Entretanto, aqui ficam as listas dos artistas e canções que mais ouvi até agora desde que me registei, assim como o vídeo de "Car Song", dos Elastica (realizado por Michel "O Despertar da Mente" Gondry):
domingo, setembro 10, 2006
LAST, BUT NOT LEAST
Entretanto, aqui ficam as listas dos artistas e canções que mais ouvi até agora desde que me registei, assim como o vídeo de "Car Song", dos Elastica (realizado por Michel "O Despertar da Mente" Gondry):
sexta-feira, setembro 08, 2006
AMORES DE VERÃO (13): CANSEI DE SER SEXY
quinta-feira, setembro 07, 2006
ESTREIA DA SEMANA: "VOLTAR"
Outras estreias:
"Animal", de Roselyne Bosch
"Diário de Um Novo Mundo", de Paulo Nascimento
"Faça Favor...", de Pierre Salvadori
"Minorca", de Keenen Ivory Wayans
TUDO SOBRE A MÃE DELAS
Com "Voltar" (Volver), o cineasta afasta-se desses domínios marcados pela obsessão e pelo desejo e volta a apostar nos elementos que notabilizaram essas suas duas muito aclamadas películas: um elenco maioritariamente feminino, a abordagem dos laços familiares e da morte, e atmosferas desprovidas da irreverência e até mesmo bizarria presente nos seus filmes iniciais.
"Voltar" aborda a história de duas irmãs, Raimunda, uma empregada de limpeza cuja vida problemática se torna ainda mais conturbada quando a filha mata o seu marido em legítima defesa, e Sole, uma supersticiosa e insegura cabeleireira clandestina que, após a morte da tia, começa a ter visões da mãe, falecida há meses.
Mais sóbrio e contido do que histriónico e garrido, "Voltar" é um melodrama que incorpora traços do suspense e está também muito bem condimentado por irresistíveis momentos de humor, sempre acessíveis mas nunca banais, surgindo espontaneamente entre a melancolia e o desencanto que ocupam grande parte do filme.
Inspirando-se em situações vividas na sua vila natal, La Mancha, área onde decorre parte da acção, Almodóvar retrata aqui a relação das mulheres locais com a morte, em que estas têm por hábito falar com os falecidos, tentando colmatar assim a dor da perda. A dor é, aliás, um dos elementos que une as personagens de "Voltar", figuras cujas vidas pouco prósperas apenas encontram refúgio no seu espírito de partilha e entre-ajuda.
Apesar das muitas lágrimas que polvilham o filme, este não apresenta um pingo de sentimentalismo flácido ou oportunista, emanando uma palpável genuinidade. A responsabilidade é tanto das subtilezas do argumento e da realização de Almodóvar como do soberbo elenco (justamente premiado no festival de Cannes), uma vez que todas as actrizes defendem muito bem as suas personagens.
Penélope Cruz, geralmente uma actriz de escassos recursos, apresenta aqui um desempenho muito convincente, tornando Raimunda numa protagonista carismática e interessante de seguir. Lola Dueñas, no papel da frágil Sole, oferece outra segura composição, assim como Blanca Portillo, comovente na pele de Agustina, a dedicada amiga das irmãs. Carmen Maura, uma das veteranas no cinema de Almodóvar, acrescenta mais uma forte interpretação à sua sólida carreira, e até Chus Lampreave, a memorável velhinha que tinha um lagarto chamado "Dinheiro" em "Que Fiz Eu Para Merecer Isto?", tem uma breve participação.
Muito bem escrito, filmado e interpretado, "Voltar" confirma que os últimos anos têm mesmo consolidado a fase áurea do cineasta espanhol, e merece lugar cativo entre os filmes indispensáveis de 2006, sendo também um dos melhores trabalhos do realizador, o que não é dizer pouco.
quarta-feira, setembro 06, 2006
ESTRANHAS LIGAÇÕES
Propondo um complexo (e frequentemente confuso) olhar sobre os bastidores da indústria petrolífera, da CIA, do terrorismo e das ligações entre o ocidente e o (médio) oriente, o filme tem tanto de ambicioso e pertinente como de falhado, perdendo-se numa narrativa demasiado fragmentada que deixa, não raras vezes, o espectador sem âncora, perdido entre tanta sobrecarga de informação.
A vertente excessivamente cerebral do filme, embora o desequilibre, não impede que este se destaque como um objecto de interesse acima da média, sobretudo porque Gaghan é hábil no trabalho de câmara, apostando numa realização fluída de travo documental, acentuando um realismo que a fotografia de cores esbatidas ajuda a consolidar.
A direcção de actores é igualmente feliz, num elenco que inclui um seguro e envolvente Matt Damon, um ambíguo e intrigante Jeffrey Wright, um sinistro Christopher Plummer ou um sobrevalorizado George Clooney (numa interpretação competente mas inexplicavelmente vencedora do Óscar de Melhor Actor Secundário).
É pena que "Syriana" não chegue a ser o grande filme que estes recomendáveis atributos sugerem, pois apesar de duas ou três sequências muito fortes (a do filho da personagem de Damon ou todo o desenlace), o argumento não deixa que a película atinja o seu potencial, prejudicando-a com outras tantas cenas enfadonhas de interesse questionável e não explorando as personagens como estas mereciam. Espera-se, por isso, que o próximo trabalho de Gaghan seja uma película igualmente inteligente e adulta mas que dê espaço para o espectador respirar.
terça-feira, setembro 05, 2006
HOMEM À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS
O seu novo filme, "Um Homem na Cidade" (Man About Town), despertava por isso alguma curiosidade, mesmo que o protagonista, Ben Affleck, fosse uma escolha no mínimo arriscada, não só pelos seus limitados méritos interpretativos mas também pelos flops que têm fragilizado a fase mais recente da sua carreira.
Infelizmente, a película acaba mesmo por ficar muito aquém do trabalho anterior do realizador, não tanto devido a Ben Affleck - que, não sendo excepcional, cumpre -, mas pela mistura entre comédia e drama raramente possuir a inspiração que fez de "O Lado Bom da Fúria" uma estimável surpresa.
O diário que a personagem de Affleck vai escrevendo para as suas aulas, que visam torná-lo numa pessoa mais decidida e confiante, atira "Um Homem na Cidade" para territórios próximos de um filme de auto-ajuda, sobrecarregando-o com diálogos ora pomposos ora melodramáticos (sobretudo nas cenas conjugais), tentando torná-lo numa obra séria e complexa mas cujo resultado é pouco mais do que insípido.
Ocasionalmente, Binder consegue gerar algumas sequências onde o humor ainda resulta, como no inesperado episódio em Chinatown ou nas últimas (e caóticas) cenas no escritório, mas estes fugazes desvios espirituosos ocorrem com menor frequência do que as bocejantes cenas ancoradas num anódino registo dramático.
De resto, não é nem pelo elenco (com uma Rebecca Romijn deslumbrante, é certo, mas sem uma grande personagem para defender, ou com um John Cleese igual a si próprio) nem pela realização (apenas competente) que "Um Homem na Cidade" encontra forma de fugir à indistinção, e se ainda consegue ser um filme tragável não deixa de constar entre as desilusões do ano. Visível, mas longe de memorável.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL
segunda-feira, setembro 04, 2006
AMORES DE VERÃO (12): DEATH CAB FOR CUTIE
Death Cab for Cutie - "The Sound of Settling"
SONHOS DESFEITOS
Laowu, operário fabril cansado do pouco auspicioso dia-a-dia em Ghizou, tenciona voltar a Xangai na procura de melhores condições de vida, mas Qinghong, a sua filha adolescente, mostra-se mais avessa à mudança de lar, uma vez que se encontra já ambientada na pequena povoação que a acolhe.
Esta é apenas uma das diferenças que molda a difícil relação entre os dois, a par de contraditórias formas de lidar com as ténues, mas cada vez mais presentes, influências da cultura ocidental (determinantes sobretudo entre a população jovem) ou com os demarcados estatutos e papéis do homem e da mulher, assim como da liberdade que é concedida a cada um.
Drama sóbrio, enxuto e atmosférico, prova que Xiaoshuai é um realizador atento às complexidades das relações humanas, conseguindo gerar alguns belos momentos à custa de uma minuciosa gestão dos silêncios ou das expressões dos seus actores, que traduzem uma inquietação política e social não verbalizada mas sentida.
Contudo, apesar desta conseguida carga realista, "Sonhar com Xangai" arrisca-se a afundar-se, e a levar o espectador consigo, no seu próprio negrume, enclausurando as personagens nos seus fantasmas e não lhes deixando espaço para respirar, sobretudo na segunda metade do filme.
O ritmo é outro elemento pouco envolvente, incitando a que a narrativa se desenvolva de forma demasiado morosa e arrastada, sendo o seu efeito bem mais soporífero do que intrigante.
Assim, "Sonhar com Xangai" resulta numa obra que, embora mereça ser vista, não chega a ir tão longe como poderia, sendo uma película curiosa mas não especialmente marcante (não se percebe por isso o porquê do Prémio do Júri na edição de Cannes de 2005). Uma boa oportunidade, de qualquer forma, para conhecer o trabalho de um dos nomes cimeiros da nova geração de realizadores chineses.
sexta-feira, setembro 01, 2006
AMORES DE VERÃO (11): M.I.A.
Não sou grande fã do disco desta rapariga (já fui menos), mas em pequenas doses até funciona, como me parece ser o caso do single ali ao lado, um bom acompanhamento para banhos de sol.
M.I.A. - "Galang"
quinta-feira, agosto 31, 2006
CORAGEM DEBAIXO DE FOGO
Foi o caso do interessante "Syriana", de Stephen Gaghan, ou do soberbo "Munique", de Steven Spielberg, e é também o de "O Paraíso, Agora!" (Paradise Now), que ao contrário dos anteriores não nasce em Hollywood mas da iniciativa do palestiniano Hany Abu-Assad.
Alvo de consideráveis distinções a nível internacional - Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, nomeado para os Óscares na mesma categoria e premiado no Festival de Berlim, entre outros -, o filme poderia ser um dos que se torna foco de atenção mais pela relevância da temática e boas intenções da sua "mensagem" do que pela abordagem que propõe e méritos cinematográficos, mas felizmente Abu-Assad oferece aqui uma prova de sensibilidade e inteligência, suscitando a reflexão sem se tornar estridente, maniqueísta ou oportunista.
Aqui as personagens não são meros instrumentos que se limitam a debitar posicionamentos políticos e morais (embora estes sejam discutidos), antes figuras complexas e credíveis que o filme explora com genuína densidade emocional, nunca abdicando da dimensão humana.
A direcção de actores é, por isso, decisiva, e se todos são verosímeis é obrigatório destacar Kais Nashef, brilhante na pele de Saïd, o denso e circunspecto protagonista, muito longe dos lugares-comuns a que são associados muitas vezes os agentes suicidas. Notabilizando-se com uma das mais subtis interpretações do ano, Nashef cativa pelo seguro underacting, cujo olhar desencantado traduz todas as contrariedades de um quotidiano pouco esperançoso.
Os perigos do dia-a-dia dos palestinianos foram, de resto, testemunhados pela própria equipa do filme, que durante a rodagem em Nablus lidou com alguma desconfiança de parte da população local e reflexos dos ataques dos mísseis israelitas, o que levou a que elementos da equipa alemã desistissem ao fim de poucos dias.
Pertinente e corajosa, "O Paraíso, Agora!" é uma das melhores obras a estrear em salas nacionais nos últimos meses, despertando o espectador sem cair no pretensiosismo de um filme de tese nem apostando em rodrigunhos fáceis e moralistas.
Uma das boas propostas cinematográficas a descobrir a partir desta semana, com um olhar diferente sobre um contexto com tanto de conturbado como de actual.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM
ESTREIA DA SEMANA: "O PARAÍSO, AGORA!"
Vencedor do Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro, nomeado para os Óscares na mesma categoria e premiado no Festival de Berlim, "O Paraíso, Agora!" (Paradise Now) segue as últimas 24 horas de dois jovens palestianos incumbidos de realizar um atentado suicida em Israel.
Misturando suspense com uma intensa carga dramática, esta obra de Hany Abu-Assad apresenta um envolvente olhar sobre os bastidores do terrorismo, destacando-se pelo sólido argumento e pelas não menos seguras interpretações.
Um dos filmes mais recomendáveis em cartaz, crítica aqui (muito) em breve.
"A Caminho de Guantánamo", de Michael Winterbottom
"A Casa Fantasma", de Gil Kenan
"Eu, Tu e o Emplastro", de Anthony Russo e Joe Russo
"O Sentinela", de Clark Johnson
"Terkel em Sarilhos", de Kresten Vestbjerg Andersen, Thorbjørn Christoffersen e Stefan Fjeldmark
quarta-feira, agosto 30, 2006
AMORES DE VERÃO (10): THE THRILLS

Não têm o Brian Wilson, mas não deixam de ser beach boys... a conferir no vídeo abaixo.
The Thrills - "Big Sur"
terça-feira, agosto 29, 2006
REBELDES SEM CAUSA
Crónica do quotidiano de um grupo de jovens durante e após o Maio de 68, “Os Amantes Regulares” (Les Amants Réguliers) apresenta uma visão pessoal, com traços autobiográficos, de um período controverso da história francesa recente, mas se a película parte de um tema com potencial os resultados são no mínimo desequilibrados e ficam aquém das expectativas.
Desnecessariamente longo e repetitivo, arrastando-se por cansativas três horas pontuadas por várias cenas de relevância discutível, o filme evidencia a espaços que Garrel tem boas ideias mas a estruturação destas corre o risco de desinteressar até o espectador mais paciente.

Já na ressaca dos conflitos do Maio de 68, a segunda parte de “Os Amantes Regulares” segue a convivência de parte dos jovens revolucionários na mansão de um deles, dando particular ênfase à relação que nasce entre um poeta, François, e uma escultora, Lilie. Oscilando entre a utopia e o cepticismo, o relacionamento do jovem casal espelha o clima de ambivalência e hesitação que se disseminou após uma revolta que descoordenou ideais e motivações.
Nas cenas entre os dois amantes, Garrel consegue implementar pontuais momentos de intimismo e densidade emocional, ausentes no filme até então, mas ainda assim os protagonistas surgem quase sempre como figuras distantes e demasiado indecifráveis, e em última instância pouco envolventes.
Relato de um panorama onde o activismo é mais demonstrado do que sentido, “Os Amantes Regulares” acaba por fornecer uma perspectiva dos jovens rebeldes não muito diferente da de “Os Sonhadores”, mas onde o filme de Bertolucci oferecia uma vibrante e sedutora experiência cinematográfica, o de Garrel raramente vai além de uma pouco absorvente mediania.
A película tem os seus méritos, já que Louis Garrel, filho do realizador e, curiosamente, um dos protagonistas de “Os Sonhadores”, obtém aqui uma interpretação correcta na pele de François, assim como Clotilde Hesme como Lilie. A belíssima e intensa fotografia a preto-e-branco de William Lubtchanski concede às imagens uma singular energia, e alguns diálogos são inspirados e oportunos, mas mesmo estes elementos convincentes não compensam o ritmo letárgico nem a palha narrativa que “Os Amantes Regulares” vai acumulando, deixando-o como um rascunho do que poderia ter sido.
sexta-feira, agosto 25, 2006
AMORES DE VERÃO (9): GARBAGE
A CIDADE DO PECADO
Concentrando vários pequenos contos que têm em comum o facto de serem todos narrados (e, a maioria) protagonizados pelo próprio escritor (ou um por alter-ego), o livro proporciona uma série de episódios assentes em vivências do quotidiano urbano, vincados por uma visão demolidora, crua e cáustica.
O facto desta ser uma leitura acessível, à base de uma linguagem prosaica e seca, não implica contudo que não se cultive aqui um singular gosto pelo detalhe, já que o autor retrata com plausibilidade e eficácia assinaláveis os traços da gente, locais e ambientes que o rodeiam.
A interligação de um realismo sujo com um violento mas irresistível humor negro gera crónicas simultaneamente amarguradas e espirituosas, à semelhança do ritmo imprevisível da vida do escritor e das daqueles que se encontram nos seus relatos.
Com um dia-a-dia pouco auspicioso, onde as condições de vida se tornam cada vez mais precárias, o sexo, o álcool (em particular o rum, a bebida mais barata, com o qual o escritor se embriagou antes de escrever alguns contos do livro) e por vezes as drogas destacam-se como os únicos portos de abrigo capazes de ajudar à sobrevivência.
Gutiérrez é exímio na tradução destas atmosferas, descrevendo os sabores, sons e odores de uma cidade onde a luxúria, a pobreza, o calor, a insegurança e tons féericos se entrecruzam naturalmente.
No entanto, apesar da presença recorrente do turismo sexual, de negócios no mercado negro, do individualismo e de crimes de faca e alguidar, "A Trilogia Suja de Havana" está longe de ser um panfleto contra a capital cubana, uma vez que o próprio autor revela várias vezes que não conseguiria enquadrar-se em nenhum outro local (apesar das oportunidades que teve para o fazer), pelo que o livro funciona enquanto uma ambivalente ode à cidade que o acolhe. A sua descoberta recomenda-se e corre o risco de ser tão inquietante como viciante.
quinta-feira, agosto 24, 2006
ESTREIA DA SEMANA: "VOO 93"
Este foi o único dos quatro aviões desviados que não chegou a atingir o alvo, e é nele que o britânico Paul Greengrass para a realização de "Voo 93" (United 93).
"Garfield 2", de Tim Hill
"Loucos e Apaixonados", de Petter Næss
"O Mito", de Stanley Tong
"Um Homem na Cidade", de Mike Binder
CIDADE SOBRE PRESSÃO
Depois de películas como "Os Anjos de Charlie" ou "Starsky & Hutch", chega a vez de "Miami Vice", a popular série dos anos 80 que marcou uma geração pelo concentrado de acção desbragada, romances sucessivos, cenários ofuscantes e um guarda-roupa não menos expressivo, não esquecendo os inevitáveis e recorrentes flamingos.
Catapultando Don Johnson e Phillip Michael Thomas para ícones dos anos 80, a série tornou-se num peculiar e pouco consensual ponto de confluência entre o kitsh e o cool, sendo agora recuperada duas décadas depois.
Contudo, visto o filme, percebe-se que de "Miami Vice" este pouco mais tem do que o título, a cidade onde a acção se desenrola e os nomes das duas personagens principais, os detectives Sonny Crockett e Ricardo Tubbs. De resto, o que transparece é a personalidade de Michael Mann, o cineasta por detrás do projecto, que oferece aqui mais um retrato das tensões urbanas contemporâneas, com deambulações pelas habituais paisagens nocturnas que marcam (quase) toda a sua obra.
Tal como no seu filme anterior, a opção pelas câmaras digitais revela-se uma escolha apropriada, já que o realizador as usa de forma igualmente criativa e desafiante, fazendo deste um incomum blockbuster que parte de uma premissa banal mas resulta num trabalho experimental.
A minúcia e perfeccionismo na captação dos ambientes nocturnos concede ao filme uma vibração atípica, condensando um estilo visual apurado, de contornos negros e sombrios, em tudo antagónicos aos tons reluzentes e garridos da série televisiva.
A envolvência das imagens encontra contraponto na adequada banda-sonora, que mesmo de gosto duvidoso (Mogwai, Moby ou Goldfrapp são boas surpresas, algumas canções nu-metal e latinas nem por isso) faz sentido tendo em conta os ambientes em que "Miami Vice" decorre.
Esta interligação de imagem e som é determinante para a tensão dramática do filme, coadunando-se com a ténue variação emocional das personagens, figuras essencialmente caracterizadas pela solidão e desencanto existencial.
Destas, apenas o par composto por Colin Farrell e Gong Li é explorado com alguma densidade, pois as restantes não são mais do que elementos cuja finalidade é fazer o argumento avançar. Se a relação ambígua e conturbada do casal que opera em facções opostas é suficientemente interessante para conceder peso dramático à película, não deixa de ser evidente a falta de espessura (e de relevância) da personagem de Jamie Foxx, que apesar de co-protagonista não regista nenhum impacto digno de nota.
Esta diluição das personagens nas atmosferas do filme não chega a ser uma falha, dado que Mann volta a provar ser um esteta de excepção, mas no desenlace o destino do detective interpretado por Foxx e da sua companheira arrisca-se a ser mais ou menos indiferente para o espectador, a quem não foram apresentados grandes motivos para se preocupar com o duo.
Para além desta limitação, "Miami Vice" sofre ainda de alguns problemas de ritmo, oferecendo mais de duas horas de interesse desigual, com sequências por vezes demasiado longas ou arbitrárias. Apesar disse desequilíbrio, impõe-se um thriller com uma elegância, sofisticação e inteligência acima da média, confirmando Mann como um cineasta inventivo e tornando-se mesmo num dos seus filmes mais conseguidos. Cinema comercial de recorte superior, a ver (e apreciar) sem preconceitos.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM
BLINKS & LINKS
quarta-feira, agosto 23, 2006
terça-feira, agosto 22, 2006
(MAIS UMA) VIAGEM AO MUNDO DA DROGA
História de amor atormentada pelas consequências do vício, o filme evita, felizmente, um posicionamento moralista, que poderia delimitar um argumento centrado na dependência das drogas, mas tal não invalida que não seja prejudicado por outros elementos.
O ritmo, não raras vezes arrastado, também faz com que estas duas horas ofereçam níveis de entusiasmo irregulares, assim como algumas sequências vincadas por um dispensável histerismo, com uma gestão dramática de gosto duvidoso (nomeadamente em certas cenas com a família da co-protagonista).
Contudo, "Candy" não deixa de ser uma experiência possuidora de alguns méritos, com destaque para a direcção de actores, onde constam Heath Ledger (competente, a seguir as boas pistas deixadas em "O Segredo de Brokeback Mountain") e Abbie Cornish (a actriz do belíssimo e também australiano "Salto Mortal", mais uma vez espontânea e luminosa), que compõem o par principal, ou Geoffrey Rush, num pequeno mas relevante papel.
A realização de Neil Armfield revela-se inspirada a espaços, como na sequência inicial, no parque de diversões, ou nos momentos mais agonizantes vividos pelo casal, e a união entre a imagem e a música (a cargo de nomes como Tim Buckley, Amon Tobin ou Soul Coughing) proporciona episódios com atmosferas envolventes e palpáveis, num intrigante misto de realismo e onirismo (por vezes próximas das de "Salto Mortal", ainda que não tão conseguidas).
Dificilmente acrescentando algo a uma temática já sobre-explorada, tanto no cinema ou noutros domínios, "Candy" não arrebata mas é uma proposta aceitável, que vale sobretudo pela descoberta de um realizador que poderá fazer melhor no futuro e pelo acompanhamento de dois jovens actores em ascensão. Não é muito, mas também não desmerece alguma atenção.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL
LOVE IS ALL
segunda-feira, agosto 21, 2006
HEROÍSMO CLÁSSICO
Devido à interessante visão do realizador acerca da equipa de mutantes da Marvel, esperava-se que Singer fosse uma escolha acertada para "Super-Homem: O Regresso" (Superman Returns), e se é verdade que a sua entrega e respeito pela personagem transparecem ao longo da película, quando esta termina a sensação dominante é a de que os resultados poderiam ter ido mais longe.
A homenagem é simpática e revela humildade, mas limita um pouco o filme e retira-lhe as doses de risco e personalidade que o realizador conseguiu injectar nos seus X-Men.
Embora pouco ousado, "Super-Homem: O Regresso" convence pois demonstra que Singer conseguiu captar a essência do carismático super-herói, destacando o seu carácter icónico e mítico e apostando num estilo retro larger than life, com um registo mais clássico (mas desencantado) do que, por exemplo, aquele que Chris Nolan adoptou no recente "Batman: O Início".
A escolha do elenco, à partida algo arriscada, revelou-se profícua, já que o quase desconhecido (até agora) Brandon Routh tem a imagem e atitude perfeitos para encarnar tanto Clark Kent como o seu alter-ego, oferecendo uma interpretação sóbria mas expressiva; Kate Bosworth mostra uma inesperada garra, determinação e coragem como Lois Lane e Kevin Spacey exibe a classe habitual no papel de Lex Luthor, compondo com eficácia um vilão que só não é mais entusiasmante porque o argumento não deixa. Também por lá andam uns competentes James Marsden e Parker Posey, esta última numa personagem irritante e dispensável.
A intriga que orienta o argumento é pouco mais do que banal, com uma sequência de acontecimentos bastante previsível, e a narrativa torna-se enfadonha no último terço, com cenas demasiado longas e redundantes, mas felizmente a película contém ainda tensão dramática suficiente de forma a que essas fragilidades não a atirem para a mediocridade, ainda que o balanço acabe por não ir além da mediania.
Um desequilibrado, mas interessante filme de aventuras, "Super-Homem: O Regresso" é um blockbuster com mais alma do que o habitual, emanando uma genuinidade atípica neste tipo de projectos, com acção bem filmada e algumas sequências de uma cativante densidade emocional.
Não chega a ser um filme marcante dentro do género, mas pelo menos, ao contrário de algumas adaptações recentes, também não envergonha a memória das personagens que recupera.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM
WHAT IF THE SILENCE LET YOU DREAM?
The Smashing Pumpkins - "Daphne Descends"
sábado, agosto 19, 2006
BARBARIDADES
sexta-feira, agosto 18, 2006
quinta-feira, agosto 17, 2006
ESTREIA DA SEMANA: "SONHAR COM XANGAI"
História de amor entre dois adolescentes de famílias bem diferentes durante a China de inícios dos anos 80, o filme foi o vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2005 e parece ser uma das poucas estreias da semana a merecer o benefício da dúvida. Uma proposta a considerar neste período estival.
Outras estreias:
"Angel-A", de Luc Besson
"Génesis", de Claude Nuridsany e Marie Pérennou
"Imagina Só", de Ol Parker
"Mafioso Quanto Baste...", de Sidney Lumet
"O Rapaz Formiga", de John A. H. Davis
"Revolta-te!", de Jessica Bendinger
quarta-feira, agosto 16, 2006
SE É INDIE, É BOM (?)
Continuam a haver excepções, é certo, mas "Eu e Tu e Todos os Que Conhecemos" (Me and You and Everyone We Know), primeira longa-metragem de Miranda July, não é uma delas.
Enésimo exemplo de um olhar agridoce sobre o quotidiano dos subúrbios, dominado por personagens à deriva que se entrecruzam acidentalmente, o filme é uma obra curiosa, a espaços inspirada, contudo demasiado irregular, gerando simpatia mas ficando aquém do burburinho internacional que tem suscitado (Grande Prémio da Semana da Crítica, Câmara de Ouro, no Festival de Cannes, e Prémio Especial do Júri em Sundance, em 2005).
O par amoroso que interliga as restantes personagens, e a quem July dedica boa parte do tempo de antena, também não ajuda, já que nem a artista restraída estereotipada (interpretada pela realizadora) nem o vendedor de sapatos em crise existencial são especialmente intrigantes, e muitos dos seus diálogos convidam ao bocejo.
Um mau filme? Não, apenas desequilibrado por tentar parecer ser mais do que aquilo que é, mas que ainda assim vai seduzindo pelo elenco consistente e por algumas cenas menos arty e óbvias, confirmando que July é uma realizadora com potencial.
No entanto, dentro da mesma linhagem indie, os também recentes "Finais Felizes" ou "Os Amigos de Dean" salientam-se como propostas mais prioritárias e conseguidas, assim como mais recomendáveis tanto a idealistas como a cépticos.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL
terça-feira, agosto 15, 2006
AMORES DE VERÃO (6): CAT POWER
Porque boa música de praia existe, fica aqui "He War" de Chan Marshall (AKA Cat Power). Até pode ser dedicada a alguém que gosta da Chan, de cats mas não de praia...
BLINKS & LINKS
segunda-feira, agosto 14, 2006
COMIDA RÁPIDA
A premissa parte do final da hibernação de um grupo de animais de um bosque, que ao acordarem se surpreendem quando percebem que o local onde sempre viveram começa a ser ocupado por estranhos e inesperados vizinhos.
Contudo, esta auspiciosa descoberta será marcada por episódios conturbados, uma vez que os planos de RJ são mais obscuros do que este dá a entender, e embora a tartaruga Verne, líder do grupo, suspeite das suas intenções, todos os elementos não hesitam em apoiar o novo membro.
Tim Johnson e Karey Kirkpatrick conseguem aqui uma obra que não traz nada de novo à linguagem da animação digital mas não deixa por isso de ser uma agradável surpresa, valendo pelo argumento imaginativo q.b., pelas personagens suficientemente divertidas e algumas sequências carregadas de uma energia contagiante, disparando gags que se adequam tanto ao público infantil como ao adulto.
Explorando por um lado a habitual temática dos laços de amizade e da importância da família a par de questões actuais como a protecção do ambiente ou o materialismo, "Pular a Cerca" tem ainda como mais-valia o sólido trabalho de vozes (a cargo de nomes como Bruce Willis, Steve Carell ou Nick Nolte), e se dificilmente ficará como um marco na animação é, pelo menos, um dos filmes mais divertidos de 2006, que entretém sem insultar a inteligência do espectador.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM
sexta-feira, agosto 11, 2006
AMORES DE VERÃO (5): LUSCIOUS JACKSON
O VIRA-PÁGINAS
"O Corpo de Jonah Boyd" (The Body of Jonah Boyd), editado em 2004, dá continuidade à exploração dessas temáticas e narra a relação de Denny, secretária de um profesor universitário, com a família deste, alicerçando-se sobretudo nos eventos decorrentes de um jantar de acção de graças no final dos asnos sessenta onde um dos convidados, o aclamado escritor Jonah Boyd, perde os manuscritos com material para a sua próxima obra.
Através dos comentários de Denny (a narradora), Leavitt oferece perspectivas acerca das contingências da célula familiar a par de outras dedicadas ao acto da criação artística, em particular da marca autoral, do plágio ou das origens do talento.
Esta combinação torna "O Corpo de Jonah Boyd" numa obra intrigante ao início, mas acaba por revelar-se algo frustrante.
Outro problema são as peripécias que envolvem os textos de Boyd, que à partida prometiam uma narrativa surpreendente mas apenas enveredam por domínios mais previsíveis do o que se esperaria num trabalho do habitualmente ousado Leavitt, despoletando ainda um desenlace forçado para a protagonista.
Desapontante e pouco inspirado, "O Corpo de Jonah Boyd" não chega a ser um tíulo desprovido de méritos, pois a escrita de Leavitt mantém-se absorvente e acessível, mas apesar de momentos com observações oportunas a ausência de risco do resultado geral é evidente.
Assim, este não chega a ser um mau livro mas fica limitado a um objecto menor na obra do autor, a milhas da memorável ressonância emocional de um "Enquanto a Inglaterra Dorme" ou mesmo de títulos mais modestos, mas consistentes, como "Equal Affections" ou "O Vira-Pautas". Moderadamente interessante para os seguidores do escritor, contudo longe de constar entre as melhores portas de entrada para aqueles que pretendam conhecê-lo.
quinta-feira, agosto 10, 2006
ESTREIA DA SEMANA: "SUPER-HOMEM: O REGRESSO"
Desta vez é Bryan Singer que ocupa o cargo de realizador, o que é especialmente promissor tendo em conta os resultados que conseguiu com a passagem dos X-Men para o grande ecrã, e o elenco conta com Brandon Routh, Kate Bosworth e Kevin Spacey nos papéis principais.
Outras estreias:
"A Poeira do Tempo", de Robert Towne
"Desastre", de Roy T. Wood
"Os Amantes Regulares", de Philippe Garrel
FEBRE DE QUARTA À NOITE
quarta-feira, agosto 09, 2006
CRIME E CASTIGO
No entanto, e como por vezes as primeiras impressões enganam, esta película de Paul McGuigan consegue ser mais inventiva e imprevisível do que grande parte dos produtos do género, mérito de um argumento que de início se limita a seguir uma segura rotina mas que a meio do filme aposta numa arriscada, mas bem sucedida, mudança de registo, habilitando-se a retirar o tapete debaixo dos pés aos espectadores mais incautos.
De resto, os frequentes flashbacks não se tornam cansativos nem incongruentes, devido a um final que consegue atar com competência as pistas que vão sendo lançadas, e os diálogos são certeiros e irónicos, originando uma dose generosa de gags.
O filme só falha para quem levar demasiado a sério a moral de algumas personagens, ainda que "Há Dias de Azar..." pretenda (e ainda bem) ser mais um consistente entretenimento pipoqueiro do que um estudo psicológico sobre os abismos da esfera humana.
Longe de essencial, "Há Dias de Azar..." é contudo um blockbuster bastante satisfatório, com uma inteligente mistura de suspense e humor e reminiscências (mais do que assumidas) de filmes de Hitchcock, Tarantino e das aventuras de James Bond.
A par de "Kiss Kiss Bang Bang" e "Medo de Morte", é uma das refrescantes surpresas de 2006 capaz de dar novo fôlego aos códigos do crime noir, e tal como nesses casos a vertente comercial não anula, felizmente, a criativa.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM
terça-feira, agosto 08, 2006
NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS
Caracterizado por alguns como um sucedâneo de "Magnolia" devido à sua estrutura narrativa em mosaico, que se debruça sobre as vidas entrecruzadas de diversas personagens, a película fica-se por aí nos paralelismos com essa obra de Paul Thomas Anderson (que, de resto, nem foi pioneira em filmes com esses moldes), uma vez que adopta um tom mais espirituoso e mordaz, complementando o drama com uma carregada dose de humor ácido.
Embora a maioria das personagens sejam interessantes, o excesso destas obriga a que nem todas sejam exploradas da forma que merecem, ainda que a duração do filme ultrapasse as duas horas (que nunca se tornam cansativas devido ao ritmo vitaminado e envolvente).
O notável elenco ajuda a que as experiências retratadas sejam ainda mais próximas do espectador, através das inquietações de Lisa Kudrow, da obstinação de Maggie Gyllenhaal, do cinismo de Steve Coogan, da rebeldia de Jesse Bradford ou da vulnerabilidade de Jason Ritter, cujos contrastes de personalidades despoletam sequências de uma subtil ambiguidade moral e emocional.
O imaginativo (mas nem sempre oportuno) recurso a legendas que ofecerem informação complementar à acção e a meritória banda-sonora, onde constam canções dos Calexico, Black Heart Procession ou da própria Maggie Gyllenhaal, contribuem também para um balanço bastante positivo, adicionando "Finais Felizes" à lista de filmes a ver neste Verão.
domingo, agosto 06, 2006
AMORES DE VERÃO (3): MADONNA
sábado, agosto 05, 2006
VIDAS PRIVADAS
A solidão e os fantasmas de acontecimentos passados surgem como elo unificador dos dois protagonistas, cuja relação começa por ser difícil devido à forma díspar como ambos agem: ela recolhida num silêncio irascível, ele apoiado em recorrentes comentários espirituosos ou mesmo jocosos.
Os cenários, quase sempre apenas os da plataforma petrolífera, reforçam a carga minimalista da película e o modo como a câmara os capta ajuda a consolidar uma atmosfera singular, um limbo espacial habitado por outcasts desintegrados.
Contudo, quando a acção deixa este espaço, “A Vida Secreta das Palavras” vai perdendo a subtileza e unicidade que mantinha até então, entrando em domínios mais convencionais pelo modo algo desapontante como desenvolve o relacionamento dos protagonistas e por um meritório, mas algo forçado, carácter panfletário de mensagem política/social.
Outro problema é a dispensável voz off, intrusiva e desnecessariamente explicativa, que interrompe fulcrais sequências marcadas pelo silêncio.
Estas fragilidades retiram à película alguma da sua força, mas não diluem a boa impressão que Coixet deixa nem as soberbas interpretações de Sarah Polley (uma das mais talentosas e subvalorizadas jovens actrizes de hoje, magnífica na meticulosa composição da lacónica Hanna) e Tim Robbins (carismático num papel difícil, ainda que perca o fôlego já no final), assim como não impedem que “A Vida Secreta das Palavras” seja ainda um filme adulto, belo e honesto, a merecer atenção e entrega.
sexta-feira, agosto 04, 2006
PRESSÃO ALTA
Resultado: traseira do automóvel esmagada (e de difícil reparo, logo depois do carro ter passado na inspecção dois dias antes e de ter tido remodelações há três), dores na coluna e direito a transporte de maca para o Hospital, seguido de estadia no mesmo ao longo de toda a tarde para exames.
Felizmente, tirando algum mau-estar inicial devido ao impacto, saí praticamente incólume, e embora tenha sido um último dia de férias longe de idílico é certo que poderia ter sido bem pior.
Primeiro uma televisão, agora um camião, por este andar ou me torno eremita ou qualquer ainda dia recebo uma visita indesejada de um arranha-céus ou de um avião (síndrome Donnie Darko?).
MARÉS VIVAS
Esta premissa simples e pouco ambiciosa orienta uma película que, longe de inovadora, consegue ser uma aceitável proposta de um género já pouco revisitado.
O realizador de serviço, Wolfgang Petersen, tem cimentado um percurso algo indistinto dentro do cinema de acção, contando com alguns sucessos comerciais como os banais “Na Linha do Fogo” (1993) e “Air Force One” (1997), ou o mais prestigiado “Das Boot” (1981). Não será “Poseidon” que lhe permitirá ultrapassar o estatuto de tarefeiro por vezes competente, mas pelo menos eleva-se acima de muitos blockbusters ultrajantes que costumam disseminar-se pelas salas com a chegada do Verão.
Uma eficaz gestão do ritmo, com escassa palha narrativa, um trabalho de câmara que, não sendo muito inventivo, é feliz na implementação de uma atmosfera claustrofóbica e sufocante, e efeitos especiais pouco intrusivos mas com algum sentido de espectáculo concedem a “Poseidon” alguma solidez, que compensam a estrutura de videojogo do argumento (tão maquinal como os espaços em que a acção decorre) ou o desperdício de actores como Richard Dreyfuss ou Josh Lucas.
Não é muito, mas acaba por se mais do que se esperaria, oferecendo ocasionais boas sequências de suspense onde são testados os limites físicos e psicológicos das personagens (embora a abordagem destes seja superficial).
Um pequeno entretenimento a considerar, ainda que dentro do género Petersen apresente um objecto uns furos abaixo de “O Dia Depois de Amanhã”, do também alemão Roland Emmerich, que permanece ainda como o melhor filme-catástrofe dos últimos tempos.
quinta-feira, agosto 03, 2006
ESTREIA DA SEMANA: "MIAMI VICE"
Outras estreias:
"Capuchinho Vermelho: A Verdadeira História", de Cory Edwards
"Romance & Cigarros", de John Turturro
quarta-feira, agosto 02, 2006
COMÉRCIO EMOCIONAL
A peça, assente nas experiências de cinco personagens (interpretadas por Anabela Brígida, pelo próprio Carlos Afonso Pereira, Carlos Vieira, Miguel Moreira e Romeu Costa), debruça-se no modo como estas tentam colmatar a solidão e a falta de comunicação, encontrando no consumo a resposta – mas não necessariamente a solução - mais imediata para as suas inquietações e dilemas. Consumo, que, se engloba produtos vários, inclui também as próprias relações humanas, aqui tratadas como mais uma mercadoria, algo meramente utilitário e, em última instância, tão descartável como uma refeição de fast-food ou um chocolate.
As personagens, todas contaminadas por um estado de apatia emocional, são utensílios indefinidos e maleáveis, que vão sendo encarnadas pelo elenco transferindo-se de actor para actor. Estes vagueiam pelas duas salas que acolhem o espectáculo, mantendo-se perto do público mas nunca chegando a interagir com este, contando com poucos adereços e orientando assim a atenção dos espectadores para o texto.
Contando com uma apreciável dose de experimentalismo e desafio pelas opções cénicas pouco convencionais, “Shopping and Fucking” não surpreende tanto na forma como aborda os seus temas, a espaços estimulante mas que como um todo resulta repetitiva e traída pelo excesso de pretensão.
Se por um lado se concentra em questões pertinentes e actuais, torna-se numa peça cansativa uma vez que as personagens nunca chegam a envolver (a frivolidade destas é intencional, mas é preciso mais para lhes conferir tridimensionalidade) e algumas cenas são demasiado herméticas. Ficam as intenções e pontuais momentos inspirados, o suficiente para que o resultado final seja interessante, mas ainda assim falhado.
terça-feira, agosto 01, 2006
AMORES DE VERÃO: HOLE

PAI PARA MIM… MÃE PARA TI
Vencedor dos prémios de Melhor Argumento e Melhor Realização em Sundance e nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, o filme é um seguro e perspicaz melodrama familiar com toques de comédia (quase sempre amarga), percorrendo territórios próximos dos de alguns realizadores indie – Kenneth Lonergan, Burr Steers ou Wes Anderson, que assume aqui o cargo de produtor - que têm gerado outras dramedies acerca das dificuldades das relações humanas, do crescimento ou de conflitos geracionais.
Se por um lado Baumbach não apresenta nada que se distancie muito da linguagem desses outros nomes, propõe aqui um atento e credível retrato dos laços familiares, apoiando-se numa escrita sólida e complexa, que tanto apela ao riso subtil como a uma inquietante sensibilidade, vincada pelo verismo das situações quotidianas.

Com base nesta premissa, Baumbach constrói um conseguido estudo de personagens, todas ambivalentes, verosímeis e perdidas após a dolorosa desagregação familiar. Especialmente interessante é o desenvolvimento das mais jovens, tanto do filho mais velho, Walt (Jesse Eisenberg), fascinado pela figura paterna, e sobretudo do mais novo, Frank (Owen Kline, excelente revelação), cuja rebeldia da entrada na adolescência é reforçada pela conturbada situação familiar.
As prestações dos veteranos – e subvalorizados - Jeff Daniels e Laura Linney na pele dos pais são outras mais-valias para o filme, que só não surpreendem porque estão ao elevado nível interpretativo habitual, e a cada vez mais omnipresente Anna Paquin contribui também num pequeno mas importante papel de aluna espevitada.
“A Lula e a Baleia” só peca por saber a pouco, dado que os seus 81 minutos de duração impõem que o desenlace seja algo abrupto e não tão bem resolvido como poderia. Fosse uma obra de maior fôlego e talvez constasse entre as mais estimulantes do ano, assim é uma das que vale a pena conhecer mas que deixa a impressão de objecto inacabado.








































