quinta-feira, novembro 30, 2006

7 BLOGUES, 6 ESTREIAS, 5 ESTRELAS

À semelhança do que ocorreu em relação a Outubro, alguns bloggers (Paulo Costa, gonn1000, Francisco Mendes, dermot e Knoxville, o autor da iniciativa) voltaram a reunir as suas classificações a algumas das estreias do mês. Acima fica a tabela de Novembro, agora com a salutar colaboração feminina da H. e da Wasted Blues. É bom ver que a diferença de gostos e sensibilidades não invalida a participação num projecto comum, venham mais filmes :)

ESTREIA DA SEMANA: "A RAINHA"

Seguindo a reacção da Família Real britânica à súbita morte da Princesa Diana, em particular a postura adoptada pela Rainha Isabel II, "A Rainha" (The Queen) é um drama cujo argumento e a actriz principal, Helen Mirren, foram premiados no último festival de Veneza. Tendo em conta a obra do realizador Stephen Frears ("Alta Fidelidadede", "Mrs. Henderson"), este promete ser um filme no mínimo curioso.

Outras estreias:

"Borat: Aprender Cultura da America Para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão", de Larry Charles
"Por Água Abaixo", de David Bowers, Sam Fell

quarta-feira, novembro 29, 2006

CRUELDADE TOLERÁVEL

Filme de época ambientado num Portugal rural de meados do século XIX, "Viúva Rica Solteira Não Fica" é uma comédia negra que se concentra nas peripécias de uma jovem viúva brasileira, cuja fortuna vai crescendo à medida que os seus sucessivos maridos vão falecendo.

De tom ligeiro e espirituoso, a mais recente película de José Fonseca e Costa ("Kilas, o Mau da Fita", "A Balada da Praia dos Cães") lança um olhar que se pretende corrosivo sobre a aristocracia, a religião e os costumes de outros tempos - embora com algumas observações ainda válidas para os dias de hoje -, definindo um núcleo de personagens onde cedo se percebe que quase nenhuma é inocente, sobrando no final aquelas cuja argúcia e sentido de oportunidade lhes permite prosperar.

Longe de inovador, apostando num trabalho de realização competente mas sem rasgos e num argumento simples e linear, o filme vale por conseguir funcionar enquanto entretenimento minimamente inteligente e acessível, aspecto que, se não o torna num objecto marcante, também não é negligenciável tendo em conta o cinema que se faz por cá.

Fonseca e Costa acerta ainda na direcção de actores (Bianca Byington, Cucha Carvalheiro, José Raposo e Rogério Samora cumprem, Ricardo Pereira não destoa e apenas Diogo Dória falha no tom, adoptando uma postura demasiado teatral) e na reconstituição de época, mais modesta do que pomposa mas que serve sem reparos as necessidades da história, contudo não apresenta um equilíbrio tão coeso no argumento, que a partir de certo ponto se torna redundante e leva a um desfecho nada surpreendente.
Os diálogos, não sendo de desprezar, também não são tão irónicos nem mordazes como se esperaria, e as personagens nunca conseguem soltar-se de uma caracterização, no máximo, bidimensional.

Tendo em conta estes desequilíbrios, o filme dificilmente mantém o entusiasmo do espectador ao longo das suas mais de duas horas, uma duração claramente excessiva para um material tão limitado, ainda que curioso. Mesmo assim, é mais interessante do que "O Fascínio", a desapontante obra anterior de Fonseca e Costa, e num ano em que outros "autores" nacionais se mostraram pouco ou nada inspirados (como Fernando Lopes em "98 Octanas" ou Pedro Costa em "Juventude em Marcha"), "Viúva Rica Solteira Não Fica" consegue gerar, pelo menos, alguma simpatia e não desmerece um visionamento.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, novembro 27, 2006

CRIME SOB INVESTIGAÇÃO

"Brick", estreia de Rian Johnson na realização, chega a salas nacionais após uma entusiástica recepção internacional, com destaque para o Grande Prémio do Júri para Visão Original no Festival de Sundance, em 2005. Os elogios chegam ao ponto de comparar o filme a outras primeiras-obras auspiciosas de círculos indie, como "Donnie Darko", de Richard Kelly, mas se "Brick" contém alguns méritos que justificam a sua descoberta nunca chega, contudo, a aproximar-se da genialidade ou sequer de um nível de inspiração muito acima da média.

A proposta, apresentar uma história com claras alusões ao film noir mas inesperadamente ambientada no universo estudantil de um liceu, é criativa e aliciante, e embora Johnson consiga desenvolvê-la com algum engenho a execução acaba por ficar aquém das potencialidades da premissa.

Seguindo a investigação do protagonista, que procura descobrir os responsáveis pela morte da ex-namorada, o filme mantém certas coordenadas do policial negro, aqui abordadas de forma suficientemente refrescante. Não falta uma sisuda, perspicaz e solitária personagem principal, obstinada em resolver um mistério sinistro, nem as enigmáticas femmes fatales que vão surgindo no seu caminho, assim como outras figuras de moral ambígua e presença desconfortante.

A envolvente realização de Johnson, por vezes próxima da de Chris Nolan, é eficaz na edificação de uma soturna atmosfera urbana, os diálogos são certeiros e temperados com doses suficientes de humor negro e o elenco, todo ele jovem, está à altura das necessidades do projecto, em particular o protagonista Joseph Gordon-Levitt, que não poderia estar mais longe do imberbe papel através do qual se celebrizou na série "Terceiro Calhau a Contar do Sol".

O que falha, então, neste ambicioso exercício de estilo? Sobretudo o argumento, que ao querer ser tão complexo e intrigante torna-se excessivamente clínico e cerebral, e se nunca deixa de ser curioso de seguir leva-se demasiado a sério e não é capaz de gerar a carga dramática que se esperaria. Com a eventual excepção da personagem de Gordon-Levitt, todas as outras ficam reféns de uma vertente meramente funcional, sendo pouco mais do que peças de um jogo inteligente q.b., mas distante do brilhantismo.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

domingo, novembro 26, 2006

DOGGIE STYLE

Para os fãs de cães saltitantes (e eu sei que são muitos), deixo aqui o vídeo de "Poney Pt. 1", do Vitalic, um dos muitos temas viciantes de "OK Cowboy!", editado no ano passado:

sábado, novembro 25, 2006

CRIANÇAS INVISÍVEIS

Nos últimos anos, Robin Williams tem participado em alguns projectos que contrariam a sua imagem de marca tendencialmente associada à comédia, género que marcou grande parte da sua carreira. Títulos como "Insomnia", de Chris Nolan, e sobretudo "Câmara Indiscreta", de Mark Romanek, ajudaram a confirmar a versatilidade do actor, propondo-lhe outro tipo de registos aos quais se adaptou com considerável solidez.

"Uma Voz na Noite" (The Night Listener) é mais um desses exemplos, misto de drama e thriller psicológico onde um popular radialista inicia uma relação de cumplicidade por telefone com um dos seus ouvintes, um adolescente de saúde frágil, seropositivo e com uma infância atormentada por abusos sexuais.

Williams compõe um sólido protagonista, Gabriel Noone, cujo final do relacionamento com o companheiro mais novo o confronta com o seu envelhecimento e solidão, encontrando refúgio nas conversas com o seu intrigante jovem fã, de quem se torna confidente.
No entanto, à medida que a amizade entre os dois se vai desenvolvendo, Noone começa a ter dúvidas acerca da identidade do seu interlocutor, o que o leva a tentar encontrá-lo, mas sem sucesso, devido à interferência da suposta tutora do jovem.

O realizador Patrick Stettner modela um filme seguro e promissor durante a primeira metade, desenvolvendo um sóbrio drama suportado por personagens com potencial e conseguindo gerar uma apropriada atmosfera intimista. O problema é que, à medida que o argumento vai intensificando a carga de mistério, aproximando-se do thriller, "Uma Voz na Noite" arrasta-se para domínios mais indistintos e minados por algumas doses de previsibilidade.
O filme não deixa de ser absorvente até ao final, mas a capacidade de surpreender é diminuta e o suspense, que se insinua a espaços, é desaproveitado por revelações que, a partir de certa altura, já são óbvias para um espectador minimamente atento.

Um falhanço interessante, portanto, que tem o mérito de, mesmo sendo desigual, nunca abusar de sequências de perseguições redundantes e sustos formatados que a segunda parte encorajava. E para além de Williams, inclui ainda uma irrepreensível galeria de actores secundários composta por Rory Culkin, Sandra Oh, Bobby Cannavale e Toni Collette, esta última no melhor desempenho do filme, entregue a uma personagem difícil que, se interpretada por uma actriz mediana, não sairia da caricatura. É também por isso uma pena que, no obrigatório balanço final, e pese embora alguma ocasional inspiração, "Uma Voz na Noite" não consiga ultrapassar a barreira de uma esforçada competência.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, novembro 23, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "007 - CASINO ROYALE"

Estreia hoje um dos filmes da saga 007 que mais burburinho gerou nos últimos anos, "007 - Casino Royale". Para além de se centrar na primeira missão do agente secreto mais famoso do mundo, explicando inclusivamente a origem do seu nome de código, o filme foi alvo de polémica devido à escolha de um novo actor para o papel, Daniel Craig, e por apresentar uma vertente mais dura e crua das aventuras da personagem. No entanto, não falta quem garanta que este é um dos melhores filmes da saga em muito tempo, e Craig já provou ser um actor a ter em conta em filmes como "O Fardo do Amor", "Sylvia" ou "Munique". Martin Campbell, tarefeiro por vezes competente ("Goldeneye", "A Máscara de Zorro"), assina a realização.

Outras estreias:

"667 - O Vizinho da Besta", de Eduardo Condorcet
"Filha da Guerra", de Jasmila Zbanic
"Infame", de Douglas McGrath
"Juventude em Marcha", de Pedro Costa
"Obrigado por Fumar", de Jason Reitman
"Step Up", de Anne Fletcher

quarta-feira, novembro 22, 2006

A WEEKEND IN THE CITY III: 19/11



Fundação de Serralves - Arte(?) dos ANOS 80: UMA TOPOLOGIA

A WEEKEND IN THE CITY II: 18/11

Herbie Hancock Quartet, ou antes, quase três horas onde o virtuosismo do músico e do trio que o acompanhou não se traduziu num concerto estimulante, bem pelo contrário. Enfim, pelo menos o Herbie é um senhor simpático e com sentido de humor, e sempre foi uma forma de ir conhecer a Casa da Música (mais detalhes aqui). Também foi uma forma de ficar pelas redondezas e terminar (bem) a noite no Triplex, ali mesmo ao lado, onde esteve outro blogger a passar discos.

A WEEKEND IN THE CITY I: 17/11

Oportuna a altura da passagem pelo Porto, já que na mesma noite possibilitou rever os You Should Go Ahead em palco e, depois, iniciar a madrugada com o dj set de Akufen.
A banda portuguesa foi pretexto para ir conhecer O Meu Mercedes é Maior Que o Teu, e se a zona da ribeira estava estranhamente vazia para uma sexta-feira à noite o mesmo não se pode dizer do espaço que acolheu a actuação do grupo, que foi enchendo aos poucos. Justificou-se, já que o concerto, apesar dos atrasos, foi escorreito e mostrou um projecto com potencial, capaz de apresentar uma quantidade suficiente de boas canções, mesmo não atingindo o patamar das influências óbvias (Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, We Are Scientists). Não acrescentam muito às já demasiadas bandas herdeiras do pós-punk (algo já evidente no disco), mas o concentrado de energia e entusiasmo convence.

Para algo completamente diferente, o sueco Akufen levou ao Bazaar um set marcado por batidas techno e microhouse, mas deu pena ver um cardápio sonoro tão hipnótico e funcional ser desperdiçado perante um público cuja reacção raramente se afastou da indiferença. Gostei do local, sofisticado e confortável, que ainda não conhecia. Não gostei tanto do ambiente, já que parecia ser mais interessante para a maioria ir beber martinis na varanda do que ocupar a pista de dança, onde a música era encarada como mais um acessório decorativo.

CIRCULAR, CIRCULAR...

Os problemas relatados no post anterior estão, aparentente, resolvidos, espero que o Blogger não volte a pregar-me partidas tão cedo...

segunda-feira, novembro 20, 2006

BLAME BLOGGER

Os leitores mais assíduos do gonn1000 terão notado que recentemente o blog ficou aparentemente vazio, com um layout que continha apenas o fundo pré-definido. Ora estive pela Invicta nos últimos dias e, entretanto, sem qualquer motivo concebível, as formatações que tinha no template desapareceram, o que fez com que, embora o arquivo do blog continuasse intacto, os posts não tenham estado visíveis.
Já consegui corrigir parte deste erro inesperado, mas por qualquer razão que me escapa não consigo alterar parte do template da página inicial do blog, e por isso os muitos links internos e externos, assim com as restantes personalizações que o mesmo continha, só estão disponíveis através dos arquivos mensais ali no lado esquerdo. Peço desculpa a quem passou por aqui entretanto e espero que estes problemas do Blogger sejam passageiros, porque se for para continuar assim ainda acabo mesmo por mudar de plataforma.
Obrigado à Sunday, à Lid e ao Kraak por me terem avisado ;)

quinta-feira, novembro 16, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "A CIÊNCIA DOS SONHOS"

Numa semana de muitas estreias, o destaque - sem concorrência à altura, ao que parece - vai para "A Ciência dos Sonhos" (The Science of Sleep), o novo filme de Michel Gondry, cuja obra anterior, "O Despertar da Mente", é muito estimado por estes lados.
Gael García Bernal é o protagonista de mais um conto bizarro onde o real e o onírico voltam a misturar-se, característica que já vai sendo predominante nos trabalhos do realizador (incluindo os videoclips, onde ganhou parte da reputação).
Histórias de amor parisienses têm sido o mote para algumas estreias recentes, e a tendência repete-se aqui, mas espera-se que Gondry tenha conseguido dar a esta uma ressonância peculiar.
Para além deste, vale a pena não deixar passar pelo menos outro dos novos filmes em cartaz, "Brick", a primeira obra de Rian Johnson centrada num grupo de adolescentes, um curioso drama que incorpora referências do film noir.
Outras estreias:

"16 Blocks", de Richard Donner
"Brick", de Rian Johnson
"Corrigindo Beethoven", de Agnieszka Holland
"Estranhos", de Simon Brand
"Massacre no Texas - O Início", de Jonathan Liebesman
"O Lugar Ideal", de Danièle Thompson
"Um Ano Especial", de Ridley Scott
"Viúva Rica Solteira Não Fica", de José Fonseca e Costa

quarta-feira, novembro 15, 2006

PROGRAMAÇÃO SAUDÁVEL

Depois de séries como "Serviço de Urgências", "Scrubs: Médicos e Estagiários" ou "House" terem levado os dramas/comédias médicas aos lugares cimeiros das tabelas de audiências, chega hoje mais uma. "Anatomia de Grey" (Grey's Anatomy) estreia às 22h50m na RTP1 e, segundo consta, vale a pena espreitá-la.

terça-feira, novembro 14, 2006

GANGS DE BOSTON

Nos seus dois filmes anteriores, "Gangs de Nova Iorque" e "O Aviador", Martin Scorsese ofereceu grandes produções de época, luxuosamente embrulhadas por um apuro técnico irrepreensível e apenas ao alcance de alguns que foi, no entanto, desperdiçado por debilidades na construção da narrativa e das personagens. Não deixavam de possuir algumas sequências memoráveis, mas como um todo o balanço qualitativo era irregular e faltava-lhes o nervo e a densidade pelos quais o cineasta se notabilizou ao longo dos anos.

"The Departed: Entre Inimigos" assinala o regresso aos ambientes urbanos e claustrofóbicos que definiram o percurso inicial do realizador, propondo um misto de thriller e drama ancorado em dois polícias, que têm em comum o facto de serem agentes infiltrados.
Um, Billy Costigan, está no início da carreira e o seu passado obscuro torna-o na escolha perfeita para se infiltrar num gang da máfia irlandesa de Boston. O outro, Colin Sullivan, distinguiu-se pelo seu percurso bem-sucedido na Unidade Especial de Investigação mas esconde um perigoso segredo dos seus colegas, uma vez que integrou a polícia para reportar ao líder do mesmo gang as principais estratégias desta.

Parte jogo do gato-e-do-rato, desenvolvendo uma intrincada teia de ligações e perseguições, parte mergulho nos dilemas e medos existenciais dos dois protagonistas, que se debatem com as contradições das suas identidades, o filme é um exercício de estilo bem oleado, sabendo como conduzir uma narrativa intrigante sustentada por personagens complexas.

Remake do primeiro capítulo de "Infiltrados" (Infernal Affairs), a trilogia policial criada pela dupla de Hong Kong Andrew Lau e Alan Mak, "The Departed: Entre Inimigos" recupera de facto alguns dos elementos essenciais da acção dessa película mas deixa bem visível a mudança de realizador.
Aproximando-se das atmosferas de outros títulos de Scorsese como "Tudo Bons Rapazes", o filme não deixa de efectuar, de forma mais ou menos directa, um olhar sobre a América, como já é habitual na filmografia do cineasta, em particular sobre a miscenização de culturas, aspecto determinante para a construção da personagem de Billy Costigan.

O realizador volta a apresentar aqui uma obra vincada pela elegância formal, com uma inatacável solidez na montagem, capaz de imprimir um ritmo que, ao contrário do dos dois filmes anteriores, nunca acusa as duas horas e meia de duração. A banda-sonora a cargo de Howard Shore, discreta e cativante, é apropriada aos ambientes do filme, modelados em parte pela fotografia de Michael Ballhaus, investindo essencialmente em tons castanhos-alaranjados, em tudo contrastantes com os azuis metálicos de "Infiltrados".

"The Departed: Entre Inimigos" conta com uma tensão bem gerida e, para além do realizador, há que reconhecer o mérito dos actores, quase todos nomes de peso, tanto os principais como os secundários.
Dos protagonistas, Matt Damon dá mais uma prova de talento numa interpretação segura, mas é Leonardo DiCaprio o que mais surpreende no desempenho de Billy Costigan, através do qual o actor oferece um sóbrio retrato da solidão e inadaptação, numa personagem em fuga e quase sem portos de abrigo, a mais interessante, comovente e complexa do filme. Jack Nicholson proporciona mais uma lição de interpretação (uma das melhores dos últimos tempos), conciliando um sentido de humor (negro) e um peculiar calculismo no papel do chefe do gang e a menos mediática Vera Farmiga confirma a boa impressão deixada em "Medo de Morte", no início deste ano.

Scorsese edifica aqui uma obra estimulante e acima da média mas que, infelizmente, não chega a atingir o estatuto de imprescindível devido às opções tomadas na construção da personagem de Matt Damon. Embora servido por um bom desempenho, Colin Sullivan não contém a ambiguidade nem a inquietação da sua personagem análoga de "Infiltrados", movendo-se sempre em nome de interesses pessoais e nunca questionando a sua conduta. As preocupações que advêm do seu cargo de "toupeira" giram somente em torno da sua sobrevivência e prosperidade, e teria sido mais interessante se a personagem colocasse a sua moral em causa, tornando a película menos maniqueísta e reforçando as semelhanças dos dois protagonistas.
Pior é o final que o filme lhe reserva em virtude dessa postura, mais convencional e menos desafiante do que o do filme de Andrew Lau e Alan Mak. É pena que um filme com um desenvolvimento tão inteligente e minuciosamente arquitectado termine de uma forma pouco corajosa, mas "The Departed: Entre Inimigos" sobrevive bem a esse desequilíbrio e funciona tanto como um entretenimento de topo como enquanto uma experiência cinematográfica de méritos inegáveis, ou não fosse o melhor Scorsese em muitos anos.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sábado, novembro 11, 2006

SATURDAY NIGHT FEVER


Sugestão para hoje: Tree Eléctrico (aka O Puto) no Bar do Bairro

sexta-feira, novembro 10, 2006

SOMETIMES I THINK THAT I'M BIGGER THAN THE SOUND


The Smashing Pumpkins - "Perfect"


Yeah Yeah Yeahs - "Cheated Hearts"


New Order - "True Faith"
Três canções:
Uma mais antiga, outra mais recente, outra mais ou menos. Neste momento, fazem sentido. Estas e mais vinte e duas, pelo menos.

quinta-feira, novembro 09, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "THE DEPARTED - ENTRE INIMIGOS"

Depois do desapontante "O Aviador", Martin Scorsese está de volta e desta vez com um filme bem mais estimulante. "The Departed - Entre Inimigos" é um remake do primeiro episódio da trilogia de Hong Kong "Infiltrados", um thriller onde Matt Damon e o reincidente Leonardo DiCaprio se perseguem mutuamente e lidam com as suas trocas de identidade, encontrando-se infiltrados em facções opostas: um na polícia, outro num gang. Um dos filmes mais aguardados dos últimos meses de 2006 a descobrir a partir de hoje, e mesmo que o resultado não seja uma obra-prima a espera valeu a pena.

Outras estreias:

"Irresistível", de Ann Turner
"O Perfume - História de um Assassino", de Tom Tykwer
"Os Rebeldes da Bola", de Joachim Masannek
"Uma Voz na Noite", de Patrick Stettner

quarta-feira, novembro 08, 2006

TERAPIA DE GRUPO

Uma das surpresas do último festival de Sundance, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" (Little Miss Sunshine) tem tido uma recepção crítica francamante positiva, tanto a nível internacional como nacional, e se esta estreia nas longas-metragens de Jonathan Dayton e Valerie Faris, casal de realizadores com experiência nos videoclips, tem méritos mais do que suficientes para justificar vários elogios, não é menos verdade que entre estes não se encontra propriamente a reinvenção de códigos que têm começado a formatar o cinema independente norte-americano.

Esta dramedy on the road segue a viagem de uma família (disfuncional, como não poderia deixar de ser) que se desloca numa velha carrinha até à Califórnia para que a filha mais nova, Olive, possa concorrer a um concurso de beleza para crianças. Entre a partida e a chegada, surgem uma série de peripécias através das quais os ténues elos de ligação serão reforçados, levando a que todos os elementos contribuam, voluntária ou acidentalmente, para que a família se torne mais coesa e unida.

Se o desenvolvimento desta premissa é geralmente previsível, as personagens não são muito mais surpreendentes, constituíndo uma galeria de outcasts à medida daqueles que o cinema indie tanto tende a privilegiar.
Desde o pai, obcecado pelo sucesso e cujo livro sobre os novos passos para o atingir está prestes a ser editado; passando pelo filho adolescente, em voto de silêncio até conseguir entrar para a escola de aviação; pelo avô, viciado em heroína e de temperamento difícil; ou pelo tio homossexual e especialista em Proust, que tenta reorganizar a sua vida após uma tentativa de suicídio; não faltam aqui protagonistas dominados por alguma bizarria. As excepções acabam por ser as figuras femininas, tanto a mãe, que se esforça por fazer com que a família não desmorone, como a pequena filha, optimista e entregue ao sonho de ganhar o título de "Little Miss Sunshine".

Estas personagens geram uma dinâmica curiosa, mas individualmente é raro ultrapassarem a caricatura, sendo pouco mais do que variações de arquétipos do loser excêntrico em que o cinema independente norte-americano se tem alicerçado.
Felizmente, a direcção de actores joga a seu favor, já que Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carell, Abigail Breslin, Paul Dano e Alan Arkin apresentam interpretações sem falhas que conseguem compensar, pelo menos em parte, a bidimensionalidade a que o argumento de "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" sujeita os seus papéis, dotando o filme de um dos elencos mais invejáveis do ano. Carrell e Dano são particularmente bem-sucedidos, o primeiro nos antípodas da personagem que o ajudou a celebrizar-se em "Virgem aos Quarenta Anos" e o segundo a mostrar talento e versatilidade depois da boa impressão deixada por "L.I.E. - Sem Saída" e "A Balada de Jack e Rose".

O carisma do elenco é responsável por grande parte do apelo do filme, mas o argumento de Michael Arndt também tem tem mérito ao enveredar por territórios reconhecíveis sem se limitar a repisar lugares-comuns, conseguindo mesmo inverter as expectativas a espaços. Pontualmente escorrega no tom, como nas sequências do hospital e nas que estão dependentes desta (mais apropriadas a filmes como "Fim-de-Semana com o Morto"), contudo a combinação de comédia com drama é quase sempre feita com engenho, exigência e, mais importante, alma, oferecendo algumas cenas ora hilariantes (os gags da buzina são de antologia) ora desencantadas (como nas da revolta da personagem de Dano).

A crítica ao culto do sucesso em terras do tio Sam não é muito subtil nem sequer original (um concurso de beleza é um alvo demasiado fácil) e na segunda metade do filme o auge da união familiar mistura-se com a defesa de uma questionável irreverência desmedida, mas reconheça-se que, não obstante os seus defeitos e a opção pelo template indie, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" irradia um encanto próprio e é um dos mais saborosos feelgood movies dos últimos tempos. Não revoluciona, mas é uma primeira obra muito promissora.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

terça-feira, novembro 07, 2006

A ALICE VOLTOU

O muito elogiado (e, convenhamos, algo sobrevalorizado) "Alice", estreia na realização de longas-metragens de Marco Martins, já tem edição em DVD. O lançamento decorreu ontem na FNAC do Chiado e contou com a presença do realizador, dos actores Nuno Lopes e Beatriz Batarda e do autor da banda-sonora, Bernardo Sassetti. Mais detalhes aqui.