terça-feira, novembro 14, 2006

GANGS DE BOSTON

Nos seus dois filmes anteriores, "Gangs de Nova Iorque" e "O Aviador", Martin Scorsese ofereceu grandes produções de época, luxuosamente embrulhadas por um apuro técnico irrepreensível e apenas ao alcance de alguns que foi, no entanto, desperdiçado por debilidades na construção da narrativa e das personagens. Não deixavam de possuir algumas sequências memoráveis, mas como um todo o balanço qualitativo era irregular e faltava-lhes o nervo e a densidade pelos quais o cineasta se notabilizou ao longo dos anos.

"The Departed: Entre Inimigos" assinala o regresso aos ambientes urbanos e claustrofóbicos que definiram o percurso inicial do realizador, propondo um misto de thriller e drama ancorado em dois polícias, que têm em comum o facto de serem agentes infiltrados.
Um, Billy Costigan, está no início da carreira e o seu passado obscuro torna-o na escolha perfeita para se infiltrar num gang da máfia irlandesa de Boston. O outro, Colin Sullivan, distinguiu-se pelo seu percurso bem-sucedido na Unidade Especial de Investigação mas esconde um perigoso segredo dos seus colegas, uma vez que integrou a polícia para reportar ao líder do mesmo gang as principais estratégias desta.

Parte jogo do gato-e-do-rato, desenvolvendo uma intrincada teia de ligações e perseguições, parte mergulho nos dilemas e medos existenciais dos dois protagonistas, que se debatem com as contradições das suas identidades, o filme é um exercício de estilo bem oleado, sabendo como conduzir uma narrativa intrigante sustentada por personagens complexas.

Remake do primeiro capítulo de "Infiltrados" (Infernal Affairs), a trilogia policial criada pela dupla de Hong Kong Andrew Lau e Alan Mak, "The Departed: Entre Inimigos" recupera de facto alguns dos elementos essenciais da acção dessa película mas deixa bem visível a mudança de realizador.
Aproximando-se das atmosferas de outros títulos de Scorsese como "Tudo Bons Rapazes", o filme não deixa de efectuar, de forma mais ou menos directa, um olhar sobre a América, como já é habitual na filmografia do cineasta, em particular sobre a miscenização de culturas, aspecto determinante para a construção da personagem de Billy Costigan.

O realizador volta a apresentar aqui uma obra vincada pela elegância formal, com uma inatacável solidez na montagem, capaz de imprimir um ritmo que, ao contrário do dos dois filmes anteriores, nunca acusa as duas horas e meia de duração. A banda-sonora a cargo de Howard Shore, discreta e cativante, é apropriada aos ambientes do filme, modelados em parte pela fotografia de Michael Ballhaus, investindo essencialmente em tons castanhos-alaranjados, em tudo contrastantes com os azuis metálicos de "Infiltrados".

"The Departed: Entre Inimigos" conta com uma tensão bem gerida e, para além do realizador, há que reconhecer o mérito dos actores, quase todos nomes de peso, tanto os principais como os secundários.
Dos protagonistas, Matt Damon dá mais uma prova de talento numa interpretação segura, mas é Leonardo DiCaprio o que mais surpreende no desempenho de Billy Costigan, através do qual o actor oferece um sóbrio retrato da solidão e inadaptação, numa personagem em fuga e quase sem portos de abrigo, a mais interessante, comovente e complexa do filme. Jack Nicholson proporciona mais uma lição de interpretação (uma das melhores dos últimos tempos), conciliando um sentido de humor (negro) e um peculiar calculismo no papel do chefe do gang e a menos mediática Vera Farmiga confirma a boa impressão deixada em "Medo de Morte", no início deste ano.

Scorsese edifica aqui uma obra estimulante e acima da média mas que, infelizmente, não chega a atingir o estatuto de imprescindível devido às opções tomadas na construção da personagem de Matt Damon. Embora servido por um bom desempenho, Colin Sullivan não contém a ambiguidade nem a inquietação da sua personagem análoga de "Infiltrados", movendo-se sempre em nome de interesses pessoais e nunca questionando a sua conduta. As preocupações que advêm do seu cargo de "toupeira" giram somente em torno da sua sobrevivência e prosperidade, e teria sido mais interessante se a personagem colocasse a sua moral em causa, tornando a película menos maniqueísta e reforçando as semelhanças dos dois protagonistas.
Pior é o final que o filme lhe reserva em virtude dessa postura, mais convencional e menos desafiante do que o do filme de Andrew Lau e Alan Mak. É pena que um filme com um desenvolvimento tão inteligente e minuciosamente arquitectado termine de uma forma pouco corajosa, mas "The Departed: Entre Inimigos" sobrevive bem a esse desequilíbrio e funciona tanto como um entretenimento de topo como enquanto uma experiência cinematográfica de méritos inegáveis, ou não fosse o melhor Scorsese em muitos anos.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sábado, novembro 11, 2006

SATURDAY NIGHT FEVER


Sugestão para hoje: Tree Eléctrico (aka O Puto) no Bar do Bairro

sexta-feira, novembro 10, 2006

SOMETIMES I THINK THAT I'M BIGGER THAN THE SOUND


The Smashing Pumpkins - "Perfect"


Yeah Yeah Yeahs - "Cheated Hearts"


New Order - "True Faith"
Três canções:
Uma mais antiga, outra mais recente, outra mais ou menos. Neste momento, fazem sentido. Estas e mais vinte e duas, pelo menos.

quinta-feira, novembro 09, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "THE DEPARTED - ENTRE INIMIGOS"

Depois do desapontante "O Aviador", Martin Scorsese está de volta e desta vez com um filme bem mais estimulante. "The Departed - Entre Inimigos" é um remake do primeiro episódio da trilogia de Hong Kong "Infiltrados", um thriller onde Matt Damon e o reincidente Leonardo DiCaprio se perseguem mutuamente e lidam com as suas trocas de identidade, encontrando-se infiltrados em facções opostas: um na polícia, outro num gang. Um dos filmes mais aguardados dos últimos meses de 2006 a descobrir a partir de hoje, e mesmo que o resultado não seja uma obra-prima a espera valeu a pena.

Outras estreias:

"Irresistível", de Ann Turner
"O Perfume - História de um Assassino", de Tom Tykwer
"Os Rebeldes da Bola", de Joachim Masannek
"Uma Voz na Noite", de Patrick Stettner

quarta-feira, novembro 08, 2006

TERAPIA DE GRUPO

Uma das surpresas do último festival de Sundance, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" (Little Miss Sunshine) tem tido uma recepção crítica francamante positiva, tanto a nível internacional como nacional, e se esta estreia nas longas-metragens de Jonathan Dayton e Valerie Faris, casal de realizadores com experiência nos videoclips, tem méritos mais do que suficientes para justificar vários elogios, não é menos verdade que entre estes não se encontra propriamente a reinvenção de códigos que têm começado a formatar o cinema independente norte-americano.

Esta dramedy on the road segue a viagem de uma família (disfuncional, como não poderia deixar de ser) que se desloca numa velha carrinha até à Califórnia para que a filha mais nova, Olive, possa concorrer a um concurso de beleza para crianças. Entre a partida e a chegada, surgem uma série de peripécias através das quais os ténues elos de ligação serão reforçados, levando a que todos os elementos contribuam, voluntária ou acidentalmente, para que a família se torne mais coesa e unida.

Se o desenvolvimento desta premissa é geralmente previsível, as personagens não são muito mais surpreendentes, constituíndo uma galeria de outcasts à medida daqueles que o cinema indie tanto tende a privilegiar.
Desde o pai, obcecado pelo sucesso e cujo livro sobre os novos passos para o atingir está prestes a ser editado; passando pelo filho adolescente, em voto de silêncio até conseguir entrar para a escola de aviação; pelo avô, viciado em heroína e de temperamento difícil; ou pelo tio homossexual e especialista em Proust, que tenta reorganizar a sua vida após uma tentativa de suicídio; não faltam aqui protagonistas dominados por alguma bizarria. As excepções acabam por ser as figuras femininas, tanto a mãe, que se esforça por fazer com que a família não desmorone, como a pequena filha, optimista e entregue ao sonho de ganhar o título de "Little Miss Sunshine".

Estas personagens geram uma dinâmica curiosa, mas individualmente é raro ultrapassarem a caricatura, sendo pouco mais do que variações de arquétipos do loser excêntrico em que o cinema independente norte-americano se tem alicerçado.
Felizmente, a direcção de actores joga a seu favor, já que Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carell, Abigail Breslin, Paul Dano e Alan Arkin apresentam interpretações sem falhas que conseguem compensar, pelo menos em parte, a bidimensionalidade a que o argumento de "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" sujeita os seus papéis, dotando o filme de um dos elencos mais invejáveis do ano. Carrell e Dano são particularmente bem-sucedidos, o primeiro nos antípodas da personagem que o ajudou a celebrizar-se em "Virgem aos Quarenta Anos" e o segundo a mostrar talento e versatilidade depois da boa impressão deixada por "L.I.E. - Sem Saída" e "A Balada de Jack e Rose".

O carisma do elenco é responsável por grande parte do apelo do filme, mas o argumento de Michael Arndt também tem tem mérito ao enveredar por territórios reconhecíveis sem se limitar a repisar lugares-comuns, conseguindo mesmo inverter as expectativas a espaços. Pontualmente escorrega no tom, como nas sequências do hospital e nas que estão dependentes desta (mais apropriadas a filmes como "Fim-de-Semana com o Morto"), contudo a combinação de comédia com drama é quase sempre feita com engenho, exigência e, mais importante, alma, oferecendo algumas cenas ora hilariantes (os gags da buzina são de antologia) ora desencantadas (como nas da revolta da personagem de Dano).

A crítica ao culto do sucesso em terras do tio Sam não é muito subtil nem sequer original (um concurso de beleza é um alvo demasiado fácil) e na segunda metade do filme o auge da união familiar mistura-se com a defesa de uma questionável irreverência desmedida, mas reconheça-se que, não obstante os seus defeitos e a opção pelo template indie, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" irradia um encanto próprio e é um dos mais saborosos feelgood movies dos últimos tempos. Não revoluciona, mas é uma primeira obra muito promissora.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

terça-feira, novembro 07, 2006

A ALICE VOLTOU

O muito elogiado (e, convenhamos, algo sobrevalorizado) "Alice", estreia na realização de longas-metragens de Marco Martins, já tem edição em DVD. O lançamento decorreu ontem na FNAC do Chiado e contou com a presença do realizador, dos actores Nuno Lopes e Beatriz Batarda e do autor da banda-sonora, Bernardo Sassetti. Mais detalhes aqui.

CHUVA CHUVA CHUVINHA

Em jeito de recordação dos Leftfield, deixo-vos com um dos vídeos mais apropriados para estes dias de chuva. "Swords", colaboração da dupla com Nicole Willis.

domingo, novembro 05, 2006

HERÓIS DO MAR

Admita-se que, à partida, "O Guardião" (The Guardian) não contém muitos elementos que suscitem especial curiosidade, tendo em conta que Kevin Costner, o protagonista, não tem escolhido projectos particularmente estimulantes há já vários anos (excepção feita ao muito recomendável "O Lado Bom da Fúria"), que Ashton Kutcher se destaca mais pelo facto de ser o marido de Demi Moore do que pelo seu talento interpretativo e que Andrew Davis, apesar de contar com o interessante "O Fugitivo" no seu currículo de realizador, nunca mais fez nada ao nível desse filme, dedicando-se a obras menores como "Um Homicídio Perfeito" ou "Danos Colaterais".
Para complementar, esta história sobre dois nadadores-salvadores da Guarda-Costeira é antecipada por um trailer que sugere um blockbuster edificante e recheado de clichés, onde o patriotismo exacerbado ameaça ser um dos mais fortes.

Visto o filme, e talvez devido às baixas expectativas, a impressão que fica é a de que "O Guardião", mesmo previsível e formatado a espaços, apresenta uma assinalável solidez, situando-se uns degraus acima do dramalhão insuflado e postiço que constituiria um rumo mais fácil. Costner regista aqui uma das suas apostas mais felizes dos últimos tempos, Kutcher cumpre mas ainda não é desta que se torna num actor digno de relevo e Davis revela eficácia, e embora não seja mais do que um tarefeiro não se pode apontar-lhe falta de competência.

Ainda que "O Guardião" possa ser considerado um filme de acção, será redutor limitá-lo a esse rótulo, uma vez que evidencia uma consistência dramática considerável. Esta deve-se sobretudo à personagem de Costner, um nadador-salvador veterano obrigado a ocupar o cargo de instrutor após uma missão mal sucedida que conduziu à morte dos seus colegas. Na sua nova função, vai consolidando uma ligação forte mas tensa com o seu instruendo mais apto - e é aqui que entra Kutcher -, inicialmente vincada por episódios algo conturbados e aos poucos amenizada à medida que são decobertos pontos de contacto, em particular a solidão e os fantasmas do passado que se escondem por detrás da palpável obstinação.

Andrew Davis não oferece aqui uma obra que respire novidade, porém tem o mérito de dar a Costner uma personagem complexa e tridimensional, a que o actor responde com um desempenho à altura, conciliando maturidade e densidade e fazendo lamentar a sua participação em filmes menores. O desenvolvimento do argumento é mais convencional do que arriscado, mas pelo menos resiste à tentação de injectar cenas de acção forçadas e inconsequentes, e as poucas que surgem são justificáveis e filmadas com eficácia.

Há algumas sequências demasiado expositivas e fastidiosas - caso das que focam os treinos dos jovens recrutas -, o desenlace delicodoce não faz justiça à sobriedade presente até então e a personagem de Kutcher poderia ser mais desenvolvida, assim como as de Sela Ward e Melissa Sagemiller (ambas com interpretações sem reparos), e por isso "O Guardião" resulta numa película irregular. Contudo, tem a seu favor o facto de ser um filme modesto, o que se não o torna num dos candidatos a integrar a elite dos memoráveis também não o impede de conseguir proporcionar um envolvente estudo de personagem.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, novembro 03, 2006

5 BLOGUES, 5 ESTREIAS, 5 ESTRELAS

A convite do Knoxville, aceitei participar na lista de "Cinco Blogues, Cinco Estreias, Cinco Estrelas?", que reúne as classificações dos responsáveis por cinco blogues (Cinema Notebook, CinePT, gonn1000, Pasmos Filtrados e Royale With Cheese) sobre algumas das principais estreias do mês. Começámos em Outubro, e acima ficam os filmes escolhidos para a tabela inaugural.

BLINKS & LINKS (58)

quinta-feira, novembro 02, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "EM PARIS"

Estreia hoje o novo filme de Christophe Honoré, que no anterior "Minha Mãe" se candidatava a novo enfant terrible mas que apresenta neste "Em Paris" (Dans Paris) um olhar menos áspero e negro sobre as relações humanas, em especial as familiares. O filme segue um dia na vida de dois irmãos, o mais velho em depressão, o mais novo a tentar ajudá-lo enquanto reencontra a sua ex-namorada. Romain Duris e Louis Garrel protagonizam este drama com toques de comédia, uma das melhores obras da última edição da Festa do Cinema Francês.

Outras estreias:

"Manual de Amor", de Giovanni Veronesi
"O Ilusionista", de Neil Burger
"Paris, Je t' Aime", vários realizadores

O MEU IRMÃO, EU E O MEU IRMÃO

Os primeiros momentos de “Em Paris” (Dans Paris) podem levar o espectador a pensar que o filme é mais um dos que peca por ser demasiado “espertalhão” e auto-consciente, tanto pela forma como uma das personagens fala directamente para a câmara, caracterizando-se simultaneamente como narrador, como pelo enfoque algo obsessivo, e que ameaça cair na redundância, sobre a relação conjugal de dois jovens.
Se se tiver em conta que a realização está a cargo de Christophe Honoré, cuja película anterior, “Minha Mãe”, se aproximava perigosamente da pretensão e do choque gratuito, então poderá temer-se que em “Em Paris” o cineasta tenha alargado o espaço para a auto-indulgência mascarada de transgressão e ousadia.

No entanto, após os minutos iniciais, o filme vai colocando de parte esta carga mais ostensiva para se dedicar, e ainda bem, ao que acaba por ter de melhor: um conjunto de personagens bem trabalhadas, unidas pelos laços familiares e entretanto afastadas por muitos outros factores que parecem agora irrisórios quando um dos elementos da família atravessa um momento crítico.

“Em Paris” assenta na relação de dois irmãos, Guillaume, o mais velho, que regressa do interior de França a Paris após o fim de um relacionamento que o deixou à beira da depressão, e Jonathan, o mais novo, que aí vive com o pai e leva uma vida despreocupada.
O estado desolado do primeiro leva a que o segundo, assim como os pais, tentem encontrar uma solução para o afastar do abismo, mas o melhor em que Jonathan consegue pensar é num desafio ao irmão, que o obrigará a ir ter consigo para passearem juntos pelo Bon Marché de Paris, à semelhança do que ocorria quando eram crianças.
Contudo, e ao contrário do combinado, Jonathan acaba por demorar mais de uma manhã a chegar ao local marcado, e o filme segue os episódios decorridos ao longo desse dia que vão, aos poucos e de forma mais ou menos directa, mudando a atitude e a ligação dos dois protagonistas.

Inesperadamente afastado da aura fria e clínica de “Minha Mãe”, “Em Paris” partilha com este um olhar sobre as relações humanas, em especial as familiares, que desta vez é bem mais caloroso, a espaços mesmo percorrido por uma envolvente candura, ainda que não deixe de evidenciar as contrariedades das emoções ou as dificuldades de comunicação geradas entre os que estão unidos pelo sangue.
O retrato resulta num filme genuíno e comovente, que não obstante pontuais cenas dispensáveis (fica por esclarecer a função do narrador) impõe-se como um drama adulto marcado por pontuais escapes cómicos, onde é claro o amor de Honoré pelas suas personagens.

Estas são, de resto, interpretadas por um elenco inatacável, sendo os protagonistas dois dos melhores jovens actores franceses, Romain Duris e Louis Garrel. Duris não destrona o seu magnífico desempenho em “De Tanto Bater o Meu Coração Parou”, mas também não desilude na pele do angustiado Guillaume, e Garrel surpreende como Jonathan, uma personagem mais espirituosa do que as que o actor encarnou em títulos como “Os Sonhadores” ou “Os Amantes Regulares” e que ameaçavam limitá-lo a composições mais soturnas. Guy Marchand é também brilhante no papel do pai, que encoraja Jonathan a ajudar o irmão e tenta tornar a sua família mais coesa.

Peculiar é ainda a utilização da banda-sonora, cujo espectro vai dos Metric a Kim Wilde, incluindo a partitura instrumental de Alex Beaupain. Particularmente significativas são as cenas da conversa telefónica entre Guillaume e a sua ex-namorada, em que ambos cantam “Avan la Haine”, ou aquela, também protagonizada pela personagem de Duris, em que uma canção de Kim Wilde é ouvida no quarto e oferece um momento de arrepiante intimismo.
Intimismo é, aliás, um elemento que Honoré parece ter interesse em desenvolver, e se “Minha Mãe” já sugeria que o realizador era capaz de originar abordagens estimulantes, “Em Paris” confirma-o, estando uns furos acima do seu antecessor. Motivo mais do que suficiente, portanto, para colocar o cineasta entre os novos nomes do cinema francês a seguir com atenção e esta numa obra a não perder entre as estreias da recta final de 2006.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

terça-feira, outubro 31, 2006

SPOOKY

Ora bem, como chega hoje a noite do Halloween, deixo aqui algumas sugestões apropriadas ao serão. Tanto "A Casa dos 1000 Cadáveres", uma bizarria sórdida e delirante de Rob Zombie, como "A Cabana do Medo", o visceral horror teen movie de Eli Roth, conseguem divertir sem deixar de inquietar, sendo duas boas propostas para ver sozinho ou (de preferência) com amigos.

Para ouvir, fica a sugestão da (re)descoberta dos 12 Rounds, uma das bandas da Nothing Records, a editora de Trent Reznor (dos Nine Inch Nails), já que a voz cortante de Claudia Sarne e as atmosferas crípticas geradas pelas electrónicas de travo industrial habilitam-se a gerar alguns calafrios aos mais sucesptíveis.

Contudo, para quem quiser mergulhar em territórios realmente sinistros e tiver doses de audácia acima da média, nada como a audição, em doses moderadas (fica o aviso), de discos de Bonnie Tyler ou Beto, capazes de originar cenários de autêntico pânico, asfixia e horror. Rói-te de inveja, Rob Zombie.

Consta, aliás, que Chris Cunningham se inspirou na dupla Bonnie/Beto para realizar o videoclip de "Come to Daddy", de Aphex Twin. Não chega ser tão arrepiante como os momentos mais inspirados dos dois cantores, mas tem os seus méritos:

segunda-feira, outubro 30, 2006

WHOA NELLY!


Num período em que na maior parte da pop mainstream os produtores obtêm já tanta – senão mais – visibilidade e reconhecimento do que os artistas com que colaboram, também a lusodescendente mais famosa do mundo contribui para que a tendência se dissemine ainda mais com o seu terceiro álbum.

Após a comercialmente (e, a espaços, artística) bem-sucedida estreia com “Whoa Nelly!” (2000), que colocou na boca do mundo singles como o banal “I’m Like a Bird” ou o mais entusiasmante “Turn off the Light”, Nelly Furtado regressou com um novo registo, “Folklore”, três anos depois, onde de novo aglutinava géneros e referências díspares mas já sem a frescura de alguns momentos do seu predecessor.

Embora fosse um álbum aceitável, a decepcionante recepção do público arriscava-se a condenar a canadiana a mais uma one(ou two)-hit-wonder cuja ascensão ao estrelato fora tão rápida como a descida para o esquecimento generalizado, e de forma a evitar isso só se adivinhava uma solução: mudar. Três anos mais tarde, a mudança não só se registou como dificilmente poderia ser mais evidente, tanto a nível musical como (e sobretudo?) a nível da imagem da cantora.

Em “Loose” desapareceu a pose ingénua, cândida e espontânea que Nelly cultivou até aqui, e numa altura onde a pop encontra, talvez como nunca antes, uma forte aliada na imagem, nada como adoptar uma postura mais insinuante, ousada e “solta”, o que decerto não prejudicará o número de passagens dos seus videoclips.

Mais relevante do que a mudança visual foi, no entanto, a musical, que passou essencialmente pela aliança com Timbaland na produção da maioria dos temas do disco, cuja marca é óbvia e salutar em “Loose”, tornando-o no trabalho mais interessante de Nelly até à data.

A aposta em novas sonoridades atesta-se logo na canção de abertura, “Afraid”, vincada por oscilantes e sombrias texturas electrónicas, não especialmente acessível mas intrigante e promissora. “Maneater”, um dos melhores singles do ano, impõe-se de seguida como a verdadeira porta de entrada para o disco, irradiando uma energia contagiante à custa de um refrão catchy e de um ritmo invejável, com um saboroso travo à electropop dos anos 80 mas cuja sofisticação da produção torna claro ser uma canção do presente. Um belo exemplo de confecção retrofuturista, como o é também “Promiscuous”, outro single que foge ao óbvio através do dueto (e flirt) entre Nelly e Timbaland, onde o R&B e o electro estabelecem uma ligação efervescente e sedutora.

À semelhança dos anteriores, “Loose” aposta num considerável eclectismo, mas ao contrário destes consegue ser quase sempre estimulante mesmo quando se torna derivativo, como no caso de “Glow”, irresistível concentrado de pop electrónica que não destoaria num álbum de Gwen Stefani ou Madonna (fase “Ray of Light”), ou de “No Hay Igual”, cantada em espanhol e cuja percussão imprevisível e aura tribal a interligam aos territórios de M.I.A..

O recurso ao perfeccionismo e minúcia de Timbaland é uma opção certeira, mas mesmo assim “Loose” não evita alguns escorregões, seja na agradável mas demasiado genérica aproximação ao R&B de “Showtime”, na mais insípida balada pop FM “In God’s Hands” e especialmente na dispensável “Te Busque”, banalíssima (e incompreensível) colaboração com Juanes.

Estas são, contudo, ocasionais falhas de criatividade compensadas por momentos como “Say it Right” ou “All Good Things”, este o emotivo tema que encerra o disco e um dos raros episódios melancólicos, ao qual não será alheio o facto de ter sido escrito a meias com Chris Martin, dos Coldplay.

Mesmo com arestas por polir, “Loose” é um álbum mais surpreendente do que se esperaria, já que consegue nivelar-se acima de muita da concorrência e oferecer alguma da melhor pop mainstream de 2006, apontando pistas interessantes para esta nova Nelly Furtado, que fez bem em soltar-se mas é melhor que não largue as boas companhias.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Nelly Furtado - "Maneater (LJX Remix)"

domingo, outubro 29, 2006

AQUI HÁ GATO(S)

Eles estão de volta daqui a pouco, às 21h30, na RTP1.

(O FIM D)A IDADE DA INOCÊNCIA

Um dos cineastas-revelação do novo milénio, Michael Cuesta iniciou a sua filmografia com uma obra complexa e sensível, "L.I.E. - Sem Saída", em 2001, e desde então desenvolveu um interessante percurso na realização de alguns episódios de séries televisivas como "Sete Palmos de Terra" e, mais recentemente, "Dexter".

"Aos Doze e Tantos" (12 and Holding), à semelhança desses trabalhos, dá continuidade à abordagem de questões habituais do cinema independente norte-americano, focando a inadaptação, as relações familiares ou a morte, e revisita os dilemas da adolescência com um olhar novamente vincado pelo realismo e sentido de observação.

Desta vez, o filme segue o percurso não de um mas de três adolescentes, em especial a forma como estes reagem, directa ou indirectamente, à morte de um outro, que perde a vida devido a um incêndio originado por dois colegas de escola.

Leonard, que sofre de excesso de peso, decide mudar o seu tipo de alimentação, dedicando-se a uma dieta de maçãs e suscitando a estupefacção da sua família; Malee, a rapariga deste trio de amigos, apaixona-se por um trabalhador das obras que recorre às consultas de psicologia da sua mãe; e Jacob, irmão da vítima do acidente, divide-se entre optar pelo perdão aos responsáveis pela morte ou fazer justiça pelas próprias mãos (e aqui o filme lembra, a espaços, "Bully - Estranhas Amizades", de Larry Clark, ou "Uma Pequena Vingança", de Jacob Aaron Estes).

Atento mergulho nas contrariedades do processo de crescimento, oferecendo três personagens centrais que, apesar de terem doze anos, não são reduzidas a estereótipos e têm a tridimensionalidade que merecem, "Aos Doze e Tantos" evidencia que a perspicácia de Cuesta para retratos da adolescência (e neste caso, da pré-adolencência) presente no seu predecessor não foi mera sorte de principiante.
Ainda que a certo ponto o argumento contenha situações extremas, a verosimilhança do filme nunca é posta em causa, fruto não só de uma escrita séria e inteligente mas também das credíveis interpretações de todo o elenco, de onde importa destacar a pequena Zoe Weizenbaum, que passou despercebida em "Memórias de uma Gueixa" mas é aqui brilhante como a precoce Malee.

"Aos Doze e Tantos" é então uma obra de méritos vários mas não exibe, infelizmente, o golpe de asa que lhe permita ascender à lista das obrigatórias, nas quais o muitíssimo promissor "L.I.E. - Sem Saída" podia integrar-se.
Ao contrário da sua primeira longa-metragem, Cuesta divide a acção em três pequenas narrativas que ocasionalmente se entrecruzam, o que não é necessariamente mau - pelo contrário, está bem aproveitado -, mas nunca atinge o efeito obtido pelo enfoque nas experiências do protagonista do filme anterior.
Mais frustrante é o facto do cineasta apostar aqui num trabalho de realização algo indistinto, suportado pelo recurso à câmara à mão, apropriado a uma obra de contornos realistas mas também mais genérico, utilizado em tantos outros títulos indie e menos estimulante do que a sofisticação visual e carga sensorial características da sua película de estreia.

O facto de não estar à altura do peso das expectativas imposto pelo seu antecessor não implica, no entanto, que "Aos Doze e Tantos" seja uma decepção, antes um filme dominado por uma estimável solidez onde se vê potencial para resultados mais memoráveis e onde permanece, felizmente, a impressão de que Cuesta é um realizador que deve continuar a ser seguido.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, outubro 28, 2006

TRAINSPOTTING

Comemoram-se hoje os 150 anos dos caminhos-de-ferro em Portugal. Parabéns para eles, que apesar da idade ainda conseguem adaptar-se à era digital e até têm direito a blog comemorativo e tudo.

sexta-feira, outubro 27, 2006

NÃO HÁ FOME QUE NÃO DÊ EM FARTURA

Já não tinha esperanças de os ver por estes lados, mas as surpresas surgem quando menos se espera. Segundo o site oficial da banda, os Nine Inch Nails actuam em Portugal em Fevereiro de 2007, em três concertos (sim, três!) no Coliseu de Lisboa, nos dias 10, 11 e 12. Já há quem diga que vai aos dias todos, eu não prometo tanto mas não quero perder a oportunidade (única? acho que sim) de ver umas das referências do rock das últimas décadas.
Aqui fica o vídeo de "Only" (versão remisturada), um dos temas de "With Teeth", o disco mais recente do projecto de Trent Reznor. A realização é de um tal de David Fincher :)

quinta-feira, outubro 26, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "OS FILHOS DO HOMEM"

Se por um lado realizou um filme memorável e contagiante, "E a Tua Mãe Também", o mexicano Alfonso Cuarón não se mostrou tão inspirado nas restantes obras da sua filmografia ("A Princezinha", "Grandes Esperanças", "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban"), competentes mas não mais do que isso.
Esperemos que tenha regressado a uma fase mais recomendável neste "Os Filhos do Homem" (Children of Men), um thriller futurista centrado num mundo em colapso devido a um problema de infertilidade que afecta toda a população. Até ao dia em que uma mulher engravida, e cabe ao Clive Owen salvá-la. A Julianne Moore também anda por lá, e se os dois protagonistas são um bom motivo para ir ver o filme espero que não sejam o único. Uma dúvida a esclarecer em breve...

Outras estreias:

"A Prairie Home Companion - Bastidores da Rádio", de Robert Altman
"O Diabo Veste Prada", de David Frankel
"O Último Caçador", de Nicolas Vanier
"Quanto Me Amas?", de Bertrand Blier
"Vinicius", de Miguel Faria Jr.

quarta-feira, outubro 25, 2006

6 COISAS

Respondendo ao desafio do André, cá ficam:
1 - Quando comecei o blog costumava recorrer a este tipo de desafios e testes quando não tinha assunto; nos últimos tempos perdi o hábito, o que acho que é bom;
2 - Há tanta coisa nova por ouvir mas opto antes por um disco dos Stereo MC's e ontem por outros dos Catatonia e dos Orbital;
3 - O meu irmão faz anos no sábado e ainda não sei o que vou oferecer-lhe (entretanto aceito sugestões);
4 - As reuniões de condomínio não são tão más como pensava mas ainda assim fazem com que me aborreça por antecipação;
5 - Chateia-me quando abrem a minha janela do msn e me impingem links para os seus blogs ou fotologs (yuck!) sem sequer cumprimentarem antes (e sobretudo depois);
6 - Tenho por hábito arranjar desculpas para não arquivar em condições toda a papelada que diga respeito a burocracias.