terça-feira, outubro 31, 2006

SPOOKY

Ora bem, como chega hoje a noite do Halloween, deixo aqui algumas sugestões apropriadas ao serão. Tanto "A Casa dos 1000 Cadáveres", uma bizarria sórdida e delirante de Rob Zombie, como "A Cabana do Medo", o visceral horror teen movie de Eli Roth, conseguem divertir sem deixar de inquietar, sendo duas boas propostas para ver sozinho ou (de preferência) com amigos.

Para ouvir, fica a sugestão da (re)descoberta dos 12 Rounds, uma das bandas da Nothing Records, a editora de Trent Reznor (dos Nine Inch Nails), já que a voz cortante de Claudia Sarne e as atmosferas crípticas geradas pelas electrónicas de travo industrial habilitam-se a gerar alguns calafrios aos mais sucesptíveis.

Contudo, para quem quiser mergulhar em territórios realmente sinistros e tiver doses de audácia acima da média, nada como a audição, em doses moderadas (fica o aviso), de discos de Bonnie Tyler ou Beto, capazes de originar cenários de autêntico pânico, asfixia e horror. Rói-te de inveja, Rob Zombie.

Consta, aliás, que Chris Cunningham se inspirou na dupla Bonnie/Beto para realizar o videoclip de "Come to Daddy", de Aphex Twin. Não chega ser tão arrepiante como os momentos mais inspirados dos dois cantores, mas tem os seus méritos:

segunda-feira, outubro 30, 2006

WHOA NELLY!


Num período em que na maior parte da pop mainstream os produtores obtêm já tanta – senão mais – visibilidade e reconhecimento do que os artistas com que colaboram, também a lusodescendente mais famosa do mundo contribui para que a tendência se dissemine ainda mais com o seu terceiro álbum.

Após a comercialmente (e, a espaços, artística) bem-sucedida estreia com “Whoa Nelly!” (2000), que colocou na boca do mundo singles como o banal “I’m Like a Bird” ou o mais entusiasmante “Turn off the Light”, Nelly Furtado regressou com um novo registo, “Folklore”, três anos depois, onde de novo aglutinava géneros e referências díspares mas já sem a frescura de alguns momentos do seu predecessor.

Embora fosse um álbum aceitável, a decepcionante recepção do público arriscava-se a condenar a canadiana a mais uma one(ou two)-hit-wonder cuja ascensão ao estrelato fora tão rápida como a descida para o esquecimento generalizado, e de forma a evitar isso só se adivinhava uma solução: mudar. Três anos mais tarde, a mudança não só se registou como dificilmente poderia ser mais evidente, tanto a nível musical como (e sobretudo?) a nível da imagem da cantora.

Em “Loose” desapareceu a pose ingénua, cândida e espontânea que Nelly cultivou até aqui, e numa altura onde a pop encontra, talvez como nunca antes, uma forte aliada na imagem, nada como adoptar uma postura mais insinuante, ousada e “solta”, o que decerto não prejudicará o número de passagens dos seus videoclips.

Mais relevante do que a mudança visual foi, no entanto, a musical, que passou essencialmente pela aliança com Timbaland na produção da maioria dos temas do disco, cuja marca é óbvia e salutar em “Loose”, tornando-o no trabalho mais interessante de Nelly até à data.

A aposta em novas sonoridades atesta-se logo na canção de abertura, “Afraid”, vincada por oscilantes e sombrias texturas electrónicas, não especialmente acessível mas intrigante e promissora. “Maneater”, um dos melhores singles do ano, impõe-se de seguida como a verdadeira porta de entrada para o disco, irradiando uma energia contagiante à custa de um refrão catchy e de um ritmo invejável, com um saboroso travo à electropop dos anos 80 mas cuja sofisticação da produção torna claro ser uma canção do presente. Um belo exemplo de confecção retrofuturista, como o é também “Promiscuous”, outro single que foge ao óbvio através do dueto (e flirt) entre Nelly e Timbaland, onde o R&B e o electro estabelecem uma ligação efervescente e sedutora.

À semelhança dos anteriores, “Loose” aposta num considerável eclectismo, mas ao contrário destes consegue ser quase sempre estimulante mesmo quando se torna derivativo, como no caso de “Glow”, irresistível concentrado de pop electrónica que não destoaria num álbum de Gwen Stefani ou Madonna (fase “Ray of Light”), ou de “No Hay Igual”, cantada em espanhol e cuja percussão imprevisível e aura tribal a interligam aos territórios de M.I.A..

O recurso ao perfeccionismo e minúcia de Timbaland é uma opção certeira, mas mesmo assim “Loose” não evita alguns escorregões, seja na agradável mas demasiado genérica aproximação ao R&B de “Showtime”, na mais insípida balada pop FM “In God’s Hands” e especialmente na dispensável “Te Busque”, banalíssima (e incompreensível) colaboração com Juanes.

Estas são, contudo, ocasionais falhas de criatividade compensadas por momentos como “Say it Right” ou “All Good Things”, este o emotivo tema que encerra o disco e um dos raros episódios melancólicos, ao qual não será alheio o facto de ter sido escrito a meias com Chris Martin, dos Coldplay.

Mesmo com arestas por polir, “Loose” é um álbum mais surpreendente do que se esperaria, já que consegue nivelar-se acima de muita da concorrência e oferecer alguma da melhor pop mainstream de 2006, apontando pistas interessantes para esta nova Nelly Furtado, que fez bem em soltar-se mas é melhor que não largue as boas companhias.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Nelly Furtado - "Maneater (LJX Remix)"

domingo, outubro 29, 2006

AQUI HÁ GATO(S)

Eles estão de volta daqui a pouco, às 21h30, na RTP1.

(O FIM D)A IDADE DA INOCÊNCIA

Um dos cineastas-revelação do novo milénio, Michael Cuesta iniciou a sua filmografia com uma obra complexa e sensível, "L.I.E. - Sem Saída", em 2001, e desde então desenvolveu um interessante percurso na realização de alguns episódios de séries televisivas como "Sete Palmos de Terra" e, mais recentemente, "Dexter".

"Aos Doze e Tantos" (12 and Holding), à semelhança desses trabalhos, dá continuidade à abordagem de questões habituais do cinema independente norte-americano, focando a inadaptação, as relações familiares ou a morte, e revisita os dilemas da adolescência com um olhar novamente vincado pelo realismo e sentido de observação.

Desta vez, o filme segue o percurso não de um mas de três adolescentes, em especial a forma como estes reagem, directa ou indirectamente, à morte de um outro, que perde a vida devido a um incêndio originado por dois colegas de escola.

Leonard, que sofre de excesso de peso, decide mudar o seu tipo de alimentação, dedicando-se a uma dieta de maçãs e suscitando a estupefacção da sua família; Malee, a rapariga deste trio de amigos, apaixona-se por um trabalhador das obras que recorre às consultas de psicologia da sua mãe; e Jacob, irmão da vítima do acidente, divide-se entre optar pelo perdão aos responsáveis pela morte ou fazer justiça pelas próprias mãos (e aqui o filme lembra, a espaços, "Bully - Estranhas Amizades", de Larry Clark, ou "Uma Pequena Vingança", de Jacob Aaron Estes).

Atento mergulho nas contrariedades do processo de crescimento, oferecendo três personagens centrais que, apesar de terem doze anos, não são reduzidas a estereótipos e têm a tridimensionalidade que merecem, "Aos Doze e Tantos" evidencia que a perspicácia de Cuesta para retratos da adolescência (e neste caso, da pré-adolencência) presente no seu predecessor não foi mera sorte de principiante.
Ainda que a certo ponto o argumento contenha situações extremas, a verosimilhança do filme nunca é posta em causa, fruto não só de uma escrita séria e inteligente mas também das credíveis interpretações de todo o elenco, de onde importa destacar a pequena Zoe Weizenbaum, que passou despercebida em "Memórias de uma Gueixa" mas é aqui brilhante como a precoce Malee.

"Aos Doze e Tantos" é então uma obra de méritos vários mas não exibe, infelizmente, o golpe de asa que lhe permita ascender à lista das obrigatórias, nas quais o muitíssimo promissor "L.I.E. - Sem Saída" podia integrar-se.
Ao contrário da sua primeira longa-metragem, Cuesta divide a acção em três pequenas narrativas que ocasionalmente se entrecruzam, o que não é necessariamente mau - pelo contrário, está bem aproveitado -, mas nunca atinge o efeito obtido pelo enfoque nas experiências do protagonista do filme anterior.
Mais frustrante é o facto do cineasta apostar aqui num trabalho de realização algo indistinto, suportado pelo recurso à câmara à mão, apropriado a uma obra de contornos realistas mas também mais genérico, utilizado em tantos outros títulos indie e menos estimulante do que a sofisticação visual e carga sensorial características da sua película de estreia.

O facto de não estar à altura do peso das expectativas imposto pelo seu antecessor não implica, no entanto, que "Aos Doze e Tantos" seja uma decepção, antes um filme dominado por uma estimável solidez onde se vê potencial para resultados mais memoráveis e onde permanece, felizmente, a impressão de que Cuesta é um realizador que deve continuar a ser seguido.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, outubro 28, 2006

TRAINSPOTTING

Comemoram-se hoje os 150 anos dos caminhos-de-ferro em Portugal. Parabéns para eles, que apesar da idade ainda conseguem adaptar-se à era digital e até têm direito a blog comemorativo e tudo.

sexta-feira, outubro 27, 2006

NÃO HÁ FOME QUE NÃO DÊ EM FARTURA

Já não tinha esperanças de os ver por estes lados, mas as surpresas surgem quando menos se espera. Segundo o site oficial da banda, os Nine Inch Nails actuam em Portugal em Fevereiro de 2007, em três concertos (sim, três!) no Coliseu de Lisboa, nos dias 10, 11 e 12. Já há quem diga que vai aos dias todos, eu não prometo tanto mas não quero perder a oportunidade (única? acho que sim) de ver umas das referências do rock das últimas décadas.
Aqui fica o vídeo de "Only" (versão remisturada), um dos temas de "With Teeth", o disco mais recente do projecto de Trent Reznor. A realização é de um tal de David Fincher :)

quinta-feira, outubro 26, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "OS FILHOS DO HOMEM"

Se por um lado realizou um filme memorável e contagiante, "E a Tua Mãe Também", o mexicano Alfonso Cuarón não se mostrou tão inspirado nas restantes obras da sua filmografia ("A Princezinha", "Grandes Esperanças", "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban"), competentes mas não mais do que isso.
Esperemos que tenha regressado a uma fase mais recomendável neste "Os Filhos do Homem" (Children of Men), um thriller futurista centrado num mundo em colapso devido a um problema de infertilidade que afecta toda a população. Até ao dia em que uma mulher engravida, e cabe ao Clive Owen salvá-la. A Julianne Moore também anda por lá, e se os dois protagonistas são um bom motivo para ir ver o filme espero que não sejam o único. Uma dúvida a esclarecer em breve...

Outras estreias:

"A Prairie Home Companion - Bastidores da Rádio", de Robert Altman
"O Diabo Veste Prada", de David Frankel
"O Último Caçador", de Nicolas Vanier
"Quanto Me Amas?", de Bertrand Blier
"Vinicius", de Miguel Faria Jr.

quarta-feira, outubro 25, 2006

6 COISAS

Respondendo ao desafio do André, cá ficam:
1 - Quando comecei o blog costumava recorrer a este tipo de desafios e testes quando não tinha assunto; nos últimos tempos perdi o hábito, o que acho que é bom;
2 - Há tanta coisa nova por ouvir mas opto antes por um disco dos Stereo MC's e ontem por outros dos Catatonia e dos Orbital;
3 - O meu irmão faz anos no sábado e ainda não sei o que vou oferecer-lhe (entretanto aceito sugestões);
4 - As reuniões de condomínio não são tão más como pensava mas ainda assim fazem com que me aborreça por antecipação;
5 - Chateia-me quando abrem a minha janela do msn e me impingem links para os seus blogs ou fotologs (yuck!) sem sequer cumprimentarem antes (e sobretudo depois);
6 - Tenho por hábito arranjar desculpas para não arquivar em condições toda a papelada que diga respeito a burocracias.

domingo, outubro 22, 2006

7ª FESTA DO CINEMA FRANCÊS

Entre 4 e 21 de Outubro, o Cinema São Jorge e o Instituto Franco-Português acolheram a 7ª edição da Festa do Cinema Francês em Lisboa. Estive presente em algumas sessões a convite do Cinema 2000 e abaixo ficam as críticas dos filmes que vi por lá:

“Dans Paris”, de Christophe Honoré
“Gentille”, de Sophie Fillières
“Ils”, de David Moreau e Xavier Palud
“Le Passager”, de Eric Caravaca
“Palais Royal!”, de Valérie Lemercier
“Renaissance”, de Christian Volckman
“Suzanne et les Vieillards”, de Viviane Candas
“Vers le Sud”, de Laurent Cantet

"GENTILLE", de Sophie Fillières

Movendo-se entre a comédia e o drama, “Gentille” centra-se numa jovem médica e relata as suas atribulações tanto a nível profissional como, sobretudo, pessoal, em particular a inquietação que a envolve quando o seu companheiro a pede em casamento.

Sophie Fillières insere no seu filme um olhar atento a pequenos episódios do quotidiano, e a acção tem início com um curioso e divertido jogo e equívocos, gerados a partir de uma escrita apurada e da subtil contenção de Emmanuelle Devos, que encarna a protagonista. É pena que “Gentille” nem sempre mantenha essa frescura e espontaneidade iniciais, incidindo depois em territórios mais convencionais que o levam e perder o fôlego na última meia hora, embora nunca deixe de ser um esforço simpático e agradável.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

"LE PASSAGER", de Eric Caravaca

Até aqui notabilizando-se somente como actor – umas das suas mais recentes interpretações foi em “O Seu Irmão”, de Patrice Chéreau -, Eric Caravaca assina a sua primeira obra atrás das câmaras, que simultaneamente protagoniza.
“Le Passager” segue o regresso de um homem à sua terra natal, no interior de França, após a morte do irmão, onde será confrontado com figuras e acontecimentos da sua infância que foram determinantes para a relação que mantém com as suas origens.

Infelizmente, Caravaca estreia-se na realização com uma película demasiado hermética e monótona, muito por culpa da tépida personagem principal, que não permite que os secundários, bem mais interessantes, tenham o espaço que merecem.
Fosse a acção mais centrada em Jeanne, a dona do hotel que acolhe o protagonista, e sobretudo em Lucas, o adolescente protegido desta e a melhor personagem do filme (com uma sóbria interpretação do jovem Vincent Rottiers), e talvez “Le Passager” não deixasse um travo a projecto inacabado e hesitante, raramente capaz de envolver o espectador.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

"PALAIS ROYAL!", de Valérie Lemercier

Supostamente uma sátira aos monarcas dos dias de hoje, esta comédia de costumes (com o inacreditável título em português “Dondoca à Força”) gira em torno de uma desastrada terapeuta casada com o filho mais novo de um rei que, após a morte do sogro, vê-se destinada a ocupar o cargo de rainha.

Valérie Lemercier, que realiza e protagoniza o filme, gera aqui uma obra falhada em quase todos os aspectos, já que nem o argumento (atabalhoado), nem as personagens (unidimensionais), nem a realização (serviçal) conduzem a um resultado minimamente entusiasmante.
Lemercier parece confundir comédia com um conjunto de caretas e episódios embaraçosos repetidos pela sua personagem até à exaustão e se a película é suportável deve-o apenas à interpretação de Catherine Deneuve, que mesmo em piloto automático é o melhor que “Palais Royal!” tem para oferecer.
E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

"SUZANNE ET LES VIEILLARDS", de Viviane Candas

Uma interessante, mas limitada crónica do quotidiano de um casal da terceira idade, seguindo essencialmente a reacção do marido à repentina morte da esposa, que passará pelo início de uma nova relação com uma mulher mais nova (a Suzanne do título).

Viviane Candas apresenta uma obra que cativa pelo intimismo crescente, gerado a partir de uma sólida construção de personagens e de uma igualmente segura direcção de actores - destaque para a densidade emocional de Patrick Bauchau, a espirituosa presença de Jean-Pierre Kalfon ou a serena composição de Christinne Citti no papel de Suzanne -, contudo o argumento pouco ambicioso e a realização correcta mas indistinta fazem com que “Suzanne et les Vieillards” não seja mais do que um retrato apenas curioso do envelhecimento e das relações humanas.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

"VERS LE SUD", de Laurent Cantet

Laurent Cantet deixa aqui os ambientes urbanos e cinzentos de “Recursos Humanos” e “O Emprego do Tempo” para se dedicar às paisagens solarengas do Haiti de inícios dos anos 80, mas nem por isso “Vers le Sud” é um filme menos melancólico e desencantado do que os anteriores.

Desta vez, o olhar centra-se nas férias de solitárias turistas de meia-idade que encontram em alguns rapazes locais um escape face ao quotidiano urbano que as limita e reprime.
Baseada no livro “La Chair du mâitre”, de Dany Laferrière, a película é um inteligente mas incómodo ensaio sobre o envelhecimento, as clivagens sociais, a sexualidade e a solidão, e Cantet tem o mérito de mergulhar na ambiguidade moral e emocional das suas personagens sem nunca as julgar.
O realizador evita ainda, contrariamente ao sucedido em “Recursos Humanos”, que o filme seja um mero panfleto ideológico, conseguindo que o seu retrato nunca se torne maniqueísta. A solidez mantém-se na fotografia, apropriadamente seca, e no elenco, de onde sobressai Charlotte Rampling com mais uma prova de talento interpretativo.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, outubro 21, 2006

A FOND FAREWELL

Faz hoje três anos que o mundo perdeu um dos melhores jovens singers-songwriters revelados na última década. Vale a pena recordar Elliott Smith através dos seus seis álbuns, desde "Roman Candle", de 1994, até ao derradeiro "From a Basement on the Hill", editado de anos depois, já após a sua morte, até porque dificilmente há música mais apropriada para estes dias outonais. Entretanto fica aqui o vídeo de "Baby Britain":

sexta-feira, outubro 20, 2006

PERDIDA NA REVOLUÇÃO

Contrariamente ao promissor "As Virgens Suicidas" e ao interessante mas incompreensivelmente incensado "Lost in Translation - O Amor é um Lugar Estranho", "Marie Antoinette", o terceiro e mais recente filme de Sofia Coppola, não tem sido alvo de considerável aclamação internacional, chegando agora a salas nacionais com o carimbo de "desilusão" motivado pela fria recepção que a película obteve na sua estreia durante o Festival de Cannes.

O trailer, acompanhado por "Ceremony", dos New Order (à partida uma escolha pouco óbvia para uma obra de época), ou mesmo os cartazes promocionais, carregados de sofisticação e apelo pop, já sugeriam que a abordagem da realizadora de parte da vida da última rainha de França seria longe de canónica, mas essa ousadia acabou por não ser levada até ao limite, sendo mais operação de cosmética do que a reinvenção de um formato.

"Marie Antoinette" começa com a partida da protagonista para França, aos 14 anos, abandonando a sua Áustria natal a fim de casar com Luís XVI, e deixa de segui-la nos primeiros dias da Revolução Francesa, com a invasão do palácio de Versalhes. Entre um acontecimento e outro, Coppola lança um olhar que não pretende tanto ser um retrato fiel das experiências de Marie Antoinette mas antes uma reflexão sobre a difícil e contraditória entrada na idade adulta, tema igualmente decisivo nas suas duas obras anteriores.

Esta é, assim, mais uma história sobre a solidão e as ambiguidades do processo de crescimento, onde no meio de toda a pompa e circunstância de um ambiente requintado e sumptuoso sobressai o isolamento de uma figura que não compreende o contexto em que se insere, levando, por sua vez, a que as suas atitudes de rebeldia apenas contribuam para que o seu papel de outcast seja reforçado.

Coppola continua a saber combinar amargura, melancolia e serenidade de forma singular, gerando uma envolvente aura atmosférica e etérea onde a contribuição da banda-sonora volta a ser elemento fundamental, contando com nomes como os The Cure, Aphex Twin, Siouxsie and the Banshees, The Strokes ou os já habituais Air.
Embora tenham nascido cerca de dois séculos depois do período em que a acção decorre, as canções não surgem aqui como elemento forçado, antes eco natural dos estados emocionais que vão habitando a protagonista. A combinação destas com os imponentes e belíssimos cenários de Versalhes origina, de resto, algumas das cenas mais fortes do filme, onde a realizadora dá provas de uma sensibilidade apurada e com sentido de oportunidade.

No entanto, se "Marie Antoinette" contém um casamento feliz entre a sua componente visual e sonora, não deixa de evidenciar debilidades no desenvolvimento da narrativa, demasiado redundante e cujo último terço acusa já alguma falta de fôlego, e na construção das personagens, dando a Steve Coogan, Marianne Faithfull ou Asia Argento papéis que não vão além da caricatura.
Mesmo Jason Schwartzman, cuja personagem, Luís XVI, é mais relevante para o argumento, não tem muito para fazer, limitando-se a repetir a postura alienada e offbeat vista e revista em títulos como "Uma Rapariga Cheia de Sonhos" ou os "Psico-Detectives", e embora o faça bem não consegue surpreender.
Resta a Kirsten Dunst carregar o filme às costas, e mais uma vez - já era ela quem mais brilhava como Lux Lisbon em "As Virgens Suicidas" - oferece um desempenho luminoso, seguro e absorvente, compondo uma Maria Antonieta simultaneamente insinuante e ingénua, frágil e rebelde.

"Marie Antoinette" não é, portanto, uma obra isenta de desequilíbrios e menos ainda o opus que muitos esperariam que Sofia Coppola edificasse após dois filmes tão marcantes, mas seria injusto não reconhecer que possui ainda algumas das qualidades que notabilizaram a realizadora. E, mesmo que estejam por vezes dispersas numa obra com mais ambição do que consistência, ainda vale a pena vê-las, reconhecê-las e apreciá-las.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, outubro 19, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "AOS DOZE E TANTOS"

"Marie Antoinette" corre o risco de concentrar as atenções nesta semana (e em parte merece, apesar do buzz negativo), mas não convém deixar passar "Aos Doze e Tantos" (Twelve and Holding), o novo filme de Michael Cuesta, responsável por "L.I.E. - Sem Saída" e alguns episódios da série "Sete Palmos de Terra".
O filme fica um pouco aquém da (brilhante) primeira obra do realizador, mas tal como esta é mais um recomendável retrato da adolescência, seguindo o percurso de quatro amigos e as reacções que a abrupta morte de um deles gera nos outros. Mais um bom filme indie de 2006 a merecer atenção.

Outras estreias:

"Alex Rider: Operação Stormbreaker", de Geoffrey Saxx
"Crank - Veneno no Sangue", de Mark Neveldine e Brian Taylor
"Dondoca à Força", de Valérie Lemercier
"Marie Antoinette", de Sofia Coppola

quarta-feira, outubro 18, 2006

HELLO KITTIES

As Le Tigre proporcionam a banda-sonora (e visual) de hoje ali do lado esquerdo. E já lançavam outro álbum, já, embora não me importe de ir recordando canções como esta...

Le Tigre - "Deceptacon"

segunda-feira, outubro 16, 2006

CAMINHOS PERIGOSOS

O cinema independente norte-americano tem, nos últimos anos, desenvolvido muitos e diversos olhares sobre a adolescência, tema que proporcionou alguns dos seus melhores filmes, quase todos ambientados, também, nas realidades suburbanas. Sejam mais crus ("Bully - Estranhas Amizades", de Larry Clark), bizarros ("Donnie Darko", de Richard Kelly), etéreos ("As Virgens Suicidas", de Sofia Coppola) ou ácidos ("Ghost World - Mundo Fantasma", de Terry Zwigoff), revelam ou confirmam cineastas que propõem novas visões sobre o processo do crescimento e amadurecimento, tendo em comum as dores impostas pela auto-descoberta e solidão.

"L.I.E. - Sem Saída", que em 2001 deu a conhecer Michael Cuesta, é mais um exemplo de um consistente retrato coming of age, centrado no quotidiano de um adolescente de Long Island.
Através das experiências de Howie, um tímido, solitário e culto jovem de 15 anos, Cuesta propõe uma história atravessada pela dissolução familiar, a descoberta (e questionamento) da sexualidade ou a criação e quebra de laços de amizade, levantando questões acerca de temáticas actuais como a delinquência juvenil ou a pedofilia.

Esta última tornou o filme numa obra algo controversa, não por cenas rudes e graficamente ousadas típicas da escola Larry Clark, mas antes pela perspectiva atípica que traça de um pedófilo de meia idade com quem o protagonista acaba por sentir afinidade. Recusando estereotipar a caracterização de Big John, Cuesta não cede a condenações morais nem à histeria fácil e apresenta-o como uma figura tridimensional e credível, atormentada por conflitos internos com os quais se debate há muito.

A opção por este tipo de abordagem é corajosa e coloca o espectador perante sequências inquietantes, mas "L.I.E. - Sem Saída", apesar de ser uma primeira obra, consegue manter até ao fim um difícil equilíbrio livre de lugares-comuns, convidando à reflexão sem forçar defesas ou acusações das condutas das suas personagens.

Grande parte da solidez da película deve-se à apurada escolha do elenco, onde constam o veterano e habitualmente excelente Brian Cox, que faz de Big John um pedófilo sem quaisquer clichés, ou os jovens Billy Kay, que encarna o melhor amigo do protagonista com uma rara desenvoltura, e Paul Dano, capaz de tornar Howie numa personagem verosímil e sensível pela qual é quase impossível não sentir empatia.

Igualmente sedutor é o trabalho de realização de Cuesta, que emana um rigor e sofisticação assinaláveis. Conseguindo imprimir uma palpável atmosfera realista ao filme, proporciona momentos vincados por uma absorvente energia visual, sejam os dos fugazes planos da auto-estrada - Long Island Expressway, cuja sigla motivou o título do filme (por corresponder também à palavra "mentira" em inglês) - assim como os de outros espaços exteriores (como os jardins, com tons verdes estranhamente hipnóticos) ou interiores (a envolvente casa de Howie, em particular a carga sensorial resultante das tonalidades azuis do seu quarto).

Mesmo sendo marcada por algumas limitações - a personagem do pai de Howie poderia ser mais desenvolvida, o desenlace é algo abrupto e talvez não o mais interessante -, "L.I.E. - Sem Saída" é uma impressionante obra de estreia, que prova que o cinema indie, mesmo quando repisa as mesmas temáticas, ainda é capaz de oferecer surpresas muito recomendáveis. E esta tem lugar cativo entre as melhores dos últimos anos.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

sexta-feira, outubro 13, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "UMA FAMÍLIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS"

Apenas mais uma história sobre famílias disfuncionais ou uma dramedy irresistível (ou as duas coisas)? "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" (Little Miss Sunshine), uma das sensações indie do momento, segue a viagem de carrinha de uma família norte-americana que atravessa o país para que a filha mais nova possa participar num concurso de beleza.
Primeira longa-metragem de Valerie Faris e Jonathan Dayton, com experiência na realização de videoclips (dos Smashing Pumpkins ou R.E.M., entre outros), é uma proposta a considerar, até porque há gente como Toni Collette, Steve Carell ou Paul Dano (de "L.I.E. - Sem Saída") no elenco.

Outras estreias:

"As Duas Vidas da Serpente", de Hélier Cisterne (precedido pela média-metragem "Rapace", de João Nicolau)
"End Game - Crime Perfeito", de Andy Cheng
"Filme da Treta", de José Sacramento
"O Guardião", de Andrew Davis
"Mas Que Culpa Temos Nós", de Carlo Verdone