quarta-feira, dezembro 20, 2006

SONHOS EFÉMEROS

Quando, há dois anos, o francês Michel Gondry realizou a sua segunda longa-metragem, “O Despertar da Mente”, não foram poucos os que a consideraram – e justamente – um dos filmes nucleares da primeira metade da década, aliança perfeita entre comédia delirante e drama envolvente, um prodígio de escrita que, combinada com uma peculiar identidade visual e um elenco irrepreensível, deixou muita expectativa quanto às futuras obras do realizador.

“A Ciência dos Sonhos” (La Science des Rêves) tem agora a tarefa ingrata de ser o seu título sucessor e deixa claro que, embora apresente algumas qualidades, está muito abaixo da excelência, ou mesmo de um nível acima da média, ficando longe de ser um marco da década ou sequer do ano.
Reconheça-se que Gondry continua a apostar num trabalho de realização pessoal e imaginativo, herdeiro do cruzamento de minimalismo e surrealismo pelo qual já se havia destacado nos videoclips que dirigiu antes de testar os domínios da sétima arte. O que falta, e de que maneira, é um argumento que consiga coordenar o experimentalismo visual (por vezes brilhante), e sobretudo dar alma às personagens, ou não tivessem sido estas que ajudaram a que “O Despertar da Mente” criasse um raro e difícil elo emocional com o espectador.

A superficial carga dramática é especialmente frustrante uma vez que desperdiça um sólido elenco, não tanto no caso dos protagonistas, mas gritantemente no dos secundários, onde constam, entre outros, Alain Chabat, Aurélia Petit, Sacha Bourdo ou Miou Miou, com pouco ou nada para fazer. Já Gael García Bernal destila carisma na pele de um ilustrador que viaja para Paris, consegue um emprego menos estimulante do que esperava e que entretanto se apaixona pela vizinha do lado, interpretada por uma competente Charlotte Gainsbourg. A dupla resulta bem, mas também prova que a superlativa química partilhada por Jim Carrey e Kate Winslet não é para todos.

Se no filme anterior o motor da acção era a memória, aqui é o universo dos sonhos, cuja abordagem é inventiva e refrescante nos primeiros minutos mas não consegue aguentar-se perante uma acção elíptica e pouco surpreendente. A alternância entre sequências reais e oníricas é curiosa e faria maravilhas num videoclip, mas a forma como é trabalhada aqui não contém trunfos que sustentem uma hora e meia imune a desequilíbrios.

Nota-se, portanto, a ausência da escrita de Charlie Kaufman, e apesar de “A Ciência dos Sonhos” seguir o template edificado pelo argumentista, Gondry nunca consegue ser mais do que um esforçado, embora irregular imitador. Será injusto, mesmo assim, acusá-lo de oferecer aqui um mau filme, pois se este não deixa de ser uma semi-desilusão ainda contém vários momentos meritórios que compensam as suas falhas.
É pena, contudo, que aquilo que acaba por ser uma brincadeira com alguma piada, candura e excentricidade nunca chegue a aproximar-se do objecto admirável e encantador que “A Ciência dos Sonhos” poderia ter sido. Resta esperar que da próxima Gondry acorde mais inspirado.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, dezembro 18, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (III)

"Voltar", de Pedro Almodóvar

sábado, dezembro 16, 2006

2006: A SPACE ODISSEY

Com um atraso de dois meses, lá entreguei ao Spaceboy a compilação que gravei para ele. Como não lhe enviei o alinhamento, deixo-o aqui. Acertaste muitas, João?

DJ Shadow - Six Days (Soulwax Remix)
Orbital - Oi
Flunk - Kebab Shop 3 AM
Mirwais - I Can't Wait
Madonna - Nobody Knows Me (Mount Sims Old School Mix)
Sugababes - It Ain't Easy
Justin Timberlake - My Love (DFA Mix)
Annie - Heartbeat
Cansei de Ser Sexy - Let's Make Love and Listen Death From Above
Bloc Party - Like Eating Glass (Ladytron Zapatista Mix)
Interpol - Stella Was a Diver and She Was Always Down
12 Rounds - Another Day
The Smashing Pumpkins - Never Let Me Down
Mirah - Jerusalem
Rádio Macau - À Distância do Meu Grito
UNKLE - Celestial Annihilation

Annie - "Heartbeat"

quinta-feira, dezembro 14, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "O AMOR NÃO TIRA FÉRIAS"

Numa semana de poucas estreias, e nenhuma especialmente estimulante, o destaque vai, ainda assim, para "O Amor Não Tira Férias" (The Holiday), o mais recente filme de Nancy Meyers, que parece não querer largar o formato da comédia romântica (o público também não tem reclamado até agora, tanto em "O Que as Mulheres Querem" como em "Alguém Tem que Ceder", que sempre foram melhores do que "Pai Para Mim... Mãe Para Ti"). Só pelo elenco - Kate Winslet, Jack Black, Cameron Diaz e Jude Law - já merece o benefício da dúvida, e um feelgood movie de vez em quando, sobretudo em época natalícia, não faz mal a ninguém.

Outras estreias:

"Artur e os Minimeus", de Luc Besson
"Eragon", de Stefen Fangmeier

quarta-feira, dezembro 13, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (II)

"O Segredo de Brokeback Mountain", de Ang Lee

BEM-VINDO A SARAJEVO

Premiado com o Urso de Ouro na mais recente edição do Festival de Berlim, "Filha da Guerra" (Grbavica) marca a estreia de Jasmila Zbanic na realização e, embora não exiba méritos que o incluam na lista de objectos cinematográficos ímpares, é bem sucedido na sua proposta de apresentar um olhar sobre o legado da Guerra dos Balcãs em Sarajevo.

O filme foca a tensa relação entre uma mãe solteira e a sua filha adolescente e através destas vai gerando, de forma sempre sóbria e controlada, o retrato de um quotidiano onde os fantasmas de um passado recente ainda se encontram bem visíveis, tendo deixado várias marcas por cicatrizar.

A realização de Zbanic, de forte travo realista, aproxima-se por vezes de algum cinema documental, e apesar de não exibir particulares sinais de originalidade ou traço autoral é bastante eficaz no verismo que consegue injectar na definição de espaços e ambientes, fazendo-o de um modo francamente mais estimulante do que, por exemplo, o desapontante "Diários da Bósnia", de Joaquim Sapinho.

A abordagem do relacionamento entre a mãe a filha é igualmente consistente, porém também não muito inventiva, uma vez que a fricção que se vai adensando entre as duas, motivada pelas questões que a segunda coloca acerca da identidade do pai, já foi vista em muitos outros dramas ("Aos Doze e Tantos", de Michael Cuesta, é um dos casos mais recentes), e é aqui desenvolvida sem muitas surpresas. A revelação final é, de resto, logo sugerida por algumas cenas dos primeiros minutos, mas felizmente não coloca em causa a forte carga dramática que o filme vai tecendo até lá.

Dispensando rodriguinhos fáceis e recusando transformar as suas personagens em meras vítimas, "Filha da Guerra" contém uma saudável secura emocional, não deixando por isso de ser uma obra comovente. Para além do equilíbrio que Zbanic demonstra, parte do mérito é também das duas actrizes principais, Mirjana Karanovic e Luna Mijovic, exemplares na construção de protagonistas tridimensionais e palpáveis, que ajudam a reforçar a assinalável verosimilhança do projecto. Motivos mais do que suficientes, então, para não se passar ao lado deste pequeno filme, discreto e honesto como poucos.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, dezembro 11, 2006

FOTOGRAMAS DE 2006 (I)

"Match Point", de Woody Allen

domingo, dezembro 10, 2006

AO TERCEIRO (DIA) FOI DE VEZ

O festival Roots & Routes reservou para o séu último dia um dos nomes cimeiros do dubstep, movimento urbano emergente do qual "Memories From the Future", de Kode 9 e The Spaceape, é apontado como um disco exemplar e defendido por muitos como um dos lançamentos discográficos nucleares de 2006. Pese embora algum exagero, a verdade é que a dupla britânica apresentou-se ontem em palco e mostrou ao público do MusicBox tudo o que um concerto deve ser, proporcionando um alinhamento mais rico do que o do álbum de estreia, onde as versões das composições perderam a carga minimalista a favor, e bem, de uma sonoridade mais atmosférica, absorvente e dinâmica.

Geiom

Spaceape, situando-se sempre próximo de um spoken word austero e inquietante, foi um contraponto perfeito para a minuciosa manipulação de beats encetada por um discreto Kode 9, e se os momentos iniciais viveram muito da carga sinistra e densa, quase sonâmbula, que já contaminava o disco, pouco demorou para que Spaceape começasse a interagir com os espectadores, dando início a uma euforia dançável que disseminou pela maioria (todos?) os presentes.
As imagens projectadas atrás do palco, quase todas dominadas por tons brancos, cinzentos e negros, constituíram a única iluminação do espectáculo, adequando-se às palavras de ordem emitidas por Spaceape, onde o sagrado e o profano se misturam num discurso tenso, pungente e quase apocalíptico (não é por acaso que "Sing of the Times", de Prince, foi o tema ouvido durante a entrada do duo).

Sombrio mas vibrante, o concerto foi, e justificadamente, o que registou a maior adesão do festival, tanto a nível do número de espectadores como da energia que se propagou entre estes e os músicos, uma vez que Spaceape saiu por várias vezes do palco para cantar no meio da audiência, comprovando ser um exímio mestre de cerimónias (o que quase fez esquecer a sua entoação algo monocórdica).

Boxcutter

Durante cerca de duas horas imparáveis, sem momentos mortos nem sequer quebras de ritmo, a dupla mostrou que o dubstep respira saúde, e ao vivo é a melhor forma de atestar os seus méritos e singularidades. Atribuir-lhes o título de autores do "disco do ano" será excessivo, mas no campeonato dos concertos não andarão longe disso.

A terceira noite do Roots & Routes registou ainda o live set de Barry Linn, mais conhecido como Boxcutter, rapaz-prodígio irlandês cujo álbum "Oneiric" consta também entre os obrigatórios do dubstep. Embora marcada por alguns problemas de som nos primeiros minutos, a actuação logo fez esquecer esse percalço através de uma vitaminada amálgama sonora, expondo consideráveis doses de experimentalismo sem no entanto cair na auto-indulgência.
Enveredando por domínios ambientais e abstractos, Boxcutter ofereceu um caldeidoscópio electrónico de forte carga urbana e nebulosa, que não poderia ser mais apropriado para noites frias e chuvosas. Entre bleeps imaginativos e espontâneos, oscilações constantes no volume do som e texturas algures entre um Aphex Twin e um DJ Shadow, não esquecendo a determinante contribuição do baixo, Linn mostrou engenho e confirmou-se como um nome a seguir.

Também em registo live set, o espanhol Mwëslee trouxe ao festival um interessante combinado de batidas hip-hop condimentadas com sujas doses de electro e noise, e o britânico Geiom gerou uma sessão à base de dubstep funcional e dinâmico, com pontuais explosões rítmicas não muitos distantes do asian underground.
Antes destes, coube aos portugueses Seenistra meets Sallivah e Unidade Sonora prepararem o início da noite, que terminou com a actuação dos Raska Soundsystem e, por fim, com o set de DJ MK.

Mwëslee

Trazendo a Lisboa alguma da mais estimulante música que foi nascendo nos últimos tempos, o festival Roots & Routes apresentou ao vivo nomes que nunca estiveram abaixo da competência, e alguns destes revelaram-se mesmo como sérios casos a revisitar com urgência, seja no palco do MusicBox ou noutro espaço igualmente acolhedor e intimista. E provou que o dubstep é um movimento com uma alta probabilidade de disseminação depois de efectuado o primeiro contacto, o público presente no concerto de Kode 9 & The Spaceape que o diga.

sábado, dezembro 09, 2006

AO RITMO DO HIP-HOP

Depois dos Various Productions terem iniciado o festival da melhor forma na passada quinta-feira, o segundo dia do Roots & Routes apresentou ontem mais motivos de interesse, tanto nacionais como de fora de portas.

Rocky Marsiano foi um desses casos, músico luso-croata que integra os Micro (onde adopta o alter ego D-Mars) ou Double D Force mas que levou ao MusicBox algumas composições de "The Pyramid Sessions", o seu segundo álbum a solo, editado no ano passado.
Motivo para cerca de uma hora onde o hip-hop e o jazz se entrecruzaram numa sessão maioritariamente instrumental, uma vez que as raras vozes presentes eram sampladas. Interessante exercício de cut n' paste, não propriamente inovador mas envolvente q.b., investindo tanto em momentos mais festivos e efusivos como em episódios pontuados por alguma melancolia. T One na guitarra, Jorge Amado no saxofone e o scratching de DJ Ride ajudaram, proporcionando um acolhedor início de noite.

O segundo dia do festival Roots & Routes contou ainda com os DJ sets de Kalaf, Steinski, Daz I Kue e TM Juke, assim como o concerto de Ty e DJ Big Ted. Para hoje, as propostas incluem Seenistra meets Sallivah (20h), Boxcutter (21h), Mwëslee (22h), Geiom (23h), Unidade Sonora (00h), Kode 9 & The Space Ape (1h), Raska Soundsystem (2h30) e DJ MK (4h).

sexta-feira, dezembro 08, 2006

O FUTURO É AGORA

O festival Roots & Routes, que chega agora a Portugal depois de já ter passado por outros países europeus, tem como propósito divulgar alguns dos nomes em ascensão da música urbana recente, e nesta edição o destaque centra-se essencialmente no dubstep. Movimento londrino cuja sonoridade híbrida recupera traços de muitas outras, desde o 2 step ao dub, passando pelo drum & bass a batidas hip-hop, proporcionou ontem uma amálgama refrescante que não ficou refém das suas influências.

O primeiro dia do festival (a decorrer no MusicBox, no Cais do Sodré) ficou marcado pela actuação dos britânicos Various Productions, um dos porta-estandartes do movimento, cujo álbum de estreia "The World is Gone", editado este ano, lhes tem rendido consideráveis elogios.

Apresentando-se sob o formato live set, não recorrendo às cantoras que colaboram no disco, proporcionaram cerca de hora e meia de cruzamentos sonoros inspirados, embora bastante distantes do legado de algum trip-hop e R&B presentes no álbum. E ainda bem, porque a fusão do set foi mais estimulante, suscitando um apreciável dinamismo através de beats contagiantes envoltos em atmosferas densas e obscuras.
O cruzamento de uma forte pulsão rítmica, sempre presente, com texturas soturnas e opressivas originou um ambiente com tanto de intrigante como de viciante, incitando a dança do público que não ultrapassaria as 50 pessoas mas cujo entusiasmo foi permanente.

A actuação aglutinou, de forma equilibrada, múltiplos géneros e tendências, onde coube tanto o drum & bass (vertente bass acentuada) como discretos temperos rock (via Radiohead, mais uma vez abençoados por nomes da música de dança), passando por vezes por temperos quase tribais ou por uma vibração electro, lembrando ainda o experimentalismo da IDM de um Aphex Twin ou a energia techno de uns Prodigy antes da explosão global. Ficou aguçada a curiosidade para eventuais futuras sessões e justificou-se o hype que se tem disseminado por alguns círculos.

Antes dos Various Productions, coube ao português Mike Stellar ir iniciando a noite enquanto chegavam os primeiros espectadores, e pela madrugada dentro actuaram ainda no MusicBox o espanhol Joan Barbena e Karl Injex, dos EUA, todos através de DJ sets, e ainda houve tempo para um showcase de dança. Hoje à noite o cartaz inclui Kalaf (20h), Rocky Marsiano (21h), João Gomes, dos Cool Hipnoise (22h), Ty e DJ Big Ted (23h), Steinski (00h30), Daz I Kue (2h15) e TM Juke (4h).

quinta-feira, dezembro 07, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "HAPPY FEET"

Outras estreias:

Parece que os pinguins estão mesmo na moda. Depois de serem as melhores (e mais subaproveitadas) personagens de "Madagáscar" e de terem tido direito a um filme próprio em "A Marcha dos Pinguins" (que ficou aquém das expectativas), regressam em "Happy Feet", a mais recente proposta de animação pré-natalícia, realizada pelo australiano George Miller (que já fez um pouco de tudo, desde "Mad Max" a "Um Porquinho Chamado Babe"). A acção segue as peripécias de um pinguim-imperador rejeitado pela sua comunidade por não saber cantar, mas que acaba por encontrar outra espécie onde se destaca por outros aspectos. Será que à terceira é de vez e que desta será feita justiça aos pinguins no cinema?

Outras estreias:

"Alex", de José Alcala
"O Nascimento de Cristo", de Catherine Hardwicke
"Saw III - O Legado", de Darren Lynn Bousman

ROTAS LISBOETAS

Nos próximos dias, as coordenadas musicais em destaque vão situar-se para os lados do Cais do Sodré, no MusicBox, a propósito do Festival Roots & Routes. Alguns dos nomes cimeiros do dubstep, do hip-hop e de territórios aparentados estarão por Lisboa entre hoje à noite e domingo. Kode 9, Various Production, Ty e Boxcutter, entre outros, são alguns dos nomes do cartaz. Line up completo, horários, preços e restantes informações aqui e aqui, e acompanhamento dos principais momentos neste espaço em breve.

Various Production - "Hater"

quarta-feira, dezembro 06, 2006

CATCH THEM IF YOU CAN

Começou, na quinta-feira passada no King, um ciclo dedicado ao Novo Cinema Inglês. "Topsy Turvy", de Mike Leigh, foi o filme inaugural, e nos próximos dias passarão por lá "Rapariga com Brinco de Pérola", de Peter Webber (dia 4, 5 e 6); "Nu", de Mike Leigh (dia 7); "Breakfast on Pluto", de Neil Jordan (dias 11, 12 e 13); "Trainspotting", de Danny Boyle (dia 14 e 15); "Estranhos de Passagem", de Stephen Frears (dia 18, 19 e 20); "28 Dias Depois", de Danny Boyle (dia 21 e 22); "Orgulho e Preconceito", de Joe Wright (dia 26 e 27) e "Mrs. Henderson", de Stephen Frears (dia 28 e 29). "Brisa de Mudança", de Ken Loach, será o último a ser exibido, a 2 e 3 de Janeiro, e todas as sessões são às 19h.
Vou tentar ver, pelo menos, o "Nu", e se possível rever alguns dos outros.

HELLO KITTY

Não fui ao concerto da Cat Power, mas tendo em conta que inspirou este texto do par, acho que deveria ter ido.

terça-feira, dezembro 05, 2006

OS DIAS DO FIM

Realizador alvo de uma crescente internacionalização nos últimos anos, o mexicano Alfonso Cuarón tem sedimentado uma filmografia com tanto de versátil como de desequilibrado, iniciando-a com "A Princesinha" (1995) e "Grandes Esperanças" (em 1998, mais uma adaptação da obra de Dickens), títulos pouco mais do que curiosos, mas revelando contudo uma envolvente singularidade em "E a Tua Mãe Também" (2001), road movie que ofereceu um dos mais belos retratos da adolescência do cinema recente.

"Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" (2004), a sua contribuição para as aventuras do jovem e mediático feiticeiro, acrescentou um recomendável negrume à saga, e se não se saiu mal enquanto trabalho de encomenda também não foi um filme à altura das expectativas geradas pelo seu projecto anterior.

Agora, com "Os Filhos do Homem" (Children of Men), transfere para o grande ecrã o livro homónimo de ficção científica de PD James, cuja acção decorre num futuro próximo (2027) onde o mundo é caracterizado por um caótico contexto de anarquia global, vitimado por sérios problemas de imigração e, sobretudo, por uma crise de infertilidade que se arrasta há anos.

É certo que as atmosferas futuristas que o filme apresenta não são propriamente originais, compilando elementos já vistos no cinema e, sobretudo, na literatura, mas Cuarón consegue, ainda assim, proporcionar uma visão suficientemente refrescante e pessoal, contando com uma convincente criação dos cenários e impondo uma aura que traduz um clima conturbado e contaminado pela repressão.
Para tal não é alheia a soberba fotografia de Emmanuel Lubezki, com variações cromáticas dominadas por apropiados tons de castanho e cinza, determinantes para a edificação de um ambiente nebuloso e intrigante, e principalmente o trabalho de realização de Cuarón, que em dois ou três momentos atinge a excelência pelo nervo e carga realista que imprime a algumas sequências de antologia (uma atribulada viagem de carro ou, já mais perto do desenlace, a autêntica guerra civil nos prédios em ruínas).

Infelizmente, este rigor técnico não tem contraponto na narrativa, seguidora de uma lógica de videojogo, onde as personagens vão saltitando de nível para nível ou, neste caso, de perigo para perigo, encontrando novos aliados e adversários à medida que a sua fuga decorre.

A escassa solidez do argumento, que não sabe como aproveitar as muitas e pertientes temáticas sugeridas (todavia não aprofundadas), desbarata assim a competência (e a espaços mestria) visual, limitando também as prestações de um elenco forte, mas que mal tem oportunidade de mostrar o que vale. Julianne Moore, Michael Caine e Chiwetel Ejiofor, secundários de luxo, mereciam maior tempo de antena, e cabe assim a Clive Owen carregar o filme às costas, tarefa para a qual se mostra à altura, compondo um protagonista simultaneamente intrépido e desencantado.

Mesmo sendo algo decepcionante no seu desenvolvimento, "Os Filhos do Homem" resulta enquanto um eficaz thriller apocalíptico, já que Cuarón é geralmente bem sucedido na gestão do suspense, sabe filmar imaginativas cenas de acção e mantém o interesse até ao final, encontrando ainda uma valiosa mais-valia no carisma de Owen. Mas não deixa de ser inevitável pensar no grande filme que poderia ter saído daqui...
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, dezembro 04, 2006

UM BANQUETE NO COLISEU

Uma das melhores bandas a surgir em terras de Sua Majestade nos últimos tempos já incluiu Portugal na agenda de concertos para 2007. Os Bloc Party, que com "Silent Alarm" asseguraram um dos melhores discos de 2005, actuam no Coliseu de Lisboa a 18 de Maio, três meses depois da edição do seu novo registo de originais, "A Weekend in the City". As primeiras audições do segundo álbum não me convenceram muito, mas mesmo assim este é um dos concertos que merece desde já destaque na lista dos obrigatórios do próximo ano. Aqui fica uma amostra do que poderá ser visto:

Bloc Party - "Luno (live)"

MARCHA LENTA (E LONGA)

Tendo já concentrado o seu olhar em alguns dos habitantes do bairro das Fontainhas em dois dos seus filmes anteriores, “Ossos” (1997) e “No Quarto da Vanda” (2000), Pedro Costa retorna ao mesmo espaço em “Juventude em Marcha”, focando desta vez a mudança dos habitantes para um bairro social nas imediações.

As fronteiras entre a ficção e documentário voltam a esbater-se nesta obra de arriscada catalogação, pois as personagens são figuras reais e o filme apresenta alguns estilhaços do seu dia-a-dia, colocando-as face a uma câmara quase sempre imóvel, particularmente claustrofóbica nos momentos centrados em Ventura, que tem em “Juventude em Marcha” um protagonismo que no filme anterior pertencia a Vanda, agora moradora do bairro social.

Ventura é aqui a âncora de Costa, e através de episódios do quotidiano deste vai sendo construída uma perspectiva sobre um Portugal raramente mostrado, pelo menos desta forma, expondo uma realidade marcada pelo fenómeno da imigração (neste caso, cabo-verdiana) e pelas condições de vida precárias, e muitas vezes ignoradas, a que os habitantes do bairro estão sujeitos.

Filme-denúncia? Não, pelo menos não no sentido da adopção de intrusivas posições militantes, antes um retrato com um realismo levado ao extremo, estabelecendo relações entre um presente e um passado ainda muito próximo que despoletou drásticas mudanças. Igualmente extremas são as reacções que as opções tomadas por Costa na abordagem deste universo geográfico, social e humano podem trazer, uma vez que, se a temática é pertinente, a forma como é trabalhada arrisca-se a deixar cair por terra as suas potencialidades.

O verismo cru dos espaços e figuras começa por ser inquietante, mas “Juventude em Marcha” vai anulando esse efeito ao apostar em cenas de duvidosa pertinência, repetindo códigos e situações ao longo de duas horas e meia que se tornam cansativas, entediantes e, sobretudo, injustificadas.
Se por vezes se detecta alguma energia visual nos enquadramentos e, em particular, no trabalho de iluminação, tal não compensa a formatação em que o filme se vai afundando progressivamente, sendo vítima de um hermetismo que atinge o ponto de combustão nos inconsequentes planos fixos de quadros, portas, janelas ou paredes, prolongados até à exaustão.

Esta tendência, porventura identificada como marca de autor, é acompanhada por um miserabilismo que, de tão omnipresente, apenas conduz a que o desinteresse pelas personagens se vá instalando, a que não são alheias as apáticas expressões de todas elas, exceptuando Vanda, levando ao limite a rigidez e aridez do projecto.
Torna-se quase impossível encontrar aqui qualquer vestígio de densidade emocional, e embora Costa tente interromper a modorra através da carta que Ventura recita várias vezes, essa opção não passa de um mecanismo forçado, mais piegas do que poético e francamente ingénuo.

Ainda que os seus propósitos possam ser nobres, “Juventude em Marcha” apoia-se numa estrutura formal e narrativa tão impenetrável e alienante que se transforma num exercício de estilo destinado a testar a paciência do espectador.
Muito ambicioso mas pouco intenso e dominado por uma frustrante letargia dramática, fica refém de um esquematismo tão desinteressante como o dos mais banais blockbusters. Com a agravante de, ao contrário destes, “Juventude em Marcha” abusar da dose de pretensão, não estando à sua altura pois raramente consegue ser mais do que um soporífero arty com tiques de reality show.
E O VEREDICTO É: 1/5 - DISPENSÁVEL

domingo, dezembro 03, 2006

PRESENTE QUE NÃO CORTA COM O PASSADO

Na passada sexta-feira, o Teatro Maria Matos marcou o início de uma mini-tournée que conduzirá A Naifa a outras três cidades nacionais: Aveiro, Braga e Faro. O projecto de Luís Varatojo (guitarra portuguesa), João Aguardela (baixo), Paulo Martins (bateria) e Maria Antónia Mendes, ou Mitó (voz), levou a palco algumas canções dos seus dois discos, quase todas caracterizadas por uma pop híbrida e estimulante que sabe conciliar referências próximas do fado com linguagens electrónicas recentes, propondo uma combinação que já se revelava promissora em "Canções Subterrâneas"(2004) e que encontrou formas mais definidas em "3 Minutos Antes de a Maré Encher"(2006).

Actuando perante uma sala cheia, o quarteto apresentou uma notória coesão e incidiu essencialmente nas canções do segundo álbum, e ainda bem, uma vez que é o registo que contém as suas melhores composições. É o caso da brilhante "A Verdade Apanha-se Com Enganos", da serena e envolvente "Da Uma da Noite às Três da Manhã" e da não menos cativante "Monotone", não esquecendo a muito aplaudida (e dançável) "Señoritas", cujo irresistível ritmo é acompanhado por uma letra plena de fina ironia.

As letras são mesmo um dos trunfos da banda, e embora não sejam da sua autoria, pois recuperam poemas de José Luís Peixoto ou Adília Lopes, entre outros, adaptam-se sem dificuldades ao seu universo musical, sendo caracterizadas tanto por uma considerável carga subversiva ("Fé", "Bairro Velho") como por domínios de um amargurado romantismo ("Todo o Amor do Mundo Não Foi Soficiente" ou "Quando os Nossos Corpos se Separaram").

Para além das canções originais, apresentadas sem arranjos muito diferentes dos dos discos, a noite incluiu ainda pelas versões de temas de nomes tão diversos como Simone de Oliveira ("A Desfolhada"), Três Tristes Tigres ("Subida aos Céus"), Fernando Tordo ("Tourada") ou Mler Ife Dada ("Alfama"), referências que A Naifa conseguiu adaptar com convicção e todas escolhas que fazem sentido tendo em conta as idiossincrasias do projecto.

Os contactos da banda com o público não foram frequentes, mas no encore grande parte dos presentes acedeu sem reservas ao pedido de Mitó (cada vez mais uma vocalista a seguir) e dançou ao som das repetidas "A Desfolhada" e "Señoritas" (muito provavelmente a canção da noite).

Num concerto que durou pouco mais de uma hora (e que soube a pouco), A Naifa voltou a evidenciar-se como um dos mais interessantes projectos nacionais a emergir nos últimos anos, apostando em canções onde tanto a música como a palavra são um elementou vital e, juntas, traduzem uma obra actual, refrescante e genuinamente portuguesa sem olvidarem a herança do passado.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

A Naifa - "Monotone"

DIZ-ME O QUE CANTAS...

Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua, descarnada
Engano de alma ledo e cego
Ó linda inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com perfumes a presa é fácil
Com jóias, casacos de peles
Gosto do amor quando é difícil
E cheiro o meu hálito reles
Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada p’lo sabor a mel
E não pela cor do baton
Engano de alma ledo e cego
Ó linda inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com cabeleira a presa é fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos
Guero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
P’lo meu belo occipital
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com carne viva a presa é fácil
É ordinário e obsoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto
Quero ser amada p’la morte
P’los meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Sobe aos céus
Sobe aos céus

Acima, a letra de uma das versões que A Naifa apresentou no concerto de sexta-feira. Pertence a "Subida aos Céus", canção dos Três Tristes Tigres, e foi uma excelente recordação.

quinta-feira, novembro 30, 2006

7 BLOGUES, 6 ESTREIAS, 5 ESTRELAS

À semelhança do que ocorreu em relação a Outubro, alguns bloggers (Paulo Costa, gonn1000, Francisco Mendes, dermot e Knoxville, o autor da iniciativa) voltaram a reunir as suas classificações a algumas das estreias do mês. Acima fica a tabela de Novembro, agora com a salutar colaboração feminina da H. e da Wasted Blues. É bom ver que a diferença de gostos e sensibilidades não invalida a participação num projecto comum, venham mais filmes :)

ESTREIA DA SEMANA: "A RAINHA"

Seguindo a reacção da Família Real britânica à súbita morte da Princesa Diana, em particular a postura adoptada pela Rainha Isabel II, "A Rainha" (The Queen) é um drama cujo argumento e a actriz principal, Helen Mirren, foram premiados no último festival de Veneza. Tendo em conta a obra do realizador Stephen Frears ("Alta Fidelidadede", "Mrs. Henderson"), este promete ser um filme no mínimo curioso.

Outras estreias:

"Borat: Aprender Cultura da America Para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão", de Larry Charles
"Por Água Abaixo", de David Bowers, Sam Fell

quarta-feira, novembro 29, 2006

CRUELDADE TOLERÁVEL

Filme de época ambientado num Portugal rural de meados do século XIX, "Viúva Rica Solteira Não Fica" é uma comédia negra que se concentra nas peripécias de uma jovem viúva brasileira, cuja fortuna vai crescendo à medida que os seus sucessivos maridos vão falecendo.

De tom ligeiro e espirituoso, a mais recente película de José Fonseca e Costa ("Kilas, o Mau da Fita", "A Balada da Praia dos Cães") lança um olhar que se pretende corrosivo sobre a aristocracia, a religião e os costumes de outros tempos - embora com algumas observações ainda válidas para os dias de hoje -, definindo um núcleo de personagens onde cedo se percebe que quase nenhuma é inocente, sobrando no final aquelas cuja argúcia e sentido de oportunidade lhes permite prosperar.

Longe de inovador, apostando num trabalho de realização competente mas sem rasgos e num argumento simples e linear, o filme vale por conseguir funcionar enquanto entretenimento minimamente inteligente e acessível, aspecto que, se não o torna num objecto marcante, também não é negligenciável tendo em conta o cinema que se faz por cá.

Fonseca e Costa acerta ainda na direcção de actores (Bianca Byington, Cucha Carvalheiro, José Raposo e Rogério Samora cumprem, Ricardo Pereira não destoa e apenas Diogo Dória falha no tom, adoptando uma postura demasiado teatral) e na reconstituição de época, mais modesta do que pomposa mas que serve sem reparos as necessidades da história, contudo não apresenta um equilíbrio tão coeso no argumento, que a partir de certo ponto se torna redundante e leva a um desfecho nada surpreendente.
Os diálogos, não sendo de desprezar, também não são tão irónicos nem mordazes como se esperaria, e as personagens nunca conseguem soltar-se de uma caracterização, no máximo, bidimensional.

Tendo em conta estes desequilíbrios, o filme dificilmente mantém o entusiasmo do espectador ao longo das suas mais de duas horas, uma duração claramente excessiva para um material tão limitado, ainda que curioso. Mesmo assim, é mais interessante do que "O Fascínio", a desapontante obra anterior de Fonseca e Costa, e num ano em que outros "autores" nacionais se mostraram pouco ou nada inspirados (como Fernando Lopes em "98 Octanas" ou Pedro Costa em "Juventude em Marcha"), "Viúva Rica Solteira Não Fica" consegue gerar, pelo menos, alguma simpatia e não desmerece um visionamento.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, novembro 27, 2006

CRIME SOB INVESTIGAÇÃO

"Brick", estreia de Rian Johnson na realização, chega a salas nacionais após uma entusiástica recepção internacional, com destaque para o Grande Prémio do Júri para Visão Original no Festival de Sundance, em 2005. Os elogios chegam ao ponto de comparar o filme a outras primeiras-obras auspiciosas de círculos indie, como "Donnie Darko", de Richard Kelly, mas se "Brick" contém alguns méritos que justificam a sua descoberta nunca chega, contudo, a aproximar-se da genialidade ou sequer de um nível de inspiração muito acima da média.

A proposta, apresentar uma história com claras alusões ao film noir mas inesperadamente ambientada no universo estudantil de um liceu, é criativa e aliciante, e embora Johnson consiga desenvolvê-la com algum engenho a execução acaba por ficar aquém das potencialidades da premissa.

Seguindo a investigação do protagonista, que procura descobrir os responsáveis pela morte da ex-namorada, o filme mantém certas coordenadas do policial negro, aqui abordadas de forma suficientemente refrescante. Não falta uma sisuda, perspicaz e solitária personagem principal, obstinada em resolver um mistério sinistro, nem as enigmáticas femmes fatales que vão surgindo no seu caminho, assim como outras figuras de moral ambígua e presença desconfortante.

A envolvente realização de Johnson, por vezes próxima da de Chris Nolan, é eficaz na edificação de uma soturna atmosfera urbana, os diálogos são certeiros e temperados com doses suficientes de humor negro e o elenco, todo ele jovem, está à altura das necessidades do projecto, em particular o protagonista Joseph Gordon-Levitt, que não poderia estar mais longe do imberbe papel através do qual se celebrizou na série "Terceiro Calhau a Contar do Sol".

O que falha, então, neste ambicioso exercício de estilo? Sobretudo o argumento, que ao querer ser tão complexo e intrigante torna-se excessivamente clínico e cerebral, e se nunca deixa de ser curioso de seguir leva-se demasiado a sério e não é capaz de gerar a carga dramática que se esperaria. Com a eventual excepção da personagem de Gordon-Levitt, todas as outras ficam reféns de uma vertente meramente funcional, sendo pouco mais do que peças de um jogo inteligente q.b., mas distante do brilhantismo.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

domingo, novembro 26, 2006

DOGGIE STYLE

Para os fãs de cães saltitantes (e eu sei que são muitos), deixo aqui o vídeo de "Poney Pt. 1", do Vitalic, um dos muitos temas viciantes de "OK Cowboy!", editado no ano passado:

sábado, novembro 25, 2006

CRIANÇAS INVISÍVEIS

Nos últimos anos, Robin Williams tem participado em alguns projectos que contrariam a sua imagem de marca tendencialmente associada à comédia, género que marcou grande parte da sua carreira. Títulos como "Insomnia", de Chris Nolan, e sobretudo "Câmara Indiscreta", de Mark Romanek, ajudaram a confirmar a versatilidade do actor, propondo-lhe outro tipo de registos aos quais se adaptou com considerável solidez.

"Uma Voz na Noite" (The Night Listener) é mais um desses exemplos, misto de drama e thriller psicológico onde um popular radialista inicia uma relação de cumplicidade por telefone com um dos seus ouvintes, um adolescente de saúde frágil, seropositivo e com uma infância atormentada por abusos sexuais.

Williams compõe um sólido protagonista, Gabriel Noone, cujo final do relacionamento com o companheiro mais novo o confronta com o seu envelhecimento e solidão, encontrando refúgio nas conversas com o seu intrigante jovem fã, de quem se torna confidente.
No entanto, à medida que a amizade entre os dois se vai desenvolvendo, Noone começa a ter dúvidas acerca da identidade do seu interlocutor, o que o leva a tentar encontrá-lo, mas sem sucesso, devido à interferência da suposta tutora do jovem.

O realizador Patrick Stettner modela um filme seguro e promissor durante a primeira metade, desenvolvendo um sóbrio drama suportado por personagens com potencial e conseguindo gerar uma apropriada atmosfera intimista. O problema é que, à medida que o argumento vai intensificando a carga de mistério, aproximando-se do thriller, "Uma Voz na Noite" arrasta-se para domínios mais indistintos e minados por algumas doses de previsibilidade.
O filme não deixa de ser absorvente até ao final, mas a capacidade de surpreender é diminuta e o suspense, que se insinua a espaços, é desaproveitado por revelações que, a partir de certa altura, já são óbvias para um espectador minimamente atento.

Um falhanço interessante, portanto, que tem o mérito de, mesmo sendo desigual, nunca abusar de sequências de perseguições redundantes e sustos formatados que a segunda parte encorajava. E para além de Williams, inclui ainda uma irrepreensível galeria de actores secundários composta por Rory Culkin, Sandra Oh, Bobby Cannavale e Toni Collette, esta última no melhor desempenho do filme, entregue a uma personagem difícil que, se interpretada por uma actriz mediana, não sairia da caricatura. É também por isso uma pena que, no obrigatório balanço final, e pese embora alguma ocasional inspiração, "Uma Voz na Noite" não consiga ultrapassar a barreira de uma esforçada competência.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, novembro 23, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "007 - CASINO ROYALE"

Estreia hoje um dos filmes da saga 007 que mais burburinho gerou nos últimos anos, "007 - Casino Royale". Para além de se centrar na primeira missão do agente secreto mais famoso do mundo, explicando inclusivamente a origem do seu nome de código, o filme foi alvo de polémica devido à escolha de um novo actor para o papel, Daniel Craig, e por apresentar uma vertente mais dura e crua das aventuras da personagem. No entanto, não falta quem garanta que este é um dos melhores filmes da saga em muito tempo, e Craig já provou ser um actor a ter em conta em filmes como "O Fardo do Amor", "Sylvia" ou "Munique". Martin Campbell, tarefeiro por vezes competente ("Goldeneye", "A Máscara de Zorro"), assina a realização.

Outras estreias:

"667 - O Vizinho da Besta", de Eduardo Condorcet
"Filha da Guerra", de Jasmila Zbanic
"Infame", de Douglas McGrath
"Juventude em Marcha", de Pedro Costa
"Obrigado por Fumar", de Jason Reitman
"Step Up", de Anne Fletcher

quarta-feira, novembro 22, 2006

A WEEKEND IN THE CITY III: 19/11



Fundação de Serralves - Arte(?) dos ANOS 80: UMA TOPOLOGIA

A WEEKEND IN THE CITY II: 18/11

Herbie Hancock Quartet, ou antes, quase três horas onde o virtuosismo do músico e do trio que o acompanhou não se traduziu num concerto estimulante, bem pelo contrário. Enfim, pelo menos o Herbie é um senhor simpático e com sentido de humor, e sempre foi uma forma de ir conhecer a Casa da Música (mais detalhes aqui). Também foi uma forma de ficar pelas redondezas e terminar (bem) a noite no Triplex, ali mesmo ao lado, onde esteve outro blogger a passar discos.

A WEEKEND IN THE CITY I: 17/11

Oportuna a altura da passagem pelo Porto, já que na mesma noite possibilitou rever os You Should Go Ahead em palco e, depois, iniciar a madrugada com o dj set de Akufen.
A banda portuguesa foi pretexto para ir conhecer O Meu Mercedes é Maior Que o Teu, e se a zona da ribeira estava estranhamente vazia para uma sexta-feira à noite o mesmo não se pode dizer do espaço que acolheu a actuação do grupo, que foi enchendo aos poucos. Justificou-se, já que o concerto, apesar dos atrasos, foi escorreito e mostrou um projecto com potencial, capaz de apresentar uma quantidade suficiente de boas canções, mesmo não atingindo o patamar das influências óbvias (Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, We Are Scientists). Não acrescentam muito às já demasiadas bandas herdeiras do pós-punk (algo já evidente no disco), mas o concentrado de energia e entusiasmo convence.

Para algo completamente diferente, o sueco Akufen levou ao Bazaar um set marcado por batidas techno e microhouse, mas deu pena ver um cardápio sonoro tão hipnótico e funcional ser desperdiçado perante um público cuja reacção raramente se afastou da indiferença. Gostei do local, sofisticado e confortável, que ainda não conhecia. Não gostei tanto do ambiente, já que parecia ser mais interessante para a maioria ir beber martinis na varanda do que ocupar a pista de dança, onde a música era encarada como mais um acessório decorativo.

CIRCULAR, CIRCULAR...

Os problemas relatados no post anterior estão, aparentente, resolvidos, espero que o Blogger não volte a pregar-me partidas tão cedo...

segunda-feira, novembro 20, 2006

BLAME BLOGGER

Os leitores mais assíduos do gonn1000 terão notado que recentemente o blog ficou aparentemente vazio, com um layout que continha apenas o fundo pré-definido. Ora estive pela Invicta nos últimos dias e, entretanto, sem qualquer motivo concebível, as formatações que tinha no template desapareceram, o que fez com que, embora o arquivo do blog continuasse intacto, os posts não tenham estado visíveis.
Já consegui corrigir parte deste erro inesperado, mas por qualquer razão que me escapa não consigo alterar parte do template da página inicial do blog, e por isso os muitos links internos e externos, assim com as restantes personalizações que o mesmo continha, só estão disponíveis através dos arquivos mensais ali no lado esquerdo. Peço desculpa a quem passou por aqui entretanto e espero que estes problemas do Blogger sejam passageiros, porque se for para continuar assim ainda acabo mesmo por mudar de plataforma.
Obrigado à Sunday, à Lid e ao Kraak por me terem avisado ;)

quinta-feira, novembro 16, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "A CIÊNCIA DOS SONHOS"

Numa semana de muitas estreias, o destaque - sem concorrência à altura, ao que parece - vai para "A Ciência dos Sonhos" (The Science of Sleep), o novo filme de Michel Gondry, cuja obra anterior, "O Despertar da Mente", é muito estimado por estes lados.
Gael García Bernal é o protagonista de mais um conto bizarro onde o real e o onírico voltam a misturar-se, característica que já vai sendo predominante nos trabalhos do realizador (incluindo os videoclips, onde ganhou parte da reputação).
Histórias de amor parisienses têm sido o mote para algumas estreias recentes, e a tendência repete-se aqui, mas espera-se que Gondry tenha conseguido dar a esta uma ressonância peculiar.
Para além deste, vale a pena não deixar passar pelo menos outro dos novos filmes em cartaz, "Brick", a primeira obra de Rian Johnson centrada num grupo de adolescentes, um curioso drama que incorpora referências do film noir.
Outras estreias:

"16 Blocks", de Richard Donner
"Brick", de Rian Johnson
"Corrigindo Beethoven", de Agnieszka Holland
"Estranhos", de Simon Brand
"Massacre no Texas - O Início", de Jonathan Liebesman
"O Lugar Ideal", de Danièle Thompson
"Um Ano Especial", de Ridley Scott
"Viúva Rica Solteira Não Fica", de José Fonseca e Costa

quarta-feira, novembro 15, 2006

PROGRAMAÇÃO SAUDÁVEL

Depois de séries como "Serviço de Urgências", "Scrubs: Médicos e Estagiários" ou "House" terem levado os dramas/comédias médicas aos lugares cimeiros das tabelas de audiências, chega hoje mais uma. "Anatomia de Grey" (Grey's Anatomy) estreia às 22h50m na RTP1 e, segundo consta, vale a pena espreitá-la.

terça-feira, novembro 14, 2006

GANGS DE BOSTON

Nos seus dois filmes anteriores, "Gangs de Nova Iorque" e "O Aviador", Martin Scorsese ofereceu grandes produções de época, luxuosamente embrulhadas por um apuro técnico irrepreensível e apenas ao alcance de alguns que foi, no entanto, desperdiçado por debilidades na construção da narrativa e das personagens. Não deixavam de possuir algumas sequências memoráveis, mas como um todo o balanço qualitativo era irregular e faltava-lhes o nervo e a densidade pelos quais o cineasta se notabilizou ao longo dos anos.

"The Departed: Entre Inimigos" assinala o regresso aos ambientes urbanos e claustrofóbicos que definiram o percurso inicial do realizador, propondo um misto de thriller e drama ancorado em dois polícias, que têm em comum o facto de serem agentes infiltrados.
Um, Billy Costigan, está no início da carreira e o seu passado obscuro torna-o na escolha perfeita para se infiltrar num gang da máfia irlandesa de Boston. O outro, Colin Sullivan, distinguiu-se pelo seu percurso bem-sucedido na Unidade Especial de Investigação mas esconde um perigoso segredo dos seus colegas, uma vez que integrou a polícia para reportar ao líder do mesmo gang as principais estratégias desta.

Parte jogo do gato-e-do-rato, desenvolvendo uma intrincada teia de ligações e perseguições, parte mergulho nos dilemas e medos existenciais dos dois protagonistas, que se debatem com as contradições das suas identidades, o filme é um exercício de estilo bem oleado, sabendo como conduzir uma narrativa intrigante sustentada por personagens complexas.

Remake do primeiro capítulo de "Infiltrados" (Infernal Affairs), a trilogia policial criada pela dupla de Hong Kong Andrew Lau e Alan Mak, "The Departed: Entre Inimigos" recupera de facto alguns dos elementos essenciais da acção dessa película mas deixa bem visível a mudança de realizador.
Aproximando-se das atmosferas de outros títulos de Scorsese como "Tudo Bons Rapazes", o filme não deixa de efectuar, de forma mais ou menos directa, um olhar sobre a América, como já é habitual na filmografia do cineasta, em particular sobre a miscenização de culturas, aspecto determinante para a construção da personagem de Billy Costigan.

O realizador volta a apresentar aqui uma obra vincada pela elegância formal, com uma inatacável solidez na montagem, capaz de imprimir um ritmo que, ao contrário do dos dois filmes anteriores, nunca acusa as duas horas e meia de duração. A banda-sonora a cargo de Howard Shore, discreta e cativante, é apropriada aos ambientes do filme, modelados em parte pela fotografia de Michael Ballhaus, investindo essencialmente em tons castanhos-alaranjados, em tudo contrastantes com os azuis metálicos de "Infiltrados".

"The Departed: Entre Inimigos" conta com uma tensão bem gerida e, para além do realizador, há que reconhecer o mérito dos actores, quase todos nomes de peso, tanto os principais como os secundários.
Dos protagonistas, Matt Damon dá mais uma prova de talento numa interpretação segura, mas é Leonardo DiCaprio o que mais surpreende no desempenho de Billy Costigan, através do qual o actor oferece um sóbrio retrato da solidão e inadaptação, numa personagem em fuga e quase sem portos de abrigo, a mais interessante, comovente e complexa do filme. Jack Nicholson proporciona mais uma lição de interpretação (uma das melhores dos últimos tempos), conciliando um sentido de humor (negro) e um peculiar calculismo no papel do chefe do gang e a menos mediática Vera Farmiga confirma a boa impressão deixada em "Medo de Morte", no início deste ano.

Scorsese edifica aqui uma obra estimulante e acima da média mas que, infelizmente, não chega a atingir o estatuto de imprescindível devido às opções tomadas na construção da personagem de Matt Damon. Embora servido por um bom desempenho, Colin Sullivan não contém a ambiguidade nem a inquietação da sua personagem análoga de "Infiltrados", movendo-se sempre em nome de interesses pessoais e nunca questionando a sua conduta. As preocupações que advêm do seu cargo de "toupeira" giram somente em torno da sua sobrevivência e prosperidade, e teria sido mais interessante se a personagem colocasse a sua moral em causa, tornando a película menos maniqueísta e reforçando as semelhanças dos dois protagonistas.
Pior é o final que o filme lhe reserva em virtude dessa postura, mais convencional e menos desafiante do que o do filme de Andrew Lau e Alan Mak. É pena que um filme com um desenvolvimento tão inteligente e minuciosamente arquitectado termine de uma forma pouco corajosa, mas "The Departed: Entre Inimigos" sobrevive bem a esse desequilíbrio e funciona tanto como um entretenimento de topo como enquanto uma experiência cinematográfica de méritos inegáveis, ou não fosse o melhor Scorsese em muitos anos.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sábado, novembro 11, 2006

SATURDAY NIGHT FEVER


Sugestão para hoje: Tree Eléctrico (aka O Puto) no Bar do Bairro

sexta-feira, novembro 10, 2006

SOMETIMES I THINK THAT I'M BIGGER THAN THE SOUND


The Smashing Pumpkins - "Perfect"


Yeah Yeah Yeahs - "Cheated Hearts"


New Order - "True Faith"
Três canções:
Uma mais antiga, outra mais recente, outra mais ou menos. Neste momento, fazem sentido. Estas e mais vinte e duas, pelo menos.

quinta-feira, novembro 09, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "THE DEPARTED - ENTRE INIMIGOS"

Depois do desapontante "O Aviador", Martin Scorsese está de volta e desta vez com um filme bem mais estimulante. "The Departed - Entre Inimigos" é um remake do primeiro episódio da trilogia de Hong Kong "Infiltrados", um thriller onde Matt Damon e o reincidente Leonardo DiCaprio se perseguem mutuamente e lidam com as suas trocas de identidade, encontrando-se infiltrados em facções opostas: um na polícia, outro num gang. Um dos filmes mais aguardados dos últimos meses de 2006 a descobrir a partir de hoje, e mesmo que o resultado não seja uma obra-prima a espera valeu a pena.

Outras estreias:

"Irresistível", de Ann Turner
"O Perfume - História de um Assassino", de Tom Tykwer
"Os Rebeldes da Bola", de Joachim Masannek
"Uma Voz na Noite", de Patrick Stettner

quarta-feira, novembro 08, 2006

TERAPIA DE GRUPO

Uma das surpresas do último festival de Sundance, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" (Little Miss Sunshine) tem tido uma recepção crítica francamante positiva, tanto a nível internacional como nacional, e se esta estreia nas longas-metragens de Jonathan Dayton e Valerie Faris, casal de realizadores com experiência nos videoclips, tem méritos mais do que suficientes para justificar vários elogios, não é menos verdade que entre estes não se encontra propriamente a reinvenção de códigos que têm começado a formatar o cinema independente norte-americano.

Esta dramedy on the road segue a viagem de uma família (disfuncional, como não poderia deixar de ser) que se desloca numa velha carrinha até à Califórnia para que a filha mais nova, Olive, possa concorrer a um concurso de beleza para crianças. Entre a partida e a chegada, surgem uma série de peripécias através das quais os ténues elos de ligação serão reforçados, levando a que todos os elementos contribuam, voluntária ou acidentalmente, para que a família se torne mais coesa e unida.

Se o desenvolvimento desta premissa é geralmente previsível, as personagens não são muito mais surpreendentes, constituíndo uma galeria de outcasts à medida daqueles que o cinema indie tanto tende a privilegiar.
Desde o pai, obcecado pelo sucesso e cujo livro sobre os novos passos para o atingir está prestes a ser editado; passando pelo filho adolescente, em voto de silêncio até conseguir entrar para a escola de aviação; pelo avô, viciado em heroína e de temperamento difícil; ou pelo tio homossexual e especialista em Proust, que tenta reorganizar a sua vida após uma tentativa de suicídio; não faltam aqui protagonistas dominados por alguma bizarria. As excepções acabam por ser as figuras femininas, tanto a mãe, que se esforça por fazer com que a família não desmorone, como a pequena filha, optimista e entregue ao sonho de ganhar o título de "Little Miss Sunshine".

Estas personagens geram uma dinâmica curiosa, mas individualmente é raro ultrapassarem a caricatura, sendo pouco mais do que variações de arquétipos do loser excêntrico em que o cinema independente norte-americano se tem alicerçado.
Felizmente, a direcção de actores joga a seu favor, já que Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carell, Abigail Breslin, Paul Dano e Alan Arkin apresentam interpretações sem falhas que conseguem compensar, pelo menos em parte, a bidimensionalidade a que o argumento de "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" sujeita os seus papéis, dotando o filme de um dos elencos mais invejáveis do ano. Carrell e Dano são particularmente bem-sucedidos, o primeiro nos antípodas da personagem que o ajudou a celebrizar-se em "Virgem aos Quarenta Anos" e o segundo a mostrar talento e versatilidade depois da boa impressão deixada por "L.I.E. - Sem Saída" e "A Balada de Jack e Rose".

O carisma do elenco é responsável por grande parte do apelo do filme, mas o argumento de Michael Arndt também tem tem mérito ao enveredar por territórios reconhecíveis sem se limitar a repisar lugares-comuns, conseguindo mesmo inverter as expectativas a espaços. Pontualmente escorrega no tom, como nas sequências do hospital e nas que estão dependentes desta (mais apropriadas a filmes como "Fim-de-Semana com o Morto"), contudo a combinação de comédia com drama é quase sempre feita com engenho, exigência e, mais importante, alma, oferecendo algumas cenas ora hilariantes (os gags da buzina são de antologia) ora desencantadas (como nas da revolta da personagem de Dano).

A crítica ao culto do sucesso em terras do tio Sam não é muito subtil nem sequer original (um concurso de beleza é um alvo demasiado fácil) e na segunda metade do filme o auge da união familiar mistura-se com a defesa de uma questionável irreverência desmedida, mas reconheça-se que, não obstante os seus defeitos e a opção pelo template indie, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" irradia um encanto próprio e é um dos mais saborosos feelgood movies dos últimos tempos. Não revoluciona, mas é uma primeira obra muito promissora.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

terça-feira, novembro 07, 2006

A ALICE VOLTOU

O muito elogiado (e, convenhamos, algo sobrevalorizado) "Alice", estreia na realização de longas-metragens de Marco Martins, já tem edição em DVD. O lançamento decorreu ontem na FNAC do Chiado e contou com a presença do realizador, dos actores Nuno Lopes e Beatriz Batarda e do autor da banda-sonora, Bernardo Sassetti. Mais detalhes aqui.

CHUVA CHUVA CHUVINHA

Em jeito de recordação dos Leftfield, deixo-vos com um dos vídeos mais apropriados para estes dias de chuva. "Swords", colaboração da dupla com Nicole Willis.

domingo, novembro 05, 2006

HERÓIS DO MAR

Admita-se que, à partida, "O Guardião" (The Guardian) não contém muitos elementos que suscitem especial curiosidade, tendo em conta que Kevin Costner, o protagonista, não tem escolhido projectos particularmente estimulantes há já vários anos (excepção feita ao muito recomendável "O Lado Bom da Fúria"), que Ashton Kutcher se destaca mais pelo facto de ser o marido de Demi Moore do que pelo seu talento interpretativo e que Andrew Davis, apesar de contar com o interessante "O Fugitivo" no seu currículo de realizador, nunca mais fez nada ao nível desse filme, dedicando-se a obras menores como "Um Homicídio Perfeito" ou "Danos Colaterais".
Para complementar, esta história sobre dois nadadores-salvadores da Guarda-Costeira é antecipada por um trailer que sugere um blockbuster edificante e recheado de clichés, onde o patriotismo exacerbado ameaça ser um dos mais fortes.

Visto o filme, e talvez devido às baixas expectativas, a impressão que fica é a de que "O Guardião", mesmo previsível e formatado a espaços, apresenta uma assinalável solidez, situando-se uns degraus acima do dramalhão insuflado e postiço que constituiria um rumo mais fácil. Costner regista aqui uma das suas apostas mais felizes dos últimos tempos, Kutcher cumpre mas ainda não é desta que se torna num actor digno de relevo e Davis revela eficácia, e embora não seja mais do que um tarefeiro não se pode apontar-lhe falta de competência.

Ainda que "O Guardião" possa ser considerado um filme de acção, será redutor limitá-lo a esse rótulo, uma vez que evidencia uma consistência dramática considerável. Esta deve-se sobretudo à personagem de Costner, um nadador-salvador veterano obrigado a ocupar o cargo de instrutor após uma missão mal sucedida que conduziu à morte dos seus colegas. Na sua nova função, vai consolidando uma ligação forte mas tensa com o seu instruendo mais apto - e é aqui que entra Kutcher -, inicialmente vincada por episódios algo conturbados e aos poucos amenizada à medida que são decobertos pontos de contacto, em particular a solidão e os fantasmas do passado que se escondem por detrás da palpável obstinação.

Andrew Davis não oferece aqui uma obra que respire novidade, porém tem o mérito de dar a Costner uma personagem complexa e tridimensional, a que o actor responde com um desempenho à altura, conciliando maturidade e densidade e fazendo lamentar a sua participação em filmes menores. O desenvolvimento do argumento é mais convencional do que arriscado, mas pelo menos resiste à tentação de injectar cenas de acção forçadas e inconsequentes, e as poucas que surgem são justificáveis e filmadas com eficácia.

Há algumas sequências demasiado expositivas e fastidiosas - caso das que focam os treinos dos jovens recrutas -, o desenlace delicodoce não faz justiça à sobriedade presente até então e a personagem de Kutcher poderia ser mais desenvolvida, assim como as de Sela Ward e Melissa Sagemiller (ambas com interpretações sem reparos), e por isso "O Guardião" resulta numa película irregular. Contudo, tem a seu favor o facto de ser um filme modesto, o que se não o torna num dos candidatos a integrar a elite dos memoráveis também não o impede de conseguir proporcionar um envolvente estudo de personagem.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, novembro 03, 2006

5 BLOGUES, 5 ESTREIAS, 5 ESTRELAS

A convite do Knoxville, aceitei participar na lista de "Cinco Blogues, Cinco Estreias, Cinco Estrelas?", que reúne as classificações dos responsáveis por cinco blogues (Cinema Notebook, CinePT, gonn1000, Pasmos Filtrados e Royale With Cheese) sobre algumas das principais estreias do mês. Começámos em Outubro, e acima ficam os filmes escolhidos para a tabela inaugural.

BLINKS & LINKS (58)

quinta-feira, novembro 02, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "EM PARIS"

Estreia hoje o novo filme de Christophe Honoré, que no anterior "Minha Mãe" se candidatava a novo enfant terrible mas que apresenta neste "Em Paris" (Dans Paris) um olhar menos áspero e negro sobre as relações humanas, em especial as familiares. O filme segue um dia na vida de dois irmãos, o mais velho em depressão, o mais novo a tentar ajudá-lo enquanto reencontra a sua ex-namorada. Romain Duris e Louis Garrel protagonizam este drama com toques de comédia, uma das melhores obras da última edição da Festa do Cinema Francês.

Outras estreias:

"Manual de Amor", de Giovanni Veronesi
"O Ilusionista", de Neil Burger
"Paris, Je t' Aime", vários realizadores

O MEU IRMÃO, EU E O MEU IRMÃO

Os primeiros momentos de “Em Paris” (Dans Paris) podem levar o espectador a pensar que o filme é mais um dos que peca por ser demasiado “espertalhão” e auto-consciente, tanto pela forma como uma das personagens fala directamente para a câmara, caracterizando-se simultaneamente como narrador, como pelo enfoque algo obsessivo, e que ameaça cair na redundância, sobre a relação conjugal de dois jovens.
Se se tiver em conta que a realização está a cargo de Christophe Honoré, cuja película anterior, “Minha Mãe”, se aproximava perigosamente da pretensão e do choque gratuito, então poderá temer-se que em “Em Paris” o cineasta tenha alargado o espaço para a auto-indulgência mascarada de transgressão e ousadia.

No entanto, após os minutos iniciais, o filme vai colocando de parte esta carga mais ostensiva para se dedicar, e ainda bem, ao que acaba por ter de melhor: um conjunto de personagens bem trabalhadas, unidas pelos laços familiares e entretanto afastadas por muitos outros factores que parecem agora irrisórios quando um dos elementos da família atravessa um momento crítico.

“Em Paris” assenta na relação de dois irmãos, Guillaume, o mais velho, que regressa do interior de França a Paris após o fim de um relacionamento que o deixou à beira da depressão, e Jonathan, o mais novo, que aí vive com o pai e leva uma vida despreocupada.
O estado desolado do primeiro leva a que o segundo, assim como os pais, tentem encontrar uma solução para o afastar do abismo, mas o melhor em que Jonathan consegue pensar é num desafio ao irmão, que o obrigará a ir ter consigo para passearem juntos pelo Bon Marché de Paris, à semelhança do que ocorria quando eram crianças.
Contudo, e ao contrário do combinado, Jonathan acaba por demorar mais de uma manhã a chegar ao local marcado, e o filme segue os episódios decorridos ao longo desse dia que vão, aos poucos e de forma mais ou menos directa, mudando a atitude e a ligação dos dois protagonistas.

Inesperadamente afastado da aura fria e clínica de “Minha Mãe”, “Em Paris” partilha com este um olhar sobre as relações humanas, em especial as familiares, que desta vez é bem mais caloroso, a espaços mesmo percorrido por uma envolvente candura, ainda que não deixe de evidenciar as contrariedades das emoções ou as dificuldades de comunicação geradas entre os que estão unidos pelo sangue.
O retrato resulta num filme genuíno e comovente, que não obstante pontuais cenas dispensáveis (fica por esclarecer a função do narrador) impõe-se como um drama adulto marcado por pontuais escapes cómicos, onde é claro o amor de Honoré pelas suas personagens.

Estas são, de resto, interpretadas por um elenco inatacável, sendo os protagonistas dois dos melhores jovens actores franceses, Romain Duris e Louis Garrel. Duris não destrona o seu magnífico desempenho em “De Tanto Bater o Meu Coração Parou”, mas também não desilude na pele do angustiado Guillaume, e Garrel surpreende como Jonathan, uma personagem mais espirituosa do que as que o actor encarnou em títulos como “Os Sonhadores” ou “Os Amantes Regulares” e que ameaçavam limitá-lo a composições mais soturnas. Guy Marchand é também brilhante no papel do pai, que encoraja Jonathan a ajudar o irmão e tenta tornar a sua família mais coesa.

Peculiar é ainda a utilização da banda-sonora, cujo espectro vai dos Metric a Kim Wilde, incluindo a partitura instrumental de Alex Beaupain. Particularmente significativas são as cenas da conversa telefónica entre Guillaume e a sua ex-namorada, em que ambos cantam “Avan la Haine”, ou aquela, também protagonizada pela personagem de Duris, em que uma canção de Kim Wilde é ouvida no quarto e oferece um momento de arrepiante intimismo.
Intimismo é, aliás, um elemento que Honoré parece ter interesse em desenvolver, e se “Minha Mãe” já sugeria que o realizador era capaz de originar abordagens estimulantes, “Em Paris” confirma-o, estando uns furos acima do seu antecessor. Motivo mais do que suficiente, portanto, para colocar o cineasta entre os novos nomes do cinema francês a seguir com atenção e esta numa obra a não perder entre as estreias da recta final de 2006.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM