domingo, outubro 22, 2006

7ª FESTA DO CINEMA FRANCÊS

Entre 4 e 21 de Outubro, o Cinema São Jorge e o Instituto Franco-Português acolheram a 7ª edição da Festa do Cinema Francês em Lisboa. Estive presente em algumas sessões a convite do Cinema 2000 e abaixo ficam as críticas dos filmes que vi por lá:

“Dans Paris”, de Christophe Honoré
“Gentille”, de Sophie Fillières
“Ils”, de David Moreau e Xavier Palud
“Le Passager”, de Eric Caravaca
“Palais Royal!”, de Valérie Lemercier
“Renaissance”, de Christian Volckman
“Suzanne et les Vieillards”, de Viviane Candas
“Vers le Sud”, de Laurent Cantet

"GENTILLE", de Sophie Fillières

Movendo-se entre a comédia e o drama, “Gentille” centra-se numa jovem médica e relata as suas atribulações tanto a nível profissional como, sobretudo, pessoal, em particular a inquietação que a envolve quando o seu companheiro a pede em casamento.

Sophie Fillières insere no seu filme um olhar atento a pequenos episódios do quotidiano, e a acção tem início com um curioso e divertido jogo e equívocos, gerados a partir de uma escrita apurada e da subtil contenção de Emmanuelle Devos, que encarna a protagonista. É pena que “Gentille” nem sempre mantenha essa frescura e espontaneidade iniciais, incidindo depois em territórios mais convencionais que o levam e perder o fôlego na última meia hora, embora nunca deixe de ser um esforço simpático e agradável.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

"LE PASSAGER", de Eric Caravaca

Até aqui notabilizando-se somente como actor – umas das suas mais recentes interpretações foi em “O Seu Irmão”, de Patrice Chéreau -, Eric Caravaca assina a sua primeira obra atrás das câmaras, que simultaneamente protagoniza.
“Le Passager” segue o regresso de um homem à sua terra natal, no interior de França, após a morte do irmão, onde será confrontado com figuras e acontecimentos da sua infância que foram determinantes para a relação que mantém com as suas origens.

Infelizmente, Caravaca estreia-se na realização com uma película demasiado hermética e monótona, muito por culpa da tépida personagem principal, que não permite que os secundários, bem mais interessantes, tenham o espaço que merecem.
Fosse a acção mais centrada em Jeanne, a dona do hotel que acolhe o protagonista, e sobretudo em Lucas, o adolescente protegido desta e a melhor personagem do filme (com uma sóbria interpretação do jovem Vincent Rottiers), e talvez “Le Passager” não deixasse um travo a projecto inacabado e hesitante, raramente capaz de envolver o espectador.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

"PALAIS ROYAL!", de Valérie Lemercier

Supostamente uma sátira aos monarcas dos dias de hoje, esta comédia de costumes (com o inacreditável título em português “Dondoca à Força”) gira em torno de uma desastrada terapeuta casada com o filho mais novo de um rei que, após a morte do sogro, vê-se destinada a ocupar o cargo de rainha.

Valérie Lemercier, que realiza e protagoniza o filme, gera aqui uma obra falhada em quase todos os aspectos, já que nem o argumento (atabalhoado), nem as personagens (unidimensionais), nem a realização (serviçal) conduzem a um resultado minimamente entusiasmante.
Lemercier parece confundir comédia com um conjunto de caretas e episódios embaraçosos repetidos pela sua personagem até à exaustão e se a película é suportável deve-o apenas à interpretação de Catherine Deneuve, que mesmo em piloto automático é o melhor que “Palais Royal!” tem para oferecer.
E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

"SUZANNE ET LES VIEILLARDS", de Viviane Candas

Uma interessante, mas limitada crónica do quotidiano de um casal da terceira idade, seguindo essencialmente a reacção do marido à repentina morte da esposa, que passará pelo início de uma nova relação com uma mulher mais nova (a Suzanne do título).

Viviane Candas apresenta uma obra que cativa pelo intimismo crescente, gerado a partir de uma sólida construção de personagens e de uma igualmente segura direcção de actores - destaque para a densidade emocional de Patrick Bauchau, a espirituosa presença de Jean-Pierre Kalfon ou a serena composição de Christinne Citti no papel de Suzanne -, contudo o argumento pouco ambicioso e a realização correcta mas indistinta fazem com que “Suzanne et les Vieillards” não seja mais do que um retrato apenas curioso do envelhecimento e das relações humanas.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

"VERS LE SUD", de Laurent Cantet

Laurent Cantet deixa aqui os ambientes urbanos e cinzentos de “Recursos Humanos” e “O Emprego do Tempo” para se dedicar às paisagens solarengas do Haiti de inícios dos anos 80, mas nem por isso “Vers le Sud” é um filme menos melancólico e desencantado do que os anteriores.

Desta vez, o olhar centra-se nas férias de solitárias turistas de meia-idade que encontram em alguns rapazes locais um escape face ao quotidiano urbano que as limita e reprime.
Baseada no livro “La Chair du mâitre”, de Dany Laferrière, a película é um inteligente mas incómodo ensaio sobre o envelhecimento, as clivagens sociais, a sexualidade e a solidão, e Cantet tem o mérito de mergulhar na ambiguidade moral e emocional das suas personagens sem nunca as julgar.
O realizador evita ainda, contrariamente ao sucedido em “Recursos Humanos”, que o filme seja um mero panfleto ideológico, conseguindo que o seu retrato nunca se torne maniqueísta. A solidez mantém-se na fotografia, apropriadamente seca, e no elenco, de onde sobressai Charlotte Rampling com mais uma prova de talento interpretativo.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, outubro 21, 2006

A FOND FAREWELL

Faz hoje três anos que o mundo perdeu um dos melhores jovens singers-songwriters revelados na última década. Vale a pena recordar Elliott Smith através dos seus seis álbuns, desde "Roman Candle", de 1994, até ao derradeiro "From a Basement on the Hill", editado de anos depois, já após a sua morte, até porque dificilmente há música mais apropriada para estes dias outonais. Entretanto fica aqui o vídeo de "Baby Britain":

sexta-feira, outubro 20, 2006

PERDIDA NA REVOLUÇÃO

Contrariamente ao promissor "As Virgens Suicidas" e ao interessante mas incompreensivelmente incensado "Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho", "Marie Antoinette", o terceiro e mais recente filme de Sofia Coppola, não tem sido alvo de considerável aclamação internacional, chegando agora a salas nacionais com o carimbo de "desilusão" motivado pela fria recepção que a película obteve na sua estreia durante o Festival de Cannes.

O trailer, acompanhado por "Ceremony", dos New Order (à partida uma escolha pouco óbvia para uma obra de época), ou mesmo os cartazes promocionais, carregados de sofisticação e apelo pop, já sugeriam que a abordagem da realizadora de parte da vida da última rainha de França seria longe de canónica, mas essa ousadia acabou por não ser levada até ao limite, sendo mais operação de cosmética do que a reinvenção de um formato.

"Marie Antoinette" começa com a partida da protagonista para França, aos 14 anos, abandonando a sua Áustria natal a fim de casar com Luís XVI, e deixa de segui-la nos primeiros dias da Revolução Francesa, com a invasão do palácio de Versalhes. Entre um acontecimento e outro, Coppola lança um olhar que não pretende tanto ser um retrato fiel das experiências de Marie Antoinette mas antes uma reflexão sobre a difícil e contraditória entrada na idade adulta, tema igualmente decisivo nas suas duas obras anteriores.

Esta é, assim, mais uma história sobre a solidão e as ambiguidades do processo de crescimento, onde no meio de toda a pompa e circunstância de um ambiente requintado e sumptuoso sobressai o isolamento de uma figura que não compreende o contexto em que se insere, levando, por sua vez, a que as suas atitudes de rebeldia apenas contribuam para que o seu papel de outcast seja reforçado.

Coppola continua a saber combinar amargura, melancolia e serenidade de forma singular, gerando uma envolvente aura atmosférica e etérea onde a contribuição da banda-sonora volta a ser elemento fundamental, contando com nomes como os The Cure, Aphex Twin, Siouxsie and the Banshees, The Strokes ou os já habituais Air.
Embora tenham nascido cerca de dois séculos depois do período em que a acção decorre, as canções não surgem aqui como elemento forçado, antes eco natural dos estados emocionais que vão habitando a protagonista. A combinação destas com os imponentes e belíssimos cenários de Versalhes origina, de resto, algumas das cenas mais fortes do filme, onde a realizadora dá provas de uma sensibilidade apurada e com sentido de oportunidade.

No entanto, se "Marie Antoinette" contém um casamento feliz entre a sua componente visual e sonora, não deixa de evidenciar debilidades no desenvolvimento da narrativa, demasiado redundante e cujo último terço acusa já alguma falta de fôlego, e na construção das personagens, dando a Steve Coogan, Marianne Faithfull ou Asia Argento papéis que não vão além da caricatura.
Mesmo Jason Schwartzman, cuja personagem, Luís XVI, é mais relevante para o argumento, não tem muito para fazer, limitando-se a repetir a postura alienada e offbeat vista e revista em títulos como "Uma Rapariga Cheia de Sonhos" ou os "Psico-Detectives", e embora o faça bem não consegue surpreender.
Resta a Kirsten Dunst carregar o filme às costas, e mais uma vez - já era ela quem mais brilhava como Lux Lisbon em "As Virgens Suicidas" - oferece um desempenho luminoso, seguro e absorvente, compondo uma Maria Antonieta simultaneamente insinuante e ingénua, frágil e rebelde.

"Marie Antoinette" não é, portanto, uma obra isenta de desequilíbrios e menos ainda o opus que muitos esperariam que Sofia Coppola edificasse após dois filmes tão marcantes, mas seria injusto não reconhecer que possui ainda algumas das qualidades que notabilizaram a realizadora. E, mesmo que estejam por vezes dispersas numa obra com mais ambição do que consistência, ainda vale a pena vê-las, reconhecê-las e apreciá-las.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, outubro 19, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "AOS DOZE E TANTOS"

"Marie Antoinette" corre o risco de concentrar as atenções nesta semana (e em parte merece, apesar do buzz negativo), mas não convém deixar passar "Aos Doze e Tantos" (Twelve and Holding), o novo filme de Michael Cuesta, responsável por "L.I.E. - Sem Saída" e alguns episódios da série "Sete Palmos de Terra".
O filme fica um pouco aquém da (brilhante) primeira obra do realizador, mas tal como esta é mais um recomendável retrato da adolescência, seguindo o percurso de quatro amigos e as reacções que a abrupta morte de um deles gera nos outros. Mais um bom filme indie de 2006 a merecer atenção.

Outras estreias:

"Alex Rider: Operação Stormbreaker", de Geoffrey Saxx
"Crank - Veneno no Sangue", de Mark Neveldine e Brian Taylor
"Dondoca à Força", de Valérie Lemercier
"Marie Antoinette", de Sofia Coppola

quarta-feira, outubro 18, 2006

HELLO KITTIES

As Le Tigre proporcionam a banda-sonora (e visual) de hoje ali do lado esquerdo. E já lançavam outro álbum, já, embora não me importe de ir recordando canções como esta...

Le Tigre - "Deceptacon"

segunda-feira, outubro 16, 2006

CAMINHOS PERIGOSOS

O cinema independente norte-americano tem, nos últimos anos, desenvolvido muitos e diversos olhares sobre a adolescência, tema que proporcionou alguns dos seus melhores filmes, quase todos ambientados, também, nas realidades suburbanas. Sejam mais crus ("Bully - Estranhas Amizades", de Larry Clark), bizarros ("Donnie Darko", de Richard Kelly), etéreos ("As Virgens Suicidas", de Sofia Coppola) ou ácidos ("Ghost World - Mundo Fantasma", de Terry Zwigoff), revelam ou confirmam cineastas que propõem novas visões sobre o processo do crescimento e amadurecimento, tendo em comum as dores impostas pela auto-descoberta e solidão.

"L.I.E. - Sem Saída", que em 2001 deu a conhecer Michael Cuesta, é mais um exemplo de um consistente retrato coming of age, centrado no quotidiano de um adolescente de Long Island.
Através das experiências de Howie, um tímido, solitário e culto jovem de 15 anos, Cuesta propõe uma história atravessada pela dissolução familiar, a descoberta (e questionamento) da sexualidade ou a criação e quebra de laços de amizade, levantando questões acerca de temáticas actuais como a delinquência juvenil ou a pedofilia.

Esta última tornou o filme numa obra algo controversa, não por cenas rudes e graficamente ousadas típicas da escola Larry Clark, mas antes pela perspectiva atípica que traça de um pedófilo de meia idade com quem o protagonista acaba por sentir afinidade. Recusando estereotipar a caracterização de Big John, Cuesta não cede a condenações morais nem à histeria fácil e apresenta-o como uma figura tridimensional e credível, atormentada por conflitos internos com os quais se debate há muito.

A opção por este tipo de abordagem é corajosa e coloca o espectador perante sequências inquietantes, mas "L.I.E. - Sem Saída", apesar de ser uma primeira obra, consegue manter até ao fim um difícil equilíbrio livre de lugares-comuns, convidando à reflexão sem forçar defesas ou acusações das condutas das suas personagens.

Grande parte da solidez da película deve-se à apurada escolha do elenco, onde constam o veterano e habitualmente excelente Brian Cox, que faz de Big John um pedófilo sem quaisquer clichés, ou os jovens Billy Kay, que encarna o melhor amigo do protagonista com uma rara desenvoltura, e Paul Dano, capaz de tornar Howie numa personagem verosímil e sensível pela qual é quase impossível não sentir empatia.

Igualmente sedutor é o trabalho de realização de Cuesta, que emana um rigor e sofisticação assinaláveis. Conseguindo imprimir uma palpável atmosfera realista ao filme, proporciona momentos vincados por uma absorvente energia visual, sejam os dos fugazes planos da auto-estrada - Long Island Expressway, cuja sigla motivou o título do filme (por corresponder também à palavra "mentira" em inglês) - assim como os de outros espaços exteriores (como os jardins, com tons verdes estranhamente hipnóticos) ou interiores (a envolvente casa de Howie, em particular a carga sensorial resultante das tonalidades azuis do seu quarto).

Mesmo sendo marcada por algumas limitações - a personagem do pai de Howie poderia ser mais desenvolvida, o desenlace é algo abrupto e talvez não o mais interessante -, "L.I.E. - Sem Saída" é uma impressionante obra de estreia, que prova que o cinema indie, mesmo quando repisa as mesmas temáticas, ainda é capaz de oferecer surpresas muito recomendáveis. E esta tem lugar cativo entre as melhores dos últimos anos.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

sexta-feira, outubro 13, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "UMA FAMÍLIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS"

Apenas mais uma história sobre famílias disfuncionais ou uma dramedy irresistível (ou as duas coisas)? "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" (Little Miss Sunshine), uma das sensações indie do momento, segue a viagem de carrinha de uma família norte-americana que atravessa o país para que a filha mais nova possa participar num concurso de beleza.
Primeira longa-metragem de Valerie Faris e Jonathan Dayton, com experiência na realização de videoclips (dos Smashing Pumpkins ou R.E.M., entre outros), é uma proposta a considerar, até porque há gente como Toni Collette, Steve Carell ou Paul Dano (de "L.I.E. - Sem Saída") no elenco.

Outras estreias:

"As Duas Vidas da Serpente", de Hélier Cisterne (precedido pela média-metragem "Rapace", de João Nicolau)
"End Game - Crime Perfeito", de Andy Cheng
"Filme da Treta", de José Sacramento
"O Guardião", de Andrew Davis
"Mas Que Culpa Temos Nós", de Carlo Verdone

quinta-feira, outubro 12, 2006

INFERNO NA TERRA

Autora de um dos mais interessantes filmes portugueses da década passada, "Os Mutantes", e de outros títulos menos consensuais como "Três Irmãos" ou "Água e Sal", Teresa Villaverde apresenta em "Transe" mais uma película que contribui para a consolidação de uma obra singular e desafiante, para o melhor e para o pior.

Ancorado no percurso de Sonia, uma jovem russa que emigra na esperança de encontrar oportunidades para uma vida de maior prosperidade, o filme começa por seguir a protagonista até à Alemanha, onde esta encontra trabalho numa oficina, mas cuja rotina é subitamente interrompida quando o seu destino se cruza com uma rede de tráfico de mulheres para prostituição.
Assim, Sonia inicia uma dolorosa espiral descendente que passa pelo rapto, encarceramento e violação, tanto física como psicológica, durante uma interminável viagem pela Europa (da Alemanha levam-na para Itália e, depois, para Portugal), aqui palco de um Inferno na Terra.

Revestido de maiores camadas de crueza e crueldade do que as que já assombravam "Os Mutantes", "Transe" é um olhar muito pouco condescendente sobre a faceta mais obscura da humanidade, onde Sonia surge como o cordeiro sacrificial que não tem alternativa senão sujeitar-se ao rumo determinado por terceiros. Daí o título do filme, que não poderia ser mais apropriado para caracterizar o estado de anestesia, alienação e apatia em que a protagonista é forçada a recolher-se.

A actriz principal, Ana Moreira, é determinante para que esse efeito tenha impacto, e se outras películas atestavam já a sua entrega e expressividade em "Transe" o seu desempenho vai ainda mais além, evidenciando na perfeição o concentrado de dor e humilhação de que a sua personagem é alvo, confirmamndo-a como uma das mais brilhantes actrizes da sua geração.

Se a interpretação de Ana Moreira é magnífica, "Transe" não é, contudo, tão bem-sucedido noutros aspectos, sendo prejudicado por alguma pretensão no trabalho de realização de Villaverde, que não resiste a sequências dominadas por planos longos e redundantes, desnecessárias num filme capaz de gerar, noutros momentos, uma intensa e cortante carga realista.
A presença ocasional da voz off tem também um interesse discutível, tornando-se por vezes quase embaraçosa, e o desenlace revela-se pouco satisfatório ao apostar num simbolismo tão forçado como hermético. "Transe" peca ainda por mergulhar num acérrimo pessimismo e miserabilismo, demasiado frequente em algum cinema português, o que se por um lado gera um muito eficaz e desarmante efeito claustrofóbico não deixa de ser excessivo.

Em todo o caso, Villaverde proporciona aqui um meritório, ainda que desigual, retrato de uma experiência in extremis, resultando num filme de difícil digestão mas suficientemente relevante para justificar o seu visionamento.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quarta-feira, outubro 11, 2006

TV-SPOTTING

Mais uma das imaginativas propostas a que a HBO nos tem habituado, "Carnivàle" já chegou, embora timidamente, aos ecrãs nacionais. O primeiro episódio desta série bizarra e intrigante, protagonizada por Nick Stahl (o rapaz de "Bully - Estranhas Amizades" ou "Vidas Privadas"), foi emitido na semana passada mas repete hoje às 2h00m na SIC Radical (logo a seguir a "A Letra 'L'", na 2:, para quem tiver horários para isso) e o segundo passa amanhã, pelas 23h. Obrigado à lid por me ter enviado a primeira temporada (isto de ser blogger tem as suas vantagens), que ainda não vi mas estou curioso.

domingo, outubro 08, 2006

gonn1000 X 2

O post acima, escrito a 8 de Outubro de 2004, foi o primeiro deste blog. Dois anos depois, ainda continuo pela blogosfera, e entretanto o blog foi crescendo e evoluindo, assim como o seu autor (espero). Pela minha parte, acho que o balanço é positivo, uma vez que esta jornada virtual tem revelado boas surpresas. A maior delas é a saudável interactividade com outros blogs (e bloggers), de interesses adjacentes ou nem por isso, que foi crescendo desde que o gonn1000 surgiu.
Obrigado, por isso, a todos os que têm passado por cá ao longo destes dois anos, e espero continuar a dar motivos para que as visitas continuem... e obrigado aos Bloc Party por cantarem os parabéns. Até breve ;)


Bloc Party - "Two More Years"

sexta-feira, outubro 06, 2006

Regresso incendiário a 1998 com os Curve:

Curve - "Chinese Burn"

quinta-feira, outubro 05, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "A DÁLIA NEGRA"

Estreia hoje "A Dália Negra" (The Black Dahlia), a mais recente proposta de Brian de Palma ("Carrie", "Os Intocáveis", "Mulher Fatal"). Inspirado num caso verídico, adaptado para romance por James Ellroy, o filme segue as investigações de dois polícias que tentam descobrir o que esteve na origem da morte de Betty Ann Short, uma aspirante a actriz brutalmente assassinada na década de 40.
Não sou grande admirador do realizador, mas confesso que o argumento e o elenco (Josh Hartnett, Scarlett Johansson, Aaron Eckhart, Hilary Swank) são fortes atractivos, e o trailer tem muito bom aspecto (a música dos Death in Vegas também ajuda). Crítica aqui em breve, quando acabar de ler o livro.
Outras estreias:

"Balbúrdia Na Quinta", de Steve Oedekerk
"Click", de Frank Coraci
"Transe", de Teresa Villaverde

quarta-feira, outubro 04, 2006

VIVE LA FRANCE

Louis Garrel e Romain Duris, em 'Dans Paris', de Christophe Honoré

Começa hoje a sétima edição da Festa do Cinema Francês, que estará em Lisboa, no Cinema São Jorge e no Instituto Franco-Português, até dia 21 de Outubro, e marcará ainda presença em Coimbra, Faro, Porto, Almada, Évora e Funchal noutras datas.

Entre os destaques deste ano, encontram-se «La Raison du Plus Faible», de Lucas Belvaux, «Vers le Sud», de Laurent Cantet, «Dans Paris», de Christophe Honoré ou «Flandres», de Bruno Dumont. Os bilhetes custam Bilhetes a 3€00 para o público em geral e 2€50 para estudantes. Mais informações aqui.

terça-feira, outubro 03, 2006

PERSEGUIDO PELO PASSADO

Com uma filmografia com tanto de idiossincrática como de pouco consensual, Kevin Smith tem cimentado um percurso singular (e irregular) dentro de domínios do cinema independente norte-americano, apresentando filmes sempre centrados nos subúrbios de Nova Jersey que, por detrás de doses de um humor ácido e politicamente incorrecto, oferecem retratos dos dilemas colocados a uma geração que se prepara para entrar na idade adulta.

Tem sido assim desde a sua primeira longa-metragem, "Clerks" (1994), e volta a sê-lo na mais recente, "Nunca Tantos Fizeram Tão Pouco" (Clerks 2), a sequela desse modesto mas marcante filme que se tornou num dos marcos indie da década de 90.

Se por um lado cada filme do realizador tem uma série de elementos que o tornam facilmente reconhecível (com a eventual excepção de "Era Uma Vez... Um Pai", que pisa territórios mais convencionais), não é menos verdade que cada uma das suas novas propostas tende a não oferecer grandes acréscimos ao seu (micro)universo, apostando no mesmo tipo de personagens, ambientes e modelos, com melhores (o sobrevalorizado, mas sensível "Perseguindo Amy") ou piores resultados (o pretensioso e cansativo "Dogma").

"Nunca Tantos Fizeram Tão Pouco" não é excepção, com todos os defeitos e virtudes que essa formatação acaba por trazer. Mais uma vez há diálogos ora bizarros e hilariantes, ora surpreendentemente sinceros, envolventes e plausíveis, que tanto incidem em discussões sobre a cultura pop - desde as trilogias d'"0 Senhor dos Anéis" e d'"A Guerra das Estrelas" aos Transformers -, como se debruçam sobre o racismo, banalidades do quotidiano suburbano, Anne Frank e, claro, sexo, tema que oferece alguns dos momentos mais divertidos (irresistível, a sequência que alia anões à sexualidade feminina).

Ocasionais cena de gosto duvidoso aproximam o filme de exemplos de comédias sobre adolescentes não muito recomendáveis, e mesmo quando se pensa que é impossível ser mais boçal e esgrouviado Smith prova que se pode ir mais além, como numa sequência decisiva e antológica, já perto do desenlace.
Porventura pueris e excessivos, por vezes difícies de aceitar, estes momentos são já parte do estilo do realizador, e não deixa de ser ousado conciliá-los com outros vincados por uma inesperada maturidade, onde a escrita de Smith gera inspiradas reflexões sobre a complexidade das relações humanas.

"Nunca Tantos Fizeram Tão Pouco" é assim um filme desequilibrado, mas que resulta, sobretudo para aqueles minimamente familiarizados com as suas personagens, que regressam mais de dez anos depois de "Clerks", onde tudo começou. Recupera-se assim tanto a dupla de losers balconistas Dante e Randal, agora já não numa loja de conveniência mas num restaurante de fast-food, como os indescritíveis e já icónicos Jay e Silent Bob, estes últimos presenças recorrentes nas películas de Smith.
Além destas, há cameos dos habituais Ben Affleck e Jason Lee e presenças novas como o inocente e tímido Elias, um perfeito contraponto cómico para Randal, ou Becky, a gerente do restaurante que mantém uma relação ambígua com Dante e é interpretada por uma carismática Rosario Dawson.

O filme irá provavelmente agradar seguidores de Smith mas arrisca-se a não ter tanto impacto junto dos que desconhecem a sua obra, uma vez que poderão sentir-se algo descoordenados nesta película com sabor a reencontro de velhos amigos, onde de resto o novo milénio parece ainda não ter chegado, pela forma como a (sub)cultura slacker, tão anos 90, ainda se encontra presente (e não hão-de ser muitos os filmes dos dias de hoje com canções como "Misery" dos Soul Asylum ou "1979" dos Smashing Pumpkins na banda-sonora).
Mesmo assim, e apesar de Smith já não ter a frescura da estreia, "Nunca Tantos Fizeram Tão Pouco" é ainda um título a ver, situando-se uns furos acima da maioria das comédias juvenis que chegam do outro lado do Atlântico.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, outubro 02, 2006

NOKASHIKATUKUTOARI!

Os meus parabéns ao Cine-Asia, o primeiro blog português exclusivamente dedicado ao cinema oriental, que fez ontem um ano.
E parabéns ao seu mentor, Sérgio Lopes, que me convidou para colaborar no projecto desde o início.
Passem por lá e como bónus aprendam e escrever o vosso nome em japonês (não é bem mas é parecido).

domingo, outubro 01, 2006

UMA CANÇÃO, DOIS VÍDEOS


Four Tet - "My Angel Rocks Back & Forth"

sexta-feira, setembro 29, 2006

A TRADIÇÃO AINDA É O QUE ERA

Terceira parte da Trilogia dos Elementos - os anteriores foram "Fogo" (1996) e "Terra" (1998) -, "Água" (Water) é um dos raros exemplos do cinema indiano que chega a salas nacionais e a mais recente obra de uma das suas novas e mais controversas cineastas, Deepa Mehta.

Ao ver o filme, percebe-se o motivo pelo qual a realizadora é pouco consensual na Índia, uma vez que "Água" contém uma forte denúncia das condições a que as viúvas são expostas, sendo obrigadas a uma vida de recolhimento em lares.
Nesses locais que as segregam, são impedidas de disfrutar do contacto com qualquer tipo de prazer, usando sempre o mesmo traje e mantendo uma postura lacónica e discreta. Ainda que estejam proibidas de voltar a casar, muitas acabam por ter de se dedicar à prostituição, uma das poucas formas de conseguir sustentar os asilos.

Mehta, contudo, não torna o seu filme num mero grito de revolta tendencioso e manipulador, destinado a despertar e chocar consciências, pois embora esteja presente uma tentativa de revelar situações precárias e pouco expostas da sua terra natal, este retrato surge inserido numa narrativa que permite ao espectador formular os seus próprios juízos e conclusões.

A acção decorre na Índia de finais dos anos 30 e segue o percurso de Chuyia, uma menina de oito anos que, apesar de não ter conhecido o marido, é viúva, e por isso levada para uma casa habitada por outras, que passa a ser também a sua.
Aí é educada a seguir um estilo de vida oposto ao que conheceu até então, cujas diferenças começam quando o seu cabelo é rapado e continuam através de contínuas restrições que não dominavam o seu quotidiano.
A cumplicidade com Kalyani, a mais bela das suas colegas de casa, ajuda-a a superar os primeiros dias, mas a situação torna-se mais conturbada para ambas quando esta decide deixar a prostituição para casar com um jovem advogado, ambição naturalmente dificultada pelas restantes viúvas.

Drama de considerável sensibilidade e envolvência, "Água" é uma sóbria experiência cinematográfica, equilibrada em todos os aspectos, com destaque para o impressionante trabalho de fotografia de Giles Nuttgens (capaz de cenas de rara energia visual, como as da festa da cor) e para a direcção de actores, de onde sobressai Sarala, carismática e comovente no papel da pequena Chuyia.

Inicialmente algo leve e espirituosa, a película torna-se triste e amargurada à medida que a jovem protagonista é obrigada a crescer mais rapidamente do que deveria, sendo por isso os últimos minutos especialmente claustrofóbicos e marcados por algumas sequências arrepiantes.

O desenlace poderá ser de gosto duvidoso para alguns, o filme talvez tenha uns vinte minutos a mais e Mehta é geralmente mais consistente do que genial, mas de qualquer forma "Água" é uma obra bastante meritória e cativante, que não merece passar despercebida entre os títulos estreados em 2006.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, setembro 28, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "A SENHORA DA ÁGUA"

Depois do belíssimo (e por muitos incompreendido) "A Vila", M. Night Shyamalan está de volta com "A Senhora da Água" (Lady in the Water), filme que tem despoletado reacções ainda mais extremas do que o seu antecessor.
Paul Giamatti e Bryce Dallas Howard protagonizam esta fábula moderna que se inicia quando uma ninfa é encontrada numa piscina de um complexo de apartamentos, e caberá aos moradores do mesmo ajudá-la a regressar ao seu mundo.
Resta saber se este mote dá origem a um filme auto-indulgente, como muitos o caracterizam, ou a uma obra memorável, à semelhança de algumas já criadas pelo realizador. A confirmar a partir de hoje.
Outras estreias:

"Armadilha em Alto Mar", de Hans Horn, a sequela de "Open Water - Em Águas Profundas"
"Nunca Tantos Fizeram Tão Pouco", de Kevin Smith
"Ondas Invisiveis", de Pen-Ek Ratanaruang
"Serpentes a Bordo", de David R. Ellis

quarta-feira, setembro 27, 2006

HEY LADIES

Estreia hoje, pelas 00h50m na 2:, a segunda temporada de "A Letra L", centrada no quotidiano urbano de um grupo de amigas lésbicas.
A primeira série, emitida há uns meses e reexibida nos últimos dias, deixou boas impressões, convencendo pelo elenco sólido, argumento leve mas inteligente e banda-sonora a condizer.
Espera-se que os novos episódios mantenham o interesse, até porque não passam a horas muito acessíveis (mas, pelo menos, passam num canal que costuma respeitar os horários programados, o que nos dias de hoje é um luxo).

terça-feira, setembro 26, 2006

MÚSICA COM AÇÚCAR

Vai um docinho? Está aqui em baixo e pede que lhe atirem açúcar.

Sneaker Pimps - "Spin Spin Sugar"

segunda-feira, setembro 25, 2006

THE KING IS DEAD

Lisboa, 21 de Setembro de 2006

COMUNICADO

Em Janeiro de 2005, os Cinemas Millenium SA associados à Medeia Filmes SA , fizeram o lançamento do cartão King Kard, que, como é do vosso conhecimento é utilizável em condições idênticas nas salas de cinema exploradas por ambas as empresas.

Este cartão tem tido enorme sucesso, especialmente nas salas afectas aos Cinemas Millenium situadas no “Alvaláxia”.

Por decisão unilateral da Medeia Filmes SA, que nós repudiamos veementemente, fomos surpreendidos com o facto de não mais aceitarem, a partir do próximo dia 1 de Outubro o cartão King Kard nas suas salas.

Na expectativa da vossa compreensão, reiteramos o nosso esforço em continuar a oferecer aos nossos clientes uma programação diversificada e tão completa quanto possível nas nossas 16 salas.

A Administração

E como é que fica quem aderiu ao cartão pagando logo a anuidade? Vai só ao Alvaláxia, perdendo assim as estreias do King e do Monumental que nunca surgirão aí, e tendo de lidar mais vezes com o péssimo novo sistema de estruturação da bilheteira, sério teste aos nervos e forte incentivo a optar por um jogo de bowling (já faltou mais...)? Depois venham queixar-se contra a falta de espectadores do cinema nacional e os downloads. Curioso é que assim prejudicam tendencialmente os espectadores que realmente gostam de cinema. Aproveitem enquanto ainda podem...

domingo, setembro 24, 2006

OS BRAVOS DO PELOTÃO

A par do recente "Voo 93", de Paul Greengrass, "World Trade Center", de Oliver Stone, distingue-se por ser um filme que se debruça directamente sobre os acontecimentos trágicos do 11 de Setembro, mas enquanto que a película do realizador britânico seguia as peripécias em torno de um dos aviões desviados pelos terroristas, o de Stone incide sobre o ataque às Torres Gémeas.
Para além desta diferença na escolha das situações focadas, manifesta-se sobretudo um contraste na forma de abordagem das mesmas, pois se Greengrass opta por um estilo clínico e com uma perspectiva global dos acontecimentos, aproximando-se do docudrama, o polémico cineasta norte-americano segue um registo claramente ancorado em poucas personagens, sendo mais intimista e inesperadamente caloroso.

Baseado na história verídica de dois elementos da Polícia Portuária de Nova Iorque que, ao tentarem socorrer as vítimas dos destroços do World Trade Center, ficaram soterrados nos escombros durante horas, o filme presta um óbvio e sentido tributo às vítimas dos atentados e aos que colocaram as vidas em risco para as auxiliar

Ao contrário do que ocorre em grande parte da obra de Stone, "World Trade Center" mostra-se estranhamente livre de perspectivas incisivas e demolidoras acerca da conduta dos EUA, optando por evitar tomar posição quanto aos atritos que geraram os trágicos acontecimentos ocorridos há cinco anos.
Está, portanto, longe da aspereza de títulos como "Nascido a 4 de Julho" ou "Assassinos Natos" e das coléricas críticas à América que aí se encontravam, e distancia-se igualmente de análises acerca das motivações dos terroristas, poupando o espectador a rebuscadas teorias da conspiração e intrusivas descargas ideológicas.
A preocupação de Stone aqui é, essencialmente, evidenciar a nobreza de carácter dos que se arriscaram para salvar outros, oferecendo uma justa homenagem aos elementos da polícia, bombeiros e a todos os restantes que contribuíram para que as consequências dos atentados não fossem ainda mais nefastas.

Seguindo a operação de salvamento dos agentes John McLoughlin e Will Jimeno e, em paralelo, a crescente tensão e desespero das suas famílias, "World Trade Center" é um drama bem-intencionado e suficientemente sólido, mas fica aquém do brilhantismo.
Apostando numa narrativa linear e pouco inventiva, prejudicada por algumas quebras de ritmo e cenas redundantes, o filme proporciona mais de duas horas com tanto de interessante como de desequilibrado. Se Stone tem mérito por prescindir do histerismo que minou alguns dos seus trabalhos, peca por apresentar uma película demasiado comedida e convencional, que se não fosse pelos acontecimentos em que se centra não estaria muito longe de outros filmes de resgate.

A falta de risco manifesta-se ainda tanto na banda-sonora "limpinha", embora não desagradável, de Craig Armstrong, em algumas desnecessárias sequências em slow motion ou na construção de personagens, demasiado genéricas, cabendo sobretudo aos actores aproximá-las do espectador. Felizmente conseguem-no, já que o elenco integra Nicolas Cage e Michael Pena, ambos com interpretações competentes na pele dos dois polícias, e Maria Bello e Maggie Gyllenhaal no papel das respectivas esposas. A dupla feminina supera a masculina, não só porque as personagens são menos estereotipadas mas sobretudo porque as actrizes evidenciam uma entrega e contenção difíceis de conciliar, gerando as cenas de maior densidade emocional.

"World Trade Center" ainda não é o grande filme que poderá nascer das cinzas do 11 de Setembro, mas é uma obra honesta, relevante e por vezes comovente, que atesta que na resposta às piores atrocidades pode emergir o melhor da esfera humana. E por mais estranho que seja ver Oliver Stone defendê-lo, sem um grama do habitual cinismo e niilismo, o cineasta merece aplausos por uma experiência cinematográfica que, apesar de irregular, resulta e envolve.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, setembro 22, 2006

CINEMA PARA O FIM-DE-SEMANA

"Transamerica", de Duncan Tucker, com Felicity "Lynette Scavo" Huffmann; e "Odete", de João Pedro Rodrigues, estão em reposição no cinema Quarteto, integrados no 10º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. Numa altura de fracas propostas nas salas, vale a pena (re)ver estas, entre outras da programação do evento.

quinta-feira, setembro 21, 2006

AMORES DE VERÃO (15): THE SMASHING PUMPKINS

O Verão já acabou (e hoje de manhã notou-se bem...), mas como despedida ainda há tempo para recordar estes rapazes (que pretendem voltar, quem sabe se no próximo Verão). Só é pena que o tempo hoje não esteja como o do vídeo aqui em baixo.

The Smashing Pumpkins - "Today"

quarta-feira, setembro 20, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "WORLD TRADE CENTER"

Depois do "controverso" (que aqui deve ser entendido como um eufemismo) "Alexandre, o Grande", Oliver Stone regressa com "World Trade Center", um drama centrado (e dedicado) às vítimas dos ataques às torres no 11 de Setembro.
Seguindo sobretudo a história de dois polícias que ficam soterrados nos destroços enquanto tentam socorrer as vítimas, Stone deixa de lado a corrosão que caracteriza muita da sua obra e oferece aqui uma homenagem aos que se arriscaram em prol da sobrevivência de outros. Crítica aqui em breve.

Outras estreias:

"As Corridas Loucas de Ricky Bobby", de Adam McKay
"Desconhecido", de Meiert Avis
"O Coleccionador de Olhos", de Gregory Dark

terça-feira, setembro 19, 2006

QUERIDO DIÁRIO

Pablo é um jovem que regista no seu diário as experiências rotineiras do seu dia-a-dia, desde as idas recorrentes ao centro de saúde para lidar com a sua condição de seropositivo até às deambulações nocturnas por bares ou salas de cinema, onde vai encontrando companhias tão imprevisíveis quanto fugazes.

Com uma vida social restrita, que inclui pouco mais do que as ocasiões em que se encontra com a família (ou o que resta dela) e com o seu melhor (e único?) amigo, o protagonista de "Um Ano Sem Amor" (Un Año Sin Amor), primeira longa-metragem da argentina Anahí Berneri, adere então a reuniões vincadas por práticas S&M, o seu mais recente escape para lidar com as frustradas tentavivas de conhecer alguém que o ajude a sair de uma certa apatia existencial.
Nebulosa crónica urbana do quotidiano de um jovem adulto à deriva, o filme proporciona um olhar realista sobre a solidão e a inadaptação, tornando-se num interessante estudo de personagem. Contaminado por uma aura lacónica pontualmente interrompida por alguns momentos de humor (negro), "Um Ano Sem Amor" convence pela realização segura, onde a câmara à mão é adequada aos ambientes soturnos e emana a espaços alguma energia visual.

Embora foque questões controversas como a SIDA ou a homossexualidade, a película nunca resvala para o moralismo ou para o choque fácil, evitando julgar as suas personagens e gerando assim um drama sóbrio, sem grandes rasgos de criatividade mas uns furos acima da mera competência.

Berneri apresenta um argumento coeso, capaz de explorar eficazmemente vários aspectos da vida do protagonista de forma verosímil, e mostra também solidez na direcção de actores, com destaque para Juan Minujín no papel principal.

Desencantado mas não miserabilista, ousado sem ser estridente, "Um Ano Sem Amor" é uma boa primeira-obra, mais uma a reter entre as que o novo cinema argentino tem oferecido nos últimos anos, onde constam realizadores promissores como Albertina Carri ("Géminis") ou Santiago Amigorena ("Alguns Dias em Setembro"). À semelhança destes, convém seguir Anahí Berneri com alguma atenção, que apesar de não assinar aqui um grande filme também não deixa de evidenciar potencial.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

domingo, setembro 17, 2006

UM FIM-DE-SEMANA, DUAS CANÇÕES

The Postal Service - "The District Sleeps Alone Tonight"

Nine Inch Nails - "Closer"
Nestas não discordamos, pois não, Z?

OS DIAS DO FIM?

Um dos documentários-sensação de 2006, "Uma Verdade Inconveniente" (An Inconvenient Truth), de Davis Guggenheim, tem sido geralmente bem recebido um pouco por todo o lado, desde Sundance a Cannes, talvez pela forma atípica como se debruça por um dos temas na ordem do dia a nível internacional: o aquecimento global.

Incidindo essencialmente sobre uma das muitas palestras apresentadas por aquele que “costumava ser o próximo presidente dos Estados Unidos da América”, Al Gore, o filme atesta a vertente da defesa ambiental que sempre se encontrou no percurso político do "protagonista" do documentário.
Gore surge aqui como o mestre de cerimónias de uma sessão que, se não prescinde da componente de entretenimento para fazer passar o seu apelo ecológico, também não deixa de sublinhar a seriedade das questões que estão aqui em causa, e cujas repercussões da escassa actuação de muitos governos já começam a demonstrar os primeiros sintomas.

O antigo vice-presidente dos EUA reforça aqui que as consequências da interferência da mão humana no ambiente poderão chegar a um estado crítico daqui a cerca de dez anos, e insurge-se por isso contra a falta de atenção de que este assunto tem sido alvo, uma vez que raramente é encarado por muitos políticos como uma prioridade.

Nestas críticas, Gore não resiste a disparar alguns comentários mais ou menos directos à administração Bush, e noutros momentos o tom chega a aproximar-se de um moralismo que, ainda que norteado por boas intenções, pode incomodar alguns, como no caso em que aborda o tabaco, interligando-o com a morte da sua irmã, vítima de cancro do pulmão, ou na canção "inspiradora" de Melissa Etheridge no genérico final.

Paralelamente à questão do aquecimento global, "Uma Verdade Inconveniente" lança um olhar sobre a vida de Gore, reforçando que as preocupações ambientais moldaram a sua postura desde cedo. Se esta opção tem a vantagem de humanizar o documentário, aproximando-o das vivências do espectador, peca por se tornar demasiado edificante a espaços, oferecendo um retrato excessivamente límpido do orientador da palestra.

A carga tendencialmente dicáctica e expositiva do documentário também debilita o resultado final, e ainda que Guggenheim revele alguma criatividade na realização - combinando filmes de arquivo, imagens computadorizadas ou cartoons - não deixa de evidenciar as suas raízes televisivas, tornando "Uma Verdade Inconveniente" num objecto que vale mais pela mensagem que tenta passar do que pelos seus méritos cinematográficos.

Contudo, mesmo desequilibrado, este é ainda um documentário competente, que consegue captar a atenção do espectador e adaptar-se a vários tipos de público, recorrendo a uma abordagem eficaz e escorreita, de fácil apreensão, centrada em questões urgentes que dizem respeito a todos. Merece, por isso, ser visto, pensado e discutido assim que possível.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sexta-feira, setembro 15, 2006

AMORES DE VERÃO (14): THE PRODIGY

E porque recordar é viver (ou, neste caso, dançar), aqui fica uma das bandas que se ouvia nos Verões (e Invernos) de inícios da década passada. E que memórias isto traz...

The Prodigy - "Everybody in the Place"

quinta-feira, setembro 14, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "ALGUNS DIAS EM SETEMBRO"

"Alguns Dias em Setembro", de Santiago Amigorena
(crítica no post abaixo)

Outras estreias:

"98 Octanas", de Fernando Lopes
"A Minha Super Ex", de Ivan Reitman
"Água", de Deepa Metha
"Havana - Cidade Perdida", de Andy Garcia
"Preciosa Iguaria", de Fruit Chan
"Quem Está Morto Sempre Aparece", de Mark Mylod
"Uma Verdade Inconveniente", de Davis Guggenheim

INTRIGA INTERNACIONAL

Tal como "Voo 93" ou "World Trade Center" também "Alguns Dias em Setembro" (Quelques Jours en Septembre) tem ligações com o dia que, há cinco anos, deixou o mundo em suspenso quando as Torres Gémeas e quatro aviões norte-americanos foram alvo de terrorismo.
Contudo, ao contrário dessas obras de Paul Greengrass e Oliver Stone, o enredo desta primeira longa-metragem do argentino Santiago Amigorena (argumentista que aqui se estreia na realização) não se concentra nas tragédias que ocorreram nesse dia, antes oferece algumas conjecturas acerca dos bastidores dos episódios trágicos, em especial sobre a actuação dos serviços secretos norte-americanos nos dias que antecederam os acontecimentos.

Antes de chegar a este ponto, "Alguns Dias em Setembro" começa por seguir o percurso de Irene, uma ex-espia que se comprometeu a um antigo colega (e amigo), Elliot, a reunir os dois filhos deste, Orlando, francesa, abandonada pelo pai dez anos antes, e David, norte-americano e seu filho adoptivo.
Espião procurado por vários agentes devido à posse de informações de alto impacto internacional, Elliot adia por várias vezes o reecontro com os seus filhos na tentativa de despistar os seus perseguidores, sobretudo William Pound, que nutre por ele um misto de ódio e admiração.

Santiago Amigorena estrutura com eficácia este envolvente jogo do gato e do rato, proporcionando boas sequências de suspense sem no entanto injectar no filme excessivas cenas de acção e perseguição, pelo contrário, estas surgem apenas pontualmente, já que grande parte do tempo de antena é concedido (e ainda bem) às personagens e respectivas inquietações.

É, aliás, na construção das personagens que "Alguns Dias em Setembro" é melhor sucedido, sobretudo no trio protagonista, composto por Irene, Orlando e David, cuja dinâmica tanto oferece cenas de um inesperado humor (como a discussão sobre franceses e americanos) como de uma subtil introspecção (em especial a forma como a relação dos "irmãos" evolui).
A consistência destas deve-se não só ao sólido argumento de Amigorena, que combina drama, suspense e alguma comédia sem nunca esquecer as contingências das relações humanas, mas também às fortes interpretações de todos os actores, desde a de uma Juliette Binoche atipicamente enigmática e austera (que obriga a perdoar o seu insípido desempenho em "Maria Madalena", de Abel Ferrara), até às dos jovens Sara Forestier e Tom Riley, ela emanando uma vibrante garra em constante contenção, ele irradiando um idealismo contagiante.
Dos veteranos, John Turturro compõe em William Pound um assassino com tanto de hilariante como de assustador (embora demasiado caricatural) e Nick Nolte mostra-se igual a si mesmo numa pequena mas importante participação.

Apoiando-se num ritmo absorvente, num consistente trabalho de realização, argumento e fotografia e, claro, num elenco bastante seguro, "Alguns Dias em Setembro" é uma entusiasmante primeira obra, sugerindo que, para além de argumentista, Santiago Amigorena tem também méritos enquanto cineasta.
E, independentemente da temática incontornável com que está relacionada (factor que poderá torná-la num objecto controverso, principalmente devido à última meia hora), esta é acima de tudo uma boa história bem contada, ou seja, bom cinema.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

segunda-feira, setembro 11, 2006

O ÚLTIMO DESTINO

Cinco anos após a tragédia do 11 de Setembro, começam a surgir os primeiros olhares cinematográficos centrados nas várias situações que decorreram nesse dia, tanto nas dos ataques às Torres Gémeas (em que se concentra “World Trade Center”, de Oliver Stone”) como na dos aviões que foram desviados pelos terroristas, foco principal de “Voo 93” (United 93), de Paul Greengrass.

É certo que ecos dos acontecimentos deste dia que parou o mundo já se manifestaram noutras obras, de forma mais ou menos explícita, desde “A Última Hora”, de Spike Lee, a “Homem-Aranha 2”, de Sam Raimi, mas só agora surgem os primeiros títulos em que os atentados terroristas e as reacções das vítimas são o cerne da acção.

O filme de Greengrass acompanha, em tempo real, as peripécias decorridas no voo 93 da United Airlines, um dos quatro aviões desviados e o único que não atingiu o destino programado pelos terroristas, despenhando-se na Pensilvânia antes de conseguir chegar a Washington.
Tendo em conta que o voo não decorreu da forma que os terroristas esperavam devido às reacções a tripulação, a película oferecia material mais do que suficiente para se tornar numa mera desculpa para elogiar a determinação, coragem e união dos tripulantes, mas Greengrass, embora não ignore a atitude proactiva de muitos passageiros, também não transforma o filme num objecto patriótico e manipulador.

Recorrendo a um estilo próximo dos docudramas de matriz britânica (que já havia explorado, mas com resultados pouco estimulanets, em “Domingo Sangrento), o realizador inglês é capaz de se distanciar o suficiente para que “Voo 93” impressione pelo respeito e equilíbrio com que aborda os acontecimentos em torno da conturbada viagem.
Ao recusar heroísmos grandiloquentes e maniqueísmos fáceis, Greengrass tenta ser o mais factual possível, tendo contado com a colaboração de amigos e familiares dos passageiros (acedendo inclusivamente às conversas telefónicas efectuadas durante o voo) para a reconstituição dos acontecimentos decorridos antes e durante a viagem.

Dispensando nomes mediáticos entre o elenco e não chegando a construir personagens, reforçando assim o enfoque no acontecimento e não numa figura específica, o filme convence também pela apropriada realização nervosa que torna as cenas ainda mais plausíveis.

Com uma primeira hora concentrada quase sempre nos múltiplos centros de controlo dos voos - gerando meticulosamente uma tensão que se torna cada vez mais palpável - e um longo segmento final ambientado maioritariamente a bordo do avião - onde a perspectiva clínica presente até então dá origem a sequências mais perturbantes, uma vez que documentam a inquietação dos passageiros (e dos próprios terroristas) - “Voo 93” resulta numa projecto atípico, pois apesar do espectador já saber qual o desenlace (ou talvez por isso mesmo) não deixa de ser contaminado por um considerável sentimento de frustração e impotência face a situações que, embora retratadas num filme, ultrapassam o campo da ficção.

O esquematismo da narrativa poderá encorajar críticas dos detractores do filme, mas é determinante para que “Voo 93” funcione enquanto uma eficaz e crua experiência cinematográfica, que felizmente se distancia de um oportunista objecto centrado num dia trágico e merece ser visto pelo documento sério e honesto que é.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, setembro 10, 2006

LAST, BUT NOT LEAST

Depois de andar algum tempo a adiar, finalmente aderi ao Last.fm, e não demorou muito para ficar convencido (e viciado) por esta espécie de Hi5 (mas bem mais interessante) para melómanos. Quem se identificar minimamente com o protagonista do livro (e filme) "Alta Fidelidade" já deve conhecer, os que ainda não espreitaram (nem escutaram) podem saber mais aqui.
Entretanto, aqui ficam as listas dos artistas e canções que mais ouvi até agora desde que me registei, assim como o vídeo de "Car Song", dos Elastica (realizado por Michel "O Despertar da Mente" Gondry):






sexta-feira, setembro 08, 2006

PARA MAIS LOGO...

Anyone?

AMORES DE VERÃO (13): CANSEI DE SER SEXY

Autores de algumas das mais contagiantes canções da saison, estes brasileiros criaram o meu disco de Verão preferido deste ano. Pode não ser um grande álbum, mas em contrapartida temas como este "Let's Make Love and Listen Death From Above" são muito bons para cantar no banho.

quinta-feira, setembro 07, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "VOLTAR"

Depois da frieza e negrume de "Má Educação", Pedro Almodóvar regressa com um filme nos antípodas deste, recuperando o foco no universo feminino, através do qual se destacou, e proporcionando uma das suas obras mais maduras e calorosas. O resultado é "Voltar" (Volver), um dos mais belos dramas do ano.

Outras estreias:

"Animal", de Roselyne Bosch
"Diário de Um Novo Mundo", de Paulo Nascimento
"Faça Favor...", de Pierre Salvadori
"Minorca", de Keenen Ivory Wayans

TUDO SOBRE A MÃE DELAS

No anterior "Má Educação", Pedro Almodóvar regressou aos ambientes negros e sinistros que caracterizaram a primeira fase da sua filmografia, proporcionando uma das suas obras mais sombrias e inquietantes, com uma frieza que contrastava com os calorosos melodramas "Fala com Ela" e "Tudo Sobre a Minha Mãe".

Com "Voltar" (Volver), o cineasta afasta-se desses domínios marcados pela obsessão e pelo desejo e volta a apostar nos elementos que notabilizaram essas suas duas muito aclamadas películas: um elenco maioritariamente feminino, a abordagem dos laços familiares e da morte, e atmosferas desprovidas da irreverência e até mesmo bizarria presente nos seus filmes iniciais.

"Voltar" aborda a história de duas irmãs, Raimunda, uma empregada de limpeza cuja vida problemática se torna ainda mais conturbada quando a filha mata o seu marido em legítima defesa, e Sole, uma supersticiosa e insegura cabeleireira clandestina que, após a morte da tia, começa a ter visões da mãe, falecida há meses.

Noutras mãos, uma premissa destas poderia gerar um rocambolesco drama de faca e alguidar com pózinhos de esoterismo saloio (e tão na moda), mas Almodóvar trabalha-a com inteligência e maturidade num filme que expõe um envolvente olhar sobre as cumplicidades, segredos e mentiras do universo feminino, temática que não é nova - longe disso - mas que o realizador abordou quase sempre com sensibilidade e consistência.

Mais sóbrio e contido do que histriónico e garrido, "Voltar" é um melodrama que incorpora traços do suspense e está também muito bem condimentado por irresistíveis momentos de humor, sempre acessíveis mas nunca banais, surgindo espontaneamente entre a melancolia e o desencanto que ocupam grande parte do filme.

Inspirando-se em situações vividas na sua vila natal, La Mancha, área onde decorre parte da acção, Almodóvar retrata aqui a relação das mulheres locais com a morte, em que estas têm por hábito falar com os falecidos, tentando colmatar assim a dor da perda. A dor é, aliás, um dos elementos que une as personagens de "Voltar", figuras cujas vidas pouco prósperas apenas encontram refúgio no seu espírito de partilha e entre-ajuda.

Apesar das muitas lágrimas que polvilham o filme, este não apresenta um pingo de sentimentalismo flácido ou oportunista, emanando uma palpável genuinidade. A responsabilidade é tanto das subtilezas do argumento e da realização de Almodóvar como do soberbo elenco (justamente premiado no festival de Cannes), uma vez que todas as actrizes defendem muito bem as suas personagens.

Penélope Cruz, geralmente uma actriz de escassos recursos, apresenta aqui um desempenho muito convincente, tornando Raimunda numa protagonista carismática e interessante de seguir. Lola Dueñas, no papel da frágil Sole, oferece outra segura composição, assim como Blanca Portillo, comovente na pele de Agustina, a dedicada amiga das irmãs. Carmen Maura, uma das veteranas no cinema de Almodóvar, acrescenta mais uma forte interpretação à sua sólida carreira, e até Chus Lampreave, a memorável velhinha que tinha um lagarto chamado "Dinheiro" em "Que Fiz Eu Para Merecer Isto?", tem uma breve participação.

Muito bem escrito, filmado e interpretado, "Voltar" confirma que os últimos anos têm mesmo consolidado a fase áurea do cineasta espanhol, e merece lugar cativo entre os filmes indispensáveis de 2006, sendo também um dos melhores trabalhos do realizador, o que não é dizer pouco.
E O VEREDICTO É: 4,5/5 - MUITO BOM

quarta-feira, setembro 06, 2006

ESTRANHAS LIGAÇÕES

Num período em que parte significativa do cinema norte-americano tem dedicado considerável atenção à conjuntura política e económica mundial dos dias de hoje, recuperando características de alguns thrillers da década de 70, "Syriana", de Stephen Gaghan, salienta-se como um dos títulos que adquiriu maior visibilidade.

Propondo um complexo (e frequentemente confuso) olhar sobre os bastidores da indústria petrolífera, da CIA, do terrorismo e das ligações entre o ocidente e o (médio) oriente, o filme tem tanto de ambicioso e pertinente como de falhado, perdendo-se numa narrativa demasiado fragmentada que deixa, não raras vezes, o espectador sem âncora, perdido entre tanta sobrecarga de informação.

Se Gaghan tem mérito por focar os conflitos de interesses que orientam as relações internacionais contemporâneas, nunca cedendo ao estilo histérico e tendencioso de um Michael Moore, apresenta contudo um objecto irregular já que intrincado argumento é de difícil absorção, bem mais do que o de "Traffic - Ninguém Sai Ileso", de Steven Soderbergh, outro filme mediático que o realizador/argumentista escreveu anteriormente e que lhe concedeu algum prestígio (como o comprova o Óscar de Melhor Argumento).

A vertente excessivamente cerebral do filme, embora o desequilibre, não impede que este se destaque como um objecto de interesse acima da média, sobretudo porque Gaghan é hábil no trabalho de câmara, apostando numa realização fluída de travo documental, acentuando um realismo que a fotografia de cores esbatidas ajuda a consolidar.
A direcção de actores é igualmente feliz, num elenco que inclui um seguro e envolvente Matt Damon, um ambíguo e intrigante Jeffrey Wright, um sinistro Christopher Plummer ou um sobrevalorizado George Clooney (numa interpretação competente mas inexplicavelmente vencedora do Óscar de Melhor Actor Secundário).

É pena que "Syriana" não chegue a ser o grande filme que estes recomendáveis atributos sugerem, pois apesar de duas ou três sequências muito fortes (a do filho da personagem de Damon ou todo o desenlace), o argumento não deixa que a película atinja o seu potencial, prejudicando-a com outras tantas cenas enfadonhas de interesse questionável e não explorando as personagens como estas mereciam. Espera-se, por isso, que o próximo trabalho de Gaghan seja uma película igualmente inteligente e adulta mas que dê espaço para o espectador respirar.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, setembro 05, 2006

HOMEM À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Até então um realizador sem nada que o distinguisse de tantos outros, o norte-americano Mike Binder surpreendeu, em 2005, ao proporcionar uma das dramedies mais irresistíveis do ano, em "O Lado Bom da Fúria", onde uma brilhante Joan Allen contracenava com um recuperado Kevin Costner, gerando uma química conseguida ancorada num argumento coeso e cativante.

O seu novo filme, "Um Homem na Cidade" (Man About Town), despertava por isso alguma curiosidade, mesmo que o protagonista, Ben Affleck, fosse uma escolha no mínimo arriscada, não só pelos seus limitados méritos interpretativos mas também pelos flops que têm fragilizado a fase mais recente da sua carreira.

Infelizmente, a película acaba mesmo por ficar muito aquém do trabalho anterior do realizador, não tanto devido a Ben Affleck - que, não sendo excepcional, cumpre -, mas pela mistura entre comédia e drama raramente possuir a inspiração que fez de "O Lado Bom da Fúria" uma estimável surpresa.

Esta história sobre um agente de argumentistas de séries de televisão que atravessa uma crise existencial, tendo de lidar com a instabilidade da empresa, a debilidade do pai ou a traição da esposa, não possui nem a densidade que faça com que a vertente dramática funcione nem um argumento que seja capaz de a coordenar eficazmente com os gags (muitos deles falhados) que vão surgindo no decorrer do filme.

O diário que a personagem de Affleck vai escrevendo para as suas aulas, que visam torná-lo numa pessoa mais decidida e confiante, atira "Um Homem na Cidade" para territórios próximos de um filme de auto-ajuda, sobrecarregando-o com diálogos ora pomposos ora melodramáticos (sobretudo nas cenas conjugais), tentando torná-lo numa obra séria e complexa mas cujo resultado é pouco mais do que insípido.

Ocasionalmente, Binder consegue gerar algumas sequências onde o humor ainda resulta, como no inesperado episódio em Chinatown ou nas últimas (e caóticas) cenas no escritório, mas estes fugazes desvios espirituosos ocorrem com menor frequência do que as bocejantes cenas ancoradas num anódino registo dramático.

De resto, não é nem pelo elenco (com uma Rebecca Romijn deslumbrante, é certo, mas sem uma grande personagem para defender, ou com um John Cleese igual a si próprio) nem pela realização (apenas competente) que "Um Homem na Cidade" encontra forma de fugir à indistinção, e se ainda consegue ser um filme tragável não deixa de constar entre as desilusões do ano. Visível, mas longe de memorável.

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, setembro 04, 2006

AMORES DE VERÃO (12): DEATH CAB FOR CUTIE

Enquanto não chega o novo dos Death Cab for Cutie e, sobretudo, o muuuuito aguardado segundo álbum dos Postal Service, fica aqui uma recordação de "Transatlanticism". Clap your hands and say "pa-pa, pa-pa"...

Death Cab for Cutie - "The Sound of Settling"

SONHOS DESFEITOS

Realizador do interessante "A Bicicleta de Pequim", o chinês Wang Xiaoshuai regressa com "Sonhar com Xangai" (Qinghong / Shanghai Dreams), mais um retrato das tensões quotidianas, tanto sociais como familiares, do seu país, seguindo aqui uma família de uma pequena aldeia em meados dos anos 80.

Laowu, operário fabril cansado do pouco auspicioso dia-a-dia em Ghizou, tenciona voltar a Xangai na procura de melhores condições de vida, mas Qinghong, a sua filha adolescente, mostra-se mais avessa à mudança de lar, uma vez que se encontra já ambientada na pequena povoação que a acolhe.

Esta é apenas uma das diferenças que molda a difícil relação entre os dois, a par de contraditórias formas de lidar com as ténues, mas cada vez mais presentes, influências da cultura ocidental (determinantes sobretudo entre a população jovem) ou com os demarcados estatutos e papéis do homem e da mulher, assim como da liberdade que é concedida a cada um.

À semelhança do seu antecessor, "Sonhar com Xangai" é um filme contido, discreto e lacónico, não raras vezes triste e pouco esperançoso, onde mesmo a descoberta do amor não leva a que o cenário se torne mais próspero, impondo antes que as dores e contradições do crescimento sejam mais agudas e evidentes.

Drama sóbrio, enxuto e atmosférico, prova que Xiaoshuai é um realizador atento às complexidades das relações humanas, conseguindo gerar alguns belos momentos à custa de uma minuciosa gestão dos silêncios ou das expressões dos seus actores, que traduzem uma inquietação política e social não verbalizada mas sentida.

Contudo, apesar desta conseguida carga realista, "Sonhar com Xangai" arrisca-se a afundar-se, e a levar o espectador consigo, no seu próprio negrume, enclausurando as personagens nos seus fantasmas e não lhes deixando espaço para respirar, sobretudo na segunda metade do filme.
O ritmo é outro elemento pouco envolvente, incitando a que a narrativa se desenvolva de forma demasiado morosa e arrastada, sendo o seu efeito bem mais soporífero do que intrigante.

Assim, "Sonhar com Xangai" resulta numa obra que, embora mereça ser vista, não chega a ir tão longe como poderia, sendo uma película curiosa mas não especialmente marcante (não se percebe por isso o porquê do Prémio do Júri na edição de Cannes de 2005). Uma boa oportunidade, de qualquer forma, para conhecer o trabalho de um dos nomes cimeiros da nova geração de realizadores chineses.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sexta-feira, setembro 01, 2006

AMORES DE VERÃO (11): M.I.A.

Não sou grande fã do disco desta rapariga (já fui menos), mas em pequenas doses até funciona, como me parece ser o caso do single ali ao lado, um bom acompanhamento para banhos de sol.

M.I.A. - "Galang"