsável por um nefasto incidente). Ainda acerca do impacto da televisão, uma das cenas mais bizarras é aquela em que um grupo de refugiados assiste, durante alguns segundos, a um canal de música, cujo visonamento é proibido na região.

Ghobadi proporciona um filme incisivo e comovente, distanciando-se de facilitismos dramáticos e gerando duas ou três sequências de tensão em bruto, apostando num arrepiante realismo pontuado por breves momentos ora bizarros ora poéticos.
Esta aspereza faz de "As Tartarugas Também Voam" uma obra muitas vezes difícil de suportar, mas é igualmente árduo não reconhecer a sua acutilância, pertinência e genuinidade. De resto, só a excelente direcção dos jovens actores, não-profissionais mas todos com interpretações de invejável espontaneidade (com destaque para Soran Ebrahim, no papel de Parabólica), já seria suficiente para aderir a esta inquietante experiência cinematográfica.

E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

BLINKS & LINKS (59)

Obrigado aos responsáveis pelos blogs 9-9, A Cinematic Vision, Crónicas do Joel, Did U Hear That?, DitLuiToi, DVD Collection, DVD Paradiso, Eletric Park, Era Uma Vez...,Impressões da Jonicas e LeStrange por me blinkarem ;)

segunda-feira, janeiro 08, 2007

CINEMA - TOP 10 2006: OS PIORES

Se houve alguns grandes filmes em 2006 (infelizmente, não tantos quanto desejaria), a quantidade de obras fracas e dispensáveis foi bastante superior. Estas envolveram tanto o cinema tendencialmente comercial, na sua vertente mais estereotipada e preguiçosa («Scary Movie 4 — Que Susto de Filme!», «O Génio do Mal», «Ritmo e Sedução», «Velocidade Furiosa — Ligação Tóquio») como falhadas e herméticas propostas "de autor" sem fôlego para trabalhar, de forma interessante, as questões pertinentes que abordam («Diários da Bósnia», «O Céu Gira», «Juventude em Marcha», «Génesis»,...). Esperemos que em 2007 o saldo seja mais positivo...

1 - «Diários da Bósnia», de Joaquim Sapinho
2 - «O Céu Gira», de Mercedes Álvarez
3 - «Juventude em Marcha», de Pedro Costa
4 - «Scary Movie 4 — Que Susto de Filme!», de David Zucker
5 - «Ghost in the Shell 2 — Cidade Assombrada 2: A Inocência», de Mamoru Oshii
6 - «O Génio do Mal», de John Moore
7 - «Mafioso Quanto Baste...», de Sidney Lumet
8 - «Génesis», de Claude Nuridsany, Marie Pérennou
9 - «Ritmo e Sedução», de Liz Friedlander
10 - «Velocidade Furiosa — Ligação Tóquio», de Justin Lin

NOVIDADES NA CINESFERA

Organizados pelo Paulo e pelo Miguel (do extinto Black Spot), os Golden Movie Awards relativos a 2006 já começaram a aceitar as votações para o melhor que o ano trouxe ao cinema e à televisão. A participação está aberta a todos, cinéfilos e não só, e a primeira fase decorre até dia 15. Todos os pormenores no site oficial.
E já agora, fica ainda a sugestão para um novo fórum de cinema, Peeping Tom, também recentemente criado pelo Paulo, que vem preencher o espaço livre deixado pelo final do saudoso Cinestesia (extinto devido a ataques de hackers).
Ficam as propostas, bons filmes e boas discussões.

domingo, janeiro 07, 2007

MORTE AO SEGUNDO DISCO?

No seu álbum de estreia, "Hot Fuss", de 2004, os Killers recuperaram elementos de bandas britânicas como os Duran Duran, New Order ou Smiths, recontextualizando-os em canções de travo contemporâneo mas de indiscutíveis contornos eighties.
Ao segundo disco, "Sam's Town", a banda de Las Vegas reclama influências da mesma época, mas desta vez norte-americanas, aspirando paralelismos a registos de Bruce Springsteen editados nesse período. Esta alteração na sonoridade foi acompanhada, de resto, por uma mudança de look, que não se percebe muito bem se é suposto ser paródico (veja-se o bigode do vocalista Brandon Flowers, o pormenor mais kitsch da sua nova imagem).

O que também não se compreende ao certo se pretende ser paródico é o álbum, que nos melhores momentos nem lembra tanto as canções do Boss mas antes dos U2 de meados de 80 e, nos piores (e não são tão poucos como isso), aproxima-se dos momentos mais duvidosos de uns Queen ou mesmo dos maneirismos de um Meat Loaf.

O problema é que a banda parece querer ser levada a sério, como o evidencia a pretensão conceptual do disco. Desde canções intituladas "Enterlude" (estranhamente, o segundo tema) ou "Exitlude" até à abordagem de temáticas religiosas ou de uma certa identidade americana, não falta pompa a "Sam's Town", mas seria preferível que o grupo mantivesse a postura despretensiosa do primeiro disco em vez de procurar uma densidade que não tem capacidade para abordar.

Em vez de grandioso, o álbum soa apenas balofo e excessivo, não sendo por isso a produção de Flood e Alan Moulder que consegue disfarçar o esquematismo da maioria das composições. Os sintetizadores, recurso recorrente no registo de estreia, cedem o protagonismo a guitarras sem sinais particulares, e a voz de Brandon Flowers reforça o tom melodramático, mas só a espaços é capaz de evocar algum sentido de urgência.

Isto faz de "Sam's Town" um mau disco? Nem por isso, assim como "Hot Fuss" também não era uma obra brilhante, mas pelo menos possuía maior sensibilidade pop, sobretudo em duas ou três canções de quilate superior como a frenética "Somebody Told Me" ou esse hino chamado "Mr. Brightside". O mesmo nível nunca é atingido aqui, o que não invalida que não se encontrem pontuais bons momentos, como o comprovam o eficaz primeiro single "When You Were Young", o catchy "Read My Mind" ou o promissor tema-título, curiosamente os mais próximos dos ambientes do registo de estreia.

Mas ouvir "Sam's Town" do início ao fim torna-se extenuante e a recta final é particularmente desinspirada, com um lote de temas que já seria arriscado escolher para lados-b, atirando os Killers para uma terra de ninguém e adicionando-os à lista dos que sofrem do sídrome do "difícil segundo álbum". Resta desejar-lhes melhoras rápidas.

E O VEREDICTO É:
2,5/5 - RAZOÁVEL

The Killers - "When You Were Young"

sábado, janeiro 06, 2007

MAIS LOGO, NA TV:


22h25: "O Tubarão", de Steven Spielberg (AXN)
23h00: "Dolls", de Takeshi Kitano (A Dois)
23h35: "O Grande Salto", de Joel Coen (Fox)
00h15: "007 - Alvo em Movimento", de John Glen (SIC)
00h15: "Sleepers - Sentimento de Revolta", de Barry Levinson (TVI)
00h45: "Casablanca", de Michael Curtiz (A Dois)
01h00: "Gattaca", de Andrew Niccol (Hollywood)

Assim até vale a pena adiar a saturday night fever, não?

Ethan Hawke em 'Gattaca'

quinta-feira, janeiro 04, 2007

ESTREIA DA SEMANA: "APOCALYPTO"

Após ter gerado um dos filmes mais controversos e mediáticos dos últimos anos, "A Paixão de Cristo", Mel Gibson volta a assumir a realização de outra obra, "Apocalypto". O foco centra-se agora na cultura Maia, em particular na jornada de um homem que é escolhido para ser sacrificado mas que tenta regressar a casa. A abordagem crua, com sangue, suor e lágrimas, presente na película anterior de Gibson, parece manter-se, e o resultado pode ser visto a partir de hoje.

Outras estreias:

"À Noite, no Museu", de Shawn Levy
"O Odor do Sangue", de Mario Martone

quarta-feira, janeiro 03, 2007

RECOMEÇAR DO ZERO

Quando foi anunciado que, após a saída de Pierce Brosnan, Daniel Craig tinha sido o escolhido para protagonizar mais uma aventura de 007, não foram poucos os fãs que reagiram com cepticismo a essa opção. Fosse por ser loiro, demasiado musculado ou excessivamente rude e inexpressivo, eram vários os motivos para que, segundo algumas vozes, o novo James Bond deixasse muitas reticências.
Tais suspeitas revelaram-se, no entanto, infundadas, uma vez que Craig não só já tinha provado, e várias vezes, que é um actor a ter em conta (confira-se em "Sylvia", "O Fardo do Amor" ou "Munique", entre outros), como é um dos grandes responsáveis pela injecção de vitalidade que "007 — Casino Royale" implementa a uma saga que já se movia há muito em piloto automático.

O filme, baseado no primeiro livro (de título homónimo) que Ian Fleming escreveu sobre o famoso agente secreto, em 1953, acompanha a sua primeira missão enquanto 007, aquela em que o espião já tem licença para matar.
Se o prólogo, a preto-e-branco, oferece um início intrigante, o mesmo não se pode dizer dos restantes primeiros minutos do filme, gastos numa longa sequência de perseguição que se torna cansativa, onde Craig parece encarnar não o novo James Bond mas antes um herói de acção semelhante a um cruzamento entre Jean-Claude Van Damme e Arnold Schwarzenegger, com muito músculo e pouca conversa.

Os minutos seguintes optam por uma uma lógica já vista e revista em muitos outros filmes de espionagem embalada com adrenalina q.b., que o realizador de serviço, Martin Campbell, estrutura com competência mas sem especial inspiração. Até aqui nada de novo, e embora não haja muitos traços reconhecíveis da saga de 007 a mudança não parece ser para melhor, antes no sentido de uma linha de montagem anódina.

Tudo se altera, contudo, a partir do momento em que Vesper Lynd entra em cena, interpretada por uma brilhante Eva Green, que alia inteligência e elegância de forma invejável e partilha com Craig uma química imediatamente perceptível. O diálogo entre ambos, durante a viagem de comboio, expõe uma escrita engenhosa condimentada por um sarcasmo irresistível, e a relação do duo, a partir daqui primordial para a acção do filme, é um dos grandes elementos que contribuem para a solidez deste.

O facto do argumento de "007 — Casino Royale" estar uns pontos acima de grande parte dos de outras aventuras do espião deverá muito a Paul Haggis, que depois de "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos" e "Colisão" divide aqui os créditos da escrita com Neal Purvis e Robert Wade ("007 - Morre Noutro Dia", "Johnny English").
O filme não se esgota, assim, num emaranhado de sequências de acção com variações dos níveis de pirotecnia, pois surpreende ao mergulhar numa densidade emocional difícil de encontrar num entretenimento pipoqueiro.
Para além de incluir um dos pares mais carismáticos do ano, a película leva James Bond a territórios até então distantes da personagem, como os das marcantes cenas de tortura, onde um carregado humor negro se entrecruza com uma tensão claustrofóbica, evidenciando a carga mais crua, realista e áspera desta aventura (que dispensa, e ainda bem, a proliferação de gadjets tão sofisticados quanto inverosímeis).

Martin Campbell, depois da formatação dos primeiro momentos, apresenta um seguro trabalho de realização, e tem o mérito de conseguir manter o interesse durante duas horas e meia, gerindo com solidez os muitos cliffhangers que marcam a acção, desde uma visceral perseguição de automóvel até ao angustiante desenlace.
As cenas de antologia são, todavia, as mais pausadas, como aquela em que Craig emerge do mar em fato de banho, à la Ursula Andress (longe vão os tempos em que apenas as bons-girls eram o objecto sexual), uma outra que que foca o actor e Eva Green no duche, tão bela quanto amargurada, ou ainda as que ambos protagonizam já perto do final, também na água, numa das sequências mais emotivas do filme.

Ousado e envolvente, "007 — Casino Royale" confirma que Daniel Craig é uma aposta ganha, uma vez que o actor encarna sem mácula um James Bond para o novo milénio, um herói que, apesar da pose arrogante, fria e máscula, não consegue evitar a solidão gerada por um assombrado romantismo.
Menos convincente é a escolha de Chris Cornell para a autoria da canção principal, que tanto poderia pertencer a um filme do 007 como a uma qualquer playlist do mais indistinto rock-FM. Mas se a canção é uma das piores da saga, pelo menos o filme é um dos melhores. Antes assim.

E O VEREDICTO É:
3,5/5 - BOM

FOTOGRAMAS DE 2006 (IX)

"O Paraíso, Agora!", de Hany Abu-Assad

terça-feira, janeiro 02, 2007

NOITE ESCURA

Segunda parte de uma trilogia dedicada à guerra colonial (a primeira foi "Inferno", de 1999), "20,13" decorre na véspera de Natal de 1969, num quartel de Moçambique, e centra-se nos acontecimentos de uma noite determinante para todos os soldados e restantes presentes no local.

À semelhança da maioria dos títulos da sua filmografia, Joaquim Leitão apresenta aqui uma obra que, contrariamente a algum cinema nacional, é feita a pensar no grande público, mas não deixa por isso de ser uma proposta que responde aos graus de exigência necessários para que se encontra aqui uma interessante experiência cinematográfica.

Interligando uma história marcada por algum suspense (há um assassinato cujo responsável só é revelado no final) e conturbadas relações amorosas com um olhar sobre o quotidiano dos recrutas da base militar, "20,13" oferece uma eficaz reflexão sobre a vida e convivência num quartel, assim como dos sacrifícios que os que aí se encontram estão dispostos - ou são obrigados - a fazer, onde persiste um forte sentimento de perda aliado a traços de esperança que se insinuam a espaços.

Do meio deste retrato de grupo emergem algumas figuras mais determinantes para a narrativa, casos do capitão Costa e do alferes Gaio, pólos opostos (ou, como o filme vai revelando, talvez nem tanto) devido às diferenças de posicionamento perante a guerra. O primeiro, austero e empenhado, defende os propósitos e interesses do regime sem hesitações; já o segundo adopta uma postura mais ambígua, cumprindo a sua missão sem falhas mas mantendo sempre reservas quanto ao conflito em que está envolvido.
A posição respeitável e sem manchas do capitão ameaça, no entanto, ficar comprometida devido à sua relação (naturalmente secreta) com um enfermeiro mais novo, sobretudo quando a sua esposa faz uma visita-surpresa ao quartel e, mais ainda, depois do jovem ser encontrado morto, vítima de homicídio.

Joaquim Leitão oferece uma obra sóbria, alternando com segurança cenas de acção com momentos mais apaziguados onde o combate é então verbal, em particular nas cenas de discussão conjugal.
O realismo surge como elemento sempre presente, auxiliado por um elenco coeso (Marco d'Almeida, no papel de Gaio, é exemplar e magnético) e por uma reconstituição histórica igualmente fulcral para que as peripécias sejam verosímeis. Não menos relevante é a banda-sonora, com destaque para as canções de José Afonso ("Menina dos Olhos Tristes") e Madalena Iglésias ("Ele e Ela"), ambas cantadas durante uma festa mas despoletando ressonâncias emocionais bem díspares em algumas personagens.

Nem tudo resulta, contudo, já que o mistério policial (de contornos bíblicos, tanto que o número de um dos versículos e capítulos até originou o título do filme) é mais previsível do que intrigante, sendo a última cena dispensável, uma vez que apenas reforça uma certeza que sequências anteriores já haviam confirmado.
Certas personagens ganhariam com um maior desenvolvimento (pelo menos as do médico e esposa), mas o retrato colectivo é bem conseguido e, mesmo nunca sendo genial, há que reconhecer que "20,13" é uma obra séria, inteligente e escorreita, características que poucos filmes portugueses estreados em 2006 podem orgulhar-se de possuir. Razões mais do que suficientes, então, para não deixar passar esta boa proposta, talvez a melhor de Joaquim Leitão.

E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

domingo, dezembro 31, 2006

FELIZ ANO NOVO!

Para não variar, ainda não foi desta que consegui publicar aqui as listas de melhores filmes do ano antes deste terminar. Enfim, talvez da próxima. Entretanto, podem recordar 2006 aqui e, para iniciar 2007 de forma apropriadamente festiva, deixo esta sugestão para a banda-sonora do reveillon:

Kylie Minogue - "Come Into My World (Fischerspooner Mix)"

FOTOGRAMAS DE 2006 (VIII)

"Ninguém Sabe", de Hirokazu Kore-eda

POSTO DE ESCUTA: MÚSICA DE 2006

Embora tenha gostado de alguns discos de 2006 - dos Cansei de Ser Sexy, Yeah Yeah Yeahs, The Knife,... -, este não foi um ano que me trouxe álbuns apaixonantes, daí que, em altura de balanços, faça mais sentido destacar canções. Aqui ficam dez que ouvi com regularidade:

A Naifa - "Monotone"
Cansei de Ser Sexy - "Bezzi" (ou "Acho Um Pouco Bom", ou "Computer Heat", ou...)
Ellen Allien & Apparat - "Jet"
Justin Timberlake - "My Love" (ou como uma canção quase salva um álbum)
Muse - "Map of the Problematique"
Nelly Furtado - "Say It Right"
The Knife - "Like a Pen"
Tiga - "3 Weeks"
TV on the Radio - "Playhouses"
Yeah Yeah Yeahs - "Cheated Hearts"

Nos palcos, vou lembrar-me da brilhante actuação de Kode 9 & Spaceape no Festival Roots & Routes, da muito boa estreia em Portugal dos Strokes, no Lisboa Soundz, e, mais pelas canções do que propriamente o concerto, do regresso dos Pixies.

The Knife - "Like a Pen"

sábado, dezembro 30, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (VII)

"A Senhora da Água", de M. Night Shyamalan

sexta-feira, dezembro 29, 2006

7 BLOGUES, 6 ESTREIAS, 5 ESTRELAS?

Mais um mês, mais filmes, mais classificações.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "BABEL"

Depois de uma promissora estreia na realização com "Amor Cão" e de uma não menos convincente segunda obra, "21 Gramas", Alejandro González Iñárritu regressa com a sua terceira longa-metragem, "Babel".
Apostando novamente numa estrutura narrativa em mosaico, seguindo várias histórias em simultâneo, este olhar sobre a família, a solidão e as barreiras da comunicação é um sério candidato a última grande estreia do ano. Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael García Bernal (actor que Iñárritu ajudou a revelar) são alguns dos nomes de um elenco apelativo, num filme a descobrir a partir de hoje.

Outras estreias:

"Agente 117", de Michel Hazanavicius
"As Tartarugas Também Voam", de Bahman Ghobadi
"Escola Para Totós", de Todd Phillips
"Funcionário do Mês", de Greg Coolidge
"O Pacto", de Renny Harlin
"O Terceiro Passo", de Christopher Nolan

quarta-feira, dezembro 27, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (VI)

"Em Paris", de Christophe Honoré

domingo, dezembro 24, 2006

FELIZ NATAL ;)


David Fonseca - "Little Drummer Boy"


Madonna - "Love Profusion (Head Cleaner Rock Mix)"

FOTOGRAMAS DE 2006 (V)

"Munique", de Steven Spielberg

UM HOMEM NO CAMPO

Nos últimos anos, Ridley Scott tem apostado em filmes que o confirmam como um dos mais versáteis realizadores em actividade, constituindo uma obra que engloba títulos de vários géneros, mas essa diversidade não tem oferecido, infelizmente, propostas especialmente estimulantes. Do sobrevalorizado "Gladiador" ao desequilibrado "Hannibal", passando pelo inconsequente "Cercados" ou pelo malogrado "Reino dos Céus", não lhe têm faltado projectos com potencial, embora a execução dos mesmos não chegue a ascender a um nível acima da mediania.

"Um Ano Especial" (A Good Year) é mais uma prova do eclectismo de Scott e causa alguma surpresa devido à sua escassa ambição, combinando drama e comédia para contar uma história convencional sem grandes pretensões, não aspirando a mais do que um exercício essencialmente lúdico.

O motor da narrativa é a herança, por parte de um bem-sucedido homem de negócios inglês, de uma propriedade localizada em Provença, deixada pelo tio deste, recentemente falecido e com o qual manteve uma relação próxima durante a infância. A notícia leva-o a deixar por alguns dias a Bolsa de Londres e a viajar até à localidade francesa onde, à medida que a sua estadia vai tendo uma duração mais longa do que a esperada, a sua decisão inical, vender a propriedade, vai sendo reavaliada, em parte devido às acolhedoras memórias do local que vão despontando, mas também por um interesse amoroso que surge inesperadamente.

Uma premissa pouco ousada e inovadora, portanto, que mais não faz do que reaproveitar o conflito entre a consumação do amor e a prosperidade profissional ou a dicotomia campo/cidade, realçando a pureza e serenidade do primeiro e o misto de hipocrisia e competitividade que infecta a segunda.
Esta associação, simplista e redutora, quando associada à tentativa do protagonista se tornar "numa pessoa melhor" redefinindo as suas prioridades, parece sugerir que "Um Ano Especial" se resume a uma colecção de lugares-comuns (como o foi, por exemplo, o recente "Um Homem na Cidade", de Mike Binder).
Ora se é verdade que os clichés estão lá, reconheça-se que o filme não é assim tão meloso e forçado, enveredando por um bem-comportado tom agridoce que nunca faz desta uma experiência cinematográfica acima do aceitável mas também não a torna num objecto a recusar por completo.

Visualmente, Scott volta a suportar-se numa linguagem próxima da publicitária (meio de onde provém), com as suas qualidades (a caracterização dos sofisticados ambientes londrinos, com uma envolvente combinação de azuis e cinzentos) e excessos (o olhar sobre Provença raramente vai além do postal ilustrado, abusando do exibicionismo e de uma carga bucólica pouco genuína, a lembrar alguns anúnicos de vinho, azeite e afins).
A mistura de comédia e drama também tem altos e baixos, dado o humor demasiado brando e a ténue densidade emocional; e Russel Crowe, no papel protagonista, não se sai especialmente bem na conciliação dos dois registos. As melhores interpretações do filme pertencem, aliás, a quem tem menos tempo de antena, casos do veterano Albert Finney e do jovem Freddie Highmore (a promessa de "À Procura da Terra do Nunca" e "Charlie e a Fábrica de Chocolate"), respectivamente tio e sobrinho nos ocasionais flashbacks. Destaque ainda para uma Abbie Cornish em busca de internacionalização depois de "Salto Mortal" e "Candy", insinuante mas com menos carisma do que nesses dois filmes.

Ainda não é com "Um Ano Especial" que Ridley Scott volta a assinar um filme obrigatório, mas admita-se que, embora seja uma obra menor e não mude a vida de ninguém (tirando, claro, a do protagonista), cumpre minimamente aquilo que se propõe, oferecendo duas horas agradáveis e despretensiosas. Não é muito, mas não podia pedir-se muito mais a um feelgood movie.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, dezembro 21, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "AMOR SUSPEITO"

"Amor Suspeito" (La Moustache) tem como elemento determinante um acto aparentemente banal: Marc, o protagonista, decide rapar o bigode que usa há anos. No entanto, o seu dia-a-dia começa a tornar-se cada vez mais inquietante à medida que ninguém, nem mesmo a sua esposa, parece lembrar-se que ele já teve bigode.
Protagonizado por Vincent Lindon e Emmanuelle Devos, este drama de Emmanuel Carrère é uma das estreias mais promissoras do final de 2006. Não terá muito a ver com a época natalícia, mas é capaz de ser mais interessante do que grande parte da concorrência.

Outras estreias:

"20,13 - Purgatório", de Joaquim Leitão
"Déjà Vu", de Tony Scott
"Um Vizinho a Apagar", de John Whitesell

FOTOGRAMAS DE 2006 (IV)

"O Tempo que Resta", de François Ozon

(até agora estas escolhas, para além dos melhores filmes, parecem contemplar também os melhores abraços, mas prometo ser mais ecléctico nas próximas)

ANO NOVO, EQUIPA NOVA?

Para o Quarteto Fantástico parece ser assim, pelo menos segundo algumas previews que já circulam pela net e que indicam que Tempestade e Pantera Negra (o novo casal-sensação da Marvel) substituirão o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível.

Hum, será que a Halle Berry fez mais exigências contratuais e que agora quer papéis noutros filmes de equipas de super-heróis, para além dos X-Men?? Pobres fãs da Jessica Alba...

quarta-feira, dezembro 20, 2006

SONHOS EFÉMEROS

Quando, há dois anos, o francês Michel Gondry realizou a sua segunda longa-metragem, “O Despertar da Mente”, não foram poucos os que a consideraram – e justamente – um dos filmes nucleares da primeira metade da década, aliança perfeita entre comédia delirante e drama envolvente, um prodígio de escrita que, combinada com uma peculiar identidade visual e um elenco irrepreensível, deixou muita expectativa quanto às futuras obras do realizador.

“A Ciência dos Sonhos” (La Science des Rêves) tem agora a tarefa ingrata de ser o seu título sucessor e deixa claro que, embora apresente algumas qualidades, está muito abaixo da excelência, ou mesmo de um nível acima da média, ficando longe de ser um marco da década ou sequer do ano.
Reconheça-se que Gondry continua a apostar num trabalho de realização pessoal e imaginativo, herdeiro do cruzamento de minimalismo e surrealismo pelo qual já se havia destacado nos videoclips que dirigiu antes de testar os domínios da sétima arte. O que falta, e de que maneira, é um argumento que consiga coordenar o experimentalismo visual (por vezes brilhante), e sobretudo dar alma às personagens, ou não tivessem sido estas que ajudaram a que “O Despertar da Mente” criasse um raro e difícil elo emocional com o espectador.

A superficial carga dramática é especialmente frustrante uma vez que desperdiça um sólido elenco, não tanto no caso dos protagonistas, mas gritantemente no dos secundários, onde constam, entre outros, Alain Chabat, Aurélia Petit, Sacha Bourdo ou Miou Miou, com pouco ou nada para fazer. Já Gael García Bernal destila carisma na pele de um ilustrador que viaja para Paris, consegue um emprego menos estimulante do que esperava e que entretanto se apaixona pela vizinha do lado, interpretada por uma competente Charlotte Gainsbourg. A dupla resulta bem, mas também prova que a superlativa química partilhada por Jim Carrey e Kate Winslet não é para todos.

Se no filme anterior o motor da acção era a memória, aqui é o universo dos sonhos, cuja abordagem é inventiva e refrescante nos primeiros minutos mas não consegue aguentar-se perante uma acção elíptica e pouco surpreendente. A alternância entre sequências reais e oníricas é curiosa e faria maravilhas num videoclip, mas a forma como é trabalhada aqui não contém trunfos que sustentem uma hora e meia imune a desequilíbrios.

Nota-se, portanto, a ausência da escrita de Charlie Kaufman, e apesar de “A Ciência dos Sonhos” seguir o template edificado pelo argumentista, Gondry nunca consegue ser mais do que um esforçado, embora irregular imitador. Será injusto, mesmo assim, acusá-lo de oferecer aqui um mau filme, pois se este não deixa de ser uma semi-desilusão ainda contém vários momentos meritórios que compensam as suas falhas.
É pena, contudo, que aquilo que acaba por ser uma brincadeira com alguma piada, candura e excentricidade nunca chegue a aproximar-se do objecto admirável e encantador que “A Ciência dos Sonhos” poderia ter sido. Resta esperar que da próxima Gondry acorde mais inspirado.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, dezembro 18, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (III)

"Voltar", de Pedro Almodóvar

sábado, dezembro 16, 2006

2006: A SPACE ODISSEY

Com um atraso de dois meses, lá entreguei ao Spaceboy a compilação que gravei para ele. Como não lhe enviei o alinhamento, deixo-o aqui. Acertaste muitas, João?

DJ Shadow - Six Days (Soulwax Remix)
Orbital - Oi
Flunk - Kebab Shop 3 AM
Mirwais - I Can't Wait
Madonna - Nobody Knows Me (Mount Sims Old School Mix)
Sugababes - It Ain't Easy
Justin Timberlake - My Love (DFA Mix)
Annie - Heartbeat
Cansei de Ser Sexy - Let's Make Love and Listen Death From Above
Bloc Party - Like Eating Glass (Ladytron Zapatista Mix)
Interpol - Stella Was a Diver and She Was Always Down
12 Rounds - Another Day
The Smashing Pumpkins - Never Let Me Down
Mirah - Jerusalem
Rádio Macau - À Distância do Meu Grito
UNKLE - Celestial Annihilation

Annie - "Heartbeat"

quinta-feira, dezembro 14, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "O AMOR NÃO TIRA FÉRIAS"

Numa semana de poucas estreias, e nenhuma especialmente estimulante, o destaque vai, ainda assim, para "O Amor Não Tira Férias" (The Holiday), o mais recente filme de Nancy Meyers, que parece não querer largar o formato da comédia romântica (o público também não tem reclamado até agora, tanto em "O Que as Mulheres Querem" como em "Alguém Tem que Ceder", que sempre foram melhores do que "Pai Para Mim... Mãe Para Ti"). Só pelo elenco - Kate Winslet, Jack Black, Cameron Diaz e Jude Law - já merece o benefício da dúvida, e um feelgood movie de vez em quando, sobretudo em época natalícia, não faz mal a ninguém.

Outras estreias:

"Artur e os Minimeus", de Luc Besson
"Eragon", de Stefen Fangmeier

quarta-feira, dezembro 13, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (II)

"O Segredo de Brokeback Mountain", de Ang Lee

BEM-VINDO A SARAJEVO

Premiado com o Urso de Ouro na mais recente edição do Festival de Berlim, "Filha da Guerra" (Grbavica) marca a estreia de Jasmila Zbanic na realização e, embora não exiba méritos que o incluam na lista de objectos cinematográficos ímpares, é bem sucedido na sua proposta de apresentar um olhar sobre o legado da Guerra dos Balcãs em Sarajevo.

O filme foca a tensa relação entre uma mãe solteira e a sua filha adolescente e através destas vai gerando, de forma sempre sóbria e controlada, o retrato de um quotidiano onde os fantasmas de um passado recente ainda se encontram bem visíveis, tendo deixado várias marcas por cicatrizar.

A realização de Zbanic, de forte travo realista, aproxima-se por vezes de algum cinema documental, e apesar de não exibir particulares sinais de originalidade ou traço autoral é bastante eficaz no verismo que consegue injectar na definição de espaços e ambientes, fazendo-o de um modo francamente mais estimulante do que, por exemplo, o desapontante "Diários da Bósnia", de Joaquim Sapinho.

A abordagem do relacionamento entre a mãe a filha é igualmente consistente, porém também não muito inventiva, uma vez que a fricção que se vai adensando entre as duas, motivada pelas questões que a segunda coloca acerca da identidade do pai, já foi vista em muitos outros dramas ("Aos Doze e Tantos", de Michael Cuesta, é um dos casos mais recentes), e é aqui desenvolvida sem muitas surpresas. A revelação final é, de resto, logo sugerida por algumas cenas dos primeiros minutos, mas felizmente não coloca em causa a forte carga dramática que o filme vai tecendo até lá.

Dispensando rodriguinhos fáceis e recusando transformar as suas personagens em meras vítimas, "Filha da Guerra" contém uma saudável secura emocional, não deixando por isso de ser uma obra comovente. Para além do equilíbrio que Zbanic demonstra, parte do mérito é também das duas actrizes principais, Mirjana Karanovic e Luna Mijovic, exemplares na construção de protagonistas tridimensionais e palpáveis, que ajudam a reforçar a assinalável verosimilhança do projecto. Motivos mais do que suficientes, então, para não se passar ao lado deste pequeno filme, discreto e honesto como poucos.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, dezembro 11, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (I)

"Match Point", de Woody Allen

domingo, dezembro 10, 2006

AO TERCEIRO (DIA) FOI DE VEZ

O festival Roots & Routes reservou para o séu último dia um dos nomes cimeiros do dubstep, movimento urbano emergente do qual "Memories From the Future", de Kode 9 e The Spaceape, é apontado como um disco exemplar e defendido por muitos como um dos lançamentos discográficos nucleares de 2006. Pese embora algum exagero, a verdade é que a dupla britânica apresentou-se ontem em palco e mostrou ao público do MusicBox tudo o que um concerto deve ser, proporcionando um alinhamento mais rico do que o do álbum de estreia, onde as versões das composições perderam a carga minimalista a favor, e bem, de uma sonoridade mais atmosférica, absorvente e dinâmica.

Geiom

Spaceape, situando-se sempre próximo de um spoken word austero e inquietante, foi um contraponto perfeito para a minuciosa manipulação de beats encetada por um discreto Kode 9, e se os momentos iniciais viveram muito da carga sinistra e densa, quase sonâmbula, que já contaminava o disco, pouco demorou para que Spaceape começasse a interagir com os espectadores, dando início a uma euforia dançável que disseminou pela maioria (todos?) os presentes.
As imagens projectadas atrás do palco, quase todas dominadas por tons brancos, cinzentos e negros, constituíram a única iluminação do espectáculo, adequando-se às palavras de ordem emitidas por Spaceape, onde o sagrado e o profano se misturam num discurso tenso, pungente e quase apocalíptico (não é por acaso que "Sing of the Times", de Prince, foi o tema ouvido durante a entrada do duo).

Sombrio mas vibrante, o concerto foi, e justificadamente, o que registou a maior adesão do festival, tanto a nível do número de espectadores como da energia que se propagou entre estes e os músicos, uma vez que Spaceape saiu por várias vezes do palco para cantar no meio da audiência, comprovando ser um exímio mestre de cerimónias (o que quase fez esquecer a sua entoação algo monocórdica).

Boxcutter

Durante cerca de duas horas imparáveis, sem momentos mortos nem sequer quebras de ritmo, a dupla mostrou que o dubstep respira saúde, e ao vivo é a melhor forma de atestar os seus méritos e singularidades. Atribuir-lhes o título de autores do "disco do ano" será excessivo, mas no campeonato dos concertos não andarão longe disso.

A terceira noite do Roots & Routes registou ainda o live set de Barry Linn, mais conhecido como Boxcutter, rapaz-prodígio irlandês cujo álbum "Oneiric" consta também entre os obrigatórios do dubstep. Embora marcada por alguns problemas de som nos primeiros minutos, a actuação logo fez esquecer esse percalço através de uma vitaminada amálgama sonora, expondo consideráveis doses de experimentalismo sem no entanto cair na auto-indulgência.
Enveredando por domínios ambientais e abstractos, Boxcutter ofereceu um caldeidoscópio electrónico de forte carga urbana e nebulosa, que não poderia ser mais apropriado para noites frias e chuvosas. Entre bleeps imaginativos e espontâneos, oscilações constantes no volume do som e texturas algures entre um Aphex Twin e um DJ Shadow, não esquecendo a determinante contribuição do baixo, Linn mostrou engenho e confirmou-se como um nome a seguir.

Também em registo live set, o espanhol Mwëslee trouxe ao festival um interessante combinado de batidas hip-hop condimentadas com sujas doses de electro e noise, e o britânico Geiom gerou uma sessão à base de dubstep funcional e dinâmico, com pontuais explosões rítmicas não muitos distantes do asian underground.
Antes destes, coube aos portugueses Seenistra meets Sallivah e Unidade Sonora prepararem o início da noite, que terminou com a actuação dos Raska Soundsystem e, por fim, com o set de DJ MK.

Mwëslee

Trazendo a Lisboa alguma da mais estimulante música que foi nascendo nos últimos tempos, o festival Roots & Routes apresentou ao vivo nomes que nunca estiveram abaixo da competência, e alguns destes revelaram-se mesmo como sérios casos a revisitar com urgência, seja no palco do MusicBox ou noutro espaço igualmente acolhedor e intimista. E provou que o dubstep é um movimento com uma alta probabilidade de disseminação depois de efectuado o primeiro contacto, o público presente no concerto de Kode 9 & The Spaceape que o diga.

sábado, dezembro 09, 2006

AO RITMO DO HIP-HOP

Depois dos Various Productions terem iniciado o festival da melhor forma na passada quinta-feira, o segundo dia do Roots & Routes apresentou ontem mais motivos de interesse, tanto nacionais como de fora de portas.

Rocky Marsiano foi um desses casos, músico luso-croata que integra os Micro (onde adopta o alter ego D-Mars) ou Double D Force mas que levou ao MusicBox algumas composições de "The Pyramid Sessions", o seu segundo álbum a solo, editado no ano passado.
Motivo para cerca de uma hora onde o hip-hop e o jazz se entrecruzaram numa sessão maioritariamente instrumental, uma vez que as raras vozes presentes eram sampladas. Interessante exercício de cut n' paste, não propriamente inovador mas envolvente q.b., investindo tanto em momentos mais festivos e efusivos como em episódios pontuados por alguma melancolia. T One na guitarra, Jorge Amado no saxofone e o scratching de DJ Ride ajudaram, proporcionando um acolhedor início de noite.

O segundo dia do festival Roots & Routes contou ainda com os DJ sets de Kalaf, Steinski, Daz I Kue e TM Juke, assim como o concerto de Ty e DJ Big Ted. Para hoje, as propostas incluem Seenistra meets Sallivah (20h), Boxcutter (21h), Mwëslee (22h), Geiom (23h), Unidade Sonora (00h), Kode 9 & The Space Ape (1h), Raska Soundsystem (2h30) e DJ MK (4h).

sexta-feira, dezembro 08, 2006

O FUTURO É AGORA

O festival Roots & Routes, que chega agora a Portugal depois de já ter passado por outros países europeus, tem como propósito divulgar alguns dos nomes em ascensão da música urbana recente, e nesta edição o destaque centra-se essencialmente no dubstep. Movimento londrino cuja sonoridade híbrida recupera traços de muitas outras, desde o 2 step ao dub, passando pelo drum & bass a batidas hip-hop, proporcionou ontem uma amálgama refrescante que não ficou refém das suas influências.

O primeiro dia do festival (a decorrer no MusicBox, no Cais do Sodré) ficou marcado pela actuação dos britânicos Various Productions, um dos porta-estandartes do movimento, cujo álbum de estreia "The World is Gone", editado este ano, lhes tem rendido consideráveis elogios.

Apresentando-se sob o formato live set, não recorrendo às cantoras que colaboram no disco, proporcionaram cerca de hora e meia de cruzamentos sonoros inspirados, embora bastante distantes do legado de algum trip-hop e R&B presentes no álbum. E ainda bem, porque a fusão do set foi mais estimulante, suscitando um apreciável dinamismo através de beats contagiantes envoltos em atmosferas densas e obscuras.
O cruzamento de uma forte pulsão rítmica, sempre presente, com texturas soturnas e opressivas originou um ambiente com tanto de intrigante como de viciante, incitando a dança do público que não ultrapassaria as 50 pessoas mas cujo entusiasmo foi permanente.

A actuação aglutinou, de forma equilibrada, múltiplos géneros e tendências, onde coube tanto o drum & bass (vertente bass acentuada) como discretos temperos rock (via Radiohead, mais uma vez abençoados por nomes da música de dança), passando por vezes por temperos quase tribais ou por uma vibração electro, lembrando ainda o experimentalismo da IDM de um Aphex Twin ou a energia techno de uns Prodigy antes da explosão global. Ficou aguçada a curiosidade para eventuais futuras sessões e justificou-se o hype que se tem disseminado por alguns círculos.

Antes dos Various Productions, coube ao português Mike Stellar ir iniciando a noite enquanto chegavam os primeiros espectadores, e pela madrugada dentro actuaram ainda no MusicBox o espanhol Joan Barbena e Karl Injex, dos EUA, todos através de DJ sets, e ainda houve tempo para um showcase de dança. Hoje à noite o cartaz inclui Kalaf (20h), Rocky Marsiano (21h), João Gomes, dos Cool Hipnoise (22h), Ty e DJ Big Ted (23h), Steinski (00h30), Daz I Kue (2h15) e TM Juke (4h).

quinta-feira, dezembro 07, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "HAPPY FEET"

Outras estreias:

Parece que os pinguins estão mesmo na moda. Depois de serem as melhores (e mais subaproveitadas) personagens de "Madagáscar" e de terem tido direito a um filme próprio em "A Marcha dos Pinguins" (que ficou aquém das expectativas), regressam em "Happy Feet", a mais recente proposta de animação pré-natalícia, realizada pelo australiano George Miller (que já fez um pouco de tudo, desde "Mad Max" a "Um Porquinho Chamado Babe"). A acção segue as peripécias de um pinguim-imperador rejeitado pela sua comunidade por não saber cantar, mas que acaba por encontrar outra espécie onde se destaca por outros aspectos. Será que à terceira é de vez e que desta será feita justiça aos pinguins no cinema?

Outras estreias:

"Alex", de José Alcala
"O Nascimento de Cristo", de Catherine Hardwicke
"Saw III - O Legado", de Darren Lynn Bousman

ROTAS LISBOETAS

Nos próximos dias, as coordenadas musicais em destaque vão situar-se para os lados do Cais do Sodré, no MusicBox, a propósito do Festival Roots & Routes. Alguns dos nomes cimeiros do dubstep, do hip-hop e de territórios aparentados estarão por Lisboa entre hoje à noite e domingo. Kode 9, Various Production, Ty e Boxcutter, entre outros, são alguns dos nomes do cartaz. Line up completo, horários, preços e restantes informações aqui e aqui, e acompanhamento dos principais momentos neste espaço em breve.

Various Production - "Hater"

quarta-feira, dezembro 06, 2006

CATCH THEM IF YOU CAN

Começou, na quinta-feira passada no King, um ciclo dedicado ao Novo Cinema Inglês. "Topsy Turvy", de Mike Leigh, foi o filme inaugural, e nos próximos dias passarão por lá "Rapariga com Brinco de Pérola", de Peter Webber (dia 4, 5 e 6); "Nu", de Mike Leigh (dia 7); "Breakfast on Pluto", de Neil Jordan (dias 11, 12 e 13); "Trainspotting", de Danny Boyle (dia 14 e 15); "Estranhos de Passagem", de Stephen Frears (dia 18, 19 e 20); "28 Dias Depois", de Danny Boyle (dia 21 e 22); "Orgulho e Preconceito", de Joe Wright (dia 26 e 27) e "Mrs. Henderson", de Stephen Frears (dia 28 e 29). "Brisa de Mudança", de Ken Loach, será o último a ser exibido, a 2 e 3 de Janeiro, e todas as sessões são às 19h.
Vou tentar ver, pelo menos, o "Nu", e se possível rever alguns dos outros.

HELLO KITTY

Não fui ao concerto da Cat Power, mas tendo em conta que inspirou este texto do par, acho que deveria ter ido.

terça-feira, dezembro 05, 2006

OS DIAS DO FIM

Realizador alvo de uma crescente internacionalização nos últimos anos, o mexicano Alfonso Cuarón tem sedimentado uma filmografia com tanto de versátil como de desequilibrado, iniciando-a com "A Princesinha" (1995) e "Grandes Esperanças" (em 1998, mais uma adaptação da obra de Dickens), títulos pouco mais do que curiosos, mas revelando contudo uma envolvente singularidade em "E a Tua Mãe Também" (2001), road movie que ofereceu um dos mais belos retratos da adolescência do cinema recente.

"Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" (2004), a sua contribuição para as aventuras do jovem e mediático feiticeiro, acrescentou um recomendável negrume à saga, e se não se saiu mal enquanto trabalho de encomenda também não foi um filme à altura das expectativas geradas pelo seu projecto anterior.

Agora, com "Os Filhos do Homem" (Children of Men), transfere para o grande ecrã o livro homónimo de ficção científica de PD James, cuja acção decorre num futuro próximo (2027) onde o mundo é caracterizado por um caótico contexto de anarquia global, vitimado por sérios problemas de imigração e, sobretudo, por uma crise de infertilidade que se arrasta há anos.

É certo que as atmosferas futuristas que o filme apresenta não são propriamente originais, compilando elementos já vistos no cinema e, sobretudo, na literatura, mas Cuarón consegue, ainda assim, proporcionar uma visão suficientemente refrescante e pessoal, contando com uma convincente criação dos cenários e impondo uma aura que traduz um clima conturbado e contaminado pela repressão.
Para tal não é alheia a soberba fotografia de Emmanuel Lubezki, com variações cromáticas dominadas por apropiados tons de castanho e cinza, determinantes para a edificação de um ambiente nebuloso e intrigante, e principalmente o trabalho de realização de Cuarón, que em dois ou três momentos atinge a excelência pelo nervo e carga realista que imprime a algumas sequências de antologia (uma atribulada viagem de carro ou, já mais perto do desenlace, a autêntica guerra civil nos prédios em ruínas).

Infelizmente, este rigor técnico não tem contraponto na narrativa, seguidora de uma lógica de videojogo, onde as personagens vão saltitando de nível para nível ou, neste caso, de perigo para perigo, encontrando novos aliados e adversários à medida que a sua fuga decorre.

A escassa solidez do argumento, que não sabe como aproveitar as muitas e pertientes temáticas sugeridas (todavia não aprofundadas), desbarata assim a competência (e a espaços mestria) visual, limitando também as prestações de um elenco forte, mas que mal tem oportunidade de mostrar o que vale. Julianne Moore, Michael Caine e Chiwetel Ejiofor, secundários de luxo, mereciam maior tempo de antena, e cabe assim a Clive Owen carregar o filme às costas, tarefa para a qual se mostra à altura, compondo um protagonista simultaneamente intrépido e desencantado.

Mesmo sendo algo decepcionante no seu desenvolvimento, "Os Filhos do Homem" resulta enquanto um eficaz thriller apocalíptico, já que Cuarón é geralmente bem sucedido na gestão do suspense, sabe filmar imaginativas cenas de acção e mantém o interesse até ao final, encontrando ainda uma valiosa mais-valia no carisma de Owen. Mas não deixa de ser inevitável pensar no grande filme que poderia ter saído daqui...
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, dezembro 04, 2006

UM BANQUETE NO COLISEU

Uma das melhores bandas a surgir em terras de Sua Majestade nos últimos tempos já incluiu Portugal na agenda de concertos para 2007. Os Bloc Party, que com "Silent Alarm" asseguraram um dos melhores discos de 2005, actuam no Coliseu de Lisboa a 18 de Maio, três meses depois da edição do seu novo registo de originais, "A Weekend in the City". As primeiras audições do segundo álbum não me convenceram muito, mas mesmo assim este é um dos concertos que merece desde já destaque na lista dos obrigatórios do próximo ano. Aqui fica uma amostra do que poderá ser visto:

Bloc Party - "Luno (live)"

MARCHA LENTA (E LONGA)

Tendo já concentrado o seu olhar em alguns dos habitantes do bairro das Fontainhas em dois dos seus filmes anteriores, “Ossos” (1997) e “No Quarto da Vanda” (2000), Pedro Costa retorna ao mesmo espaço em “Juventude em Marcha”, focando desta vez a mudança dos habitantes para um bairro social nas imediações.

As fronteiras entre a ficção e documentário voltam a esbater-se nesta obra de arriscada catalogação, pois as personagens são figuras reais e o filme apresenta alguns estilhaços do seu dia-a-dia, colocando-as face a uma câmara quase sempre imóvel, particularmente claustrofóbica nos momentos centrados em Ventura, que tem em “Juventude em Marcha” um protagonismo que no filme anterior pertencia a Vanda, agora moradora do bairro social.

Ventura é aqui a âncora de Costa, e através de episódios do quotidiano deste vai sendo construída uma perspectiva sobre um Portugal raramente mostrado, pelo menos desta forma, expondo uma realidade marcada pelo fenómeno da imigração (neste caso, cabo-verdiana) e pelas condições de vida precárias, e muitas vezes ignoradas, a que os habitantes do bairro estão sujeitos.

Filme-denúncia? Não, pelo menos não no sentido da adopção de intrusivas posições militantes, antes um retrato com um realismo levado ao extremo, estabelecendo relações entre um presente e um passado ainda muito próximo que despoletou drásticas mudanças. Igualmente extremas são as reacções que as opções tomadas por Costa na abordagem deste universo geográfico, social e humano podem trazer, uma vez que, se a temática é pertinente, a forma como é trabalhada arrisca-se a deixar cair por terra as suas potencialidades.

O verismo cru dos espaços e figuras começa por ser inquietante, mas “Juventude em Marcha” vai anulando esse efeito ao apostar em cenas de duvidosa pertinência, repetindo códigos e situações ao longo de duas horas e meia que se tornam cansativas, entediantes e, sobretudo, injustificadas.
Se por vezes se detecta alguma energia visual nos enquadramentos e, em particular, no trabalho de iluminação, tal não compensa a formatação em que o filme se vai afundando progressivamente, sendo vítima de um hermetismo que atinge o ponto de combustão nos inconsequentes planos fixos de quadros, portas, janelas ou paredes, prolongados até à exaustão.

Esta tendência, porventura identificada como marca de autor, é acompanhada por um miserabilismo que, de tão omnipresente, apenas conduz a que o desinteresse pelas personagens se vá instalando, a que não são alheias as apáticas expressões de todas elas, exceptuando Vanda, levando ao limite a rigidez e aridez do projecto.
Torna-se quase impossível encontrar aqui qualquer vestígio de densidade emocional, e embora Costa tente interromper a modorra através da carta que Ventura recita várias vezes, essa opção não passa de um mecanismo forçado, mais piegas do que poético e francamente ingénuo.

Ainda que os seus propósitos possam ser nobres, “Juventude em Marcha” apoia-se numa estrutura formal e narrativa tão impenetrável e alienante que se transforma num exercício de estilo destinado a testar a paciência do espectador.
Muito ambicioso mas pouco intenso e dominado por uma frustrante letargia dramática, fica refém de um esquematismo tão desinteressante como o dos mais banais blockbusters. Com a agravante de, ao contrário destes, “Juventude em Marcha” abusar da dose de pretensão, não estando à sua altura pois raramente consegue ser mais do que um soporífero arty com tiques de reality show.
E O VEREDICTO É: 1/5 - DISPENSÁVEL

domingo, dezembro 03, 2006

PRESENTE QUE NÃO CORTA COM O PASSADO

Na passada sexta-feira, o Teatro Maria Matos marcou o início de uma mini-tournée que conduzirá A Naifa a outras três cidades nacionais: Aveiro, Braga e Faro. O projecto de Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo), Paulo Martins (bateria) e Maria Antónia Mendes, ou Mitó (voz), levou a palco algumas canções dos seus dois discos, quase todas caracterizadas por uma pop híbrida e estimulante que sabe conciliar referências próximas do fado com linguagens electrónicas recentes, propondo uma combinação que já se revelava promissora em "Canções Subterrâneas"(2004) e que encontrou formas mais definidas em "3 Minutos Antes de a Maré Encher"(2006).

Actuando perante uma sala cheia, o quarteto apresentou uma notória coesão e incidiu essencialmente nas canções do segundo álbum, e ainda bem, uma vez que é o registo que contém as suas melhores composições. É o caso da brilhante "A Verdade Apanha-se Com Enganos", da serena e envolvente "Da Uma da Noite às Três da Manhã" e da não menos cativante "Monotone", não esquecendo a muito aplaudida (e dançável) "Señoritas", cujo irresistível ritmo é acompanhado por uma letra plena de fina ironia.

As letras são mesmo um dos trunfos da banda, e embora não sejam da sua autoria, pois recuperam poemas de José Luís Peixoto ou Adília Lopes, entre outros, adaptam-se sem dificuldades ao seu universo musical, sendo caracterizadas tanto por uma considerável carga subversiva ("Fé", "Bairro Velho") como por domínios de um amargurado romantismo ("Todo o Amor do Mundo Não Foi Soficiente" ou "Quando os Nossos Corpos se Separaram").

Para além das canções originais, apresentadas sem arranjos muito diferentes dos dos discos, a noite incluiu ainda pelas versões de temas de nomes tão diversos como Simone de Oliveira ("A Desfolhada"), Três Tristes Tigres ("Subida aos Céus"), Fernando Tordo ("Tourada") ou Mler Ife Dada ("Alfama"), referências que A Naifa conseguiu adaptar com convicção e todas escolhas que fazem sentido tendo em conta as idiossincrasias do projecto.

Os contactos da banda com o público não foram frequentes, mas no encore grande parte dos presentes acedeu sem reservas ao pedido de Mitó (cada vez mais uma vocalista a seguir) e dançou ao som das repetidas "A Desfolhada" e "Señoritas" (muito provavelmente a canção da noite).

Num concerto que durou pouco mais de uma hora (e que soube a pouco), A Naifa voltou a evidenciar-se como um dos mais interessantes projectos nacionais a emergir nos últimos anos, apostando em canções onde tanto a música como a palavra são um elementou vital e, juntas, traduzem uma obra actual, refrescante e genuinamente portuguesa sem olvidarem a herança do passado.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

A Naifa - "Monotone"

DIZ-ME O QUE CANTAS...

Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua, descarnada
Engano de alma ledo e cego
Ó linda inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com perfumes a presa é fácil
Com jóias, casacos de peles
Gosto do amor quando é difícil
E cheiro o meu hálito reles
Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada p’lo sabor a mel
E não pela cor do baton
Engano de alma ledo e cego
Ó linda inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com cabeleira a presa é fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos
Guero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
P’lo meu belo occipital
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com carne viva a presa é fácil
É ordinário e obsoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto
Quero ser amada p’la morte
P’los meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Sobe aos céus
Sobe aos céus

Acima, a letra de uma das versões que A Naifa apresentou no concerto de sexta-feira. Pertence a "Subida aos Céus", canção dos Três Tristes Tigres, e foi uma excelente recordação.